Consequências da medicina neoliberal
As origens da crise do ébola
por Tariq Ali e Allyson Pollock
[*]
Tariq Ali. Hoje vamos discutir medicina e o que está acontecer em
África e não só ali, também em outras partes do
mundo, e como a medicina privatizada está agora a dominar o campo
excepto nuns poucos oásis que ainda restam como Cuba, Venezuela, etc.
Comigo está o Professor Allyson Pollock, um bem conhecido cientista e
perito em saúde pública. Quais são as origens do
Ébola e como se propagou tão rapidamente em três
países africanos e está agora a causar pânico por toda a
parte?
Allyson Pollock: Bem, o Ébola é um vírus, ninguém
sabe com certeza das suas origens, alguns pensam que pode vir do morcego e
é propagado através de fluidos corporais, o que é um
importante mecanismo. Nas situações mais normais deveria ser
facilmente contido através da quarentena e pelo isolamento mas o grande
problema nos países onde é mais prevalecente, os quais são
Serra Leoa, Libéria e Guiné, é que são
países muito, muito pobres, onde a infraestrutura tem sido cada vez mais
liquidada, especialmente em termos de sistemas de saúde e o vírus
está agora em áreas urbanas onde há estreito contacto
humano, de modo que se torna muito difícil controlar e conter
especialmente em áreas onde há um bocado de
super-aglomeração, pobreza e fraco saneamento.
T. Ali. E a comunidade de saúde do ocidente, por assim dizer, a
Organização Mundial de Saúde, foi vagarosa para reagir,
sinto, em termos do que podia ter sido feito na etapa inicial desta
doença.
A. Pollock: Bem, suponho que a OMS tinha a esperança, como no anterior
grande surto na década de 1970, que seria contida de modo razoavelmente
fácil. Talvez o que tenha acontecido é que eles não
consideraram o facto de que estes países onde está a emergir
estão realmente entre os mais pobres dos pobres. A Libéria e
Serra Leoa tem atravessado longos períodos de guerra civil, conflitos
com refugiados deslocados onde o produto interno bruto e a economia sofreram
extremamente e o que temos visto em todos estes países é um
esvaziamento real de todas as espécies de serviços
públicos, mas especialmente sistemas de saúde. Assim, é
muitíssimo difícil contê-la e temos questões reais
de pobreza. Assim, suponho que a primeira esperança era que a
doença seria facilmente contida mas realmente, é claro, é
um vírus que tem uma taxa de fatalidade muito alta, eles falam em cerca
de 55% de probabilidade de morte se se contrair o vírus. De modo
que isto é muito grave mas um dos grandes problemas é que o mundo
ocidental, especialmente o governo dos EUA, está a retornar com
soluções de armas e soluções mágicas, o
anúncio de Obama de que está a enviar 3000 soldados e o
anúncio paralelo de que estão a centrar-se na
produção rápida da vacina. E isto é uma
remoção completa da determinância social e estrutural da
saúde pública porque as origens de toda a saúde
pública estão em soluções muito simples e
básicas. Trata-se de água limpa, saneamento, boa
nutrição os males da pobreza. E, acima de tudo, são
precisos muito bons sistemas de saúde com médicos e enfermeiros
adequados e instalações em que se possa isolar pessoas e
também fazer o que se chama "rastreio de contactos" de modo a
que se possa voltar à comunidade para descobrir com quem os
indivíduos afectados estiveram em contacto e assim poder por em
quarentena e isolar aqueles indivíduos para assegurar que realmente
não contraíram a doença e não transmiti-la durante
o período de incubação. E tudo isso foi destruído.
É disto que estes países precisam. Eles tiveram uma erosão
total e um colapso dos seus sistemas de cuidados de saúde pública
e isto é a tragédia. De modo que a população tem
muitíssimo poucos médicos e enfermeiros. Eles simplesmente
não podem aguentar e naturalmente as instalações
públicas ali estão superlotadas, estão em
terríveis condições e estão com completa e absoluta
carência de pessoal. De modo que este problema de uma epidemia estava em
vias de atingi-los, podia ter sido o Ébola, podia ter isso alguma outra
coisa podia ser a cólera ou o que fosse. Estava realmente para
acontecer que estes países fossem duramente atingidos. Era inteiramente
previsível e foi previsto durante mais de 20 anos e é o que o
lobby da saúde pública e os seus advogados tem estado a falar. A
solução para estas epidemias não são
poções mágicas de vacinas nem é através do
envio de tropas. É estrutural, é social, é
económica, é ambiental e é investido em medidas de
saúde pública.
T. Ali. Mas o sistema, como funciona em todo o mundo capitalista, é
basicamente não a favor de serviços de saúde
pública, eles são favoráveis a soluções
privatizadas, instalações privatizadas, o que significa que na
maior parte países cada vez mais tem-se um sistema de duas ou três
camadas. Há hospitais de muito boa qualidade para os ricos e pessoas que
podem pagá-los, há uma segunda camada mais para pessoas da classe
média que também podem pagar mas não tanto e suas
instalações não são tão boas e a seguir
há hospitais públicos, não só na África mas
em países como a Índia, Paquistão e Sri Lanka, os quais
estão numa desgraça total e nada é feito acerca disto a um
nível global porque não é uma prioridade. Entendo que isto
é ultrajante. Uma vez que o sistema de saúde funciona como disse,
pensa que a solução óbvia, a médio e longo prazo,
é criar uma infraestrutura social forte nestes países? Mas que o
Fundo Monetário Internacional durante as últimas quatro
décadas pediu-lhes para não gastarem dinheiro, então o que
pensa que eles podem fazer?
A. Pollock: Penso que está a levantar uma questão importante.
Qual é o papel do FMI, do Banco Mundial, do Banco Africano de
Desenvolvimento? Porque se olharmos para a Libéria, Serra Leoa e
Libéria, o quais têm realmente um bocado de recursos naturais, o
que está a acontecer quanto às suas economias é que as
terras estão a ser cada vez mais privatizadas e a serem ocupados por
investidores estrangeiros que estão a chegar e eles são
simplesmente despojados dos seus recursos e activos. A Libéria em um PIB
de um par de milhares de milhões de dólares e uma
população de cinco ou seis milhões de habitantes. Assim,
como é que vão reconstruir quando realmente há directores
estrangeiros a chegarem e parceiras público-privadas e granes fluxos de
dinheiro a saírem e não há qualquer mecanismo de
redistribuição porque redistribuição significa que
se está a tentar construir uma sociedade mais justa e a tentar colocar
os recursos outra vez no país.
Assim, isto começa com a economia, começa com o que está a
acontecer à terra, começa com o facto de o óleo de palma,
o cacau e a borracha serem importantes culturas para a obtenção
de dinheiro e a terra, a sua propriedade, ter sido transferida. Tudo isto foi
muito bem documentado por organizações importantes como a Global
Witness e também a Oakland Foundation dos EUA, as quais realmente
caracterizaram o que esta a acontecer à terra. É de recordar que
muitos dos agricultores, na Libéria por exemplo são 70%, vivem em
áreas rurais. Eles são agricultores de subsistência de modo
que isto é um problema quando se tem uma população a
gastar 80% do seu dinheiro em alimentos e se tem todos estes cordões de
isolamento em torno. Aí é claro que há um problema real
porque a pobreza está realmente a ser acelerada nestes países
devido ao vírus Ébola, uma vez que as fronteiras estão a
fechar e já não há sequer mais fluxo económico.
Assim, penso que precisamos começar com a análise
económica porque é a causa dos problemas estruturais e aí
chegamos à Organização Mundial de Saúde, a qual
é a autoridade internacional sobre saúde. Ela tem poderes para
fazer a lei mas sistematicamente, durante mais de 20 anos, tem sido
completamente exaurida de financiamentos e tais financiamentos quando
são obtidos estão ligados a toda espécie de
condições e estas condições são
estabelecidas por grandes ONGs globais tais como a Bill & Melinda Gates
Foundation, as quais não têm uma base democrática, nem
nenhuma responsabilidade e que por sua vez estão a fazer um dano
tremendo através dos seus programas verticais de doenças porque
eles não estão enraizados na saúde pública e nos
sistema de saúde pública. E um bom exemplo de um programa
vertical de doença é quando se toma o Ébola e faz com a
sua operação cuidar dele e ignora todas as outras causas da
doença, tais como tuberculoso ou malária, ou pobreza,
desnutrição e ao mesmo tempo centra todos os esforços da
indústria no desenvolvimento da vacina.
Mas vacinas não são realmente o que estes países precisam.
Precisam de redistribuição adequada e de medidas de saúde
pública e nós nada aprendemos da história, o que é
chocante. Todas as grandes reformas, todos os grandes colapsos de
doenças infecciosas epidémicas não foram realmente
debelados com drogas e vacinas, foram-no através de medidas
redistributivas, as quais incluíam saneamento, nutrição,
boa habitação e na verdade, acima de tudo, uma
democratização real. E com isto chega-se à
educação e todas as outras medidas de que precisamos. Não
estou a dizer que não precisamos de vacinas, mas um dos grandes
problemas é que o próprio desenvolvimento de vacinas agora
está nas mãos destas fundações ONGs grandes e muito
poderosas, como a GAVI Global Alliance for Vaccine Initiative, a qual em
conjunto com grandes companhias como a GSK e Merck, estão determinadas a
conseguir patentes e a razão porque elas gostam de vacinas é
porque elas são um meio de imunização em massa, isto
significa números e números significam dinheiro. E naturalmente
estão a ser pagas pelo ocidente e governos ocidentais quando este
dinheiro podia muito mais facilmente fluir para os próprios governos
[africanos] para reconstruírem suas sistemas de saúde porque
estamos a falar acerca da reconstrução da infraestrutura de
saúde pública e isso inclui investir em cuidados de saúde
primária, sistemas de saúde comunitários, unidades de
controle de infecção ao nível de comunidade, investir em
hospitais e treino de enfermeiros e médicos. E o outro grande problema
em todos estes países é não só a drenagem de
cérebros, porque os poucos médicos e enfermeiros que estão
ali querem abandoná-los, e é o que está a acontecer na
Nigéria, ou querem trabalhar no sector privado ou querem trabalhar para
estas ONGs porque o dinheiro é muito melhor e assim todo o sistema de
saúde público é completamente esburacado. E isto é
um problema real porque a Fundação Gates, Bill & Melinda Gates,
não acreditam no sector público, eles não acreditam num
sistema democrático, de propriedade pública, publicamente
responsável.
T. Ali: Assim, a OMS de facto, devido a políticas governamentais e
às prioridades do consenso de Washington, isto é, neoliberalismo,
privatização da medicina, incapacidade para controlar a Big
Pharma, efectivamente abandonou o que se costumava fazer? No sentido de que
não pode fazer o que precisa ser feito, escorar, fortalecer, construir
se necessário, sistemas de saúde pública em alguns destes
países?
A. Pollock: Bem, há um documento recente e muito importante no
British Medical Journal,
penso que de David Legg, o qual realmente mostra o que tem estado a acontecer
à OMS ao longo das duas década em que os EUA se recusam a dar o
financiamento que deveriam ter dado e, assim, o que acontece quando governos
ocidentais, os EUA inclusive, ligam-no a condicionalidades, as quais são
habitualmente em torno das prioridades de Bill & Melinda Gates e não em
torno de prioridades essenciais para a saúde pública e porque a
OMS tem as mãos atadas. E ela é realmente a
organização mundial da saúde, ela tem poderes para fazer
leis e ainda assim nunca exerceu estas funções de que estamos a
falar quanto aos défices democráticos que se estão a
verificar quando grandes fundos globais como o Fundo Gates ou o Fundo Buffett
podem realmente determinar quais são as prioridades do mundo e assim
distorcer que prioridades deveria haver para a saúde pública
porque isto está amarrado à análise económica, eles
precisam industrializar, precisam medicalizar e precisam farmaceuticalizar. Mas
há um grande retrocesso em andamento, um grande retrocesso no mundo
ocidental, muito mais crítico acerca da ética, da
segurança e da adequação das drogas, vacinas e
medicamentos e este grupo começa a ser cada vez mais articulado e cada
vez mais preocupado. Mas um dos grandes problemas é que, devido a esta
enorme quantidade de dinheiro que tem o Bill & Melinda Gates Fund, os
técnicos, como eu próprio, os grupos da saúde
pública, foram capturados devido ao seu êxito baseado na
obtenção de empregos, ou de investigação, ligada
aos interesses do Fundo Global. Assim, os pensamento crítico está
a ser esvaziado e ao mesmo tempo as funções essenciais da
saúde pública porque a saúde pública está
ali, como diria Ibsen, como que o inimigo do povo, mas ele realmente
está ali para ser crítico, para avaliar e pensar racionalmente e
para recordar a toda a gente acerca o que são as determinâncias
sociais da saúde e que não é nada de transcendente.
T. Ali: Contraste isto, o que está a acontecer na maior parte do mundo,
com um minúsculo país como Cuba, o qual conseguiu construir um
sistema de saúde pública, que é precisamente em grande
parte o que advoga. É muito orientado para medicina preventivas as quais
impedem que uma doença se propague e tem agora os melhores registos de
serviços de saúde pública e isto influencia em termos do
que os cidadãos de Cuba e cada vez mais os da Venezuela, devido à
ajuda que eles têm dado aos cidadãos venezuelanos e de outros
países da América do Sul que não dispunham e agora
estão em melhor condição do que muitos povos, como por
exemplo os da Europa do Leste os quais empenharam-se na grande
privatização, sem falar na África e grandes partes da
Ásia. Tem estudado o sistema?
A. Polock: Bem, penso que o sistema de Cuba é muito inspirador e
qualquer um que tenha estado em Cuba não pode deixar de sentir os
benefícios da saúde pública ali. Quero dizer que
são um país que realmente experimentou o significado da
austeridade com um PIB que equivale ao de muitos destes países pobres.
Mas eles não têm estas desigualdades extraordinárias porque
a sua visão e suas campanhas têm sido em torno da saúde
pública e de cuidados para todos. De modo que têm actuado bem de
modo extraordinário e notável. Quero dizer que o problema real
decorre do que está a acontecer agora, eles estão à margem
de políticas neoliberais e precisam obter drogas para o mercado, e a
necessidade de vender drogas; é um momento importante para Cuba pensar
acerca disso. Mas realmente eles precisam a todo momento recordar do que
é o seu PIB e o que têm alcançado com o seu produto bruto
em comparação com alguns destes países mais pobres do
mundo como Serra Leoa e Libéria Libéria especialmente.
T. Ali: O outro aspecto é que os cubanos enviaram muitos dos seus
médicos para partes da África, América do Sul, onde havia
desastres. Recordo que durante inundações no Paquistão,
realmente más, uma equipe inteira de médicos cubanos chegou e
foram levados para as partes mais remotas do país onde às
mulheres não era permitido verem médicos porque a maior parte
deles eram homens. E quando viram que na equipe cubana havia 60% de mulheres,
os homens naquelas comunidades disseram: ah, vocês têm mulheres
médicas, ok, podem ver as mulheres que quiserem. Assim desenvolveu-se
uma relação admirável entre eles e as mulheres ficaram
tão satisfeitas, assim como seus filhos, e uma médica cubana
contou-me que lhe perguntaram: "de onde vem o seu pessoal?" Ela
respondeu: "viemos de Cuba". "Onde é isso?" E ela
disse: "É uma pequena ilha no Caribe". E eles disseram:
"Quem é o seu líder? Quem ou o que é o governo".
Assim, eles eram muito cuidadosos porque estavam numa missão
médica, mas disseram: "quer ver uma foto de Fidel Castro que
é o nosso líder?" Eles disseram que sim e mostraram-lhe uma
foto de Castro e as mulheres disseram: "meu deus, ele tem uma barba como a
que têm naquela aldeia a 20 milhas daqui, vá lá e veja
aquelas barbas". [risos] Mas estavam incrivelmente impressionados e todos
os media do Paquistão falavam do que haviam feito. Disseram que
não queriam ajuda do governo, chegaram com tendas, equipamento, com
receptáculos para ferver água potável e tudo o resto,
trouxeram os medicamentos. E o outro ponto a destacar é que ao
contrário dos serviços de saúde construídos na
Europa Ocidental após a II Guerra Mundial, incluindo o Serviço
Nacional de Saúde, os governos nestes países nunca realmente
estabeleceram indústrias farmacêuticas para complementar os
serviços de saúde. Nem tão pouco consideraram seriamente
nacionalizá-las, porque isso teriam trazido os preços dos
medicamentos para baixo e nunca precisariam cobrar pelas receitas. Assim, vamos
por um minuto para um assunto que conhece muito bem o serviço de
saúde na Grã-Bretanha nos países da União Europeia.
O que está a acontecer com isso? Uma coisa é falar acerca da
África, mas o que está a acontecer aos serviços de
saúde na Europa?
A. Pollock: O que está a acontecer na Europa é que
adoptámos políticas neoliberais provenientes dos EUA na
indústria dos cuidados de saúde, políticas que exauriram
os fundos da América porque os cuidados de saúde ali chegam a 18%
do PIB, em comparação com 9% ou 10% na Europa. Assim, os
investidores em cuidados de saúde na Europa precisam descobrir novos
mercados e ocupam-se em tentar penetrar e abrir os sistemas da Europa. E
naturalmente o maior troféu para eles é o SNS do Reino Unidos
porque durante um longo tempo foi o mais socializado de todos os sistemas de
cuidados de saúde. Assim, tivemos uma transferência; de modo que a
Escócia, Gales e Inglaterra têm todos o seus próprios
serviços de cuidados de saúde e na Escócia em Gales, que
são muito pequenos, não cobrem mais do que 8 ou 9 milhões
de pessoas, mantiveram um serviço nacional de saúde mas
não na Inglaterra, algo que muitas pessoas não percebem. A
Inglaterra aboliu seu serviço nacional de saúde em 2012 com o
Health and Social Care Act. O que permanece do SNS é um fluxo de
financiamento, ou um apoio do governo, e o SNS agora foi reduzido a um logotipo
e o que o governo agora está a fazer é acelerar uma ruptura do
que resta do SNS sob propriedade pública, encerrando hospitais,
encerrando serviços e privatizando ou contratando foram. De mesmo modo
como o que ouvimos na Libéria e Guiné acerca de terras
públicas serem transferidas como confinamentos
(enclosures)
para proprietários privados do estrangeiro, a mesma coisa está a
acontecer com nossos serviços públicos, nossos hospitais
públicos, nossas instalações públicas também
estão a ser tomadas de certa maneira e dadas a investidores privados em
busca de lucro e isto está a acontecer a uma velocidade
extraordinária na Inglaterra. Mais rapidamente do que em qualquer outro
lugar da Europa. E isto é um importante projecto neoliberal global.
T. Ali: Para privatizar a saúde.
A. Pollock: Bem, para privatizar não só o sistema de cuidados de
saúde mas também em última análise o financiamento.
Agora nos EUA, pouco menos da metade daqueles 18% do PIB é realmente
pago pelo governo mas o governo é com efeito um contribuinte e canaliza
o dinheiro para corporações privadas em busca de lucro. O governo
na Inglaterra aboliu a lei dos cuidados de saúde e sociais porque queria
abrir novos fluxos de financiamento. Assim, quer reduzir o nível de
serviços que estão publicamente disponíveis, criar um
clima de descontentamento com o SNS, forçar pessoas que estão nas
classes médias que, como eu e você, a irem para o privado e
pagarem do seu bolso ou com seguros de saúde, de modo que nós
desertamos, saímos do que resta mas ao mesmo tempo o governo está
a reduzir todos os nossos direitos porque já não há um
dever de proporcionar cuidados universais de saúde. Aquele dever que
tinha estado em vigor desde 1948 foi abolido em 2012. Assim, aquele dever
foi-se e agora o governo pode reduzir todos os direitos, reduzir tudo o que
está disponível e cada vez mais vamos ter de pagar do nosso bolso
ou através de seguros de saúde. E a indústria privada da
saúde está aqui, eles estão aqui na forma dos EUA e
estão a aumentar de velocidade com as novas estruturas que o governo
pôs em prática para mudarmos para os seguros de saúde
privados em busca de lucro, que é o que estamos a assistir.
O novo sistema que o governo está a por em prática é
modelado nos EUA e ele virá com enormes perdas e também
será uma catástrofe para a saúde pública porque
significará que muitos, muitos milhões, cada vez mais
ficarão sem cuidados e naturalmente os mercados tornarão estas
pessoas invisíveis, elas não são vistas. Ninguém
sabe. O médico à sua frente apenas vê o paciente que vem a
ele; ele não vê as muitas dezenas de milhares aos quais esta a ser
negado acesso a cuidados de saúde, razão pela qual nos EUA os
médicos não vão à rua em campanhas. Mas no Reino
Unidos os médicos saem à rua em campanha, eles defendem agora o
National Health Alliance Party, estão a apresentar candidatos para
posicionarem contra os partidos convencionais. E assim se vê que os
médicos ainda estão preparados para combater por cuidados de
saúde universais mas uma vez que o nosso SNS tenha acabado
completamente, tenha sido abolido, quando todos os remanescentes tiverem ido,
você terá de utilizar o paralelo do carvalho, árvore que
parece brotar e florescer mas cujas raízes foram cortadas e pode levar
muitos meses ou anos para acabar completamente. Mas quando se tiver ido os
médicos já não estarão ali. Eles serão como
os médicos nos EUA interessados em si próprios, interessados nos
seus próprios bolsos e não interessados no acesso a cuidados
universais de saúde. E isto é o crime do século, o modo
como a coligação inglesa, tanto de conservadores como de
liberal-democratas, realmente aboliu o SNS mas com um bocado de ajuda do
governo trabalhista antes deles.
T. Ali: Os trabalhistas mais ou menos lançaram a base para isto quando
estiveram no poder.
A. Pollock: Absolutamente. Alan Milburn, o secretário da Saúde,
fez isto em 2000. Em 1997 o governo trabalhista teve oportunidade para reverter
as políticas de privatização e
mercantilização, livrar-se da iniciativa financeira privada e
eles tiveram um secretário de Estado muito bom que estava bastante
determinado a algo assim...
T. Ali: Frank Dobson?
A. Pollock: Frank Dobson. Mas eles livraram-se dele super rapidamente e no seu
lugar puseram Alan Milburn e seus plano de dez anos e agora ele juntou-se
às próprias companhias de cuidados de saúde que ajudar a
construir. E penso que é trágico pois quando a lei para abolir o
SNS estava a tramitar no parlamento muitos dos colegas, e muitos dos deputados,
tinham conflitos de interesse porque eles realmente tinham interesse nas
companhias de cuidados de saúde que eles estavam a estabelecer.
T. Ali: É realmente ultrajante. E o próprio Milburn é um
deles.
A. Pollock: Bem, isto é um travesti de democracia, realmente é
uma absoluta catástrofe porque neste momento, como sabemos, pessoas de
todas as idades, com graves doenças mentais que não podem obter
acesso a cuidados de saúde, pessoas com derrames, pessoas com
doenças crónicas às quais estão cada vez mais a
serem negados cuidados de saúde e eles clamam no deserto, não
são ouvidos porque não há mecanismo colectivos para serem
ouvidos. E os médicos e enfermeiros estão absolutamente em
desespero. Agora temo solução; meus colegas redigiram uma lei de
reinstauração do SNS pela qual esperamos que seja qual for o
partido que vá ao poder eles realmente andarão na sua companhia
para reinstaurar o SNS. De modo que há uma solução, a qual
está redigida, escrita e pronta, que restauraria e reinstauraria o SNS.
T. Ali: Será perfeitamente legítimo fazer enormes lucros a partir
das necessidades básicas de pessoas comuns?
A. Pollock: Sim, das doenças e males das pessoas. Isto começou
com uma indústria farmacêutica e da produção de
vacinas, é perfeitamente aceitável fazer lucros com elas,
então porque agora não deveríamos fazer lucros com a
doenças e os cuidados? Mas naturalmente o SNS na Inglaterra foi
estabelecido para ser redistributivo. É financiado através da
tributação, a qual deve ser progressiva e o dinheiro deve fluir
de acordo com o necessário. Mas o que estamos a começar a ver
agora é que o dinheiro fluirá de acordo com as necessidades dos
accionistas e não dos pacientes, e isso é uma
preocupação muito real. Naturalmente, isto é tudo
questão de vontade política. Tudo pode ser revertido mas é
basicamente político, para a democracia e o povo fazerem com que suas
vozes sejam ouvidas.
T. Ali: É consensual.
10/Outubro/2014
[*]
Allyson Pollock: professor de saúde pública na Queen Mary
University de Londres. Tariq Ali: autor de
The Obama Syndrome.
O original encontra-se em
www.counterpunch.org/2014/10/10/the-origins-of-the-ebola-crisis/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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