Será que o FMI anexou a Ucrânia?
por Michael Hudson
[*]
entrevistado por Sharmini Peries
SHARMINI PERIES, Produtor Executivo da TRNN: Damos boas vindas à
intervenção de Michael Hudson em The Real News Network.
Foi acordado um cessar-fogo na Ucrânia Oriental, após uma maratona
negocial de 17 horas entre o presidente russo Vladimir Putin e o presidente
ucraniano Petro Poroshenko. Eles foram ladeados por outros líderes
europeus que se mantiveram vigilantes. A Rússia e a Ucrânia podem
ter muitas diferenças, mas o que eles têm em comum é uma
crise económica que se agiganta, com preços do petróleo a
mergulharem do lado russo e uma guerra muito cara com que não contavam
do lado ucraniano.
Para conversar sobre tudo isto está aqui Michael Hudson. Ele é um
distinto professor e investigador de teoria económica da Universidade de
Missouri-Kansas City. O seu próximo livro intitula-se
"Matando o hospedeiro: Como parasitas financeiros e a servidão da
dívida destruíram a economia global" ("Killing the
Host: How Financial Parasites and Debt Bondage Destroyed the Global
Economy").
Michael, obrigado por estar aqui connosco.
MICHAEL HUDSON: É bom estar convosco.
PERIES: Michael, numa entrevista recente publicada na revista
The National Interest
você disse que a maior parte do media cobrem a Rússia como se ela
fosse a maior ameaça à Ucrânia. A história sugere
que o FMI pode ser mais perigoso. O que quis dizer com isso?
HUDSON: Antes de mais nada, os termos com que o FMI concede empréstimos
exigem mais austeridade e uma retirada de todos os subsídios
públicos. A população ucraniana já está
economicamente devastada. A condição que o programa do FMI
estabelece para fazer empréstimos à Ucrânia é que
deve reembolsar as dívidas. Mas ela não tem a capacidade de
pagar. Assim, há apenas um meio para fazer isso e esse meio é o
que o FMI tem dito à Grécia e outros países para aplicar:
Tem de começar a liquidar seja o que for que reste no domínio
público do país; ou seja, fazer os seus principais oligarcas a
tomarem parcerias com investidores americanos ou europeus, de modo a que eles
possam comprar direitos a monopólios na Ucrânia e permitirem a
extracção de renda.
Isto é o ataque duplo padrão do FMI. A pancada número um
é: aqui está o empréstimo para pagar aos seus
accionistas, de modo que agora deve a nós, FMI, a quem não pode
cancelar dívidas. Os termos deste empréstimo seguem o Guia
Ficcional: que você pode pagar a dívida externa obtendo um
excedente orçamental interno, cortando despesa pública e
provocando uma depressão ainda mais profunda.
Esta ideia de que dívidas externas podem ser pagas espremendo receitas
de impostos internos foi contestada por Keynes na década de 1920 ao
discutir as reparações alemãs. (No meu livro
Trade, Development and Foreign Debt
dediquei um capítulo a rever a controvérsia). Não
há desculpa para cometer este erro a não ser que o erro
seja deliberado e esteja destinado a fracassar, de modo a que o FMI possa
então dizer que foi uma surpresa para toda a gente e não é
culpa de ninguém, o seu "programa de
estabilização" desestabilizou ao invés de estabilizar
a economia.
A penalidade por seguir esta teoria económica lixo deve ser paga pela
vítima, não pelo vitimizador. Isto faz parte da estratégia
do FMI de "culpar a vítima".
O FMI lança então a sua pancada Número Dois. Ele diz:
"Ah, você não pode nos pagar? Lamento que as nossas
projecções estivessem tão erradas. Mas você tem de
encontrar algum meio para pagar entregando quaisquer activos que a sua
economia ainda possa ter em mãos internas.
O FMI tem estado errado na Ucrânia anos após ano, quase tantos
quanto tem estado errado na Irlanda ou na Grécia. As suas receitas
são as mesmas daquelas devastadas economias do Terceiro Mundo a partir
da década de 1970.
Assim, o problema agora torna-se apenas um: o que a Ucrânia vai ter de
vender para pagar as dívidas externas incorridas sobretudo para
travar a guerra que devastou a sua economia.
Um activo que investidores estrangeiros querem é a terra agrícola
ucraniana. A Monsanto tem estado a comprar na Ucrânia ou melhor, a
arrendar sua terra, porque a Ucrânia tem uma lei contra a
alienação da sua terra agrícola a estrangeiros. E como
matéria de facto, a sua lei é muitíssimo semelhante
àquela, como informa o
Financial Times,
que a Austrália está a querer fazer para impedir compras
chinesas e americanas de terra agrícola.
[1]
O FMI também insistir em que países devedores desmantelem
regulamentações públicas contra investimento estrangeiro,
bem como regulamentos de protecção ao consumidor e
protecção ambiental. Isto significa que o que aguarda a
Ucrânia é uma política neoliberal que garantidamente
tornará a situação ainda pior.
Nesse sentido, finança é guerra. A finança é a nova
espécie de guerra, a utilização da finança e das
vendas forçadas numa nova espécie de campo de batalha. Isto
não ajudará a Ucrânia. O que promete é levar a mais
uma crise mais adiante, muito rapidamente.
PERIES: Michael, vamos dissecar a dívida nesta crise. A guerra levou a
Ucrânia a uma crise mais profunda. Fale acerca da
devastação que tem provocado e o que eles têm de fazer
além do que o FMI está a tentar impor-lhes.
HUDSON: Quando Kiev foi à guerra contra a Ucrânia Oriental, ela
combatia primariamente a região de mineração de
carvão e a região exportadora. Trinta e oito por cento das
exportações da Ucrânia são para a Rússia. Mas
grande parte desta capacidade exportadora foi bombardeada até deixar de
existir. Além disso, as companhias eléctricas que alimentavam com
electricidade as minas de carvão foram bombardeadas. Assim, a
Ucrânia não pode sequer abastecer-se a si própria com
carvão.
O que é tão gritante acerca de tudo isto é que apenas
algumas semanas atrás, em 28 de Janeiro, Christine Lagarde, a chefe do
FMI, disse que o FMI não faz empréstimos a países que
estão envolvidos em guerra. Isso seria financiar um lado ou o outro. Mas
a Ucrânia está envolvida numa guerra civil. A grande
questão, portanto, é quando o FMI começará a
libertar o empréstimo que tem sido discutido.
Além disso, os artigos do estatuto com o FMI dizem que ele não
pode fazer empréstimos a um país insolvente. Assim, como é
que pode participar de um empréstimo de salvamento à
Ucrânia se, primeiro, o país está em guerra (a qual tem de
cessar totalmente) e, segundo, está insolvente.
A única solução é a Ucrânia reduzir suas
dívidas a investidores privados. E isso significa um bocado de
investidores de hedge funds contestatários. O
Financial Times
de hoje tem um artigo a mostrar que um investigador americano sozinho, Michael
Hasenstab, tem US$7 mil milhões de dívidas da Ucrânia e
quer especular nisso, juntamente com o Templeton Global Bond Fund.
[2]
Como a Ucrânia vai tratar os especuladores? E então, finalmente,
como é que o FMI vai tratar o facto de que o fundo soberano da
Rússia emprestou 3 mil milhões à Ucrânia em
termos fortes através do estabelecido no acordo de Londres que
não pode ser amortizado? Será que o FMI vai insistir para que a
Rússia sofra o mesmo corte
(haircut)
que está a impor sobre os hedge funds? Tudo isto vai ser a
espécie de conflito que vai exigir ainda muito mais esforço do
que as soluções que vimos adoptadas nos últimos dias na
frente de batalha militar.
PERIES: Então, como poderia a Ucrânia imaginar uma saída da
crise?
HUDSON: Ela provavelmente imagina um mundo de sonho na qual sairá da
crise com o Ocidente a dar-lhe US$50 mil milhões e a dizer: aqui
está todo o dinheiro de que precisa, gaste-o como quiser. Esta é
a extensão da sua imaginação. É fantasia,
naturalmente. É viver num mundo de sonho excepto que há
algumas semanas atrás George Soros propôs em
The New York Review of Books
e instou o Congresso e "o Ocidente" a darem US$50 mil milhões
à Ucrânia e encararem isso como um pagamento inicial aos militares
ou à Rússia. Bem, disse Kiev imediatamente, sim, nós
só os gastaremos com armas defensivas. Defenderemos a Ucrânia
até o fim até à Sibéria quando exterminarmos os
russos.
Hoje um editorial do
Financial Times
dizia, sim, damos à Ucrânia os US$50 mil milhões que
Georges Soros pediu.
[3]
Vamos nos habilitar a fim de ter bastante dinheiro para combater a Nova Guerra
Fria da América contra a Rússia. Mas os europeus continentais
dizem: "Espere um minuto. No fim disto, não haverá mais
ucranianos a combater. A guerra pode mesmo propagar-se à Polónia
e alhures, porque se o dinheiro que é dado à Ucrânia
é realmente para o que a administração Obama e Hillary e
Soros estão todos a pressionar ir à guerra com a
Rússia então a Rússia vai dizer: 'OK, se estivermos
a ser atacados por tropas estrangeiras, vamos ter não só de
bombardear as tropas, mas os aeroportos de onde elas estão a vir e as
estações ferroviárias por onde passam. Vamos estender
nossa própria defesa na direcção da Europa'."
Aparentemente há informações de que Putin disse à
Europa: olhe, tem duas opções diante de si. Opção
um: a Europa, Alemanha e Rússia podem ser uma área muito
próspera. Com matérias-primas da Rússia e tecnologia
europeia, podemos ser uma das áreas mais prósperas do mundo. Ou,
opção dois: Você pode ir à guerra connosco e pode
ser liquidada. Faça a sua escolha.
PERIES: Michael, tempos interessantes e complexos na Ucrânia, bem como no
FMI. Obrigado por falar connosco em The Real News Network
14/Fevereiro/2015
Notas
[1] Jamie Smith, "Australia cracks down on foreign farm and property
investors," Financial Times, February 12, 2015.
[2] Elaine Moore, "Contrarian US investor with $7bn of debt stands to lose
most if Kiev imposes haircut," Financial Times, February 12, 2015.
[3] "The west needs to rescue the Ukrainian economy," Financial Times
editorial, February 12, 2015.
Ver também:
O desenlace na Ucrânia (
Ukraine denouement
)
[*]
Professor de Teoria Económica, Universidade do Missouri, Kansas
O original encontra-se em
therealnews.com/...
e em
michael-hudson.com/2015/02/victims-pay/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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