Do capitalismo para o socialismo, um processo de transição
por Daniel Vaz de Carvalho
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Se quereis fundar uma Republica tirai ao povo a menor parte possível de
poder e fazei com que ele exerça as funções de que
é capaz.
Louis-Antoine de Saint-Just
Se ao menos tivéssemos tido tempo! Mas o povo não dispõe
senão de uma hora. Que infelicidade se nessa hora não estiver
completamente equipado e pronto para a luta.
Bertholt Brecht, Os dias da Comuna
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1 A SUPERIORIDADE DO SOCIALISMO
Mais cedo do que muitos pensam, mais tarde do que muitos desejaríamos a
transição para o socialismo colocar-se-á na
prática. Assim, como Einstein considerava, a discussão dos temas
do socialismo é um serviço público importante.
[1]
Além disto, no período eleitoral que se aproxima o tema
não pode deixar de estar na ordem do dia sob pena das críticas ao
neoliberalismo e à política de direita não passarem de uma
espécie de neokeynesianismo liberal e não uma alternativa
anticapitalista.
O capitalismo chegou a uma situação em que a grande maioria das
pessoas, os 99%, estão cada vez mais pobres e inseguros, com menos
direitos, enquanto uma minoria de 1% detém 50% da riqueza mundial,
controla a economia, as finanças, a opinião pública, o
poder político, segundo os seus interesses, num regime que apesar da
fachada democrática, não passa de um indisfarçável
totalitarismo. O capitalismo tornou-se incompatível com o crescimento
económico, com o desenvolvimento, com a própria democracia.
Em Portugal a política de direita conduzida nos últimos quatro
anos pelos fundamentalistas de extrema-direita do PSD e CDS, arrastou o
país para uma verdadeira tragédia económica e social que
se traduz no subdesenvolvimento político, económico, cultural e
ideológico.
Para o marxismo, o modo de produção dominante determina a base do
regime económico e social. A história do desenvolvimento das
sociedades é antes de tudo a história dos modos de
produção que se substituem uns aos outros. Tal como o feudalismo
sucedeu ao esclavagismo e o capitalismo ao feudalismo, o socialismo sucede ao
capitalismo como modo de produção mais avançado. A
superioridade do socialismo consiste em que a sociedade se organiza para
satisfazer as necessidades sociais de todos os membros da sociedade.
Se, de acordo com o marxismo, a passagem do capitalismo para o socialismo
representa uma fase mais avançada do progresso da humanidade,
então na passagem de experiências socialistas para o capitalismo
deveremos verificar retrocessos sociais. Ora foi justamente isto que se
verificou.
Após o fim da URSS, no final dos anos 90 o número de pessoas a
viver na pobreza tinha atingido mais de 150 milhões. A economia foi
dominada por grupos do crime organizado e por estrangeiros, regredindo o PIB
para metade da década anterior. Milhões de crianças
sofriam de desnutrição. A esperança de vida dos homens
caiu para 60 anos, praticamente a mesma que cem anos antes.
A regressão civilizacional nos países socialistas foi evidente:
traduzindo-se no continuado aumento da pobreza, dependência
económica, instabilidade social, tornando-se presas do crime organizado,
com todos os seus dramas, e peões das estratégias de guerra do
imperialismo, intimamente ligado à extrema-direita.
Mas não foi só nestes países que a passagem para o
capitalismo representou uma regressão civilizacional. Países que
procuravam vias socialistas, democráticas e populares e exerciam o seu
direito à autodeterminação, na América Latina,
África, Ásia, foram alvos de golpes de Estado patrocinados pelo
imperialismo com o apoio expresso ou tácito da social-democracia. Este
retrocesso produziu catástrofes que se medem por milhões de
vítimas
Golpes de estado, agressões externas, chantagens descritas por John
Perkins, ex-dirigente da empresa CGAST Main Inc. no seu livro
"Confessions of an economic hitman"
[2]
, deram lugar a governos e sistemas corruptos em violação
sistemática dos direitos humanos, mesmo sanguinários, mas
apoiados pelo FMI e BM, praticamente ignorados por ONG de "direitos
humanos", especializadas nos ataques aos países de
orientação socialista ou socializante e popular.
O fim da URSS e do socialismo nos países do leste europeu deu lugar ao
aumento da pobreza e da desigualdade a nível mundial. Atualmente o
neoliberalismo representa uma acentuada regressão civilizacional
empenhando-se na destruição de todas as conquistas do
proletariado e da democracia nas décadas anteriores à
dissolução da URSS. Como diz Paul Roberts, "a
exploração de muitos para poucos é a marca registrada do
Ocidente, uma entidade caduca, corrupta e em colapso.
[3]
O papel da social-democracia/socialismo reformista tem sido o de associar-se ao
neoliberalismo, desmobilizando as camadas populares, fazendo coro na propaganda
antissocialismo e cedendo aos interesses das camadas monopolistas.
2 OS PRECONCEITOS E O "MODELO SOVIÉTICO"
O prestígio da União Soviética, obrigou as forças
do capital a cedências. As forças pró-capitalistas
empenharam-se e empenham-se em denegrir as experiências socialistas. O
capitalismo é apresentado como liberdade e "direitos humanos"
e o socialismo "ditadura de esquerda". Procede-se assim ao
branqueamento dos crimes do capitalismo. Deixemos os próprios falar por
si.
Em Maio de 1996, depois de cinco anos de sanções e
bombardeamentos contra o Iraque, no programa "CBS 60 minutos" foi
feita a seguinte pergunta à embaixadora dos EUA na ONU, Madeline
Albright: "Ouvimos dizer que meio milhão de crianças morreu
(em consequência da política americana contra o Iraque). Valeu a
pena pagar esse preço?" Resposta: "Nós pensamos que
valeu a pena." (vídeo disponível em
http://www.informationclearinghouse.info/ ). O "trabalhista" Tony
Blair disse algo semelhante no parlamento inglês.
Declarou Wayne Smith ex-chefe da secção em Havana dos interesses
dos EUA sob a administração de Reagan: "Democracia e
direitos humanos interessam-nos muito pouco. Utilizamos essas palavras para
esconder os nossos verdadeiros motivos. Se a democracia e os direitos humanos
nos importassem, nossos inimigos seriam a Indonésia, a Turquia, o Peru
ou a Colômbia, por exemplo. Porque a situação em Cuba, em
comparação com esses países e a maioria dos países
do mundo, é paradisíaca."
[4]
Nos EUA há 2,3 milhões de pessoas presas e mais 4,3
milhões em liberdade condicional totalizando cerca de 6,6 milhões
de pessoas condenadas. De longe o líder mundial em colocar o seu povo na
cadeia. Acresce que o número de pessoas mortas pela polícia este
ano já superou as 500.
[5]
Apesar disto, os preconceitos e mentiras antissocialistas fazem uso do alibi do
"comunismo" e "estalinismo". O chamado "modelo
soviético" serve para desviar a discussão sobre o socialismo
e suas formas de transição. É claro que nunca existiu
"comunismo", mas sim países socialistas dirigidos por partidos
comunistas ou afins.
Com o socialismo alcançou-se um nível inédito de
igualdade, segurança, serviços de saúde,
habitação, educação, emprego e cultura para todos
os cidadãos. A produção industrial na Rússia
representava em 1913 cerca de 4% da produção mundial. Em meados
dos anos 70 este indicador elevava-se a 20% na URSS. Um quarto dos cientistas
do mundo trabalhava na URSS. Nenhuma sociedade tinha até então
conseguido em tão curto espaço de tempo níveis de vida,
consumo e segurança para toda a população e sem conhecer
crises económicas.
[6]
Como afirma a "Oposição de Esquerda" ucraniana: a era
Soviética, foi uma era de progresso económico, científico
e espiritual.
Com a perestroika foi posto em prática um projeto para destruir o
socialismo e a URSS. Iakovlev, um dos principais colaboradores de Gorbatchov,
declarou: "enfrentámos a tarefa histórica decisiva de
desmantelar todo um sistema social e económico com todas as
raízes ideológicas económicas e políticas". Na
realidade, eram social-democratas, gente seduzida pelo imperialismo, ansiosa
por se lhe juntar e partilhar as riquezas e o fausto das oligarquias ocidentais
e seus serventuários.
Apesar da intensa propaganda para denegrir o socialismo e a URSS e elogiar os
países capitalistas, "o ocidente", apenas 18% dos
cidadãos era favorável a que se fomentasse a propriedade privada.
Em 1991, num referendo, a esmagadora maioria da população
soviética desejava manter a União. Entre a votação
mais baixa na Ucrânia com 70,3% e as repúblicas da Ásia
Central com 90%, a Rússia pronunciava-se com 71,4%. Tiveram o cuidado de
não o considerar vinculativo
Face á resistência do
Parlamento russo às políticas pró-capitalistas, Ieltsin
ordenou o seu bombardeamento matando e prendendo centenas de deputados e
cidadãos. Nos países capitalistas foi erigido aos píncaros
como um herói da democracia.
Segundo o marxismo, o socialismo não é ainda a sociedade perfeita
permanecem contradições, embora não antagónicas.
Mas foram sociedades (e são) sujeitas à agressão,
sabotagem, conspirações. Os erros e desvios à legalidade e
à democracia existiram e não são escamoteados,
porém as forças do capitalismo deformaram a sua natureza,
ampliaram números da ordem de 1 para 10. Quando os arquivos foram
estudados por anti-soviéticos os números reais
foram escamoteados.
[7]
3 O SOCIALISMO COMO PROCESSO DE TRANSIÇÃO
A passagem do capitalismo ao socialismo corresponde a um processo de
transição. A sua evolução, como em qualquer sistema
complexo, depende não apenas das intervenções efetuadas,
mas das condições iniciais. Assim, os processos de
transição são complexos quanto a ritmos,
estratégias, prioridades e forma de lidar com as
contradições existentes, dado que as leis económicas que
objetivamente persistem na sociedade são as leis do capitalismo.
As leis económicas objetivas não podem ser alteradas por vontade
humana. Segundo o marxismo apenas podem ser alteradas as
condições em que vigoram, melhorando a correspondência
entre as relações de produção e o desenvolvimento
das forças produtivas, permitindo que novas leis surjam, Nisto consiste,
ou deve consistir, basicamente o processo de transição.
Sabemos que esta evolução não é linear, mas um
processo que se estende por largos períodos históricos com
avanços e recuos em que nas fases de transição elementos
do modo de produção anterior permanecem, mesmo quando este
já não é o dominante.
O esquerdismo, as tendências anarquizantes, não o entendem,
assumem um radicalismo de fachada que os defensores da política de
direita usam em seu proveito, muitas vezes como seu próprio disfarce
para impedir o processo de transição. Se o referimos é
porque em Portugal, como em muitos outros países, o voluntarismo, a
irresponsabilidade, foram mascarados com uma retórica inflamada,
colaborando na destruição do processo de
transformações revolucionárias com suas
provocações e excessos pseudo-revolucionários, que
alienaram parte da população, facilitando o caminho para os
golpes da direita.
A via socialista pôs-se com evidência em Portugal nas fases
sequentes ao 25 de ABRIL, como a forma mais adequada de desenvolvimento
económico e social, entendida pela esmagadora maioria da
população e consagrada na Constituição. Embora
só o CDS tenha votado contra, o PS e PPD (PSD), trataram desde logo de a
combater e alterar.
[8]
Apesar da crise capitalista de então, o salário mínimo
nacional foi implementado, o abono de família foi aumentado e passou a
abranger mais crianças, os valores das pensões sociais foram
aumentados; foi implantada a licença de parto; alargado o período
de férias pagas para 30 dias, institui-se o subsídio de Natal;
foi reduzido o horário de trabalho; foram tomadas medidas de ajuda aos
desempregados; foi criado o embrião do Serviço Nacional de
Saúde, etc.
Um relatório da missão da OCDE que se deslocou a Portugal em
dezembro de 1975, viu-se obrigado a dizer: "Portugal goza,
inesperadamente, de boa saúde económica, em
comparação com outros países da OCDE, a experiência
portuguesa não parece muito pior que a média". Não, a
experiência portuguesa era até bem melhor, mas isso era
insuportável para a direita aliada ao PS, ou vice-versa. Compare-se com
os resultados obtidos com a austeridade das troikas interna e externa e a
destruição das estruturas produtivas provocada pelas
políticas de direita.
"Pensamos que um outro capitalismo "de rosto humano" não
é possível. Este sistema tornou-se essencialmente destrutivo para
a humanidade e está condenado. Mas não cairá sem o impulso
das lutas de massas, progressistas, anti sistémicas e convergentes. Este
processo obriga a considerar alternativas de transformação social
pós-capitalistas começando por parar a máquina infernal
acionada pela Alta Finança que regula o mundo por meio da guerra e
instaurar um controlo público e democrático dos
oligopólios bancários e financeiros, a fim de responder às
necessidades dos povos. A referência a Marx parece então
incontornável."
[9]
Em Portugal, o único partido de massas que inscreve o socialismo como
objetivo estratégico é o PCP. Defende uma política
patriótica e de esquerda, de que destacamos recuperar soberania
económica, monetária e jurídica, colocar sob controlo
público os sectores estratégicos (designadamente a banca,
energia, indústrias extrativa e de primeira transformação)
a defesa dos direitos sociais, dos sectores produtivos e serviços
públicos.
Uma política patriótica de esquerda, não é o
socialismo, não é sequer (ainda) o fim do capitalismo, mas
é sem dúvida o princípio do fim do capitalismo monopolista
e do neoliberalismo, isto é, a possibilidade de transição
para o socialismo. Assim, como disse Marx, "se encerra a
pré-história da sociedade humana".
NOTAS
[1]
Porquê o Socialismo?
, Albert Einstein,
[2] John Perkins, Confessions of an economic hitman, A Plum Book, Penguin
Group, 2006. O livro pode ser obtido em
Livros para descarregamento
.
[3] Paul Craig Roberts,
Ukrainians Dispossessed, Americans are next
[4] Wayne Smith,
www.ciponline.org/programs/latin-america-rights-security
[5]
US Debt Clock e Tom Hall e Andre Damon,
US Police Killed Over 500 People This Year
,
[6] Dados e referências sobre URSS e Rússia em "O socialismo
traído", Roger Keeran e Thomas Kenny, Ed. Avante, 2008
[7] Domenico Losurdo,
Um outro olhar sobre Staline
,
[8]
Quem são os amigos do povo
, Vaz de Carvalho,
[9]
La maladie degenerative de l'economie: le neo-clacissisme
, Remy Herrera, Ed. Delga, 2015, 215 p.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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