A injusta distribuição de alimento:
o grão para o "bife" e as pessoas sem grão

por Rui Pedro Fonseca [*]

. A exploração de animais não humanos para fins alimentares depende do consentimento de consumidores/as, da sua vontade em comprar produtos de origem animal. Neste âmbito, os animais explorados permanecem excluídos enquanto atores ativos dos mecanismos que os classificam, oprimem e exploram [1] . Embora haja consentimento na exploração de animais não humanos por parte das populações, não quer dizer que a maior parte alcance e compreenda os impactos da indústria pecuária nos animais, na saúde, no ambiente, e na gestão de recursos naturais (incluindo alimento). O consentimento construído está alheado da realidade, e conectado às construções socioculturais: mitos, convenções, crenças, representações sociais, etc.

A doutrina alimentar carnista expressa a ideia de que o consumo de alimentos de origem animal, é normal, mesmo que seja com "moderação". É "normal" consumir peixes atulhados de chumbo e mercúrio, ou comer mamíferos e aves apinhados de antibióticos e hormonas de crescimento; ou beber leite da espécie bovina; ou comer uma salsicha composta de vísceras, ossos, peles e gordura de animais. Compensatoriamente, também é "normal" enveredar por dietas, ministrar medicamentos para emagrecer, anti-depressivos, medicamentos contra o colesterol, contra as diabetes, contra doenças cardiovasculares, cancros, etc.

No Ocidente, o "gosto" pela carne, convertida a partir da exploração de algumas espécies de animais, não é determinado por preferências alimentares individuais, é antes culturalmente estabelecido. Não se escolhe gostar de cães e comer vacas. É-se culturalizado/a para o efeito. E a intensificação do seu consumo é consequência de uma cultura legitimadora, de relações económicas, políticas e sociais que determinam que algumas espécies de animais não humanos surjam mercantilizadas como coisas.

Afirmar que as representações dos animais explorados são desfasadas da realidade não é nenhuma conspiração, é apenas uma descrição sobre o fenómeno de como as instituições os representam: ao contrário das representações publicitárias, estes não vivem em prados verdejantes, não é "natural" que a espécie humana consuma leite bovino, o porco não sorri ao ser cortado, a galinha não se serve voluntariamente numa bandeja, os peixes não foram dádiva de Deus para o palato humano, nenhum animal apresenta características antropoformóficas (sorriso, bipedismo, características associadas ao género sexual.), nem o seu consumo é imprescindível para a espécie humana, etc. Porque é rentável, sujeito aos interesses e ao poder, o mercado publicitário está também vinculado ao sector da agropecuária. Essencialmente, a publicidade sustenta a ideologia do prazer e a mítica da saúde, fomentando mitos e contribuindo decisivamente que empresas da pecuária maximizem os seus lucros.

O mercado dá indicações de que vivemos numa época de superprodução, consequentemente de sobreconsumo de produtos de origem animal, com tendência para aumentar. A produção mundial de carne, leite e ovos foi de 71 milhões de toneladas em 1961, e subiu para 284 milhões de toneladas em 2007. [2] Tendo o consumo aumentado duas vezes mais rápido nos países em desenvolvimento, e dobrando nos últimos vinte anos, temos um sinal claro que o investimento bilionário em marketing por parte da indústria pecuária tem originado o aumento da demanda de exploração de animais. A produção mundial de "carne" aumentou para 297 milhões de toneladas em 2011, um aumento de 0,8% em relação a 2010, ano em que a produção aumentara em 20% desde 2001. [3]

Também em Portugal a tendência é similar. De acordo com o Diagnóstico Sectorial do Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas , o valor total de produção em Portugal (em 2005) situou-se em 118.000 toneladas, o que significou um acréscimo de 24,5% face ao ano de 1996. [4] O mesmo relatório afirma que, em média, cada habitante consome cerca de 100,5 kg por ano. [5] . Em 2008 registava-se uma média de 112,1 kg por ano por habitante, contudo, devido à crise, o consumo desceu (em 2012) para 107,1 kg. [6]

Para além do marketing, um dos outros motivos pelos quais tem aumentado o consumo de produtos de origem animal tem exatamente a ver com as enormes quantias de impostos oriundos das/os contribuintes pagos ao Estado. Os alimentos menos saudáveis, como os de origem animal e os processados, são aqueles que nos EUA, por exemplo, têm mais subsídios. [7] Poderosas multinacionais de exploração de animais nos EUA ao terem apoio subsidiário do governo terão luz verde para continuarem a aumentar as suas explorações, bem com os seus programas de marketing que jogam um papel direto no molde de gostos, práticas de consumo, e aumento dos lucros. Portugal não é um país à parte no que respeita aos apoios estatais ao agronegócio: no âmbito dos programas PAMAF e PO Agro, a despesa pública só com os lacticínios de bovino totalizou, entre 1997 a 2004, 52 milhões de euros [8] Mas o dinheiro para a exploração de animais não é apenas originário de programas de apoio pagos por contribuintes como também de fundos europeus. Em 2009, a RTP noticiou que, de acordo com o Governo Regional dos Açores, só em 15 dias foram abatidos e incinerados cerca de dez mil bovinos bebés (ou "vitelos") com a União Europeia a pagar 75€ por cada animal abatido [9] Este é um clássico exemplo onde os elevados investimentos são socializados e os lucros privatizados.

Não deixa de ser irónico que milhões de consumidores/as em países desenvolvidos sofram de doenças crónicas derivadas da abundância do consumo de produtos de origem animal: doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, cancros, etc. A acrescentar aos impactos na saúde, a pecuária tem vindo a estar na cimeira n os crescentes danos ambientais, na violação dos direitos dos animais, [10] na injusta distribuição de alimento e de riqueza.

No entanto, no que concerne ao consumo e aos lucros da pecuária à escala global, sustenta-se que:

"existe um firme aumento do consumo à escala mundial, suportado numa conjuntura macroeconómica favorável de crescimento do rendimento, em particular em países da Ásia e da América Latina" [11]

Qual a importância da alimentação proteica (grão, soja, etc) administrada aos animais explorados?

"a alimentação animal é a componente produtiva mais importante no maneio de uma exploração pecuária (…) pretendendo-se obter, no mais curto espaço de tempo, produto animal (…) utilizando de forma eficiente alimentos mais caros e ricos em energia e proteína." [12]

Apesar dos investimentos para os animais explorados em "alimentos caros e ricos em energia e proteína" , a "atividade [pecuária] apresenta resultados positivos, com as receitas a representarem cerca de 144% dos custos totais da produção." [13]

A má distribuição de alimentos na rede mundial

O regime alimentar ocidental, e que vem ocidentalizando outras partes do planeta, tem originado impactos à escala mundial no que à gestão e distribuição de alimentos diz respeito: mais de metade da produção das colheitas são usadas para alimentar animais não humanos em vez de pessoas. As Nações Unidas informam que cerca de 800 milhões de pessoas no planeta (13%) estão a sofrer de "deficiência nutricional" [14] , ou seja: passam fome, porque simplesmente não acedem a alimentos básicos como o grão; 82% das crianças do planeta que passam fome vivem em países onde a comida é dada a animais que são explorados, mortos e ingeridos pelas populações dos países desenvolvidos como EUA, Grã-Bretanha e Europa. [15]

Em 2011, 70% do grosso dos grãos (milho, aveia, sorgo, cevada, etc.) e mais de 90% da soja cultivada no planeta foram usados para a agropecuária [16] O New Worldwatch Institute informa que a rede mundial de produção de grão e de cereais dispõe de uma abundância de alimentos que simplesmente não chegam a toda a população: enquanto 100 milhões de toneladas de alimentos foram desviados em 2008 para servir de combustível para viaturas, 760 milhões de toneladas foram utilizados para alimentar animais não humanos [17]

Nos EUA 157 milhões de toneladas de legumes, cereais e proteína vegetal são convertidos em proteína animal, resultando em 28 milhões de toneladas de proteína animal destinadas para o consumo humano. [18] Ainda nos EUA, 56% da terra agrícola é usada para a produção de carne bovina; 80% do milho e 95% da aveia cultivados têm o gado como destino – alimento que poderia alimentar 1,3 mil milhões de pessoas. [19]

Derivado de privatizações, milhões de hectares de terreno na Etiópia, Somália, Brasil e alguns países da América Latina não pertencem mais aos habitantes locais, mas a multinacionais que têm vindo a destruir e a segmentar velhas florestas com milhões de anos – o que afeta as pessoas indígenas e locais que contam com estes recursos. A uma escala global, empresas como a Monsanto, Bayer e DuPont controlam o monopólio e os preços das sementes; enquanto a Cargill, Smithfield, Purdue, Tyson, JBS e Swift controlam mais de 80% das explorações dos animais a serem convertidos em "carne". [20]

Vai aumentando a tendência em desviar cereais e grão para empresas da pecuária que convertem estes alimentos em ração proteica para acelerar o crescimento de animais, simplesmente porque é mais rentável do que distribui-los para uma população local que viva na miséria. É uma distribuição injusta e ineficiente de recursos alimentares.

A Etiópia é um caso paradigmático de um país empobrecido onde mais de 60% da população passa por graves dificuldades nutricionais, mas onde existem 50 milhões de animais (a maior soma de África e uma das maiores do planeta) destinados ao abate, que consomem comida, água e degradam o solo [21] A Etiópia é o segundo maior produtor de milho de África, e a sua produção também inclui café, leguminosas, cereais, batatas, açúcar de cana, e vegetais. Se em vez de produzir gado utilizando comida, água, solo e quantidades massivas de solo e energia, na Etiópia poderia produzir-se teff [22] , um grão muito nutritivo. O cultivo de mais teff permitiria produzir mais de 90 kg de comida por acre [1 acre = 4047 m2] sem qualquer necessidade de irrigação de água, potenciando o melhoramento da fertilidade do solo, e criando oportunidades da sua distribuição para as populações locais e também de exportação – o que compensaria os índices de pobreza e de fome [23]

O presente panorama da produção e da distribuição de alimentos está determinado pela demanda, pelos programas governamentais e, sobretudo, pelas empresas da pecuária: alimentos que poderiam ser escoados para populações humanas tem como função essencial a engorda rápida de animais para abate. Pelo do mau uso de alimentos, da água, do solo, de energia tem-se vindo transformar itens de luxo (produtos de origem animal) em necessidades, o que tem permitido aumentar os lucros do sector da pecuária. Em contrapartida, intensifica-se o sofrimento dos animais explorados, a deterioração ambiental, a saúde dos/as consumidores dos países mais desenvolvidos, e intensifica-se a fome nos países pouco desenvolvidos. Reduzir ou boicotar produtos de origem animal é, também, contribuir para que o mercado e a distribuição de alimento sejam reformulados, potenciando que a epidemia da fome que ataca milhões de pessoas seja extinta.

Notas
(1) Cf. Stibbe, Arran "Language, Power and the Social Construction of Animals" Society & Animals, Volume 9, Number 2, 2001 , pp. 145-161.
(2) Cf. Bittman, Mark "Rethinking the Meat-Guzzler" January 27, 2008 The New York Times
(3) Cf. New Worldwatch Institute report "Global Meat Production and Consumption Slow Down"; October, 23 2012
(4) Cf. Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas (2007) "Carne Diagnóstico Sectorial" p. 12
(5) Idem , p. 12
(6) Cf. Diário de Notícias , 10 novembro 2012
(7) Shah, Anup "Creating the Consumer" (May 14, 2003)
(8) Cf. Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas (2007) "Leite e Lacticínios Diagnóstico Sectorial" p. 17
(9) Cf. Nóbrega, Teresa, "Açores abatem dez mil vitelos", 2009-02-26 Reportagem vídeo, Telejornal
(10) Para o Ministério da Agricultura do desenvolvimento Rural e das Pescas já existe "Bem-estar animal" ( "um perigo" para evolução do negócio) porque há "segurança alimentar, identificação e registo animal, eliminação de subprodutos e cadáveres, proibição de uso proteína animal [ou seja animais mortos que servem de alimento a animais explorados], licenciamentos, registos de medicamentos" (Cf. Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas, 2007 "Carne Diagnóstico Sectorial" p. 78) Todo o restante tratamento a que os animais estão sujeitos: confinamento, violações, mutilações, sequestro de crias, exploração, assassinato, etc., é omisso, mas legítimo e enquadrável na conceção de "bem-estar animal" no corrente enquadramento legal.
(11) Cf. Idem p. 69
(12) Ministério da Agricultura do Desenvolvimento Rural e das Pescas (2007) "Carne Diagnóstico Sectorial" p. 44
(13) Idem , p. 50
(14) Dasa, Sahadeva "Meat Eating - The Cause For World Hunger & Criminal Waste of Grains" Dec. 6, 2012
(15) Cf. Oppenlander, Richard A. "The World Hunger-Food Choice Connection: A Summary" April 22, 2012
(16) Idem
(17) New Worldwatch Institute report "Global Meat Production and Consumption Slow Down"; October, 23 2012
(18) Cf. Feast or Famine: Meat Production and World Hunger Mark Hawthorne OpEdNews Op Eds 8/9/2008
(19) Dasa, Sahadeva "Meat Eating - The Cause For World Hunger & Criminal Waste of Grains" Dec. 6, 2012
(20) Cf. "The World Hunger-Food Choice Connection: A Summary" April 22, 2012
(21) Idem
(22) Eragrostis teff , um grão que tem uma concentração elevada e variada de nutrientes: cálcio, ferro, cobre, alumínio, bário, fósforo, tiamina e carboidratos.
(23) Cf. Hawthorne, Mark " Feast or Famine: Meat Production and World Hunger" OpEdNews Op Eds 8/9/2008


Ver também:
  • Factory Farming: The True Price of a Pork Chop

    [*] Investigador do ISFLUP


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 30/Out/13