Estará a Turquia a travar guerra à Rússia também na
Crimeia, no Cáucaso e na Ásia Central?
por Ekaterina Blinova
O que se verifica hoje é uma batalha pela dominância global,
travada pelos grandes actores geopolíticos do Ocidente, e o que
está em causa aqui é o futuro do nosso planeta, afirmou à
Sputnik
um anónimo analista estado-unidense conhecido como "The
Saker". Quanto ao Daesh, ele é simplesmente uma arma, acrescentou.
Durante a Conferência das Alterações Climáticas em
Paris (COP21), o presidente russo Putin revelou que Moscovo tem provas
confirmando que o bombardeiro russo Su-24 foi derrubado pela Turquia a fim de
proteger entregas de petróleo do Daesh (ISIL/ISIS), acrescentando que o
petróleo dos campos ocupados pelo Daesh tem sido transferido para a
Turquia numa escala industrial.
Mas será possível que a Turquia esteja a vender petróleo
roubado sem o conhecimento de Washington? Estarão os responsáveis
turcos pelo petróleo contrabandeado a actuar sozinhos ou serão
apoiados por alguns actores influentes do mercado petrolífero?
"As agências de inteligência dos EUA sofrem de muitas
fraquezas, mas a de serem incapazes de rastrear movimentos de dinheiro
não é uma delas", afirma The Saker numa entrevista exclusiva
à
Sputnik.
"Além disso, tanto os EUA como Israel têm uma vasta rede de
agentes na Turquia. Portanto considero extremamente improvável que algum
organismo na Turquia fosse capaz de movimentar grandes quantias de dinheiro sem
que os EUA estivessem plenamente conscientes disso. Considere também que
o Daesh é um objectivo de alta prioridade para agências de
inteligência dos EUA e que suas imensas capacidades de coleccionamento de
dados estão também centradas no lado Daesh da
equação", enfatizou.
"Finalmente", acrescentou The Saker, "a venda ilegal de
petróleo é um elemento menor numa batalha muito mais importante
entre os EUA e a aliança Rússia-Irão-Síria e,
portanto, os EUA nunca permitiriam que isso interferisse com os seus objectivos
maiores".
O analista sublinhou que a corrupção desde há muito tem
sido parte integral do sistema "imperial" estado-unidense.
"Sendo a corrupção uma característica chave do
Império, é normal para o estado profundo dos EUA permitir que os
seus fantoches locais envolvam-se numa lucrativa especulação com
a guerra, mas desde que isto não interfira com a estratégia
global estado-unidense", enfatizou.
Peritos chamam a atenção para o facto de que o derrube do Su-24
poderia ter sido um "acto de vingança" do presidente turco
Erdogan, dado o facto de que a sua família confirmadamente tem estado
envolvida no negócio de contrabando do petróleo do Daesh. Na sua
recente entrevista à Rádio Sputnik, o analista do Médio
Oriente Stanislav Tarasov observou que "a família de Erdogan
está directamente envolvida no incidente" e sugeriu que
"dentro em breve poderíamos ficar a saber que o próprio
presidente Erdogan está directamente ligado ao ISIL".
Mas foi o derrube do bombardeiro Su-24 pelo caça F-16 turco uma
operação "lobo solitário" ou um
acção planeada antecipadamente coordenada pela NATO e por
Washington? Se assim for, que objectivo a NATO/Washington tinha em mente?
"O derrube do SU-24 foi definitivamente uma grande e cuidadosamente
planeada operação de emboscada que envolveu um grande
número de F-16 turcos [sendo] constantemente mantidos no ar em
posições de alerta. A noção de que os americanos
não sabiam acerca disto tudo é ridícula",
pormenorizou The Saker.
"Isto foi sem dúvida um acto de guerra dos EUA e da NATO, mas
executado de uma tal maneira que proporcionasse aos culpados reais algum grau
de negabilidade plausível. A esperança era que a Rússia
super-reagisse e disparasse uma confrontação directa cuja culpa
pudesse ser atribuída a ela própria. É preciso ter em
mente que a força russa na Síria é muito pequena e que
é vulnerável. Mesmo com mais de 60 aviões de combate e
S-400s, a força russa é muito mais pequena do que a força
aérea turca, a qual tem bem mais de 200 F-16s. Os EUA estão agora
a utilizar esta vulnerabilidade para provocar a Rússia", afirmou o
analista à
Sputnik.
The Saker observou que os próprios turcos têm violado o
espaço aéreo sírio, e especialmente, o grego centenas de
vezes "e não apenas por 17 segundos". No rastro do incidente,
Ancara sugeriu que a alegada intrusão do SU-24 russo no espaço
aéreo turco havia perdurado uns meros 17 segundos.
"O próprio facto de que eles realmente utilizaram esta desculpa dos
'17 segundos' é em si mesmo uma clara provocação,
destinada a humilhar a Rússia e disparar uma
super-reacção. Graças a Deus Putin e o Kremlin não
morderam este isco", sublinhou The Saker.
Bastante curiosamente, o incidente no espaço aéreo sírio
foi precedido por um acto de sabotagem na Ucrânia: em 20 de Novembro
sabotadores não identificados explodiram na Ucrânia a principal
linha de transporte de electricidade para a Crimeia; activistas tártaros
da Crimeia impediram o acesso à linha derrubada. Dados os laços
estreitos entre Ancara e os tártaros da Crimeia (o primeiro-ministro
turco Ahmet Davutoglu é confirmadamente, ele próprio, descendente
de tártaros da Crimeia), levanta-se a questão de saber se as duas
acções estiveram de alguma forma conectadas.
"Não tenho informação que mostrem quaisquer
ligações, mas o que é claro é que a Turquia
está a travar a sua própria mini-guerra de influência
contra a Rússia, não só na Crimeia mas também no
Cáucaso e na Ásia Central", disse The Saker à
Sputnik
ao comentar a questão.
"O 'estado profundo' turco parece ser dominado por uma ideologia imperial
revanchista tão lunática e perigosa quando a ideologia wahabista
do Daesh & Co. Erdogan aparentemente quer restabelecer alguma espécie de
Grande Império Otomano versão 2 e, para ele, a Rússia
é o maior obstáculo. Eis porque a Turquia é tão
preciosa para os EUA ela é dirigida por maníacos iludidos
tão perigosos quanto os nazis em Kiev ou as fantasias wahabistas do
Daesh. É com isto que a Rússia está hoje confrontada
uma guerra do Império Anglo-Sionista travada por meio de
vários poderes regionais cheios de ódio os quais são
utilizados pelos EUA para desestabilizar a Rússia e seus aliados",
sublinhou o analista.
Notavelmente, em 2001, o então modesto académico Dr. Ahmet
Davutoglu publicou um livro intitulado "Profundidade
estratégica"
("Strategic Depth").
Nele Davutoglu sugeriu que a Turquia possuía uma "profundidade
estratégica" devido à sua posição
histórica e geográfica. Aquele que viria a ser primeiro-ministro
turco argumentava que a Turquia deveria simultaneamente exercer sua
influência no Médio Oriente, na região balcânica, no
Cáucaso e na Ásia Central, bem como nas zonas do Cáspio,
Mediterrâneo de Mar Negro. Segundo Davutoglu, a Turquia deveria
restabelecer seu papel como actor global, não apenas como uma
potência regional. Em certo sentido, Davotoglu encarava o colapso da
União Soviética como uma oportunidade histórica para a
Turquia expandir sua influência na região do Cáucaso e na
Ásia Central.
E aqui entra o Daesh...
Dado o facto de que o ISIL foi criado e alimentado por um certo número
de estados e doadores privados, quais os actores geopolíticos que
resistem às tentativas da Rússia para erradicar o terrorismo na
região e preservar a soberania da Síria? Estará a
Rússia a confrontar-se com um bando de terroristas alimentados por
xeques sauditas e qataris ou com algumas bem organizadas
organizações multinacionais?
"Quanto ao Daesh, ele é simplesmente uma 'arma' utilizada pelo
Império [estado-unidense] para destruir seus oponentes. Não
existe tal coisa como 'terrorismo' por conta própria, ele é
sempre uma arma utilizada por um ou vários estados actores",
explicou The Saker.
"Os xeques que mencionou são apenas peões nas mãos do
'estado profundo' que dirige o Império Anglo-Sionista e eles
próprios têm apenas uma influência local. Portanto, os
sauditas ou os qataris são grandes actores na Síria, mas
já ao nível de Médio Oriente eles são muito menos
poderosos do que, digamos, os turcos ou os israelenses. E se bem que possam
actuar como 'doares privados' desta ou daquelas facção do
Daesh/al-Qaes, podem fazê-lo desde que os americanos o tolerem.
Alguém poderia dizer que os xeques locais são fantoches
influentes ou mesmo poderosos, mas fundamentalmente eles ainda permanecem
fantoches", afirmou aquele analista militar a
Sputnik.
Entretanto, ele afirma que isto é apenas o topo do iceberg; a
situação em geral é muito mais grave.
"O que se está hoje a verificar é uma guerra mundial. Por um
lado, o chamado "Ocidente" (o Império dos EUA) e por outro o
que chamo a "Resistência", isto é, a Rússia,
China, os BRICS, os países do Acordo de Cooperação de
Shangai, a América Latina, etc. O que está em causa aqui é
o futuro do nosso planeta: ou ele será dominado por um único
Poder Hegemónico mundial ou será organizado como um mundo
multi-polar. Os acontecimentos no Médio Oriente são apenas uma
"frente" nesta guerra à escala mundial, e a guerra na
Síria apenas uma "batalha" na "frente" do
Médio Oriente", concluiu The Saker.
01/Dezembro/2015
O original encontra-se em
sputniknews.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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