Saída limpíssima...

Tempo de vaquírias

por César Príncipe

 
"Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"!
Aníbal Cavaco e Silva, nos Açores, em 2011.

Isabel Jonet, cartoon de Fernão Campos. Os banqueiros da fome estão ávidos. As jonets estão ofegantes por fazer bem. Acotovelam-se os comensais do regime alimentar. Chocam os carrinhos de compras do défice e da dívida. As clientelas salivam. O Clube dos Chefs anunciará, dentro de semanas, um novo prato do dia: SL. O que encobrirá a sigla? Livrar-nos-emos do programa intravenoso? Seremos desligados da máquina troikanal? Passaremos a ingerir telecongelados? Que esperar, Godot? Que fazer, Ilitch? Paira a incógnita no país das vacas magras, outrora apavorado pelas vacas loucas. E o gado vacuum não se contém. Sorri. Deleite entrevisto pelo Venerando Thomaz II na itinerância pelos Açores (2011). De facto, desde que uma vaca assistiu ao nascimento do Menino Jesus (não por acaso, em Belém), que não se testemunhava idêntico êxtase de um bovino, de um mamífero, de um ruminante, de um artiodáctilo. Nem na Índia, terra de vacas sagradas, algum bicho terá manifestado tanta luz no olhar. A cavacada mostrou o que lhe ia na alma.

Em abono da pragmática e da metódica, haverá que levar em devida conta qualquer sinal dos tempos, não menosprezando os apelos das pastagens e o papel do efectivo pecuário nos transes do Reino e da República. Quanto deverá Portugal às bestas? Sobressai uma efeméride:  1581. Então, as vacas, açorianas de distinta cobrição, tiveram um comportamento honroso, ao contrário de muitos portugueses. É dos anais da independência e dos manuais da contra-ofensiva:  centenas de cabeças investiram contra as forças de Castela. É das artes da guerra:  foram embravecidas com fogos de tresmalho, aguilhões e outros acicates. E muitas terão acabado trinchadas para celebrar a campanha. Também os humanos são sujeitos a destrezas, acirrações, havendo quem lhes coma os miolos e outros órgãos após a preciosa ajuda (eleitoral e fiscal). Fosse como fosse (por espírito de missão ou coacção física), diante do tropel, o inimigo desaustinou e desmoralizou, foi espezinhado e repelido. A vitória pendeu para as hostes nacionais. A Batalha da Salga ficou como doutrina:  isto não vai com gado manso.

Eterno reconhecimento dos consumidores de carne, queijo, manteiga e outros produtos do arquipélago. Todas as pompas do protocolo de Estado para as descendentes dos auroques. Todavia, nas mobilizações do séc. XXI, haverá que manter certa desconfiança no vaquedo. Que concluir da ridente manada, naquele Setembro, na Graciosa? Prestemos particular atenção às armações. Não é de fiar o patriotismo de uma série de animais domésticos. Não despreguemos a vista dos úberes da mãe-pátria. Aguardemos pela publicação da dieta. Mas nada de saboroso e cheiroso se perspectiva. Se Raphael Bordallo Pinheiro , autor do "Zé Povinho agarrado pelo lado do déficit…" e do "Zé Povinho na Última Ceia" e da "Maria Paciência" (a mamuda das Caldas) e da vaca leiteira do "Theatro S. José", permanecesse entre os ilustradores do Continente & Ilhas, encarregar-se-ia de desfazer o suspense.

Imaginemos a capa:
Uma vaquíria a fazer as necessidades.
Imaginemos a legenda:
Saída Limpa.

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15/Abr/14