por Daniel Vaz de Carvalho
"As ideias justas sempre vencerão"
Álvaro Cunhal
1 Acerca do "PREC"
Quando o líder do CDS afirmou que um governo do PS com apoios à
esquerda seria o PREC 2, revelou a estratégia que a direita se
propõe seguir. Para parte da população, da qual a maioria
não seria ainda nascida ou não teria idade para o qualificar
devidamente, o PREC teria sido uma espécie de terrorismo de Estado sob a
égide do PCP.
Não admira que assim seja, é esta a imagem que a
comunicação social passa ou deixa passar. Trata-se do processo de
destruição da memória de que falava Miguel Urbano
Rodrigues.
[1]
Mas o apagamento faz-se mesmo quanto ao que se passou nos últimos
quatro anos.
O dito PREC, Processo Revolucionário em Curso, é usado
através da calúnia, como arma ideológica contra as
forças progressistas. Oculta-se que nesse período foram
estabelecidos direitos laborais e sociais, salário mínimo, o
embrião de serviço nacional de saúde, criados mecanismos
de apoio às PME e de planeamento económico, estabelecida uma
reforma agrária, etc, bases fundamentais para o desenvolvimento do
país, além de que ter sido elaborada uma
Constituição progressista.
Tudo isto face à conspiração da direita, à
sabotagem económica dos monopólios, dos esforços da dita
"extrema-esquerda" objetivamente aliada à direita no combate
às forças que consequentemente defendiam o 25 de ABRIL. Tudo para
desestabilizar o país e afastar largas camadas da
população do que era efetivamente um processo
revolucionário no sentido de alterar as estruturas económicas e
sociais provenientes do fascismo. A batalha da produção proposta
pelo primeiro-ministro Vasco Gonçalves foi ridicularizada. O humor
reacionário fazia campanha pela desinformação e a
boçalidade da extrema-direita.
A direita, aliada à extrema-direita, passou ao terrorismo, algo
completamente omitido. Em Portugal, entre Maio de 1975 e meados de 1977 foram
cometidas quase 600 ações terroristas: bombas, assaltos,
incêndios, espancamentos, atentados a tiro. Mais de uma dezena de mortes,
dezenas de feridos, milhares de pessoas perseguidas, aterrorizadas, às
quais ou às famílias não foi dada qualquer
compensação ou satisfação. Uma muralha do
silêncio e cumplicidades acompanhou os crimes. O PCP e seus aliados do
MDP/CDE foram as principais vítimas.
Com o 25 de ABRIL a direita queria apenas que "alguma coisa mudasse para
ficar tudo na mesma". A simples possibilidade de governos que não
se definissem em função dos interesses dos monopólios e
dos latifundiários, deixava-a exasperada, procedendo a golpes
reacionários e ataques ao regime democrático em
construção. No entanto, só após a derrota da
intentona reacionária do 28 de setembro de 1974 se pode falar em
orientações de esquerda; só após o falhado golpe
militar da direita em 11 de março de 1975 se começa a desenhar
uma via de transição socializante. As
nacionalizações impuseram-se para defender o país e a sua
economia da sabotagem em curso.
2 As estratégias da direita
As ameaças da direita denunciam a fragilidade do seu poder à
revelia dos interesses nacionais e populares. A sua argumentação
baseia-se em conjeturas e cenários que eles próprios ficcionam
para validarem as suas opções e na repetição
exaustiva de ideias falsas.
[2]
Na realidade, uns 90% da informação veicula os conceitos da
direita e grande parte da restante não ia além de uma
equidistância, desmascarada na presente situação.
Além disto, nas entrevistas com personalidades da esquerda as perguntas
não passam, na maioria dos casos, de disfarçadas respostas que a
direita dá às questões. Para impedir que as
políticas de esquerda sejam percetíveis ou criem empatia nos
ouvintes, "moderadores" interrompem com sucessivas perguntas e os
intervenientes da direita começam a falar ao mesmo tempo.
Após a grandiosa manifestação popular dos 100 mil em 6 de
junho, a direita orquestrou uma estratégia com o apoio da
comunicação social controlada e de especialistas de
promoção eleitoral, que fez passar o PSD-CDS de 27 ou 28% nas
sondagens para 38%.
A direita procura juntar sectores do patronato e grandes proprietários
da CAP para promover ações de desestabilização, que
sirvam de argumento para um PR de direita anular as eleições.
Apareceu também um manifesto de 100 empresários muito preocupados
com o investimento tal como depois do 25 de ABRIL. No entanto, nada os
motivou quando as políticas de direita fizeram cair o investimento
(FBCF) para quase metade de 2000 a 2014.
Lança-se a velha calúnia do "partido estalinista"
contra o PCP, partido lutador e fundador da democracia e da
Constituição. "Um partido que até está
presente nas comemorações do 1º de MAIO em Cuba"!
(Helena Matos).
Acusam os partidos à esquerda do PS de "coletivismo" e de ser
contra a "iniciativa privada" quando têm sido, em particular o
PCP, os maiores defensores das MPME, contra os seus verdadeiros inimigos: o
capitalismo monopolista, as políticas de direita.
Miguel Sousa Tavares diz que o "acordo é politicamente abusivo:
seria preciso saber que é esta a vontade dos eleitores do PS para que
não fosse abusivo". A questão não foi posta nos
acordos à direita quando CDS e PSD diziam coisas diferentes em
relação à UE, ou quando no governo rasgaram os seus
programas eleitorais, nem mesmo quanto à aprovação dos
"intocáveis" tratados europeus.
José Rodrigues dos Santos diz "uma coisa que ninguém sabe
é que o fascismo é uma corrente gémea do bolchevismo
comunista" que dá "no caso dos alemães o nazismo".
Num destrambelhado texto no DN, António Barreto fala dos deputados
"inúteis", "preguiçosos" no "circo de S.
Bento".
O reacionarismo não tem outras armas senão a mentira, o
obscurantismo, a calúnia, quando não a estupidez malévola.
O marxismo é um humanismo, herdeiro do que mais avançado e puro
vinha da tradição humanista da Renascença e do iluminismo
do século. XVIII.
A direita vai ao ponto de acusar que um governo do PS apoiado à esquerda
seria um "golpe de Estado". Mas um "golpe de Estado" contra
quê? Contra "a tradição"! De cabeça
perdida, escuda-se nos mais atamancados argumentos com o objetivo de destruir a
hipótese de um governo que corrija alguns dos desmandos da direita no
poder e consequências da austeridade.
A diatribe de P. Portas à saída de Belém, dizendo que
"um governo PS pode ter expressão numérica mas é
ilegítimo", mostra a desorientação da direita que
não consegue articular um raciocínio lógico e ainda menos
conforme à Constituição, que procura tripudiar a seu
contento.
Muito simplesmente a direita não aceita a vontade expressa de 2,7
milhões de eleitores contra as suas políticas não
hesitando em fazer apelos a conflitos das instituições da UE e
outras com um governo que não seja o seu. Para a direita, o acordo do PS
seria contra o voto dos portugueses, ou seja 1 milhão de eleitores
não só não tem direito a ser governo como nem sequer lhes
admitem apoiar um governo! O recurso ao absurdo e o hábito de mentir da
direita tornou-se uma segunda natureza.
3 - Perfil de um PR da direita
Para Cavaco Silva (o PR que ignorava os Lusíadas e confundia a Utopia,
baseada nas descrições de um marinheiro português, com a
Montanha Mágica ou Os Buddenbrook
), inepto, inculto, conflituoso,
como não pode dissolver a assembleia propôs-se ignorar os
resultados.
A audição do PR a banqueiros e economistas alinhados à
direita mostra que no neoliberalismo o que conta não é "um
cidadão um voto", mas "1 euro um voto". O que denuncia
tiques do corporativismo fascista.
O que preocupa o PR não é a pobreza, o desemprego, a
emigração, são os "tratados europeus". Assume-se
não como o PR de todos os portugueses mas como o representante dos
interesses de Bruxelas-Berlim em Portugal, independentemente do que esses
tratados representaram e representam de prejuízo para Portugal.
Os números da pobreza, da estagnação económica, do
endividamento, passam ao lado das elucubrações da direita. No
mesmo sentido, aí está o "bom caminho" que o PSD-CDS
alardeia e os "resultados alcançados" que o PR defende.
Fala nos "cofres cheios" ignorando o endividamento das empresas e
famílias, as penhoras, os 50 mil milhões de euros de aumento da
dívida pública de responsabilidade da direita e o esmagador
serviço de dívida.
O PR que arrogantemente afirmava que "tinha estudado todos os
cenários" da mesma forma que no caso BES?! enreda-se
em audições, como justificação para não
"ter em conta os resultados eleitorais" dando crédito à
bizarra teoria, sem suporte constitucional, do governo "que ganhou as
eleições".
A direita, com o apoio do PR, procurou a cisão no PS e abandonou
fingidos "consensos", pois "não queria governar com o
programa do PS", tendo apenas em vista a submissão do PS a um
governo PSD-CDS. Nesta circunstância o PS deixaria de fazer sentido na
vida nacional. Que espécie de governo "estável" seria o
da direita sem apoio parlamentar? Mas tal não foi incómodo para o
PR.
Ficcionam-se divergências nos acordos para viabilizar um governo PS com
apoios à sua esquerda. Faz-se por esquecer os desentendimentos,
demissões, escândalos, contradições, entre ministros
do PSD e do CDS, que duraram toda a governação até ao
momento em que entraram em pré-campanha eleitoral, com o tempo que o PR
lhes ofereceu.
A direita como não pode promover eleições fraudulentas
como no fascismo salazarista, trata de procurar anula-las, até ter um
resultado que lhes seja favorável. A tão provocatória como
absurda ideia de revisão da Constituição que o permitisse,
destinou-se apenas a exaltar ânimos irracionais numa
população que se procura traumatizar com o agitar de
calúnias.
No entanto, um governo PS apoiado à sua esquerda, será apenas um
governo centro esquerda, mas basta isto para pôr em pânico e
desencadear a ira da direita. Afastar-se dos ditames neoliberais é
então ser radical! Radicalismo não é aumentar a pobreza e
acabar com as funções sociais do Estado: é procurar
reduzir a pobreza e dar algum sentido social à economia,
O desastre que a direita provocou ao país não incomoda o PR cujas
opções ideológicas se evidenciam ignorando as
consequências económicas e sociais e de austeridade. De facto,
para a direita a austeridade não é o problema, é a
solução para salvar a oligarquia monopolista e especuladora!
4 - A tradição da direita
é o que sempre foi
O derradeiro argumento da direita é o da tradição, o que
mostra a fragilidade da sua argumentação. A
tradição da direita são as desigualdades, "lagarta
gorda em terra mesquinha" (Aquilino Ribeiro) com os 25 mais ricos a
deterem quase 10% do RN. Pobreza exposta à caridade que serve para
evitar que os ricos não sejam como os camelos que não passam pelo
fundo da agulha (segundo o Evangelho).
Ter direitos laborais não faz parte da tradição da
direita, tendo sempre de ser reduzidos por prejudicarem a
"competitividade". O argumento é o mesmo desde o século
XIX e os direitos foram arrancados somente através de duras lutas
sindicais e populares.
A tradição da direita é não haver "Estado
Social", por isso comentadores esmeram-se a demonstrar que não
é mais possível existir, de acordo com as "regras
europeias". As regras são para cumprir, as funções
sociais do Estado, não. Educação, saúde, cultura
é para quem pode pagar, quanto aos outros a Igreja católica que
trate deles. É a tradição
A propaganda da direita segue a tradição fascista do
"caminhando para uma vida melhor" (programa da EN) enquanto o
país ficava cada vez mais atrasado e desigual. A tradição
da direita é a emigração forçada em massa, o
PSD/CDS seguiram-na, incentivaram-na
A tradição da direita quanto à liberdade e democracia tem
o mesmo carácter que as "liberdades feudais" que os senhores
da nobreza reclamavam quando eram tomadas medidas a favor dos interesses
populares.
A sua tradição é a das "medidas de
segurança" (em reminiscência do salazarismo) com que querem
tirar direitos constitucionais aos eleitores à esquerda do PS ou
mesmo ao PS se este se inclinar para a esquerda!
A tradição em política é das ideias mais
estúpidas a que a direita se agarrou no seu reacionarismo. Se assim
fosse, Portugal nunca chegaria a ser um país, não lutava pela
independência em 1383-1385, não a recuperaria em 1640 data
que quiseram esquecer nem faria uma Constituição em 1820,
nem derrubaria a ditadura fascista no 25 de ABRIL.
Não, da "tradição" da direita basta. A
verdadeira tradição do país que lutou pela sua
independência, pela liberdade e pelo progresso é e será:
fascismo nunca mais, 25 de ABRIL, sempre!
21/Novembro/2015
[1]
A recuperação da memória na luta dos Povos
, Miguel Urbano Rodrigues,
[2]
Sete ideias falsas instiladas pelo governo PSD-CDS
, João Oliveira,
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.