O déficit da esquerda é organizacional
Para os revolucionários inscritos na tradição marxista
colocam-se atualmente problemas inteiramente novos. Não é a
primeira vez que, nos últimos cento e cinqüenta anos, uma
conjuntura deste tipo se instaura (nem será, talvez, a última).
Mas, certamente, nenhuma das conjunturas anteriores revestiu-se da
dramaticidade com que se apresenta a situação atual.
Com efeito, o exaurimento de
todas
as possibilidades civilizatórias do capital alcança hoje um
nível tal que a manutenção, ainda que seja por uns poucos
decênios, da ordem capitalista implica um grau de violência e
barbarização que tornará inviável a
sobrevivência da humanidade (o desastre ecológico é apenas
um signo, embora crucial, das perspectivas horrorosas que se põem a
médio, senão a curto, prazo). E isto se dá na quadra
histórica, emergente na transição dos anos 1970 aos 1980,
em que o projeto revolucionário fundado em Marx (e, de fato, o processo
revolucionário real que tomou sua primeira forma na
Revolução de Outubro) registrou derrotas históricas de
larga incidência.
Em poucas palavras: nunca foram tão ameaçadoras as perspectivas
imediatas da vida da humanidade e, simultaneamente, nunca o movimento
revolucionário inspirado em Marx viu-se diante de tantas dificuldades.
Precisamente por isto, vale a pena provocar a imaginação com um
breve exercício de polêmica: nosso dos
revolucionários
déficit
não é teórico, é organizacional.
A potencialidade teórica do marxismo
É enorme a bibliografia sobre as crises do marxismo e, sem
prejuízo de observações pertinentes que nela se encontram,
quase toda possui um denominador comum: identifica a crise de uma ou outra
vertente da tradição marxista (que, de fato, é um acervo
ídeo-teórico e político muito diferenciado) com
a crise do marxismo.
Se houve, e de fato houve, uma paralisia no desenvolvimento da
tradição marxista no segundo terço do século XX
aqui, as hipotecas derivadas do stalinismo foram decisivas -, paralisia
que compeliu Lukács a reclamar, nos anos 1960, um "renascimento do
marxismo", o que os anos posteriores a 1970 revelaram foi a crise terminal
de uma vertente particular (certamente relevante) daquela
tradição: o
marxismo-leninismo
oficial, prolongamento do "marxismo vulgar" dominante na Segunda
Internacional.
[1]
Mas, marginalmente ao
marxismo-leninismo
e após a denúncia do "culto à personalidade"
(1956), outras vertentes marxistas se desenvolveram (ou continuaram se
desenvolvendo) e constituíram um acúmulo
ídeoteórico capaz de propiciar um conhecimento social adequado.
Um exame cuidadoso da documentação produzida por marxistas de
diferentes matizes, a partir dos anos 1950, revela a emersão de um
estoque crítico que, depois dos anos 1970, só fez crescer. Ao
contrário do que sustenta o senso comum das ciências sociais
acadêmicas e do que é veiculado pelos meios de
comunicação social, a elaboração teórica de
extração marxista tem se revelado capaz de análises
extremamente corretas (ou seja: validadas pela dinâmica social real) dos
processos histórico-sociais dos últimos trinta anos. Não
é este o lugar para oferecer provas bibliográficas desta
afirmação, mas basta cotejar, por exemplo, a visão da
dinâmica econômico-social do sistema capitalista nos últimos
vinte e cinco anos oferecida por diferentes teóricos marxistas (Mandel,
Mészáros, Chesnais, Husson
et alii
) com aquela traçada pelos apologistas do capital para aquilatar da
atualidade e da atualização da capacidade heurística do
referencial analítico elaborado originalmente por Marx.
É evidente que este efetivo desenvolvimento de vertentes da
tradição marxista está longe de significar que
inúmeros complexos problemáticos, que peculiarizam a atual quadra
histórica, estejam minimamente equacionados
[2]
. Há toda uma série de níveis societários - no
plano da cultura, no espaço da vida cotidiana, no campo das
relações entre ciência e ética, nos domínios
da demografia, da territorialidade etc. em que se acumulam dilemas e
impasses sobre os quais o estoque de conhecimentos é extremamente
assimétrico em comparação à sua magnitude. As
lacunas teóricas existentes são indiscutíveis e não
há por que dissimulá-las.
Mas, ainda aqui, cumpre sublinhar que carências crítico-cognitivas
de monta afetam o conjunto das teorias sociais contemporâneas e
são imensamente mais expressivas no campo dos saberes funcionais
à ordem do capital que, no plano teórico-social, mostra-se
cada vez menos apta a engendrar concepções que resistam às
fortes tendências constitutivas do que Lukács, na esteira de Marx,
designou como "decadência ideológica".
Com estas considerações necessariamente breves e
esquemáticas , o que pretendo ressaltar, com ênfase,
é que as dificuldades com que se defrontam hoje os
revolucionários que se reclamam vinculados à
tradição marxista
não
derivam essencialmente de uma "crise teórica". A
potencialidade teórica da tradição marxista tem resistido
à prova da história.
Teoria e política
Em alguma passagem de seus escritos, P. Togliatti anotou: "quem erra na
análise, erra na ação". A observação
é crucial para os revolucionários (como, aliás, já
o sabia Marx): para aqueles que se propõem como tarefa a
supressão da ordem do capital e a ultrapassagem da sociedade burguesa, o
conhecimento verdadeiro da realidade social é, como Lukács
esclareceu desde 1923, uma questão de vida ou de morte. Isto equivale a
dizer que, para os revolucionários, a formulação de
projetos e o estabelecimento de estratégias no marco das lutas de
classes supõem o máximo conhecimento possível da
dinâmica social concreta.
Esta determinação, que parece incontestável, requer
três notações minimamente convalidadas pela
experiência histórica. A primeira é que tal
determinação diz respeito àqueles que se empenham na
superação da ordem do capital a manutenção e
a gestão desta ordem reclamam, obviamente, conhecimentos e saberes;
entretanto, a natureza destes
pode
ser meramente manipulatória e instrumental; já o empenho exitoso
na desarticulação da sociedade burguesa no rumo das
transformações socialistas
exige
o conhecimento teórico rigoroso da estrutura e da dinâmica da vida
social. Em segundo lugar, ela se refere aos segmentos
dirigentes
dos movimentos revolucionários a elevação do
nível de consciência das massas, sempre potenciado nas lutas e em
especial nas conjunturas revolucionárias, não elimina a efetiva
fronteira distintiva (sempre móvel) entre elas e as suas vanguardas.
Finalmente, é preciso lembrar que
nenhum
processo revolucionário se deflagra contando com um conhecimento
teórico exaustivo e total das suas possibilidades e limites se
assim fosse, certamente a história moderna não registraria
nenhuma revolução.
É necessário acrescentar, porém, que aquela
determinação
quem erra na análise, erra na ação
está longe de significar
que quem acerta na análise tem êxito na ação
revolucionária.
Para os revolucionários, o acerto na análise (vale dizer: um
acúmulo crítico que garanta o máximo conhecimento
possível da realidade social) é
condição necessária
para o êxito da intervenção política,
mas não é condição suficiente.
A política (revolucionária) não se reduz à teoria
(revolucionária) ou, mais exatamente, a política não
é teoria.
Na tradição marxista, foram freqüentes os equívocos
derivados de uma interpretação simplista da decantada
"relação entre teoria e prática", que não
poucas vezes conduziram confundindo
unidade
com
identidade
a desastres simultaneamente teóricos e políticos. Por isto
mesmo, é preciso afirmar com vigor que teoria e política
configuram âmbitos distintos, mesmo que não divorciados, na
totalidade das formas pelos quais os homens e as mulheres procuram compreender
e transformar o mundo. No âmbito da teoria, o conhecimento verdadeiro
é um
fim;
no âmbito da política, o conhecimento é um
meio
[3]
. Na teoria, importa a
verdade;
a política é o campo das
relações de força.
As conexões entre teoria e intervenção política
não são unívocas nem diretas, até porque suas
dinâmicas são estruturalmente diversas - a
temporalidade
da ação política não é a da
elaboração teórica (antes, é reiteradamente
emergencial).
Nada disso aponta no sentido de
subestimar
o peso do conhecimento teórico na intervenção
política revolucionária ao contrário, decorre desta
linha de argumentação a conseqüência da mais exigente
qualificação das vanguardas e de seus representantes mais
destacados, notadamente quando se verifica que, no decurso do tempo, esta
qualificação veio registrando uma curva descendente
[4]
. Mas, sem qualquer concessão a um weberianismo ocasional, se se
constata a existência de "duas vocações", a
teórica (científica) e a política, que não se
excluem, mas que, se não coincidem necessariamente nas mesmas figuras
(como, para citar tipos diversos, em Lênin, Mariátegui, Togliatti,
Cunhal), há que dizer que elas podem articular-se no "intelectual
coletivo" que as vanguardas organizadas devem estruturar.
Esta argumentação, porém, aponta num sentido preciso (e
obviamente polêmico):
não são as lacunas teóricas que estão na raiz das
dificuldades políticas com que se vêem a braços os
revolucionários de inspiração marxista.
A paralisia que enfermou a vertente teórica dominante da
tradição marxista ao tempo do stalinismo (o marxismo-leninismo
oficial), bem como outros esclerosamentos, certamente foi um componente
ponderável a embaraçar o desenvolvimento do movimento
revolucionário que, por outro lado, nunca se reduziu aos
processos de transformação social substantiva direcionados por
vanguardas de corte marxista. O insuficiente conhecimento de que esta
tradição dispõe sobre vários domínios da
vida social contemporânea decerto incide negativamente na
potenciação de vetores revolucionários. Nada disto,
todavia, é o determinante essencial das dificuldades atuais - até
porque, como se referiu, a massa crítica produzida nos últimos
trinta anos, no marco da tradição marxista, está longe de
ser negligenciável. O determinante essencial parece residir na
problemática da organização política dos
revolucionários.
O
déficit
da organização política
A passagem de Lenin é conhecida à exaustão: "sem
teoria revolucionária não pode haver também movimento
revolucionário" mas nem sempre se leva em conta que ela vem
inscrita num texto
(Que fazer?)
em que o futuro líder da Revolução de Outubro
está tematizando, centralmente, o
problema da organização política
. Não me parece adulterar sua tese interpretá-la como exigindo a
referência teórica (que, para ele, estava dada: o marxismo) para
que a organização política (o partido) pudesse direcionar
o processo revolucionário na Rússia czarista - mas a
centralidade, no processo revolucionário, cabe à
organização e à direção política.
Recordemos que o texto lenineano (fundante de um partido
novo
) inscreve-se nas polêmicas que se travaram num arco temporal que pode
ser claramente delimitado: o período que vai do
Bernstein-Debatte
(a segunda metade dos anos 1890) até a elaboração
trotskiana do
Programa de transição
(às vésperas da Segunda Guerra Mundial). Aí se compreendem
a crise da Segunda Internacional, a Revolução de Outubro, o
fracasso da revolução no Ocidente, os giros da Terceira
Internacional, a emersão do fenômeno stalinista etc. As
riquíssimas polêmicas dessas quase quatro décadas tiveram
sempre, explícita ou tacitamente, a centralidade da
organização política (as vanguardas e sua
relação com as massas) como elemento constitutivo. Todos os
confrontos, colisões, divergências etc. expressando decerto
diferenças nas concepções teóricas
relacionavam-se à problemática da organização
política. Elas são nítidas nas formulações
(e práticas) de Kautsky, de R. Luxemburgo, de Lênin e mesmo de
Trótski e Bukharin, apenas para referir os seus protagonistas mais
conhecidos
[5]
. Depois deste período de polêmicas, praticamente não se
introduziu nada de novo nos elementos nelas contidos.
A recorrência a tais polêmicas e, igualmente, às
soluções que nelas foram propostas é, obviamente, de
capital importância para enfrentar as dificuldades atuais. E, sendo
procedente a hipótese com que aqui se trabalha, segundo a qual o
"núcleo duro" dessas dificuldades radica na
problemática da organização política, de tanto
maior relevo se reveste a análise daquelas polêmicas e das
implicações práticas das soluções nelas
aventadas.
Todavia, e este é o ponto que me interessa salientar, a análise
crítica dessa herança do movimento revolucionário,
realizada com o estudo da experiência histórica do período
que lhe corresponde (que tanto condicionou aquela herança quanto foi por
ela modificada), pouco pode contribuir para romper com os nós que
embaraçam hoje a atividade revolucionária. Com certeza, a meu
juízo, essa análise reafirmará seja a indispensabilidade
do máximo conhecimento possível da realidade social, seja a
centralidade da organização
política mas não nos dirá nada acerca das formas
concretas dessa organização nem sobre a sua
articulação com instâncias e sujeitos sociais. Para ser bem
claro:
a análise crítica daquele legado haverá somente de nos
indicar, à exceção dos dois constitutivos acima
mencionados (o conhecimento e a organização política), a
que herança devemos renunciar.
Extrairemos, por exemplo, lições de Rosa Luxemburgo (quando
alertava que a ditadura do proletariado poderia se tornar uma pura e simples
ditadura) e de Trótski (quando denunciava/analisava a
burocratização) mas não extrairemos elementos
positivos
para uma refundação político-organizacional.
De fato, os dois constitutivos que deverão estar presentes para que se
possa promover uma ofensiva socialista expressam os elementos universais do
processo revolucionário conducente à superação da
ordem do capital. Mas a sua particularização conseqüente com
a quadra histórica contemporânea supõe e implica uma
concretização para a qual a experiência passada pouco pode
contribuir. Os problemas inteiramente novos, a que me referi na abertura desta
rápida comunicação, escapam ao âmbito próprio
daquela experiência que, entretanto, permanece ainda como a
referência básica do movimento revolucionário.
Um mundo novo
A constatação pode ser acaciana, mas deve ser repetida: as
transformações societárias que se explicitaram nos
últimos trinta anos configuraram um
mundo novo.
A análise deste mundo revela que a teoria social de Marx é
completamente atual: o modo de produção capitalista, em todas as
diversas formações sociais existentes, obedece à
dinâmica que foi idealmente (teoricamente) reproduzida n'
O capital:
exploração do trabalho, crescimento destrutivo e
autodestrutivo, concentração e centralização de
riqueza e poder, contradições e antagonismos etc., com toda a sua
coorte de conseqüências deletérias no plano
sócio-cultural e humano. A análise marxista do capitalismo
contemporâneo, registrando novos fenômenos e processos e esta
análise vem sendo feita , não infirma nenhuma das
descobertas
estruturais de Marx; mas revela que elas não dão plena conta das
determinações novas desse capitalismo. Esta análise
demonstra que as determinações teóricas de Marx,
estruturalmente válidas, não são, apenas elas, suficientes
para apreender o capitalismo dos nossos dias.
O desenvolvimento recente deste capitalismo introduziu profundas
mutações na sociabilidade própria à sociedade
burguesa. E se não afetou as bases da pertinência de classe (a
propriedade) e se, menos ainda, reduziu a gravitação das lutas de
classes no processo social, alterou substancialmente as modalidades pelas quais
a estrutura e o movimento daquela sociabilidade são tomados pela
consciência de homens e mulheres.
As transformações na vida cotidiana (na constelação
familiar, no espaço da reprodução imediata dos
indivíduos etc.), na distribuição espacial dos
indivíduos e grupos sociais, na organização e na
repartição do tempo de trabalho, no controle do tempo fora do
trabalho, os novos mecanismos de manipulação ideológica,
seus impactos sobre os costumes tudo isto, e muito mais, alterou
qualitativamente as condições de constituição da
consciência da massa dos homens e das mulheres.
É somente a partir da consideração desse
mundo novo
e os traços dele aqui esboçados já se encontram
minimamente estudados que se pode intentar, de modo sério,
encontrar
soluções conducentes à criação de
instrumentos de organização política eficazes para operar
uma ofensiva socialista. Porque, e esta é uma determinação
essencial, se as dificuldades que embaraçam a atividade
revolucionária são notáveis, igualmente notáveis
são as
motivações reais
que permitem a mobilização e a organização de
largos contingentes de homens e mulheres
contra a ordem do capital.
Em todos os quadrantes, do Norte ao Sul, o capitalismo contemporâneo
enfrenta uma insatisfação generalizada e uma resistência
ora difusa, ora ganhando expressões corporativas e particularistas.
Molecularmente, a ordem do capital tem exponenciado os seus coveiros mas
este
movimento real permanece espartilhado nos limites da ordem porque carece de
instâncias universalizadoras.
E estas não serão criadas somente a partir da análise
crítica da experiência anterior do movimento
revolucionário. O
mundo novo
requer, também, invenção.
A invenção de um novo padrão organizacional
Lênin não foi citado por acaso nas páginas anteriores.
Também ele se situa, historicamente, num momento de inflexão do
capitalismo (a emergência do imperialismo) e também para ele se
punha um problema específico: encontrar um instrumento que tornasse
interventiva a referência teórica de Marx. E Lênin
inventou
esse instrumento: o partido
novo.
Cuidemos de evitar mal-entendidos. Lênin de quem, em 1924,
Lukács salientava o realismo e o antiutopismo não inventou
o
partido
arbitrariamente, mediante simples volição individual
(também esta invenção respondia a possibilidades
históricas concretas). Ele não só dispunha de uma
análise concreta
da formação social para a qual dirigia suas energias (recorde-se
O desenvolvimento do capitalismo na Rússia
) e de um substantivo conhecimento das experiências (anteriores e
contemporâneas) dos movimentos revolucionários: incorporava
criticamente os desdobramentos da teoria e da ciência que lhe eram
contemporâneas
[6]
. E mais: assimilava sem preconceitos o que havia de válido na
reflexão alheia, desenvolvia pistas referidas por outrem, inscrevia-se
num debate coletivo e dava formulação rigorosa ao que nele
emergia.
É deste tipo de
invenção
que o movimento socialista revolucionário de inspiração
marxista necessita hoje. O conhecimento da
herança
já referida (de que Lênin é parte importante, mas
não única) é, como sublinhei, indispensável para
realizá-la mas está longe de ser o bastante.
Essencialmente, a invenção de um novo padrão
político-organizacional e a formulação de seus
parâmetros, que permitam direcionar para um processo
revolucionário as generalizadas insatisfações e
resistências em face da ordem do capital será resultado de uma
elaboração coletiva, capaz de incorporar a massa crítica
de que já dispomos sobre o capitalismo contemporâneo e de
apreender as/responder às formas atuais da sociabilidade.
Será uma tarefa muito mais complicada que a realizada por Lênin
devendo conjugar, num registro antes desconhecido, a teoria
revolucionária atualmente acessível com demandas muito
diferenciadas e pulverizadas. Mas é esta mesma conjugação
que poderá unificar (sem
identificar,
com a diluição das suas especificidades) tais demandas,
situando-as numa perspectiva universalizante que supere particularismos e
corporativismos. E trata-se de tarefa factível desde que, aproveitando
as
lições
do passado, deixemos de tomá-las como
exemplos
e este é, como diria o velho Florestan, o buzílis da
questão: a incontornável referência à
herança
não pode hipotecar a experimentação necessária.
Num ensaio de mais de vinte anos, Perry Anderson observava, com a sua conhecida
argúcia, que o chamado
marxismo ocidental
tinha como traço pertinente o nunca haver conseguido vincular-se a
movimentos de massa. Sem exagero, quer-me parecer que, nos dias correntes, o
problema não reside em o marxismo
tout court
estar desvinculado de movimentos de massa o problema está em que
movimentos de massa são raros.
A invenção de um novo padrão de organização
política, se, de um lado, é condicionada pela existência
desses movimentos, de outro pode fomentá-los e torná-los mais
densos.
Não é possível sequer prospectar se e quando uma tal
invenção terá lugar ainda que, para ela, estejam
dados muitos elementos. Mas, salvo grave erro de avaliação,
é possível concluir assegurando que da ultrapassagem deste nosso
déficit organizacional depende, em escala decisiva, a possibilidade de
travar e reverter a barbárie capitalista.
20/Março/2010
1. Tratei desta questão no meu ensaio
Crise do socialismo e ofensiva neoliberal
(S. Paulo: Cortez, 2007).
2. Por exemplo: ainda carecemos de análises suficientemente exaustivas
sobre a crise do "socialismo real" ou do tipo de desenvolvimento
social que se verifica na República Popular da China.
3. É sempre saudável recordar que o esforço teórico
é dinamizado por
dúvidas e perguntas,
ao passo que a direção da atividade política demanda
convicções
(no caso da atividade revolucionária, preferencialmente fundadas em
conhecimento teórico).
4. Uma imagem-limite desse declínio desolador se obtém quando se
confronta o Comitê Central dirigido por Lênin e o Comitê
Central secretariado por Brejnev mas o fenômeno operou
universalmente, quase sem o registro de exceções. E transcendeu o
espaço da política revolucionária: ao passo que G.
Washington lia Rousseau, L. Johnson deleitava-se com o pato Donald.
5. As importantíssimas reflexões de Gramsci pertencem a este rico
período em que a tradição marxista tanto se desenvolveu
entretanto, só se tornaram conhecidas e influentes muito
posteriormente.
6. Ainda que nem sempre tenha sido bem sucedido nesta
interlocução, como o atesta
Materialismo e empirocriticismo.
[*]
Professor titular da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do
Rio de Janeiro.
O original encontra-se em
adrianonascimento.webnode.com.br
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|