Intelectuais, clérigos e bufões do canibalpitalismo
por Jorge Majfud
[*]
"O egoísmo capitalista resulta, pois, tão solidário
que se assemelha àquele que prega a Bíblia".
(Manual del perfecto idiota, pg. 226)
No prólogo do
Manual del perfecto idiota latinoamericano,
(1996) Mario Vargas Llosa já insistia em que "Mendoza, Montaner e
Vargas Llosa parecem ter chegado nas suas investigações sobre a
idiotice intelectual na América Latina à conclusão
[
] de que o subdesenvolvimento é 'uma doença mental'".
O novelista procura, numa espécie de ditadura monoléctica,
definir 'doença mental' "como [uma] debilidade e covardia frente
à realidade real e como uma propensão neurótica a
evitá-la substituindo-a por uma realidade fictícia". Tudo
devido a "uma incapacidade profunda para discriminar entre verdade e
mentira, entre realidade e ficção". Na campanha eleitoral
que Alberto Fujimori ganhou ao próprio Vargas Llosa em 1990, aquele
reprovou a este ter "uma imaginação de novelista", o
que significava exactamente o mesmo que anos depois o autor deste
prólogo reprova aos latino-americanos como sintoma característico
de uma enfermidade: simplesmente qualificações pessoais
(doença mental, incapacidade, debilidade, covardia, etc), sem
argumentos. Ou seja, isto é verdade porque o digo eu.
Um dos axiomas centrais do Manual consiste em dar a entender (ou crer) que
vivemos naturalmente em sociedades amorosas sobre isto Voltaire
já ironizara , onde não existem poderes de nenhum tipo
interessados na dominação. Os recursos produtivos como o
petróleo, as fontes de sobrevivência como a água, a
multiplicidade de monopólios, a omnipresença da voz dos mais
fortes nos meios de comunicação, a doações
milionários dos bilionários às campanhas eleitorais, tudo,
faz parte de um grande impulso fraterno para compartilhar a graça de
Deus. Criticando os teólogos da libertação, os autores
sustentam a atitude contrária: "O termo 'libertação'
é em si mesmo conflitivo: apela ardorosamente à existência
de um inimigo ao qual há que combater para por os desafortunados em
liberdade". E a seguir: "Será o Deus da justiça
também o Deus da inveja? [
] Os curas da libertação
não notam que o capitalismo acaba por ser o sistema mais
solidário de todos, um mundo onde a caridade [
] é
infinitamente maior que qualquer outro sistema. [
] No capitalismo, todos
colaboram com todos. O egoísmo capitalista resulta, pois, tão
solidário que assemelha-se ao que prega a Bíblia". (Fora do
contexto qualquer um poderia atribuir esta frase a Marx.) Mais adiante, uma
definição à la carte: "o capitalismo é uma
palavra que simplesmente descreve um clima de liberdade no qual todos os
membros de uma comunidade dedicam-se a perseguir voluntariamente os seus
próprios objectivos económicos". Ou seja, Gengis Khan
promoveu o capitalismo na Ásia muito antes dos modernos
narco-traficantes.
Mas um sistema dominante não só precisa negar-se a si
próprio como tal, tornar-se invisível, como também
moralizar acerca da perigosa existência de tudo o que é marginal
no seu próprio centro. A tese de procurar uma causa do
subdesenvolvimento nas faculdades mentais de um grupo ou de um povo definido
como fracassado não menciona, em momento algum, que função
cumpre a tese em si mesma. Ou seja, a quem convém de onde
provém esta catequese ideológica.
Este livro foi citado e recomendado por políticos e presidentes como
Carlos Menem na cimeira da euforia primeiro-mundista que assolou os
países do "continente idiota", pouco antes do desastre
económico e moral de princípios do século. Mas não
é uma novidade e sim uma tradição intelectual que remonta
a Sarmiento ou pelo menos a Alcides Argueda
(Pueblo enfermo,
1909). Só que sem o correspondente mérito histórico e
literário.
Em 1550, para legitimar a exploração e genocídio dos
nativos americanos, também o teólogo Ginés de
Sepúlveda lançou mão da Bíblia. Perante o rei e a
corte que debatiam a justiça ou injustiça da escravidão
denunciada pelo sacerdote Bartolomé de las Casas, Sepúlveda citou
o livro dos Provérbios. Segundo o famoso teólogo, "escrito
está no livro dos Provérbios: 'O que é néscio
servirá o sábio', tais são as gentes bárbaras e
desumanas, alheias à vida civil e aos costumes pacíficos e
será sempre justo e conforme ao direito natural que tais gentes
submetam-se ao império de príncipes e nações mais
cultas e humanas". O próprio Hernán Cortés,
invocando Deus depois de torturar e assassinar a galope aldeias inteiras,
anotava nas suas cartas ao rei que a virtude da sua acção
consistiu em deixar em paz aqueles povos selvagens. Para torná-lo mais
legal, costumava ler-lhes, em castelhano, o comunicado de uma imediata
submissão ao rei de Espanha, do contrário seriam submetidos pela
força. E quando assim faziam, escrevia o herói, os mesmos
caciques que não sabiam uma palavra de castelhano voltavam
a chorar, arrependidos e reconhecendo que a culpa da destruição
das suas aldeias radicava na sua própria estupidez. Por esta
desobediência ao "direito natural", afirmava Sepúlveda,
a guerra empreendida pelo império era uma guerra justa.
Jorge Luís Borges, um intelectual funcional para a sua classe
oligárquica, soube entretanto usar argumentos como recurso
retórico principal. Certa vez recordou uma anedota: numa disputa entre
dois, um deles lançou um copo de água à carta do outro. O
agredido respondeu: "Muito bem; isso foi uma digressão. Agora
espero os seus argumentos". De um ponto de vista filosófico,
talvez seja uma novidade histórica começar por definir o
adversário dialéctico como "idiota" ao invés de
atacar as suas ideias. De um ponto de vista histórico não;
é apenas uma tradição: (des)qualificar o outro para
perpetuar a sua opressão. Estas ideias responsabilizam os oprimidos
pela sua opressão e ao mesmo tempo negam a existência desta.
Legitimam uma ordem herdada de um pesado passado, mas em nome do progresso
material e espiritual futuro.
Segundo Mário Vargas Llosa, a América Latina produziu destacados
artistas, novelistas e pensadores delirantes, "tão faltos de
profundidade e tanto ideólogos em contradição
perpétua com a objectividade histórica e o pragmatismo",
tudo sintoma de idiotice. Faz-se implícito que o único caso em
que um escritor, um novelista latino-americano é capaz de ver a
realidade real e a objectividade histórica, no único caso em que
não estamos perante as observações de outro idiota,
é o seu próprio. Do contrário as suas
afirmações anular-se-iam por si próprias, dada a sua
suposta condição de perfeito idiota.
Não creio em absoluto que Vargas Llosa seja um idiota. É
só parte de uma mesma lógica. Não é por acaso que
ele os intelectuais funcionais condenam a "realidade fictícia"
como produto de uma "doença mental" que impede o aceitar da
"realidade real". Porque realidade é o que existe (o
canibalpitalismo). Portanto, se é difícil criar algo diferente
no interesse de um sistema dominante que cria essa realidade, mais
difícil ainda será fazê-lo se condenamos a liberdade da
imaginação como um atributo da idiotice e do subdesenvolvimento.
Essa mesma imaginação que se venera nos revolucionários e
progressistas utópicos do passado que não se resignaram à
"realidade real" do feudalismo o dos façanhudos negreiros do
século XVIII ou da venda de carne humana nas fábricas do
Progresso.
20/Junho/2007
[*]
Escritor uruguaio, professor de Literatura Latino-americana na Universidade da
Geórgia, Atlanta, EUA.
O original encontra-se em
http://alainet.org
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|