A tentativa pífia do imperialismo americano de imitar a História de Roma

por Jorge Almeida [*]

Muitos membros da classe dominante estadunidense gostam de estudar a História do Império Romano, sobretudo no seu período do apogeu. Comprazem-se com a ideia de o império americano vir a ser tão sólido e duradouro quanto o romano. No entanto, há um equívoco nas suas comparações: ela gosta de comparar-se com o período do apogeu romano, quando a comparação mais adequada a ser efectuada deveria ser a do período da decadência.
No texto que se segue procuram-se estabelecer algumas analogias e diferenças com os tempos de hoje. Para distinguir os factos do antigo império com os do actual, os deste último são grafados em verde.

Clique para ampliar. I – A GUERRA COM A MACEDÓNIA

No Verão de 201 antes da era [1] , quando Roma vence Aníbal Barca e Cartago na segunda guerra púnica, a Itália estava exangue, a sua população havia diminuído, a dívida pública, sob a forma de empréstimo obrigatório (tributum), atingia uma cifra colossal e o povo almejava a paz.

Roma era agora a potência "unipolar" no Mediterrâneo, com Cartago reduzida a um Estado de terceiro plano.

O senado romano decide-se então, contra a vontade do povo, por uma política de guerra. Não havia qualquer novo inimigo a ameaçar a Itália ou as possessões ultramarinas romanas. Destruído o poderio militar cartaginês, nenhum dos Estados helenísticos do Mediterrâneo Oriental, por si só, seria capaz de fazer frente a Roma.

Os senadores romanos pensaram que era chegada a hora de a potência "unipolar" romana partir à conquista da hegemonia no Mediterrâneo. Tal como a Sra. Madeleine Albright no século XX, quando formulou a pergunta: "de que é que nos serve ter o melhor exército do mundo se não o usarmos?". Ela estava implicitamente a propor que, após a implosão da URSS, os EUA partissem para uma nova etapa no seu pretenso "destino manifesto" de conquistar o mundo. [2] Após a guerra do Golfo de Bush pai, a nova etapa defendida pela Sra. Albright manifestou-se no ataque à Jugoslávia.

Ao olhos do senado, com Antíoco III da Síria ocupado na Palestina a fazer a guerra ao Egipto e tendo Filipe V da Macedónia sofrido uma derrota na Ásia Menor, a ocasião era particularmente propícia para Roma. Nos círculos dirigentes romanos, com a última guerra, tornara-se predominante a facção que defendia uma política internacional de agressão permanente. No século XX, Saddam, ao invadir o Kuwait, deu aos EUA um pretexto para a primeira guerra de agressão ao Iraque. Para isso os EUA induziram-no em erro: antes de iniciar as operações militares, Saddam perguntara à embaixadora norte-americana no Iraque qual seria a resposta do seu país à invasão do Kuwait. Esta enganou-o: respondeu-lhe que os EUA não interviriam militarmente.

A economia esclavagista progredira consideravelmente, existindo agora um bem maior número de grandes propriedades. O mesmo se passara ao nível das operações financeiras e do comércio por grosso. Difundira-se a circulação do dinheiro. A nobreza e a classe rica em geral começavam a apreciar o modo de vida refinado. Tudo isso vinha reforçar a influência da facção agressiva.

Na Primavera de 200, Roma envia três embaixadores à península balcânica com a missão de atrair os Estados gregos a uma grande coligação antimacedónia. Deviam também apresentar a Filipe uma série de exigências provocatórias, impossíveis de aceitar — tal como a Sra. Albright e o Sr. Javier Solana fizeram a Slobodan Milosevic na conferência de Rambouillet, antes dos bombardeamentos da NATO sobre a Jugoslávia.

O primeiro objectivo diplomático falhou, recusando-se as comunidades gregas (há excepção de Atenas) a qualquer compromisso com os romanos. Mas a missão prosseguiu. Um dos embaixadores apresenta-se perante Filipe, que então assediava Abydus (nos Dardanelos), e faz-lhe o ultimato. Filipe, como esperavam, recusou, e Roma, por decisão dos comícios, declara-lhe a guerra.

Para se justificarem perante o povo, os senadores romanos tecem o enredo da ameaça macedónia e da necessidade de levar a cabo, contra ela, uma guerra preventiva. Para se justificarem perante os povos do mundo, os congressistas dos EUA urdiram o enredo de uma nebulosa ameaça terrorista (vinda de criaturas género Bin Laden, que eles próprios fabricaram) e da necessidade de efectuar uma longa guerra contra a mesma.

Na primeira votação as centúrias recusaram a rogatio proposta. Só após a insistência do cônsul, numa segunda votação, a declaração de guerra foi aprovada (Lívio, XXXI, 6-8).

Vale a pena "ouvir" Tito Lívio:

"O cônsul convocou os comícios (pela segunda vez) para o Campo de Marte; mas antes de chamar as centúrias ao sufrágio, dirigiu-lhes estas palavras: "Vós ignorais, a meu aviso, ó romanos, que não é sobre a escolha entre a guerra ou a paz que haveis a deliberar; Filipe não vos deixou de modo algum essa alternativa, dado que procede a imensos preparativos para vos combater sobre a terra e sobre o mar [mentira descarada do cônsul]. Trata-se, sim, de saber se ireis levar as vossas legiões até à Macedónia ou se aguardareis que o inimigo venha a Itália [outra mentira]..." [3]

Enquanto isso a embaixada romana prosseguia a sua acção diplomática, tratando agora de garantir a neutralidade de Antíoco da Síria no conflito. Antíoco, não suspeitando que era o seguinte na lista do senado romano, manter-se-á de facto neutral em todo o decurso da guerra. Deixou Filipe entregue à sua sorte, preferindo aproveitar a situação para se apoderar das possessões egípcias na Síria.

Chega então ao teatro de guerra o cônsul do ano de 198, Tito Quíncio Flamínio, enérgico, hábil e extremamente ambicioso. Admirador ardente da cultura grega, Flamínio resolvera "enfiar-se na pele" de libertador da Grécia do jugo macedónio. Imediatamente após a sua chegada propõe a realização de conversações de paz, apresentando como condição principal a evacuação pelos macedónios de todos os territórios gregos ocupados. Filipe recusa a proposta.

Filipe V da Macedónia acabará por perder a guerra.

II – A "LIBERTAÇÃO" DA GRÉCIA

O primeiro artigo do tratado de paz proclamava a liberdade dos gregos. "Todos os helenos, tanto os asiáticos como os europeus, serão livres e submeter-se-ão às suas próprias leis" (Políbio, XVIII, 44). Todos os kosovares, croatas, bósnios, sérvios, afegãos, iraquianos, libaneses serão livres, proclamarão Madeleine Albright & Condoleezza Rice.

Nos jogos ístmicos do Verão de 196, perante uma grande multidão, o arauto anunciara solenemente: "O senado romano e o comandante com poder consular Tito Quíncio, que hão vencido em guerra a Filipe e aos macedónios, dão a liberdade aos coríntios, aos fócios, aos locros, aos egeus, aos aqueus ftiotas, aos magnetes, aos tessálicos, aos fereus, permitindo-lhes não manter guarnições, não pagar impostos e viver segundo a lei dos seus pais" (Políbio, XVIII, 46). A explosão de alegria da multidão foi ensurdecedora...não sabiam o que lhes reservava o futuro da expansão romana.

Mas uma comissão de dez senadores romanos, com a participação de Flamínio, já então redesenhará o mapa político grego a favor dos seus aliados, sem qualquer consideração pela vontade daqueles que foram integrados à força nas ligas aqueia e etólia ou sujeitos às dinastias da Grécia e da Ásia Menor.

As guarnições romanas também não abandonaram o território grego, pelo contrário, ocuparam os centros estratégicos, Corinto, Cálcis, Erétria, etc. Sete guarnições serão evacuadas em 194 a insistência de Flamínio, devido ao descontentamento entre os gregos que a sua presença suscitava.

III – A GUERRA COM ANTÍOCO DA SÍRIA

No Outono de 196 enviam a Antíoco, ainda na Trácia, uma embaixada. As queixas de algumas cidades livres da Ásia Menor, Lâmpsaco, Alexandria da Tróade, Esmirna, forneceram o pretexto. Os embaixadores fazem saber ao sírio que Roma de modo algum iria aceitar a sua política agressiva.

Antíoco respondeu-lhes que as pretensões romanas sobre as cidades da Ásia Menor não tinham qualquer fundamento e pediu aos romanos que não se intrometessem nos assuntos da Ásia, tal como ele se abstinha de intervir nos de Itália. Quanto à sua vinda à Europa, explicou que ela apenas se devia ao seu desejo de retomar as possessões dos seus antepassados, o Quersoneso da Trácia e as cidades da costa trácia (actual costa oriental da Grécia).

Os romanos eram apoiados pela Liga Aqueia e por Atenas. Filipe também se lhes juntara. Os romanos haviam-lhe devolvido os reféns, tinham-no libertado do pagamento do tributo e prometeram-lhe ganhos territoriais. Os norte-americanos também já perspectivam propostas deste género e falam num novo mapa do Médio Oriente .

Perdida a guerra, Antíoco teve de aceitar todas as condições que os romanos lhe impuseram. O senado elaborou o tratado de paz no Verão de 189, tendo participado todos os aliados. O texto final foi aprovado no Verão de 188, na cidade de Apameia (na Frígia), por uma comissão senatorial plenipotenciária de dez membros.

Os aliados foram generosamente premiados, Êumenes do Pérgamo em particular. Pérgamo obteve o Quersoneso da Trácia, a Lídia, a Frígia, partes da Cária e da Panfília (estas quatro regiões, bem como a Lícia, hoje fazem parte da Turquia) e algumas cidades gregas marítimas da Ásia Menor, entre as quais Éfeso, tornando-se assim o Estado mais importante da Ásia Menor (Pérgamo acabará, em 133 antes da era, por se tornar província romana). Rodes recebe partes da Cária e da Lícia. Algumas das cidades gregas da Ásia Menor são declaradas livres.

Instaurara-se, pois, a hegemonia romana no Oriente grego...

JOHN BOLTON A SONHAR COM A CANA DE POPÍLIO: [4]
I – OS ALIADOS QUE SE CUIDEM!


Os actuais dirigentes europeus — e não só — deveriam meditar nos factos históricos que se seguem. Metternich, se fosse vivo, não teria dúvidas em apodá-los de cretinos. Se o imperialismo norte-americano só pode sonhar com o que se vai relatar não é certamente graças à política dos seus aquiescentes aliados europeus e do Médio Oriente. Se as tentativas de intelectuais reaccionários norte-americanos de se compararem com a época da fundamental expansão de Roma são pífias, isto se deve à resistência dos povos, norte-americano incluído, e não ao bando de submissos que desgoverna boa parte da Europa e do Médio Oriente.

O Egipto, que pedira a tutela de Roma, no fim das guerras macedónica e síria, havia perdido quase todos os domínios que possuía para lá do vale do Nilo, com as excepções da Cyrenaica e de Chipre.

A monarquia selêucida nunca mais pôde recuperar-se do golpe sofrido. As suas finanças foram exauridas pelo gigantesco tributo e, à notícia da derrota de Antíoco, estalam uma série de revoltas que lhe fizeram perder o domínio de facto sobre as províncias orientais. Antíoco morreu em 187 na luta contra a rebelião. Durante o reinado do seu sucessor a monarquia síria vai paulatinamente entrando no ocaso. Os romanos fizeram tudo o que lhes foi possível para a debilitar, desde a pressão diplomático-militar, no respeitante à política exterior síria, até ao apoio dado a um usurpador e à ingerência directa nos assuntos familiares da casa reinante.

Intervieram também na política exterior e interna dos pequenos Estados helénicos, não lhes permitindo tomar nenhuma medida importante sem a sua aprovação.

Procuraram sobretudo impedir a formação de alianças.

A) A TERCEIRA GUERRA MACEDÓNICA

Em 179 Filipe V da Macedónia (partes das actuais Grécia, Bulgária e do sul da antiga Jugoslávia, grosso modo) morre, deixando a seu filho Perseus um Estado militarmente forte e bem organizado.

Em 172 Êumenes do Pérgamo vai a Roma apresentar as suas queixas contra Perseu. O senado decide-se então pela guerra com a Macedónia. Na viagem de regresso a Pérgamo, Êumenes é vítima de um atentado em Delfos, que logo foi atribuído a Perseu.

Quase 2200 anos depois o embaixador americano na ONU, John Bolton, considerou que o assassinato do político libanês Pierre Gemayel pode ser a "primeira jogada" em um golpe contra o governo do Líbano. Ele sugeriu, sem provas, o envolvimento da Síria no assassinato.


Os romanos prepararam cuidadosamente a guerra a nível militar e diplomático. Quando a iniciam, em 171, Perseu estava completamente isolado. A Liga Aqueia, como sempre, apoiava os romanos — já iremos ver o que colheu passados que foram 25 anos. Os etólios, que pouco tempo antes solicitavam a ajuda de Perseu, haviam mudado bruscamente de opinião. Na Tessália o partido pró-romano detinha o poder. Mesmo a Beócia, durante muito tempo aliada da Macedónia, se afastou de Perseu. O mesmo acontecera entre os amigos não gregos do rei macedónio. Roma contava com o apoio das cidades livres da Ásia Menor, de uma parte dos ilírios (no território que veio a corresponder à maior parte da defunta Jugoslávia), de Rodes, Bizâncio, etc. Prúsias II da Bitínia permaneceu neutral e Antíoco IV da Síria, seguindo a "tradição", aproveitou a ocasião para atacar o Egipto.

Depois da derrota de Perseu, Roma destrói a monarquia macedónia e divide o país em quatro repúblicas "independentes", completamente isoladas umas das outras. Os habitantes de cada república não podiam contrair matrimónio nem estabelecer comércio com os das restantes. Todas as relações entre elas eram interditas. Em cada uma Roma colocou no poder a parte da aristocracia que lhe era fiel. A metade dos impostos pagos anteriormente aos reis passa agora a ser arrecadada pelos romanos. Foi proibido aos macedónios trabalhar o ouro e a prata, exportar madeira e importar sal. A população foi desarmada e as fortalezas desmanteladas. Segundo este mesmo modelo são constituídas outras três repúblicas na Ilíria. Como se vê, o desmembramento da Jugoslávia não foi o primeiro na história dos Balcãs.

O Epiro (actual Albânia), que apoiara Perseu, teve "direito" a um tratamento particular. Por ordem do senado, em 167, setenta distritos são saqueados e 150 mil habitantes reduzidos à escravatura. O saque foi tal que em Roma será abolido o imposto directo sobre os cidadãos (esta isenção irá manter-se por muito tempo, graças à conquista de novas províncias).

Destruída a Macedónia, Roma já não necessitava, de facto, de amigos e aliados no mundo grego. E já os EUA de Bush & Cheney imaginaram que não necessitavam de negociar com os seus amigos e aliados no mundo, tratando-os com uma sobranceria que se transmuta em arrogância (veja-se o comportamento do presidente dos EUA na última cimeira da NATO, em Riga, na Letónia).

Se bem que a Grécia haja continuado a ser nominalmente "livre", perdeu os últimos restos da sua independência. A Liga Etólia foi reduzida ao território da própria Etólia e os partidários dos macedónios foram em parte entregues aos seus inimigos políticos, em parte levados para Roma. Em todos os Estados gregos os elementos suspeitos foram feitos reféns e enviados para a Itália. Nem a Liga Aqueia (aliada de sempre dos romanos) escapou, 1.000 nobres aqueus, entre os quais Políbio, são internados em diferentes cidades italianas.

A Rodes é arrebatada grande parte das suas possessões no continente e o seu comércio sofre um duro golpe com a proibição do comércio da madeira e do sal macedónios. A catástrofe chega quando Delos é declarada porto livre. Os romanos expulsaram os habitantes desta ilha e entregaram o porto aos atenienses, sendo o seu comércio isento de todos os impostos e taxas. O comércio do Mediterrâneo oriental passou a fazer-se através de Delos. No decurso de um só ano, as receitas aduaneiras de Rodes diminuíram de um milhão para cento e cinquenta mil dracmas.

O próprio Êumenes de Pérgamo, o fiel amigo de Roma, cai em desgraça, nada tendo recebido no final da guerra. Roma apoiará contra Êumenes o seu irmão Átalo e chegou até a instigar-lhe os súbditos a sublevarem-se. Quando Êumenes se desloca a Roma para tentar esclarecer os mal-entendidos (acusavam-no de ter mantido contactos secretos com Perseu) dão-lhe a perceber que a sua presença não era grata.

Mas, após a eliminação dos rivais do império, para alguns o pior ainda estava para vir.

B) - A SUJEIÇÃO DA MACEDÓNIA E DA GRÉCIA

Em 148 é deslocado para a península balcânica um grande exército sob o comando do pretor Quinto Cecílio Metelo. Este, executando as decisões de uma comissão senatorial ali enviada (em 148/147), transformou a Macedónia em província romana, incluindo nela o Epiro e a Ilíria meridional, com as cidades de Apolónia e Epidamno.

Na Grécia, a única força político-militar importante que restava era a Liga Aqueia. Na Primavera de 146 começa a guerra contra a Liga (que sempre apoiara os romanos), com o senado a confiar o comando ao cônsul Lúcio Múmio. Ainda antes da chegada de Múmio à Grécia, já Metelo, vindo da Macedónia, derrotara na Lócrida o exército da Liga comandado por Critolau. Os romanos esmagaram rapidamente a rebelião na Grécia central. A derradeira batalha travou-se sobre o Istmo de Corinto. A infantaria aqueia combateu com valentia, mas não pôde resistir à avassaladora superioridade numérica dos romanos. As cidades da Liga Aqueia rendem-se sem qualquer resistência e Múmio entra em Corinto.

"Assistido" pela habitual comissão senatorial, o cônsul tratou de redesenhar a Grécia. Todas as Ligas inimigas foram dissolvidas (a Aqueia e as da Beócia, Eubeia, Fócida e Lócrida). As comunidades citadinas são isoladas (a título de exemplo, era interdito possuir simultaneamente propriedades em mais de uma cidade). As constituições foram abolidas, sendo instituído o censo. Os que haviam participado na rebelião foram obrigados a pagar tributo a Roma e ficaram na dependência do legado da Macedónia, que lhes tutelava a administração e a justiça. Assim, uma grande parte da Grécia é unida à província da Macedónia. Os que não haviam aderido à rebelião (Acarnânia, Etólia, Tessália, Atenas, Esparta) mantiveram as relações de aliança com Roma, mas, de facto, a sua independência será agora muito menor. A repressão foi terrível nas grandes cidades rebeldes: Tebas, Cálcis e Corinto. As muralhas de Tebas e de Corinto são destruídas. Os habitantes sobreviventes são reduzidos à escravatura. As obras de arte levadas para Roma e Itália. A cidade de Corinto, o principal centro da rebelião, foi completamente arrasada.

II – QUE SE CUIDEM TAMBÉM OS CONCORRENTES!

Mas Corinto não foi destruída apenas para servir como exemplo, a sua destruição não foi apenas uma medida preventiva contra futuras rebeliões. Vinte e dois anos antes Delos fora declarado porto livre, arruinando o comércio de Rodes. Nesse mesmo ano de 146 é arrasada Cartago. Nos territórios onde se erguiam Corinto e Cartago foi proibido a quem quer que fosse habitar. Corinto era o único centro comercial de importância que restara na península balcânica. Podemos deduzir que a sua destruição se deveu sobretudo à influência dos mercadores e financeiros romanos. Em duas décadas eles conseguiram eliminar os seus três mais fortes competidores: Rodes, Corinto e Cartago. O tráfico comercial que passava por Corinto transferiu-se para Delos, que se converteu no centro do comércio romano no Oriente.

Com tais medidas, o senado demonstrava já haver-se convertido num instrumento da política exterior do capital comercial e usurário romano, capital que irá reduzir à escravatura por dívidas populações inteiras e viver parasitariamente à custa das províncias. As formas capitalistas romanas ir-se-ão esvanecendo na época imperial, com o aparelho burocrático a substitui-las na pilhagem, mas Roma conseguirá o prodígio de manter com as províncias uma balança comercial passiva durante 400 anos. Quem pagava o passivo da compra das mercadorias provinciais...eram os tributos dessas mesmíssimas províncias.

Hoje, a escravidão pelo endividamento é tão opressiva como a da máquina tributária imposta por Roma. Os défices tríplices da economia estadunidense — da balança de transacções correntes, do orçamento do Estado e energético — transformaram os EUA num país parasitário que vive à custa da espoliação do resto do mundo. Alguns, como Paul Volcker, ex-presidente da Fed (1979-1987), já manifestaram preocupações quanto à durabilidade de tal situação, contudo o imperialismo norte-americano ainda acredita que os povos o continuarão a sustentar.

III – QUANTO AO POVO...

Os resultados da expansão romana no Mediterrâneo, no que respeita ao povo romano, foram relatados num discurso do tribuno da plebe Tibério Graco, em palavras que, apesar de haverem sido proferidas no ano de 133 antes da era, sempre se manterão actuais enquanto houver imperialismo (Plutarco, "Tibério Graco", IX):

"Até as feras da selva têm o seu covil e as cavernas aonde se podem abrigar; mas os homens que lutam e morrem pela Itália nada possuem além do ar e da luz do dia. Privados de um tecto, erram de terra em terra com a mulher e os filhos. Os comandantes enganam os soldados quando nos campos de batalha os incitam ao combate para defender dos inimigos os seus sepulcros e os seus lares; mentem, porque a maioria dos romanos não tem nem altar paterno nem sepulcro dos antepassados. Só têm o nome de amos do mundo, mas para morrer pelo luxo dos outros sem poder chamar seu a um pedaço de terra".

EPÍLOGO EM ABERTO

O império de Roma no Ocidente durou, contando a partir da II guerra púnica até ao ano de 476, cerca de 7 séculos. Para isso muito contribuiu a habilidade e inteligência da classe dominante de Roma, que através das vicissitudes históricas soube conduzir e expandir o seu império por todos os meios, desde os diplomáticos aos políticos e aos militares.
Não é provável, entretanto, que a actual classe dirigente dos Estados Unidos tenha a mesma habilidade e inteligência dos romanos. Este império americano tem pés de barro e já está em decadência económica acelerada. Ele já está condenado devido às suas contradições insanáveis, mas com o seu poderio militar ameaça o mundo com o extermínio. A libertação em relação ao império moribundo — mas militarmente poderoso — é a tarefa mais urgente com que se confronta a humanidade.

21/ Dezembro/2006

Fontes:
  • www.historia.azpmedia.com , capítulos XVI, XVIII e XX;
  • Textos gregos e latinos por autores

    Notas
    [1] Dionísio o Pequeno, o monge do século VI que fez os cálculos da nossa era guiando-se sobretudo pelo Evangelho de Lucas, não sabia que Herodes o Grande falecera em 75O da era de Roma. Pelas suas contas, o Ungido (que é o que quer dizer Cristos em grego; é o particípio passado do verbo ungir) teria nascido em 25 de Dezembro do ano de 754 da era de Roma, 4 ou 5 anos depois de ter nascido segundo o que resulta do próprio texto de Lucas. Como este milagre de nascer depois de ter nascido não consta dos cânones de nenhuma das igrejas cristãs, há quem tenha resolvido laicizar a era. Eu sigo o exemplo dos autores que datam "antes da (nossa) era"; Georges Duby, por exemplo, já prefere o – e o + para datar os anos. Os cristãos não têm de ficar ofendidos: o ano 1 da nossa era não é o do nascimento do Ungido segundo o Evangelho de Lucas. Uma outra questão: como sabemos que os anos dos acontecimentos narrados são quase todos ao século II antes da (nossa) era, achei escusado estar sempre a repetir a lenga-lenga do "antes da era" a cada menção de data.

    [2] As bases da doutrina do "destino manifesto" foram concebidas nos finais do século XIX por um oficial da marinha de guerra dos EUA, Alfred T. Mahan.

    [3] Esta peça clássica de demagogia e mentira encontra-se no item 7 do livro XXXI de Tito Lívio.

    [4] Exemplo da atitude que Roma tomou no Oriente, "no após 168", foi a sua intervenção na guerra entre a Síria e o Egipto. Antíoco IV chegara em 168 ante as muralhas de Alexandria e os egípcios pediram a ajuda de Roma, que envia de imediato um embaixador, Caio Popílio. Este apresenta-se perante o sírio e transmite-lhe a ordem do senado: restituir tudo quanto havia conquistado e retirar-se do Egipto. Havendo Antíoco IV pedido algum tempo para reflectir, Popílio traça com uma cana um círculo à volta do monarca sírio e exige-lhe que desse a resposta sem dali sair... e Antíoco terá obedecido.


    [*] Estudioso da História, 47 anos, colaborador do sítio www.historia.azpmedia.com . Elabora actualmente uma História Geral de Roma.

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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