The Economist:
"A economia do mundo inteiro está em perigo"

por Eduardo Lorien [*]

Publicado em 'The Economist'. O título é, nem mais nem menos, do principal porta-voz jornalístico da burguesia em escala planetária. Sim, foi afirmado por The Economist , referindo-se às conseqüências globais do inevitável estalido da maior bolha imobiliária da história. Segundo a revista, o desinflar da bolha não passará deste ano. O efeito riqueza — provocado pelo aumento do valor das suas casas e que leva os estadunidenses a se endividarem e a gastar — poderia desaparecer, e os consumidores poderiam parar de gastar.

Igualmente, vários analistas internacionais chegaram à conclusão de que também se aproxima um irremediável ajuste dos défices desmedidos nos EUA, tanto em matéria fiscal (o défice público crescente foi de mais de 600 mil milhões de dólares em 2004) como comercial. Ou um ajuste do preço das commodities (matérias-primas) de que também se suspeita. Entre outubro de 2001 e abril de 2005, seu preço aumentou 64%.

Assim, não deixa de ser importante analisar as causas dessa rotunda afirmação de The Economist, fonte de informação qualificada até para o próprio Karl Marx. E isso, em primeiro lugar, porque o Uruguai, como tantos e tantos países dependentes — e como sempre — vai pagar muito duro e caro as conseqüências desses ajustes nas economias imperiais.

Em segundo lugar, porque muitos — além dos tradicionais e conhecidos cipaios — adquiriram um respeito bárbaro pelas receitas dos organismos multilaterais de crédito e pelas perspectivas que nos brindam as economias "desenvolvidas" ou "centrais" ou do "primeiro mundo", eufemismos estes usados para não pronunciar a velha — e mais que nunca vigente — palavra que as caracteriza: imperialistas.

E, em terceiro lugar, porque nos parece que a partir de uma visão de esquerda, do bloco político-social alternativo, este dado que surge das relações de produção capitalista deve estar presente quando fazemos as análises nacionais e/ou regionais e estabelecemos as perspectivas. Não nos afastamos do Uruguai e dos seus problemas, pelo contrário. Mas, além disso, não esquecemos que estas análises têm a ver com coisas muito pontuais que atualmente estamos debatendo no Uruguai. Assim, por exemplo, o economista Jorge Caumont intitulava desta maneira uma nota no suplemento Economia e Mercado de El País: A opção são os Estados Unidos, que segue a outra — e não é por casualidade — intitulada: Abandonemos já o MERCOSUL. O que poderia parafrasear-se em Firmemos já o Tratado de Investimentos [com os EUA].

The Economist está verdadeiramente alarmado — e com razão acrescentamos — pelo que denomina "bolha imobiliária". Observe esta conclusão: "o 'boom' imobiliário mundial é a maior bolha financeira da história. Quanto maior a subida, maior será o declínio, quando este ocorrer... A forma como chegar ao seu fim o auge imobiliário atual poderia marcar o curso que seguirá a economia de todo o mundo nos próximos anos".

O FMI também está alarmado, tanto que em um relatório indicava que uma crise imobiliária afeta o dobro de um "crack" bursátil. A bolha imobiliária substituiu a bursátil, e o menor custo de endividamento fez o resto.

Esclareçamos que a bolha imobiliária não só afeta os Estado Unidos, como também a muitos outros países. É que em vários (por exemplo, Espanha, Grã Bretanha e Holanda) os valores duplicaram desde 1995 e na Irlanda quase triplicaram. Nem a China escapou. A venda de propriedades imobiliárias representa uns 25% do PIB de Pequim e 20% do de Shangai, o que dá a idéia da magnitude do negócio que se está gerando. Mas, ao mesmo tempo, isso está provocando uma alta igualmente espetacular dos preços que se desloca a outros setores. Em Shangai, por exemplo, os preços da moradia sobem em média 20% ao ano desde 2001. O grande investimento que se realiza na China está puxando a economia mundial. O gigante asiático já compra 40% do cimento mundial, 25% do alumínio e entre os 20 e 50% de outras matérias-primas vinculadas ao seu desenvolvimento industrial. The Economist considera que "em sete países desenvolvidos — Espanha, Reino Unido, Holanda, Austrália, Irlanda, Nova Zelândia e EUA — gerou-se uma bolha imobiliária que acabará por sofrer uma correção mediante uma queda dos preços da habitação.

Um longo período de baixas taxas de juros (como o que se deu nos últimos anos) impulsionou a procura de créditos hipotecários e, por fim, de habitações, gerando uma espiral ascendente dos preços de casas e apartamentos, já que a oferta não pôde cobrir esta procura que cresceu muito rápido. Outro elemento que dispara os preços no setor imobiliário são os enormes lucros obtidos pelos países produtores de petróleo, graças à valorização de bruto, os quais costumam ser "reciclados" no setor imobiliário.

"Os tijolos" foram convertidos definitivamente nos EUA e outros países num refúgio para a riqueza das famílias e num ativo interessante para os investidores privados. Isto provocou uma "bolha imobiliária" — ou seja, a onda de aumento nos preços das casas — que fez com que os proprietários se sentissem mais ricos porque suas habitações passaram a ter um valor maior, o que terminou estimulando o consumo.

Tudo isso gerou uma série de conseqüências muito importantes. Vejamos algumas:

   1- O aumento — muito maior que os das casas — da dívida dos núcleos familiares. Por quê? Porque ao aumentarem os preços das habitações os seus proprietários fazem empréstimos hipotecários — muito difundidos ou comuns nos EUA e outros países —, ou seja, dinheiro em espécie que podem gastar. Em suma, os proprietários têm estado a utilizar as suas casas como um caixa eletrônico para sacar dinheiro.

   2- Isto repercutiu fortemente no enorme gasto em consumo (gasto que explica dois terços da economia ianque), o que se relaciona como veremos mais a frente, com o enorme défice comercial dos EUA. Aproveitando o aumento do valor das suas moradias e a diminuição do custo de endividamento, as famílias têm obtido grandes somas a partir do seu patrimônio familiar — seja mediante a venda de habitações, o refinanciamento e as segundas hipotecas — desempenhando assim, com plena satisfação, o papel que lhes fora designado de manter o crescimento do consumo para impulsionar a economia. Entre 2000 e meados de 2003 o aumento dos gastos de consumo reais atingiu os 2,8% anuais, apesar de as retribuições totais reais terem de fato diminuído nesse período.

   3- O aumento sustentado do consumo, graças ao aumento paralelo do endividamento das famílias, havia sido o fator determinante do crescimento do PIB a partir de 2000, limitando o precipitado declínio da economia em 2001, estabilizando-a no inverno de 2001-2002 e, estimulando o crescimento que havia tido lugar desde então. Em termos de contabilidade nacional, o aumento dos gastos de consumo pessoal foi o responsável por quase todo o aumento do PIB verificado entre 2000 e o primeiro semestre de 2003, devendo-se a ele um crescimento de uns 16% acima do que teve efetivamente lugar durante esse período.

   4- Outra conseqüência foi na geração de empregos. The Economist diz que: "40% de todos os empregos gerados nos Estados Unidos desde 2001 são em setores vinculados à habitação, como a construção, os empréstimos imobiliários e as agências imobiliárias".

   5- Alguns peritos acreditam que é a banca comercial, que havia nutrido suas contas de resultados com os refinanciamentos hipotecários, que se vê obrigada a sustentar as taxas da dívida para evitar uma eventual explosão da morosidade que poderia produzir-se caso as taxas de juros a longo prazo seguissem o caminho altista introduzido pelo FED nas taxas de referência.

   6- O crescimento da dívida das famílias, as que puderam aumentar seu endividamento, apesar da desaceleração da economia real, a diminuição do salário real por hora e o aumento do desemprego. As famílias estadunidenses estão altamente endividadas não só devido à habitação. Os dados da Reserva Federal exibem uma dívida total acima dos 35 milhões de milhões (10 12 ) de dólares, uns 450 mil dólares por cada família típica de quatro membros, causada por cartões de crédito, automóveis e outros bens que alcançam níveis recordes (em agosto de 2004). E apareceram novas formas exóticas de financiamento hipotecário que permitiram adquirir mais dinheiro, como os empréstimos "só de juros". Segundo a NAR, uma associação imobiliária estadunidense, 42% de todos os que compraram casa pela primeira vez no ano passado não pagaram a entrada. E para os créditos hipotecários pedem-se cada vez menos comprovantes de emprego e outros documentos de solvência.

Aproveitando a valorização, das suas habitações e a diminuição do custo do endividamento, as famílias puderam obter grandes somas a partir do seu patrimônio familiar — seja mediante a venda de suas moradias, o refinanciamento e as segundas hipotecas — desempenhando dessa maneira com satisfação o papel que lhe fora designado de manter o crescimento do consumo para impulsionar a economia.

   7- Estamos perante um excesso de poupança em escala mundial, que não encontra canais de investimento de envergadura equivalente. As poupanças do mundo, calculadas pelo FMI em 24,9% do PIB, estão muito acima da sua média de longo prazo. Essa nova situação está levando alguns "economistas líderes" a diagnosticarem que o mundo está sob os efeitos de uma super-oferta mundial de poupança (conceito que deverá ser registrado, já que nas últimas semanas foi convertido na fórmula padrão para descrever a atual situação econômica do mundo). Por isso, observa-se "um maior apetite pelo risco", o que acrescenta fragilidades ao sistema financeiro internacional. O que antes era local, agora adquire dimensão global (Steneri). Em palavras mais diretas, estamos no reino dos capitais especulativos. Hoje pululam os Hedge Funds (fundos de derivativo ou, fundos de cobertura), e estão a ponto de obter credenciais de respeitabilidade, quando na realidade são capitais mafiosos que percorrem o planeta como piratas, aumentando todos os riscos próprios ao seu caráter altamente especulativo.

O que aconteceria se estourasse a bolha?

O Fundo Monetário Internacional comparou o efeito de um crack imobiliário frente a um de origem bursátil. Um crack bursátil, definido como uma queda superior a 30% nos preços das ações, "custa" o equivalente a 4% do crescimento do PIB em dois anos. Enquanto que um crack imobiliário, definido como uma queda nos preços superior a 14%, produz danos similares a uma queda de 8% no PIB. E, além disso, seus efeitos duram muito mais: até quatro anos.

Segundo o especialista John Rubino, autor do How to profit from the coming real state bust (Como aproveitar a próxima depressão imobiliária), o valor de todas as habitações nos EUA alcançam os U$S 14 mil milhões, pelo que uma queda nos preços de 20% representaria uma perda de valor próxima aos U$S 3 mil milhões, o que superaria amplamente (em valores e quantidade de pessoas afetadas) à crise das 'ponto com' no ano 2000. Como referência, na Grã Bretanha, em 1992, na oportunidade do último silêncio no setor imobiliário, as moradias perderam até um terço de seu valor.

Para o semanário especializado The Economist, trata-se, sem dúvida, de uma bolha especulativa que se corrigiria com uma caída nos preços de, por exemplo, 50% na Espanha ou 25% na Holanda, para que os rácios destes valores em relação a salários ou aluguéis recuperem o nível médio dos últimos 30 anos.

Atualmente as taxas de juros estão subindo e, então, cai a procura de créditos hipotecários e de habitações, os preços se reduzem e, ao mesmo tempo, cai o consumo, porque as famílias tem de pagar mais pelas hipotecas. Se este processo é pronunciado, o efeito negativo sobre o crescimento econômico pode ser muito importante, porque a perda do poder aquisitivo impacta em cheio no consumo. Por outro lado, o ajuste do déficit fiscal trará como já se anunciou aumentos dos impostos e cortes nos gastos. E para completar o be-a-bá, existe o risco real de que uma baixa dos preços da habitação diminua o consumo (como ocorreu na Holanda em 2003), com repercussões negativas nas exportações de países como China ou Japão. Estes teriam que reduzir seus investimentos nos EUA com efeitos muito perniciosos pela necessidade de investimento que tem este último para favorecer seu déficit de conta corrente (5 mil milhões de dólares por dia).

Conclusões

Não podemos fazer como o avestruz ou pensar que o desenlace inevitável destas contradições não nos afetará. È um fato que, por bem ou por mal, se verá (na terminologia de The Economist ou do FMI), um grande ajuste ou uma grande crise de alcance mundial (na nossa). Se houver dúvida, basta seguir atentamente esta situação através das preocupações de Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal, ou do seu homólogo inglês Mervyn King, do Banco da Inglaterra, ou dos organismos financeiros internacionais ou da imprensa especializada e as dúvidas terminam.

O que fazer então como país pequeno? Atamo-nos ainda mais aos Estado Unidos? (algo assim como a visão uruguaia dos primos carnais de Menem, onde as ataduras econômicas se relacionam indefectivelmente com as políticas e as militares — veja-se o Paraguai), e abandonamos o MERCOSUL, com quer o super-neoliberal Caumont? Ou buscamos a máxima diversificação dos nossos mercados (China, UE, Venezuela, Irã, Índia, países africanos, etc) e tentamos potencializar o MERCOSUL, sem com isso desprezar o dos Estados Unidos (enquanto permaneça, antes de estourar sua bolha imobiliária e ajustar seus enormes déficits paralelos — fiscal e comercial)? E sempre melhorando o mercado interno, minúsculo, um mercado diminuído neoliberalmente (mais de um milhão de pobres, crescente desemprego estrutural e precarização-flexibilização, queda de dois dígitos do salário real, etc), esse mesmo mercado interno que diante de qualquer desastre mundial será — como em tantas outras ocasiões — o refúgio e salvação das mesmíssimas produções exportáveis, que hoje tanto o desprezam.

Esta bolha imobiliária não se verifica no nosso país, já que o desastre de 2001 provocou um ajuste muito importante nos preços dos imóveis. A tal ponto que depois de três anos, somente uma parte do mercado conseguiu recuperar o que foi perdido.

Vista do Uruguai, uma queda pronunciada no poder aquisitivo das famílias dos EUA teria efeitos significativos sobre as exportações para esse país, mas também para outros destinos, em países mais dependentes do mercado estadunidense (como os do sudeste asiático), que inclusive poderiam sofrer severas crises financeiras. No entanto, há que recordar que este problema da bolha não é exclusivo dos EUA, pois também se dá em vários países europeus.

Fica para outra oportunidade analisar se continuamos a ser o quintal do imperialismo — ou seja, se continuamos a inserir-nos perifericamente na economia mundial, totalmente dependente da hegemonia da potência de turno — ou as contradições insanáveis do capitalismo, os limites impostos pelo mesmo, refletidos nos crescentes processos paralelos e mundiais de concentração da riqueza num pólo e da ampliação das camadas afundadas na pobreza, no outro pólo.

[*] Senador pelo Partido Comunista Uruguaio.

O original encoontra-se em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=18394 .
Tradução de Anthus da Geb.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

12/Ago/05