A voz do dono torna a censura obsoleta
por Manuel Augusto Araújo
[*]
A cada esquina da comunicação social está reservada uma
surpresa. A última foi ler a carta de princípios
"Pela Liberdade de informação"
, subscrita pelos directores editoriais dos principais jornais, revistas,
rádios televisões de informação geral, provocada
pela alteração da lei sobre a cobertura jornalística das
campanhas eleitorais.
A lei é um completo disparate. Assim que foi conhecida, a sua morte foi
anunciada. A indignação que provocou nos meios
jornalísticos, agora consubstanciada nessa carta, figura uma defesa
implacável da liberdade de imprensa. Na realidade deveria provocar uma
imensa indignação pela hipocrisia, o cinismo dos senhores
directores entrincheirados em tiradas grandiloquentes
"o direito à informação deve ser salvaguardado, com
respeitados princípios da liberdade, independência e
imparcialidade dos órgãos de comunicação social e
dos jornalistas face a todas as forças políticas e a todas as
candidaturas"
ou
" a cobertura jornalística da campanha eleitoral deve ter a
ponderação entre o principio da não
discriminação das candidaturas e a autonomia e liberdade
editorial dos órgãos de comunicação social".
Perigosamente já pouco revolta essa verborreia, eivada de tamanha doblez
e desplante, depois de anos e anos de convivência com uma
comunicação social estipendiada aos interesses económicos
dominantes, que usam o direito à informação, os
princípios da liberdade, independência e imparcialidade, os
princípios da não discriminação enquadrados pela
autonomia liberdade editorial, como balizas para impor um ambiente geral de
propaganda, de terror ideológico totalitário que substituiu os
visíveis actos censórios, a violência autoritária da
censura nop fascismo, por uma quase invísível mas omnipresente
fina e sofisticada rede que filtra toda a informação, instalando,
tanto a nível nacional como mundial, uma colossal máquina de
guerra, poderosíssima e eficaz, que controla e manipula a
informação. Diariamente, o mundo é bombardeado por
mentiras propaladas por essa gente que se apresenta, como se pode ler na
referida carta, como os cruzados na defesa desse bem universal que é a
informação.
Na verdade são a tropa de choque, os mercenários do poder da
classe dominante!
Em Portugal, depois do 25 de Abril, a recuperação capitalista
sempre andou de mãos dadas com os media. A normalidade era/é um
namoro intenso mas aparentando algum pudor, nas situações mais
limite rebolam-se em orgias que fariam Sade ficar roxo de inveja. O estado
actual da comunicação social, afinada pelo mesmo diapasão,
procura dar uma imagem de diversidade bem retratada na variedade dos directores
editoriais que subscreveram a carta. Assustadoramente essa diversidade, essa
variedade só existe de facto na diferença entre as gravatas, no
resto estão/são completamente formatados. Essa
situação começou a desenhar-se logo a seguir ao 25 de
Abril, num tempo em que o pluralismo era dominante. Agrava-se a partir do 25 de
Novembro mas é na década de 80 que se aprofunda com um movimento
de concentração da propriedade da imprensa, rádio,
televisão e informação on-line. Movimento que ainda
não acabou e que é paralelo ao da recuperação
capitalista.
As diferenças entre órgãos de comunicação
mais sérios ou mais populares são variações de
estilo, variantes do mesmo estado das coisas. Biombos que, quando retirados,
mostram uma obscena uniformidade. Uniformidade que se estende das peças
jornalísticas às de opinião, com os comentadores
escolhidos a dedo. Aqui, há que fazer uma nota às
condições de trabalho dos jornalistas que se degradaram e
continuam a degradar brutalmente. Precariedade, despedimentos,
utilização de trabalho dos estagiários gratuito ou quase,
a porta da rua sempre aberta, imposição de critérios
editoriais condicionados aos interesses dos patrões, os partidos dos
patrões, do absolutismo do pensamento dominante, retiraram e retiram,
progressivamente, a autonomia jornalística. A autonomia e liberdade
editorial, tão altissonantemente proclamada na carta, é a mesma
que ao longo dos anos foi utilizada e continua a ser utilizada para discriminar
ostensivamente forças políticas e sociais. Basta fazer o computo,
sem sequer ser preciso descer ao pormenor do conteúdo ou do relevo que
tiveram, do número e dimensão das notícias, entre os
diversos partidos políticos e forças sindicais nos últimos
40 anos. Um critério simples, representação parlamentar
/noticias ou implantação social/notícias, faria a
radiografia devastadora da ausência de imparcialidade e
independência dos meios de comunicação social. A seriedade
ficaria reduzida a uma farsa patética compulsando outras
notícias. Por exemplo, o modo como a banca, BPN, BPP e BES, seus
administradores e accionistas principais eram tratados pelos media até
rebentar os escândalos que obrigaram mudar de rumo, mesmo
assim
muita benevolência escorre. Se nos aventurarmos pelos
noticiários dos acontecimentos internacionais é arrepiante
assistir ao modo como participam nas manobras de desestabilização
e depois na consolidação dessa desestabilização, em
consonância com os grandes interesses imperialistas. São uns dos
pilares dessa política agressiva. Jugoslávia, Iraque,
Síria, Primaveras Árabes, Ucrânia, Brasil, México,
Hong-Kong, para referir os mais recentes, são um espectáculo
abominável de mentiras, meias-verdades, omissões,
distorções, manipulações, todo um arsenal de
construção de uma ideia, a mais das vezes nem sequer tem nada a
ver com a realidade. Fabricam realidades para, sem olhar a meios, atingir os
objectivos do império dominado pelo grande capital. Imagine-se um
cenário com um acontecimento recente: como seriam as notícias de
Baltimore, se Baltimore em vez de se localizar nos Estados Unidos, fosse na
Rússia, na China, em Cuba, na Venezuela ou mesmo no Brasil ou na
Argentina. Como Baltimore seria diferente se estivesse localizado na
Ucrânia/Kiev ou na Ucrânia/Donestk.
Numa nota rápida simplificações e
generalizações são inevitáveis e a
simplificação mais manifesta é a de referir os jornalistas
como uma abstracção. Mas as inevitáveis
simplificações e generalizações não iludem
nem podem ser usadas para desvalorizar a leitura deste quadro bem veraz e negro
de uma comunicação social que é essencialmente uma
máquina de propaganda e de desinformação. De uma
comunicação social que é um dos três poderes, os
outros são o poder económico-financeiro e o poder
político, que ocupa lugar central no controle e influência das
opiniões e dos comportamentos. De uma comunicação social
onde a concentração dos meios de propriedade é espelho da
concentração dos grupos económico-financeiros.
Comunicação social ao serviço de uma ideologia em que os
partidos políticos do chamado arco da governação se
indiferenciam, só se distinguindo na competição eleitoral.
Comunicação social que é o suporte da imagem desses
partidos, que são de facto instrumentos ao serviço de
determinados interesses económicos que representam no aparelho de
Estado. Interesses económicos que dominam e são os
proprietários dos meios de comunicação social. Um caldo de
cultura corrupto, degradante, onde se alimenta o parasitismo ideológico
dominante.
Comunicação social que é um aparelho de propaganda que
faria inveja a Goebbels, pela sofisticação, pela eficácia,
por ser muito mais difícil de descodificar o que a torna
muitíssimo mais perversa. Travestindo, mascarando a permanente
propaganda que emite, nos mais diversos e complexos registos, com a finalidade
última de procurar transformar os seus consumidores, mesmo os mais
lúcidos, em replicadores das mensagens emitidas como se fossem
elaboradas com liberdade, independência, imparcialidade, sempre com
autonomia e sem discriminações.
A comédia, o embuste é diário, corre hora a hora e os seus
protagonistas são gente da mais desencabulada, capaz de todas as
traficâncias, tripudiando em nome da liberdade a liberdade que lhes
é conferida, para que da mesa do poder continuem a cair as migalhas que
lhes pagam, generosamente, os serviços. As, raríssimas,
excepções confirmam a omnipresença da regra.
03/Maio/2015
O original encontra-se em
pracadobocage.wordpress.com/...
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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