Uma História contemporânea de Portugal
(segundo um moderno cronista da Corte)

por João Varela Gomes [*]

'História de Portugal'. O meu interesse primordial [nesta obra (1) ] visava, obviamente, a III Parte. Em especial, procurava saber como o seu autor – Rui Ramos (RR), historiador já formado em liberdade democrática – iria descrever/analisar um período histórico que envolveu a nossa vida, a geração precedente e determina a dos nossos filhos. Daquilo que de RR tinha lido, colhi a ideia de ser um intelectual competente no seu ofício e de mentalidade aberta. Para maior curiosidade, confessava-se homem de direita (no jornal Público, onde colabora). Estaria na presença de uma avis rara?

Relanceando a partir dos capítulos VI e VII da III Parte, respeitantes à I República Democrática (1910/1926), desde logo se pode notar que RR admite a tese do "bambúrrio" (do feliz acaso), muito cara aos monárquicos e restantes vencidos, como explicativa do triunfo dos republicanos a 5 de Outubro de 1910. Uma vitória pouco participada, diz. Sem apoio popular significativo; para, mais adiante, vir a admitir que a "ideia de República" estava generalizada entre o povo e a burguesia patriótica. (A primeira revolta republicana fora em 31 de Janeiro 1891, dezanove anos antes).

Mas é só consultando a Cronologia Seleccionada (pág. 861) que é possível percepcionar o desencadeamento imediato dos ataques contra a recém-nascida República. Aí se lê que logo a 5 de Outubro de 1911, exactamente um escasso ano sobre a proclamação do novo regime, uma invasão (a que chamam incursão) a partir da Galiza, de uma coluna armada de exilados comandada pelo capitão de cavalaria Paiva Couceiro (o derrotado na Rotunda), contando com o apoio do governo de Madrid e do rei de Espanha Afonso XIII, tentou provocar o levantamento da população rural/católica do Norte contra a República. A contra-revolução iniciava a sua macabra função de desestabilização e sabotagem. Essa primeira investida foi rechaçada pela tropa fiel e pela população; no entanto, menos de um ano depois, a 6 Junho 1912, nova "incursão" sofreu igual desaire. Mas os contra-revolucionários continuaram organizados do outro lado da fronteira, ameaçando a república democrática; e sempre com o apoio da monarquia espanhola. Por fim, em 9 Janeiro 1919, tinha o exército português acabado de regressar da Flandres e das campanhas de África contra os alemães, Paiva Couceiro consegue ocupar a cidade do Porto e aí proclamar a "Monarquia do Norte". Pouco durou. A República sabia defender-se, como reconhece RR. Quando a reacção monárquica tentou repetir o golpe em Lisboa, o governo mobilizou a população, distribuiu armas aos civis republicanos, cujos destacamentos, em conjunto com forças da Marinha, liquidaram a fugaz "monarquia do Monsanto" numa arrancada que ficou célebre.

A CONTRA-REVOLUÇÃO

Na cronologia dos acontecimentos, RR (?) situa o deflagrar da "guerra civil" na sequência da derrota monárquica de 1919. Ora, na verdade, a guerra interna contra a República – a contra-revolução, muito simplesmente – fora declarada e empreendida pelos reaças de todo o matiz, nomeadamente os católicos de obediência eclesiástica, desde a promulgação da Lei de Separação do Estado das Igrejas em 20 de Abril de 1911; isto é, desde que os sectores mais reaccionários e retrógrados do País se aperceberam que o Partido Republicano (PRP) de Afonso Costa iria cumprir, honesta e rigorosamente, os compromissos e as promessas constantes da sua propaganda programática; e onde a Lei da Separação tinha sido – e era – a bandeira mais flamejante.

A contra-revolução visando a destruição da República Democrática de 1910 e a restauração do statu quo ante foi feroz, sem tréguas, chegando ao bombismo e ao assassinato político. Tal qual veio a suceder em 1974-75 contra a Revolução de Abril. Assim, também os "militares moderados" da 2.ª década do século passado conspiraram desde a primeira hora contra a revolução democrática. Em Maio de 1915, os golpistas militares organizados no "movimento das espadas" conseguiram alcançar o poder; mas foram rapidamente desalojados pela enérgica resposta do povo armado em Lisboa, sob a direcção do PRP. Não desistiram. Recorreram ao assassinato. Na "noite sangrenta" (19 de Outubro de 1921) pereceram às mãos de sicários pagos pela reacção monarco-clerical o chefe do governo António Granjo (horrorosamente torturado), os heróis da República Machado dos Santos e Carlos da Maia. RR escreve que "os radicais ajustaram contas com os republicanos que, desde 1911, lhes haviam resistido" (pág. 617). Lê-se... e custa a acreditar. O cronista não tem uma palavra de condenação. E chama "radicais" aos contra-revolucionários inimigos da República! Passa em silêncio as conclusões da investigação, devida em exclusivo à dedicação heróica da viúva da Carlos da Maia, onde ficou apurada a responsabilidade de elementos destacados da Igreja na conspiração assassina.

Acrescento apenas só mais um rabo-de-gato, dos muitos que Rui Ramos deixou de fora no seu breve aperçu (percepção, será uma boa tradução) sobre a I República Democrática Portuguesa. Lembrou-se ele do Integralismo Lusitano – nacionalistas protofascistas – como "o movimento de maior sucesso conquistando liceus e universidades" (pág. 602); "eram jovens sobretudo iconoclastas professando um snobismo chique... e foi essa a sua força perante os governos republicanos" (fim de citação). Lembro-me eu agora que também por cá tivemos essa canalha contra-revolucionária anti-Abril. Os emeérres e outros esquerdalhos cheirando a chique e a merda. RR, pelos vistos, apercebeu-se do seu papel histórico.

O autor dedica 70 páginas (cap. XVIII e XIX) ao período de 48 anos de regime ditatorial militar/fascista. Em geral a abordagem continua a pretender ser desprendida, neutral. Por suposto, o historiador como profissional deixa de ter interesses quer individuais, ideológicos ou de classe; converte-se num simples narrador de factos, num cronista.

Ora tal como acontece com a cronologia relativa ao período de 16 anos da I República, também a cronologia dos seguintes 48 anos (págs. 862/4) acaba por fixar os acontecimentos que, do ponto de vista do autor/coordenador da obra, serão os mais marcantes da época. Assim, entre outros, surgem destacados: em 1927, fracassa a insurreição armada republicana contra a ditadura militar. Em 1958, a campanha eleitoral de general Humberto Delgado. O ano ominoso de 1961, que ditou a condenação internacional do fascismo salazarento anunciando a sua próxima derrota histórica, mistura em seis linhas: o assalto ao paquete Santa Maria; início da guerra colonial em Angola; o fracasso da conspiração dos generais; o colapso do exército português na Índia. O assassinato de Humberto Delgado pela "polícia política" em Fevereiro de 1965, está assinalado. A Oposição antifascista, o movimento popular e estudantil, a resistência sem igual do PCP, merecem apenas duas referências: em 1945; e, em 1960, a evasão de Peniche.

A LINGUAGEM DO MANHOLAS

Estado Novo é a etiqueta que RR usa, quase exclusivamente, para designar o fascismo salazarento. Não tão neutral como isso, é caso para dizer; era da autoria e a sempre usada pelo chefe Manholas.

Autoritarismo é a característica mais negativa que RR encontra no "anterior regime"; junta-lhe, por vezes, um crítico conservadorismo Curiosamente – ou talvez nem tanto – são as duas palavras-chave que Jorge Sampaio utilizou em 2002, era Presidente da República, na cerimónia do 28.º aniversário do 25 de Abril. Do alto da tribuna da Assembleia Parlamentar crismou o fascismo salazarista como "autoritarismo conservador".

A complacência para com o regime fascista (com perdão de V. Exas.) impregna o texto de Rui Ramos em paralelo com um paternal desdém para com as fraquezas da Oposição e da Resistência. Algo muito parecido com a famosa "tolerância" pregada e praticada por Mário Soares; cujo reverso, indissociável, sempre foi uma severa apreciação de comunistas, esquerda revolucionária ou meramente desalinhada.

A compreensão tolerante do cronista pelo regime que "amordaçou Portugal" perto de meio século (a expressão fez a glória do M. Soares oposicionista) manifesta-se em inúmeras observações e comentários. "(...) não é possível negar que o Estado Novo foi moderado (...) os assassínios foram muito raros e os presos políticos foram sempre poucos" (pág. 652).

"Regimes democráticos contemporâneos na Europa apresentaram contabilidades repressivas análogas ou piores (...)" (idem). O pluralismo de opinião, dentro de estreitos e vigiados limites, continuou a ter expressão pública (...)" (deve ter sido o Soares que rebentou com a mordaça!). Rui Ramos grava em título de parágrafo a maravilhosa conjunção da "Repressão e a persistência do pluralismo". "Em 1940, Salazar parecia ter o País a seus pés. Além de Presidente do Conselho, era ministro das Finanças, dos Estrangeiros e da Guerra. A oposição estava desmantelada" (pág. 662). (Que ganda homem! Até o Sócrates de Alijó se morde todo de inveja). Segue por aí fora o cronista da Corte descrevendo a Obra do estadista, com percentagens e outras camuflagens; e as acrobacias do genial diplomata, virando a casaca consoante a sorte da guerras... da Mundial, da Fria... até a Colonial lhe acabar com a peçonha.

Simultaneamente, RR vai apagando, ou mesmo rebaixando, a Resistência antifascista nas sua várias vertentes. Na circunstância não há vagar – e em nenhuma haverá interesse – para esmiuçar a perversa tolerância democrática dos anticomunistas/contra-revolucionários que a si próprios se têm apelidado de "moderados".

Limitar-me-ei a três linhas na pág. 477. "No princípio de 1959, alguns militantes católicos e monárquicos entraram numa conspiração militar que, como as outras desde 1945, nunca saiu". Usando a fórmula sintáxica de RR, direi que não é possível negar que o objectivo dessa pequena nota pretende apenas apoucar as revoltas militares contra a ditadura; e, de caminho, rebaixar também a participação de sectores católicos e monárquicos na luta antifascista. Um historiador de ofício não pode tomar partido; muito menos para amesquinhar manifestações de revolta contra ditaduras e tiranias. Quando o faz... denuncia-se.

"Revolta da Sé" foi como ficou registada nos anais da luta antifascista esta tentativa gorada de Março de 1959. Era sequela directa e repúdio pela farsa eleitoral do ano anterior (H. Delgado). Honra a quem se rebelou, sacrificou vidas e carreiras. Vários militares e civis foram presos e julgados, muitos outros conseguiram iludir a retaliação governamental. Francisco Sousa Tavares foi o monárquico mais empenhado; Manuel Serra o rebelde dirigente católico de sempre. Dos militares lembro, os então capitães Luís Vicente da Silva, Amílcar Domingues, e o comandante Vasco Costa Santos, ainda entre nós; Xavier de Brito e outros mais na GNR. Todos nos respectivos quartéis prontos a actuar. O julgamento em Tribunal Militar – como instituído era desde séculos – teve a presidi-lo dois íntegros oficiais que me apraz, aqui e agora, nomear: os coronéis de artilharia Teixeira de Almeida e Rui da Cunha. Em memória, como homenagem e exemplo. Pois receio bem que depois da "normalização" contra-revolucionária de 75/76 essa espécie de militares, já então rara, entrou em vias de completa extinção.

Os cronistas da Corte só curam dos vencedores, é bem sabido. São orgulhosamente pragmáticos. Quando se trata de contestação ou revolta contra poderes ou interesses estabelecidos, apagam da história os dissidentes e os rebeldes. No Portugal da II República é esse o timbre da historiografia oficial, quer académica, quer mediática.

O DISFARCE DO MEDO COMO CONFORMISMO

No entanto, Rui Ramos força a nota e assim abre o jogo. No sentido em que 50 anos da existência de uma Pátria – que é a nossa – vividos sob o jugo de uma das mais duradouras ditaduras contemporâneas, aparecem narrados como um fait divers (um episódio, um contratempo, um percalço) sem consequências de maior. Escreve a págs. 653: "O regime assentava mais no conformismo que na mobilização"; devendo ler-se, imposição política. Síntese da opinião do autor/historiador sobre o lapso de 50 anos, apresentado como um mero "interregno fascista"! Mas o conformismo – ilustre investigador doutorado em Oxford – era o medo. É o medo que ficou incrustado no carácter conformista, submisso e humilde, do português comum na democracia de hoje. O medo que qualquer observador estrangeiro logo detecta num primeiro contacto com a realidade nacional. RR decerto também o sabe. Nem escapa à maioria dos sociólogos, dos intelectuais portugueses em geral. Está na moda, na boca dos críticos mediáticos que por aí abundam. O fascismo não foi uma banalidade, meu caro. Foi uma calamidade. E algum respeito deve haver para aqueles que nunca se conformaram nem se conformam. Distinguindo, como é justo, os comunistas portugueses sempre na primeira linha do combate e do sacrifício.


Torna-se indispensável uma 2.ª parte desta recensão, de modo a cobrir os caps. X e XI – "A Revolução do 25 de Abril" e "Uma Democracia europeia".

Para conhecer a versão dos vencedores já basta a História e os historiadores.
A obrigação do investigador probo é a de salvar a realidade ocultada.

A FUNÇÃO DO CRONISTA DA CORTE

Com efeito, a perspectiva do historiador doutorado Rui Ramos (RR), autor/coordenador da História de Portugal recém editada que estamos comentando pertence ao género "politicamente correcto", geralmente adoptado pelos mais bem sucedidos profissionais do ramo, seja no meio académico, editorial ou mediático. Desde os tempos medievais, a função dos "cronistas da corte" tem sido essa: exaltar os feitos dos poderosos, defender a ideologia da classe dominante e seus interesses Enfim, em todas as épocas, assim foi. É a lei da vida, da sobrevivência, dizem os pragmáticos do moderno liberalismo. Lei que se aplica aos seres humanos... e aos moluscos também.

No campo da suposta ciência historiográfica – ou arte de deixar registo da história dos humanos – duas vias paralelas se apresentam ao espírito crítico: I) a leitura literal do registo e sequente interpretação; II) a interrogação sobre o não registado e a procura de uma resposta plausível.

Vamos então aplicar ao Capítulo X da obra em questão, intitulado "A Revolução do 25 de Abril", o esquema de análise acima proposto, embora na forma abreviada requerida para um texto de imprensa.

Leitura literal – RR começa (p. 707) por destacar a importância dos generais no golpe. "Embora nunca pudessem ter feito o golpe sem Spínola, criaram a ideia, depois geralmente aceite, de uma revolução dos capitães". (p. 715). "O golpe do 25 de Abril foi uma pura operação militar, sem ramificações civis ou diplomáticas (...) a embaixada americana, às 11 horas da manhã, não tinha indicação (...)" (p. 710). "No próprio dia, a maior parte dos lisboetas limitou-se a comprar jornais (...) Foram estudantes e rapazes quem começou por festejar as tropas". "No dia 25, não foi o “povo” que determinou os acontecimentos, mas o fracasso do regime" (p. 713). "(...) um clima de debate e reivindicação, logo desde o dia 26: marchas nas ruas, assembleias nas fábricas e escolas (...) greves como as dos CTT e TAP, acarinhadas [textual!] pelos grupos de extrema-esquerda" (p. 714). "A 19 Junho, nos Açores, Spínola ainda pediu auxílio ao presidente americano Nixon (...) [mas] (...) Kissinger decidiu que qualquer ajuda dependeria do PCP sair do Governo" (p. 717). RR menciona a tentativa frustada de Spínola, em Julho, para se fazer eleger presidente de imediato e adiar a Assembleia Constituinte para fins de 1976 (p. 715). A demissão de Spínola como resultado da derrota sofrida no "28 de Setembro" por força da mobilização popular, leva RR a concluir (p. 718) que "a História do 25 Abril foi reescrita como uma “revolução de capitães” logo transformada em “revolução popular”, cujo destino final só podia ser um: o “socialismo”".

"Nenhum partido, depois de Setembro, se reclamou da direita. À esquerda, todos trataram pôr a render o seu património de “resistência ao fascismo” (...) ocuparam os serviços públicos, as autarquias (...) o PCP ultrapassou todos. Já tomara a dianteira na ocupação dos sindicatos (...) organizados agora em Intersindical. (...) O primeiro-ministro Vasco Gonçalves e a 5.ª Divisão do Estado-Maior-General caíram sob a sua influência" (pp.724/26). Porém, RR escreve logo a seguir: "O PS era, no princípio de 1975, o partido com mais lugares no Governo e mais influência na imprensa" (p. 726, linha 30). "Tudo parecia indicar uma nova correlação de forças (...) o PS mantinha contactos com os spinolistas (...) o fracasso do 11 de Março comprometeu todos os “moderados”. Nessa noite, a revolução deu o salto (...) por iniciativa da 5.ª Divisão (...) foi a célebre “assembleia selvagem”" (p. 727). RR considera o "Processo Revolucionário Em Curso – PREC" só a partir dos acontecimentos do 11 de Março 1975 "(...) apesar de (...) uma revolução conduzida através de legislação e com cautela" (p. 730). Para logo a seguir, RR passar a fazer fé numa Comissão de Averiguação de Violências (Sevícias, no original) nomeada a 19 Janeiro 1976 pelo já Conselho da Contra-Revolução; cujas conclusões referiam sete vezes mais presos políticos que no fim do fascismo, episódios de maus tratos e até tortura, etc. (p. 732). E, afinal, "o MFA (pós-11 de Março 75) tinha organizado eleições que, pela primeira vez em Portugal, se tornaram numa fonte de legitimidade política" (p. 734).

Durante o Grande Confronto – assim RR designa os meses de Maio a Setembro de 1975 – "o PS não estava sozinho. Contava com uma parte da extrema-esquerda, a que tinha o PCP como inimigo principal, os maoístas do MRPP. Mas, sobretudo, passou a dispor do auxílio da Igreja (...) Em Julho e Agosto, a Igreja promoveu enormes manifestações anticomunistas no Norte, as maiores desde 1974". (p. 736). O governo, após o cerco a S. Bento, em 13 de Novembro, "suspendeu actividades e pensou refugiar-se no Porto sob protecção da NATO (...) viveu-se entre boatos e enormes manifestações de rua (...) Mas ninguém desejava uma guerra civil" (p. 742).

A Revolução terminou a 25 de Novembro de 1975, por efeito daquilo que Rui Ramos apelida de "O Compromisso de Novembro".

Creio que a perspectiva do autor sobre a Revolução de Abril – Cap. X da História de Portugal, de que é o principal responsável – fica suficientemente explicitada através da leitura literal das transcrições atrás citadas. Trata-se da visão histórica congenial aos sectores mais reaccionários da direita política, adoptada por todas as forças contra-revolucionárias inimigas da componente popular e patriótica de Abril. Como cidadão anónimo, Rui Ramos pode até vender a alma ao diabo e ir para o inferno; como historiador, professor, doutor e nem sei que mais, demonstrou ser demasiado "politicamente correcto" para o ofício. Ou talvez eu esteja enganado; talvez seja por isso mesmo que os "poderes vigentes" lhe publicam terceiras edições com três meses de avanço!

Dispenso-me aqui – e dispenso os leitores – de rebater uma a uma as deficiências de visão de que sofre o autor. Pois se ele nem sequer viu as fotografias da multidão no Largo do Carmo ou no Terreiro do Paço; mas no dia seguinte (sem fotos) conseguiu ver manifestações de protesto! É obra, de cronista visionário, sem dúvida. Na verdade, é enorme o volume de coisas, acontecimentos, situações, etc, de que RR não tomou, ou não quis tomar, conhecimento; ou seja, a realidade oculta, ou ocultada, que compete salvar, para que a História se respeite. Isso leva-nos, de imediato, à segunda proposta de análise: a interrogação sobre o não registado e a procura de respostas.

REALIDADES OCULTADAS

A procura de respostas – Uma das mais importantes realidades ocultadas pelos historiadores de serviço, comentadores avençados e gente que se deixa ir na onda, diz respeito à intervenção estrangeira (imperialista) na Revolução de Abril. No caso da obra que estamos questionando, essa ocultação é praticamente total; trata-se, aliás, da posição oficial do regime democrático vigente, filho natural da contra-revolução. Para a totalidade das chamadas elites da burguesia no poder mais clientelas e penduras, o assunto é religiosamente tabu. Um não inscrito, diria o filósofo José Gil. Intervenção estrangeira na revolução portuguesa? Não tomei conhecimento, nem sei do que se trata, nem quero saber. Assim respondem os académicos nacionais e os sicofantas com acesso mediático. Não apenas indígenas. De um historiador catalão (S. Cervelló), que permaneceu em Lisboa durante todo o PREC ouvi, na apresentação do livro de sua autoria sobre a revolução portuguesa, a seguinte explicação: "Não se pode meter tudo". Ora aí está uma explicação científica, por testemunha qualificada, para o apagamento da intervenção estrangeira!

R. Ramos ainda estará mais refinado, trinta anos passados. Frank Carlucci, o embaixador americano padrinho da contra-revolução portuguesa, merece-lhe somente duas curtas alusões. A VI Esquadra americana, nunca a enxergou no Tejo, nem sequer na histórica madrugada do 25 de Abril viu o imponente porta-aviões "Forrestal", rodeado por dezenas de navios da NATO. Efectivamente, ao largo da costa portuguesa ou fundeada no Tejo, sempre esteve a polícia de intervenção da NATO, em todos os momentos cruciais da revolução portuguesa: "manobras há muito calendarizadas", explicava-se; e isso tem chegado para o historiador (imparcial!) ficar ceguinho. Mas a cegueira da historiografia oficial – a obra de RR incluída – sobre a ingerência das potências NATO, não apagou apenas as silhuetas dos navios de guerra em águas portuguesas nos 19 meses revolucionários. Apagou também toda a formidável mobilização dos governos reaccionários europeus e americano contra um Portugal liberto do fascismo. No Verão de 75, ao nível mais alto dos governos ocidentais, esteve em projecto a ocupação dos Açores e a invasão do território continental; ao aproximar-se Novembro, preparava-se o bombardeamento da "Comuna de Lisboa" e a guerra civil entre o Norte e o Sul do país. A cruzada anticomunista internacional contra o Portugal de Abril atingiu proporções únicas de irracional paranóia. Nuvens de espiões e agências de sabotagem, provocadores e infiltrados, rios de dinheiro, campanhas difamatórias, tudo foi usado para destruir o processo libertador português.

De nada disso dá conta – tomou conhecimento – o cronista/historiador Rui Ramos na sua obra. Também não se deu ao trabalho de percepcionar, como tal, as provocações no jornal República (Maio/Junho de 75), o assédio ao congresso do CDS (Porto, Janeiro de 75), o assalto e saque da embaixada de Espanha (27 de Setembro), etc.. Em contrapartida, percepcionou muito bem a actividade conspirativa do PS com os spinolistas, depois com o MFA dos moderados, com a Igreja, com a extrema-esquerda e a restante escória a mando e estipêndio do imperialismo.

Mas, além disso, RR devia ter percepcionado o Levantamento Popular do Norte, em Julho/Agosto 75, como sendo o prelúdio da guerra civil desejada pelos inimigos de Abril, abrindo a caça aos comunistas e antifascistas, com assassinatos e incêndios abençoados pelo arcebispo de Braga e cónego Melo; devia ter visto que no Grande Comício do PS na Fonte Luminosa (19 de Julho) mais de metade dos manifestantes era dessa gente do antigamente fascista, sedentos de desforra e vingança. RR devia ter registado que a Assembleia de Tancos (3/4 de Setembro de 75) que liquidou o MFA foi muito mais "selvagem" que a da noite de 11/12 de Março (onde quem quis entrar entrou e participou, enquanto em Tancos eu próprio fui impedido de entrar perante ameaça de prisão); Rui Ramos deve saber que a fuga, em pânico, para Espanha e Brasil, da elite burguesa nacional, a partir de Março de 75, representou um triunfo revolucionário com rara equivalência na história moderna; RR devia ter prestado mais atenção à influência nefasta que na solução colonial exerceram as formações políticas civis e militares, com ligações ao imperialismo; etc, etc, etc.

O Capítulo XI, intitulado "Uma Democracia Europeia desde 1976", resume-se a um panegírico de 30 páginas de exaltação triunfal ao regime vigente; do qual vamos fazer uma rápida leitura literal. Assim: "No princípio do séc. XXI, Portugal era uma democracia integrada na União Europeia, com uma elite política civilista, uma sociedade urbana e uma economia terciarizada, das mais ricas do mundo...", lê-se a p. 747... e custa a acreditar! "(...) a sociedade portuguesa mudou como nunca mudara antes (...)"; para, mais adiante (p. 763), afirmar: "a transformação acelerou-se a partir de 1960-1970". Dá para pasmar: foi então com o fascismo que a grande transformação modernaça deu o salto em frente! A evolução na continuidade, finalmente consagrada por historiador do regime democrático. E o delírio continua, na p. 769: "No início do séc. XXI Portugal constituía uma das sociedades europeias com mais casas, mais auto-estradas e que mais energia consumia per capita". Para terminar (p. 773): "um dos grandes trunfos da nova democracia em Portugal foi o desenvolvimento. A economia portuguesa entre 1961 e 1997 reduziu o hiato em relação à média europeia tornando Portugal oficialmente "um país desenvolvido". Fica assim confirmada a "evolução na continuidade". Entre 1961 e 1997 nada de especial aconteceu, nenhum contratempo perturbou o firme progresso das reformas provindas do fascismo. Revolução do 25 de Abril? Connais pas, como dizia a rafeira, ainda hoje deputada pelo PS. Pelos vistos e lidos, Rui Ramos navega na mesma onda. Revolução em 25 de Abril de 1974? Um simples fait-divers para esquecer; um percalço sem importância de maior.

Em meu entender, o Capítulo XI da História Contemporânea de Portugal da responsabilidade do historiador Rui Ramos não merece maior atenção. Nem minha, nem decerto a dos leitores. Passemos, por conseguinte à oração fúnebre.

A vastíssima a bibliografia citada por RR, quer em notas quer num apêndice final. Seguramente, mais de duas centenas de autores e títulos. Até por lá constam livros de que sou autor; dos quais uma única frase foi seleccionada (p. 728, nota 79). De qualquer modo, compete aos autores e aos coordenadores das obras seleccionar as fontes de informação que considerem adequadas à sua perspectiva e úteis ao seu projecto de trabalho. Assim se definem e se comprometem.

CONTORNAR O INCONTORNÁVEL

Todavia, convém notar que não basta citar nomes e títulos. Nos últimos decénios amontoaram-se volumes sobre o caso português, em particular o 25 de Abril; alguns contendo documentação incontornável. Como por exemplo, no livro Os EUA e a Revolução Portuguesa, publicado em 2008, sob a égide da Fundação Luso-Americana (entidade super respeitável para a direita indígena). RR cita esse livro sete vezes no Cap. X; contudo, não enxergou a documentação anexa, e outros elementos, que tornam incontornável a realidade da ingerência americana no nosso país. O historiador RR mostra-se capaz de contornar o incontornável! Também isso o define e compromete.

O currículo profissional de RR contém farta cópia de trabalhos publicados; alguns em parceria com António Reis e José Matoso, também eles historiadores "acarinhados" pelo sistema de poder em vigor. O primeiro é quadro destacado do PS e da Maçonaria e, em simultâneo, patrão do Departamento de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, cuja perspectiva historiográfica reflecte fielmente a da classe dominante e a do governo em funções; José Matoso, por seu lado, é o mestre historiador que recomenda aos seus pares e discípulos (Junho de 2000) "sobre os factos (...) pode ser que seja melhor esquecê-los que recordá-los". Os vencedores da contra-revolução de Novembro [de 1975] agradecem reconhecidos.

Ora, por fim e finalmente, encontro-me de acordo com Rui Ramos, nesse ponto específico: os grandes vencedores e usufrutuários desta II República Democrática Portuguesa são, efectivamente, os restauracionistas da velha ordem do antigamente fascista, ainda sobrevivos ou na pessoa dos seus filhos e herdeiros em sangue, quadro de valores, conformismo natural e ganância adquirida. Ou seja, conforme publiquei em livro (Dezembro de 1999), com o título de Esta Democracia é Filo-Fascista.

[*] Coronel na reserva. Obras do autor: http://openlibrary.org/a/OL851476A/Varela_Gomes

[1] Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Monteiro, História de Portugal, A Esfera dos Livros , Novembro/2009, +/- 1000 pgs. + 52 extratextos, ISBN: 978-989-626-139-9

O original encontra-se em http://www.alentejopopular.pt/pagina.asp?id=3784


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20/Fev/10