Saída limpíssima...
Tempo de vaquírias
por César Príncipe
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"Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o
pasto que começava a ficar verdejante"!
Aníbal Cavaco e Silva, nos Açores, em 2011.
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Os banqueiros da fome estão ávidos. As jonets estão
ofegantes por fazer bem. Acotovelam-se os comensais do regime alimentar. Chocam
os carrinhos de compras do défice e da dívida. As clientelas
salivam. O Clube dos Chefs anunciará, dentro de semanas, um novo prato
do dia:
SL.
O que encobrirá a sigla? Livrar-nos-emos do programa intravenoso?
Seremos desligados da máquina troikanal? Passaremos a ingerir
telecongelados? Que esperar, Godot? Que fazer, Ilitch? Paira a incógnita
no país das vacas magras, outrora apavorado pelas vacas loucas. E o gado
vacuum
não se contém. Sorri. Deleite entrevisto pelo Venerando Thomaz II
na itinerância pelos Açores (2011). De facto, desde que uma vaca
assistiu ao nascimento do Menino Jesus (não por acaso, em Belém),
que não se testemunhava idêntico êxtase de um bovino, de um
mamífero, de um ruminante, de um artiodáctilo. Nem na
Índia, terra de vacas sagradas, algum bicho terá manifestado
tanta luz no olhar. A cavacada mostrou o que lhe ia na alma.
Em abono da pragmática e da metódica, haverá que levar em
devida conta qualquer sinal dos tempos, não menosprezando os apelos das
pastagens e o papel do efectivo pecuário nos transes do Reino e da
República. Quanto deverá Portugal às bestas? Sobressai uma
efeméride: 1581. Então, as vacas, açorianas de distinta
cobrição, tiveram um comportamento honroso, ao contrário
de muitos portugueses. É dos anais da independência e dos manuais
da contra-ofensiva: centenas de cabeças investiram contra as
forças de Castela. É das artes da guerra: foram embravecidas com
fogos de tresmalho, aguilhões e outros acicates. E muitas terão
acabado trinchadas para celebrar a campanha. Também os humanos
são sujeitos a destrezas, acirrações, havendo quem lhes
coma os miolos e outros órgãos após a preciosa ajuda
(eleitoral e fiscal). Fosse como fosse (por espírito de missão ou
coacção física), diante do tropel, o inimigo desaustinou e
desmoralizou, foi espezinhado e repelido. A vitória pendeu para as
hostes nacionais. A
Batalha da Salga
ficou como doutrina: isto não vai com gado manso.
Eterno reconhecimento dos consumidores de carne, queijo, manteiga e outros
produtos do arquipélago. Todas as pompas do protocolo de Estado para as
descendentes dos auroques. Todavia, nas mobilizações do
séc. XXI, haverá que manter certa desconfiança no vaquedo.
Que concluir da ridente manada, naquele Setembro, na Graciosa? Prestemos
particular atenção às armações. Não
é de fiar o patriotismo de uma série de animais
domésticos. Não despreguemos a vista dos úberes da
mãe-pátria. Aguardemos pela publicação da dieta.
Mas nada de saboroso e cheiroso se perspectiva.
Se
Raphael Bordallo Pinheiro
, autor do "Zé Povinho agarrado pelo lado do
déficit
" e do "Zé Povinho na Última
Ceia" e da "Maria Paciência" (a mamuda das Caldas) e da
vaca leiteira do "Theatro S. José", permanecesse entre os
ilustradores do Continente & Ilhas, encarregar-se-ia de desfazer o suspense.
Imaginemos a capa:
Uma vaquíria a fazer as necessidades.
Imaginemos a legenda:
Saída Limpa.
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