As dimensões do inferno
por Alejandro Marcó del Pont
[*]
Nos inícios do ano 1600, uma das maiores preocupações da
Igreja transformou-se na discussão que provocou grande entusiasmo
naquela
época: calcular as dimensões do inferno. Para desenredar
semelhante questão, o presidente da Academia de Florença
propôs o nome daquele que considerava um dos melhores dissertadores do
seu tempo: Galileo Galilei.
Apesar de os resultados desse trabalho não terem grande
importância, alguns condimentos da discussão poderiam muito bem
servir-nos de apoio a este trabalho. É significativo destacar que o
mistério quanto às medidas do inferno fora colocado pela Igreja,
de modo que o número dos seus hóspedes potenciais poderia tornar-se uma
alternativa válida para avaliar as suas dimensões. Ou seja, algo
assim como a incógnita que determine o perímetro para
abrigá-los,
ainda que se encontrem amontoados se faltar espaço.
Tanto a questão dos hóspedes potenciais como a da superfície que
ocupariam
poderiam ser formuladas como problemas contemporâneos. Entretanto,
teríamos que efectuar algumas modificações. Nenhuma das
pessoas que obteria um passaporte imediato para o inferno deveria ser
catalogada como malvada no mundo actual, teria antes de ser classificada como
um típico homem pós-moderno, simpático, light, liberal,
poderoso e infinitamente hipócrita.
O paradoxo está em que aqueles que se encontram actualmente a ocupar um
lugar no inferno não reúnem nenhuma das qualidades descritas
anteriormente: nossos moradores seriam algo assim como os deserdados da
globalização. É provável então que, ainda
que possamos justificar que a vida na terra seja menos aprazível do que
no inferno, aqueles que hoje vivem no abismo terreno alcancem o céu, e
aqueles que desfrutam do paraíso terminem no inferno. Quanto às
magnitudes, a história será outra como veremos.
OS QUE ENTRARAM SEM AUTORIZAÇÃO
No seu último relatório, "Tendências mundiais do
emprego", a Organização Internacional do Trabalho (OIT)
destaca uma série de indicadores que poderiam assemelhar-se à
vida no inferno.
Do total de trabalhadores do mundo, 49,7% (1400 milhões) e 58,7% dos
trabalhadores de países pouco desenvolvidos não chegam a receber
um rendimento diário superior a 2 dólares estadunidenses.
Destes, quase outros 40% (550 milhões) nem sequer alcança o
limiar de 1 dólar, ou seja, o de extrema pobreza. Apesar do crescimento
de 4,7% experimentado pela economia mundial durante o ano 2005, só
14,5 milhões (2,6%) dos mais de 550 milhões de trabalhadores do
mundo em condições de pobreza extrema conseguiram superar a linha
de 1 dólar por dia por pessoa.
Número de pessoas que vivem com menos de US$2 por dia (em milhões)
|
Regiões
|
1981
|
1990
|
1996
|
2001
|
|
Mundo
|
2 450
|
2 654
|
2 674
|
2 735
|
|
África Subsaariana
|
288
|
382
|
447
|
516
|
|
América Latina
|
99
|
125
|
117
|
128
|
|
África Meridional
|
821
|
958
|
1 029
|
1 064
|
|
Ásia Oriental e Pacífico
|
1 170
|
1 116
|
922
|
864
|
|
Europa e Ásia Central
|
20
|
23
|
98
|
93
|
|
Oriente Médio e África do Norte
|
52
|
51
|
61
|
70
|
Fonte: Elaboração própria com base no Banco Mundial.
Segundo as mesmas estimativas, a taxa de desemprego permaneceu inalterada em
6,3 por cento no mundo depois de haver diminuído durante dois anos
consecutivos. O número total de desempregados situou-se na ordem dos
194,9 milhões de pessoas em fins de 2004, um récorde
histórico, mostrando um aumento de 2,2 milhões entre 2003 e 2004
e 50,8 milhões desde o ano 1995.
Evolução do desemprego em %
|
|
1993
|
2000
|
2001
|
2002
|
2003
|
2004
|
2005(*)
|
|
Mundial
|
5,6
|
5,9
|
6,3
|
6,2
|
6,2
|
6,3
|
6 ,3
|
|
América Latina e Caribe
|
6,9
|
10,4
|
10,2
|
11,0
|
10,9
|
10,3
|
9,3
|
|
Ásia Oriental
|
2,2
|
2,5
|
3,0
|
3,1
|
3,3
|
3,7
|
3,7
|
|
Sudeste asiático e Pacífico
|
3,9
|
3,8
|
4,1
|
7,1
|
6,3
|
6,2
|
6,1
|
|
África subsaariana
|
11,0
|
13,7
|
14,0
|
10,8
|
10,9
|
9,9
|
9,7
|
|
Economias em transição
|
6,3
|
13,5
|
12,6
|
9,4
|
9,2
|
9,3
|
9,3
|
|
Economia industrializadas
|
8,0
|
6,2
|
6,4
|
6,8
|
6,8
|
6,8
|
6,7
|
Estranho formato o desta globalização: esta descoberta
concludente inspira-se na infinita obsessão dos países ricos em
despojar da
letargia e na insensatez que une metade da população mundial
à pobreza. Mas apesar dos admiráveis
esforços realizados pelos organismos internacionais que tentam estudar,
re-pensar e guiar as almas descarriladas para as bondades do sistema, algo
não funciona. A pobreza aumenta, os índices de desemprego
multiplicam-se, as doenças agravam-se, o trabalho negro e infantil
reproduzem-se e os rendimentos da população diminuem.
A taxa de crescimento do PIB mundial recuperou-se entre 2000 e 2005,
deixando para trás os magros crescimentos dos anos 90, e mesmo assim as
coisas não melhoram. Se se tomassem os indicadores em geral, só
a China e a Índia teriam contribuído com algo para a magra
distribuição do rendimento mundial. Segundo o relatório
de Berry e Serieux (2002) descrito no relatório da
Situação Social no ano 2005 das Nações Unidas, os
países teriam mantido uma relação estável nos
últimos 50 anos quanto à desigualdade do rendimento e ao consumo.
Mas as tabelas mostradas no relatório não demonstram o mesmo. A
taxa de desigualdade existente no rendimento per capita dos 20 países
mais ricos em relação aos 20 países mais pobre apresenta
uma desigualdade crescente no tempo, assim como um constante aumento do fosso
de rendimentos entre ambos os tipos de países. Os 20 países mais
ricos aumentaram seu rendimento per capita uns 283%, ao passo que os 20 mais
pobres fizeram-no nuns 25%.
Esta tendência verifica-se claramente na tabela a seguir, em que a perda
de participação do rendimento foi invariável
através do tempo em países da África subsaariana,
Médio Oriente e África do Norte, bem como na América
Latina e no Caribe. Enquanto isso, os países de altos rendimentos,
pertencentes ou não à OCDE, mantiveram-se ou aumentaram de forma
considerável sua participação no rendimento per capita.
Esta tendência é uma consequência da
distribuição do rendimento para o interior dos países mais
desiguais. Um exemplo claro são os países do ex bloco
soviético. Tanto na Rússia como no Sudeste da Europa a
desigualdade do rendimento aumentou de 10 a 20 pontos no Coeficiente de Gini,
ou seja, o número de pessoas que viviam na pobreza passou de 14
milhões em 1989 para 147 milhões em 1996. A América
Latina e a África, que historicamente tiveram os maiores níveis
de desigualdade da Terra, não melhoraram seu desempenho, pelo
contrário, agravaram-no.
Na década de 1990, 10% dos lares mais ricos da América Latina
apropriavam-se de 35% a 45% do rendimento, ao passo que aos 40% da
população mais carenciada só cabiam 9% a 15%.
[1]
Rendimento per capita como parte do rendimento médio per capita de
países de altos rendimentos da OCDE (em %)
|
|
1981-85
|
1986-90
|
1991-95
|
1996-00
|
2001
|
|
África Subsaariana
|
3,1%
|
2,5%
|
2,1%
|
2,0%
|
1,9%
|
|
Médio Oriente e África do Norte
|
9,0%
|
7,3%
|
7,1%
|
6,8%
|
6,1%
|
|
Ásia do Sul
|
1,3%
|
1,3%
|
1,4%
|
1,5%
|
1,6%
|
|
Ásia do Leste e Pacífico
|
1,7%
|
1,9%
|
2,5%
|
3,1%
|
3,3%
|
|
América Latina e Caribe
|
16,0%
|
14,2%
|
13,5%
|
13,3%
|
12,8%
|
|
Países de altos rendimentos
|
97,6%
|
97,6%
|
97,9%
|
97,9%
|
97,8%
|
|
Países de altos rendimentos não OCDE
|
45,3%
|
48,2%
|
56,1%
|
60,2
|
59,2%
|
|
Países da OCDE
|
100%
|
100%
|
100%
|
100%
|
100%
|
Fonte: The Inequality Predicament: Report on the World Social Situation 2005;
ONU; OCDE
Bangladesh, Butão, Índia, Maldivas e Paquistão cresceram
numa média superior a 5% ao ano ao passo que Sri Lanka e Nepal cresceram
respectivamente 4,6% e 2,5%. A incidência da pobreza em média
caiu 9% no Bangladesh, 10% na Índia, 11% no Nepal e 6% no Sri Lanka.
Todos estes impressionantes números empalidecem quando se considera que
400 milhões de pessoas de uma população de 1370
milhões na região estão abaixo da linha de pobreza. Ou
seja, uns 30% das pessoas não consegue rendimentos suficientes.
Já passaram uns anos de globalização e alguém
poderia começar a avaliar alguns êxitos que, no dizer dos grandes
países, a nova era da abertura comercial, da
flexibilização laboral e do crescimento económico teria de
ter lançado. Mas, acima de tudo, já podemos começar a
delinear, com a estatística de alguns países, quais serão
as manchas terrenas do inferno.
Alguns tópicos parecem incríveis:
1. Em 1970, a diferença existente entre o rendimento per capita do
país mais rico, EUA, e o país mais pobre, Bangladesh, era de 88
vezes. Em 2004 a diferença entre o Luxemburgo (US$ 62988) e a Serra
Leoa (US$ 548) é de 114 vezes.
2. Que os 10 homens mais ricos do planeta detêm uma fortuna maior do que
o PIB dos 48 países mais pobres da terra.
|
Milionários
|
País
|
Fortuna (US$ milhões)
|
PIB dos 48 países mais pobres (US$ milhões)
|
|
William Gates III
|
EUA
|
45 600
|
Afeganistão (5671); Angola (19492);
Bangladesh (56586); Belice (1093);
Butão (673); Bolívia (8773);
Burkina Faso (4823); Camarões
(14390);
Cabo Verde (984); Chad (4221);
Congo (4324); Djibuti (663);
Eritréia (924); Etiópia (8000);
Gabão (7228); Gâmbia
(415);
Gana (8869); Guiné (3869);
Guiné Bissau (280); Haiti
(3529);
Honduras (7371); Jamaica (8865);
Mali (4862); Moçambique (6085);
Namíbia (5712); Níger (3080);
Ruanda (1845); Serra Leoa (1075);
Sri Lanka (20054); Tanzânia (10851);
Yemen (12834); Zâmbia (5401);
Zimbabwe (4695); Nicarágua (4554)
|
|
Warren Buffett
|
EUA
|
42 900
|
|
Karl Albrecht
|
Alemanha
|
23 000
|
|
Príncipe Alwaleed Bin Talal Alsaud
|
A.Saudita
|
21 500
|
|
Paul Allen
|
EUA
|
21 000
|
|
Alice Walton
|
EUA
|
20 000
|
|
Jim Walton
|
EUA
|
20 000
|
|
S.Robson Walton
|
EUA
|
20 000
|
|
Lilliana Bettencourt
|
França
|
18 800
|
|
TOTAL GERAL
|
|
254 000
|
254 000
|
Fonte: Elaboração própria com base na
Fortune
e no Banco Mundial.
Esta última opção já começa a assinalar
determinados traços. Os países de que estamos a falar acumulam
mais de 9% da população da terra, uns 540 milhões, e
não podem obter um PIB da magnitude da fortuna dos 10 homens mais ricos
do planeta.
Poderíamos construir outra tabela dos mesmos países com dados de
mortalidade infantil ou esperança de vida e perceberíamos que
é uma tendência mundial que se agrava com o decorrer do tempo ao
invés de diminuir, como imaginam os organismos internacionais. Ainda
assim há uma coisa que fica clara na tabela anterior: esta
política económica implementada no mundo parece que é a
favor de alguns em detrimento de outros. Do contrário não
há explicação alguma para o facto de que os 10 homens mais
ricos obtenham os milhões de dólares que obtêm, ao passo
que grande parte da população mundial não tem como viver.
A ESTRUTURA DO INFERNO
Existe uma multiplicidade de fundamentações acerca das virtudes
do investimento directo estrangeiro (IDE) nos países em vias de
desenvolvimento. Atrás destas virtudes, a maioria deles implementou
políticas tendentes a garantir o investimento de companhias
estrangeiras, proporcionando uma atmosfera muito propícia para a sua
entrada mas gerando condições desfavoráveis para a
mão-de-obra, as riquezas naturais e a preservação do meio
ambiente do país receptor.
Mudanças introduzidas na legislação nacional sobre IDE
2000-20004
|
|
2000
|
2001
|
2002
|
2003
|
2004
|
|
Nº de mudanças introduzidas
|
150
|
208
|
248
|
244
|
271
|
|
Mais favoráveis ao IDE
|
147
|
194
|
236
|
220
|
235
|
Fonte: Os investimentos no mundo 2004, UNCTAD.
O relatório das Nações Unidas sobre o Comércio e o
Desenvolvimento expõe claramente (na tabela acima) como os países
pobres lutam denodadamente por seduzir o investimento estrangeiro incorporando
leis que favoreçam a sua entrada, flexibilizando o trabalho e os
salários como mecanismos de estímulo.
Tentar explicar a contradição de receber investimentos vultosos
oferecendo taxas de rentabilidade exageradas e discrecionalidade grotesca em
troca de reduzir de modo exíguo os indicadores de pobreza pareceria um
paradoxo, mas este antagonismo tem a sua explicação.
A globalização criou um imaginário que tem duas faces:
por um lado um mercado livre que implica um universo de comércio
tão amplo como o próprio mundo. Este pressuposto é
válido para as grandes companhias internacionais, mas
inalcançável para a maioria das médias e pequenas empresas
locais. A segunda face da moeda é que o mercado laboral também
é mundial. Ainda que certas regiões do mundo não estejam
"activamente" inseridas na economia mundial, constituem convenientes
"reservas de mão-de-obra barata" que desempenham um importante
papel na regulação dos custos laborais a nível mundial.
Ou seja, a existência de "países reserva" com abundantes
recursos de mão-de-obra barata tende a diminuir os salários e os
custos laborais.
Um mercado laboral tão amplo, um exército mundial de
trabalhadores empobrecidos, combinado com países fornecedores de
recursos naturais, configura uma armação cuja lógica
é intrinsecamente exportadora. Mas este enfoque só pode ter
êxito num número muito reduzido de países ou áreas.
Por outras palavras, nem todos podem ser ganhadores em actividades exportadoras
nas quais todos, em maior ou menor medida, oferecem o mesmo: recursos
naturais, produção primária, manufactura e salários
magros. A competição desapiedada dá-se entre
países pobres.
Por outro lado, este mercado global necessita de certa regras para poder dar
entrada a um produto e para que este seja
competitivo.
Uma delas é a produtividade. A produtividade é a quantidade de
valor que um trabalhador pode produzir dada uma unidade de investimento de
capital. Aceitando que o valor comercial do produto gerado exprime-se como
preço, este tem que ser igual ou se possível menor para que a
produtividade se eleve. Se ocasionalmente o valor monetário do trabalho
aumenta, o quociente entre preço e produto deve sempre tender para a
baixa, de maneira que a produtividade aumente e os benefícios sejam
crescentes.
Esta é uma lógica simples do capitalismo, o sistema mundial
actual desconhece o lucro justo. A regra é:
quanto mais lucro melhor,
mas para que este axioma seja cumprido terá de haver o seu oposto:
quanto mais baixos salários melhor,
uma vez que a combinação de ambos, máximo maior e
mínimo maior, gerará um lucro superior.
Esta lógica continua a sustentar-se nos antigos advogados do
livre-cambismo: Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), os quais
supunham que a mobilidade do capital era natural, assim como a imobilidade do
trabalho. Esta imobilidade poderia ser natural no século XVIII, mas na
era do DVD torna-se menos provável se os estados nacionais não
intervierem com as suas fronteiras.
Que o capital deambule livremente, obtendo lucros de quantos países o
permitirem, não parece ser mal. Mas que o trabalhador migre para os
lugares onde falta trabalho ou onde se encontram os salários mais altos
não é permitido, ainda que não se diga desta maneira. As
fronteiras para os trabalhadores desempenham um papel importante. Sem elas, as
reservas de desocupados, que incluem as disparidades salariais mundiais,
tenderiam a declinar. A existência de contrastes regionais de
salários obriga à existência de uma abertura comercial que
não possa transmitir essa disparidade através do valor do bem.
Ou seja, o trabalhador não pode migrar, mas os produtos com um
ínfimo custo laboral sim.
Mudança na produtividade do trabalho 1992-2003
|
Regiões
|
Taxa de crescimento da produtividade 1993-2003
|
|
Mundo
|
10,9%
|
|
América Latina e Caribe
|
1,2%
|
|
Ásia Oriental
|
75,0%
|
|
Ásia Sul Oriental
|
21,6%
|
|
Ásia Meridional
|
37,9%
|
Fonte: Elaboração própria com dados da OIT e do FMI.
A tabela a seguir apresenta um exemplo preciso de como actua uma parte da
lógica do sistema. Se compararmos o valor da hora de salário nos
EUA no ano 2004 com qualquer dos restantes países verificaremos que as
diferenças de valor são: 68 vezes para a Índias, 51 vezes
para Bangladesh; 43 vezes para o Paquistão e 32 vezes para a China.
Preço em US$ por hora da indústria manufactureira em diferentes
países
|
Anos
|
EUA
|
França
|
México
|
Índia
|
China
|
Paquistão
|
Bangladesh
|
|
1995
|
12,75
|
15,59
|
1,49
|
0,25
|
0,27
|
0,48
|
0,32
|
|
1996
|
12,90
|
15,38
|
1,43
|
0,25
|
0,27
|
0,48
|
0,30
|
|
1997
|
13,26
|
15,83
|
1,62
|
0,19
|
0,27
|
0,34
|
0,21
|
|
1998
|
13,85
|
13,83
|
1,62
|
0,18
|
0.29
|
0,39
|
0,32
|
|
1999
|
14,23
|
13,96
|
1,76
|
0,16
|
0,32
|
0,39
|
0,31
|
|
2000
|
14,75
|
13,59
|
2,09
|
0,16
|
0,36
|
0,29
|
0,30
|
|
2001
|
15,20
|
12,44
|
2,35
|
0,15
|
0,40
|
0,26
|
0,30
|
|
2002
|
15,70
|
13,60
|
2,47
|
0,21
|
0,45
|
0,36
|
0,33
|
|
2003
|
15,74
|
16,79
|
2,31
|
0,23
|
0,50
|
0,38
|
0,34
|
|
2004
|
16,14
|
19,01
|
2,30
|
0,24
|
0,50
|
0,38
|
0,32
|
Fonte: Elaboração própria com base em dados da OIT.
Não é casual que esta diferença se verifique nos
países que receberam as maiores entradas de investimento e tiveram maior
desenvolvimento nos últimos anos. A China, durante 12 anos
consecutivos, ocupou a primeira posição entre os países e
regiões em vias de desenvolvimento. Mais de meio milhão de
empresas de investimento estrangeiro chegaram à China, em sectores que
vão desde a indústria manufactureira, passando pela
infraestrutura, os serviços e o comércio, num montante total de
mais de 600 mil milhões de dólares. Das 500 maiores
multinacionais do mundo, cerca de 450 realizaram investimentos na China, e boa
parte delas estabeleceram neste país seu escritório regional para
a Ásia-Pacífico. Estima-se que dois terços das empresas
estrangeiras implantadas na China conseguiram lucros, e que dois quintos das
multinacionais tiveram lucros superiores à média internacional.
NO INFERNO TRABALHA-SE, NO CÉU CONSOME-SE
Era a hora do pequeno almoço numa aldeia no norte da Tailândia.
Uns quinze homens e mulheres sentaram-se nos bancos para se alimentarem. A
conversação amistosa começou imediatamente. Um
operário calvo e avelhentado mencionou a sua filha de 15 anos,
Darín, e a sua voz ficou comovida quando pronunciou o seu nome. Bela e
elegante, era a esperança dos seus pais. A pergunta não demorou:
Está na escola?
Ah, não, disse o trabalhador, e os seus olhos cintilaram de
emoção. Darín está a trabalhar numa fábrica
em Bangkok. Faz roupa para exportar para a América por US$ 2 de paga
diária, em troca de 9 horas por dia e 6 dias por semana.
[3]
O pai de Darín não considerava que as condições da
sua filha fossem más. Em tal grau que não só considera
isto um bom salário como reza para que ela mantenha o emprego. De
facto, ao mesmo tempo, na fábrica Wellco, que produz ténis para a
Nike, na China, o pagamento por hora é de US$ 0,16, com a
diferença de que a jornada laboral é de 12 horas por dia os 7
dias da semana.
A tabela a seguir apresenta uma amostra das virtudes que o pai de Darín
teria encontrado. A lista das empresas é interminável (pode ser
vista em
www.coopamerica.com
), além disso mostra as reclamações que incidem sobre as
companhias, os atropelos aos direitos humanos, a exploração, a
contaminação, etc.
Este formato costuma ser resumido como "o modelo Wal Mart".
Construído sobre os pilares do livre-câmbio, a flexibilidade
laboral e remunerações mínimas, baseia-se em que o
distribuidor impõe sua lei ao produtor, especialmente nos países
pobres. Por outro lado, a diminuição do seu poder aquisitivo leva
os consumidores aos hipermercados, "que por sua vez baixam os
preços depois de haverem baixado os salários", escreve o
investigador francês Serge Halimi no jornal mensal
Le Monde Diplomatique.
Esta política permite à transnacional oferecer preços mais
baixos que os seus competidores em todos os lugares onde se implanta. Cerca
de cem milhões de estadunidenses respondem a cada semana às
ofertas especiais que se brindam nas gôndolas dos estabelecimentos das
cadeias.
|
Companhia
|
País de produção
|
Horas trabalhadas diárias
|
Valor hora em US$
|
Dias de trabalho por semana
|
Facturação 2005 em milhões
|
|
Apple
|
China e Índia
|
12 - 15
|
1
|
6
|
13 961
|
|
Times Warner Inc
|
China
|
11
|
0,28
|
6
|
43 652
|
|
Disney
|
China, México
|
14/15
|
0,41
|
7
|
315 654
|
|
Bridgestone Firestone
|
Libéria
|
12/14
|
0,12
|
7
|
23 400
|
|
Damler Chrysler
|
México
|
10
|
0,35
|
5
|
117 260
|
|
Nestlé (**)
|
Mali, Costa do Marfim
|
14
|
comida
|
7
|
62 900
|
[*] A companhia tem filiais em outros países. [**] Idem
Fonte: Elaboração própria com base na Co-op America.
O sonho dos preços mais baixos em qualquer produto do mundo
tem graves consequências sociais para os países que intervieram no
processo de romper a inércia do preço do produto. Em geral, o
que se costuma chamar de deslocalização (produzir num país
e consumir em outro) não é senão utilizar um país
como estação de montagem, não de produção,
de maneira a apostar numa quebra do valor do produto através do
preço do trabalho. Ou seja, trabalha-se no subdesenvolvimento e
repartem-se os lucros na Wall Street.
Por isso costuma ser bastante imprecisa a expressão
"made in China",
para dar um exemplo. Sessenta por cento das exportações
chinesas está nas mãos de multinacionais o que obriga a
relativizar os avanços do comércio deste país ou de
qualquer outro que cumpra a mesma função.
A China é o modelo da globalização, da
deslocalização e do crescimento exportador. Muitos até
podem sonhar que os benefícios da inserção no
comércio daquele gigante asiático seria o modelo a seguir para
engrandecer um país. Mas será realmente assim?
Tomando como válida a hipótese de que 60% das
exportações realizadas pela China não pertencem ao seu
país, que a China se beneficie com o comércio não
pareceria ser tão real. Daria antes a sensação de que
são os empresários e os consumidores dos países ricos os
que mais se beneficiam com os baixos custos de produção final de
brinquedos, roupa, produtos electrónicos e outros objectos de uso comum
que inundam os mercados. São as empresas estrangeiras as que ficam com
a maior dos lucros gerados por este comércio. A China fica com os
magros benefícios salariais da globalização, mas
não com os lucros da globalização. Assim acredita
também Dong Tao, economista do UBS de Hong Kong: de uma boneca Barbie
que se vende a 20 dólares a China recebe 35 centavos.
Em 2004 entraram na China investimentos de 60 mil milhões de
dólares, mas segundo a Administração Estatal de
Protecção Ambiental, no transcurso do mesmo ano o país
perdeu 64 mil milhões, ou 3,05% do PIB, devido à
contaminação ambiental ainda que medida de um modo
deficiente. A mesma agência reconhece que
"Devido aos limites tecnológicos, desta vez só podemos
calcular os custos provocados por dez dos 20 tipos de
contaminação do meio ambiente".
As virtudes do crescimento com baixos salários, concentrador e de
montagem não parecem ser a solução nem para o mercado
laboral, nem para minimizar a pobreza e menos ainda para um desenvolvimento
sustentável. O custo da sedução do investimento externo
com preços do trabalho, contaminação e dependência
são altamente superiores aos efémeros números do
crescimento que tanto publicitam as empresas que embolsam os lucros ou ao que
percebem os políticos míopes que compram crescimento acelerado a
curto prazo com consequências impensáveis a longo prazo.
A tabela a seguir reafirma o que foi dito, mostrando como as grandes empresas
detêm a maioria dos seus activos no estrangeiro, vendem no estrangeiro e
os seus trabalhadores são estrangeiros. Mas a realidade mostra que
nenhum dos países nas quais estabelecem as suas filiais saiu da pobreza
ou ascendeu no concerto internacional das nações.
Companhias multinacionais: sua estrutura externa
|
Empresas
|
Países
|
Activos no estrangeiro
|
Vendas
|
Nº de trabalhadores
no estrangeiro
|
|
No estrangeiro
|
Total 2002 (*)
|
Total 2005
|
|
Exxon Mobil
|
EUA
|
64,04%
|
70,30%
|
200.494
|
339.938
|
54,3%
|
|
Royal Dutch Shell Group
|
R. Unido e
P. Baixos
|
64,93%
|
63,69%
|
114.294
|
306.731
|
58,6%
|
|
General Motors
|
EUA
|
28,92%
|
26%
|
183.736
|
193.517
|
58,9%
|
|
General Electric
|
EUA
|
38,49%
|
34,35%
|
131.698
|
157.153
|
47,6%
|
|
Ford Motor
|
EUA
|
55,93%
|
35,29
|
163.420
|
177.210
|
53,7%
|
|
Toyota Motor
|
Japão
|
47,31%
|
56,99%
|
127.113
|
185.805
|
32,2%
|
|
Total ELF
|
França
|
88,87%
|
80.21%
|
96.993
|
152.609
|
56,0%
|
|
Volkswagen
|
Alemanha
|
50%
|
71,95%
|
82.244
|
118.376
|
48,5%
|
|
Chevron Texaco
|
EUA
|
62,33%
|
56,12%
|
98.691
|
189.418
|
56,0%
|
|
Siemens
|
Alemanha
|
61,82%
|
64,93%
|
77.244
|
91.493
|
59,0%
|
(*) As vendas são em milhares de US$ correntes para 2002 e 2005.
Fonte: Elaboração própria com base em dados da UNCTAD e
Fortune.
As empresas compreenderam perfeitamente a lógica destas vantagens
comparativas, mas aparentemente os governos pobres não entenderam as
desvantagens de tão vetusta teoria. Uma exposição
resumida da hipótese lançará luz sobre os preceitos
básicos aos quais fizemos referência neste escrito e
consolidará a ideia central.
As vantagens comparativas são como as estatísticas, podem mostrar
parte da verdade ou ocultar uma grande mentira. A finalidade é que os
países tenderiam a especializar-se nos bens e serviços nos quais
o seu custo comparativo fosse menor. Para chegar a tão simples
divisão dos trabalho internacional devem cumprir-se certos preceitos:
1. Que o país em causa negocie com outro país.
2. O comércio entre um e outro país favoreça ambos.
3. O comércio pode mostrar vantagens perante um bem ou factor de custo
menor.
4. Se se cumprirem os três preceitos anteriores, convirá ao
país especializar-se no bem que tiver um custo menor.
O único inconveniente aqui é que as vantagens dependem dos
níveis salariais dos países que negociam. Se os níveis
salariais forem semelhantes o teorema pode ter alguma validade, mas se os
salários são perfeitamente distintos, então não
só a teoria perde validade como oculta a realidade de um crescimento
desigual.
|
Vantagens comparativas
|
|
Índia produz tecidos
|
Índia produz automóveis
|
EUA produzem tecidos
|
EUA produzem automóveis
|
|
Linha 1
|
Não comercia
|
Produz + consome
|
90
|
60
|
40
|
40
|
|
Linha 2
|
Especializa-se
|
Produz
|
180
|
0
|
0
|
120
|
|
Linha 3
|
|
Comercia
|
-70 exporta
|
+70 importa
|
+70 importa
|
-70 exporta
|
|
Linha 4
|
Comércio + especialização
|
Consome
|
110
|
70
|
70
|
50
|
|
Linha 5
|
Comparação com 1
|
|
20
|
10
|
30
|
10
|
Fonte: Asia Times, Vantagens comparativas: compara exploração; Gernot Kohler
23/Janeiro/2003.
A lógica desta tabela é bastante simples. Na linha 1 os
países não comerciam, pelo que a Índia produz 60 unidades
de automóveis e 90 de tecidos. No caso dos EUA, 40 e 40. Na linha 2,
especializam-se devido ao comércio e aos custos de oportunidade que
há ao produzir um bem em lugar do outro, e a Índia produz 180
unidades de pano e nada de automóveis, ao passo que os EUA produzem
só automóveis. A linha 3 é o comércio; a linha 4
é a dos lucros do comércio e a linha 5 mostra apenas as vantagens
obtidas em comparação com a primeira linha, na qual não
comerciavam.
O problema que apresenta esta simplificação teórica
é que se trata de um comércio de troca, em unidades
físicas de automóveis e pano. O comércio internacional
efectua-se em moeda, dólares, yens, etc, e não em unidades
físicas. Pelo que, para resolver este problema, teremos que atribuir
valores aos produtos. Para isto suporemos que os automóveis valem US$
70 e os tecidos US$ 70, ou seja, o preço por unidade é 1,
recordando
que os valores dos salários e preços devem ser iguais para que a
teoria tenha sentido.
|
|
Índia produz tecidos
|
Tecidos em US$
|
Índia produz autos
|
Autos em US$
|
EUA produzem tecidos
|
Tecidos em US$
|
EUA produzem autos
|
Autos em US$
|
|
|
|
col. 1
|
col. 2
|
col. 3
|
col. 4
|
col. 5
|
col. 6
|
col. 7
|
col. 8
|
|
Linha 1
|
Não comercia
|
90
|
1x90=90
|
60
|
1x60=60
|
40
|
1x40=40
|
40
|
1x40=40
|
|
Linha 2
|
Especializa-se
|
180
|
1x180=180
|
0
|
1x0=0
|
0
|
1x0=0
|
120
|
1x120=120
|
|
Linha 3
|
|
-70 exporta
|
+70 importa
|
|
+70 importa
|
+70 importa
|
|
-70 exporta
|
|
|
Linha 4
|
Comércio + especialização
|
110
|
1x110=110
|
70
|
1x70=70
|
70
|
1x70=70
|
50
|
1x50=50
|
|
Linha 5
|
Comparação com 1
|
20
|
10
|
10
|
|
30
|
|
10
|
|
A única coisa provocada pela reforma da tabela é que, onde
tínhamos 90 unidades físicas de tecidos, agora temos 90
dólares. Do mesmo modo para os EUA, onde antes havia 40 unidades de
automóveis agora há 40 dólares. Ambas as tabelas cumprem,
como se vê, com os preceitos mostrados a princípio: Que comerciar
é melhor do que não fazê-lo, que como produto do
comércio um pode especializar-se, e que ambos os países
obterão vantagens ao fazê-lo.
Resta-nos resolver um problema, o mesmo que temos mostrado durante todo este
texto. Existem países que têm salários altos e outros de
miséria, pelo que esta variável deverá ser incluída
na tabela, ainda que ambos produzam o mesmo que antes. Então, para a
nova tabela teremos o mesmo nível de preços
salários para os EUA = 1, mas para a Índia, por ser como vimos de
salários baixos, reduzilos-emos para 0,50.
|
|
Índia produz tecidos
|
Tecidos em US$
|
Índia produz autos
|
Autos em US$
|
EUA produzem tecidos
|
Tecidos em US$
|
EUA produzem autos
|
Autos em US$
|
|
|
|
col. 1
|
col. 2
|
col. 3
|
col. 4
|
col. 5
|
col. 6
|
col. 7
|
col. 8
|
|
Linha 1
|
Não comercia
|
90
|
0,5x90=45
|
60
|
0,5x60=30
|
40
|
1x40=40
|
40
|
1x40=40
|
|
Linha 2
|
Especializa-se
|
180
|
0,5x180=90
|
0
|
1x0=0
|
0
|
1x0=0
|
120
|
1x120=120
|
|
Linha 3
|
|
-70 exporta
|
+70 importa
|
|
+70 importa
|
+70 importa
|
|
-70 exporta
|
|
|
Linha 4
|
Comércio + especialização
|
40
|
0,5x40=20
|
70
|
1x70=70
|
140
|
0,5x140=70
|
50
|
1x50=50
|
|
Linha 5
|
Comparação com 1
|
-40
|
|
10
|
|
100
|
|
10
|
|
Ou seja, na linha 2 tínhamos 180 unidades físicas de tecidos para
a Índia, mas como é um país de salários baixos ganha
só 90 dólares pelas mesmas 180 unidades de tecidos; 180 x 0,5 =
90, a metade do que ganhava anteriormente. Na terceira linha as coisas,
à primeira vista, continuam iguais: -70 e +70, mas agora os termos de
troca modificaram-se. Os produtos de baixos salários terão
preços baixos e serão exportados pelo país de baixos
salários, ao passo que os produtos de preços altos por altos
salários serão exportados pelos país de altos
salários.
O país que produzia tecidos (Índia), depois da queda dos termos de
troca, só pode consumir 40 unidades de tecidos, enquanto o país
que
não os produz pode consumir 140 unidades. Enquanto os EUA venderá
automóveis à Índia a um preço relativamente alto
para os salários existentes nesse país.
Se se comparar os países antes de comerciarem, na linha 1, os
país produtor de tecidos consumirá 50 unidades físicas
menos que antes de comerciar, ao passo que o país que não os
produz
consumirá 100 unidades mais. Em automóveis ambos
consumirão o mesmo.
1. Portanto, para o país de baixos salários o comércio
pode resultar pior do que não comerciar.
2. Só um lado ganha no comércio. Quando o diferencial salarial
é diferente, o outro lado perde.
3. O livre comércio e a especialização podem conduzir a
desvantagens para um lado.
4. As vantagens comparativas são falsas, o que geram é um
intercâmbio desigual.
Depois desta olhadela ao mundo, as dimensões do inferno pareceriam
fáceis de determinar. O planeta tem 148,94 milhões de
quilómetros de terra e uns 6527 milhões de pessoas, das quais
pelos menos 60% encontra-se em situação delicada. Assim,
chegaríamos ao primeiro cálculo: uns 3950 milhões de
indivíduos fariam parte do inferno. Umas 769 pessoas que reúnem
riqueza de 2645 mil milhões de dólares estariam no céu, se
é que já não o compraram. Eles são os magnatas que
detêm pelo menos US$ 1000 milhões por cabeça. Uns 1512
milhões de seres viveriam em países ricos e outros 1000
milhões formariam a classe média do resto dos países.
Por isso, supomos que uns 114,68 milhões de quilómetros quadrados
seriam parte do inferno, uns 77% da superfície da terra, ao passo que os
restantes 23% seriam parte do céu e do purgatório.
Decididamente, a Terra na sua quase totalidade é um inferno.
Notas
1- The Inequality Predicament: Report on the World Social Situation 2005;
ONU, pg. 54.
2- Os países membros da OCDE são: EUA, Canadá,
México, Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha,
Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Hungria, Itália,
Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Polonia.
3- Nicholas Kristof e Sheryl Wudunn; Two Cheers for Sweatshops, NYT,
24/Setembro/2000.
[*]
Economista, argentino, da KP&M Consultores.
O original encontra-se em
http://www.kpym.com.ar
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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