Quando o velho se esconde por detrás do novo:
Retrocesso ideológico de um impulso apenas aparente
Precedentes de um velho impulso mascarado de novo
Para compreendermos a atual situação sociopolítica
portuguesa, de grandes potencialidades de luta social, mas onde se anteveem
grandes perigos no âmbito ideológico, nomeadamente através
da criação de ilusões e de parcialidade na
compreensão da luta de classes, decidimos ter como ponto de partida do
presente ensaio os mais recentes desvios social-democratizantes internos de que
foi alvo o Partido Comunista Português, nomeadamente aquele que se
verificou nas vésperas do XVI Congresso (2000) e que se materializou no
documento vulgarmente conhecido por
Novo Impulso
(1998).
Para abordar a problemática que esteve na origem do
Novo Impulso,
não recuámos a 1956-1959, quando assistimos a um desvio de
direita, reconhecido pelo PCP na reunião do Comité Central de
1961 (em que Álvaro Cunhal é eleito secretário-geral), mas
consideramos essencial abordar, ainda que brevemente, o momento em que o
grupo dos seis
(Vital Moreira, Silva Graça,
Veiga de Oliveira, Sousa Marques, Vítor Louro, Dulce Martins) reclama
mudanças internas.
Os exemplos do percurso político de Vital Moreira ou de Veiga Oliveira
facilmente traduzem os interesses que subjaziam às críticas
destes ex-militantes ao PCP.
Vital Moreira foi deputado à Assembleia Constituinte pelo PCP de
1975-1976 e deputado à Assembleia da República pelo PCP, de 1976
a 1982, tendo sido depois eleito deputado pelo PS em 1996 e cabeça de
lista deste partido ao Parlamento Europeu em 2009, onde se manteve como
deputado europeu até 2014. Veiga Oliveira foi
ministro dos Transportes e Comunicações do IV Governo
Provisório (Primeiro-Ministro: Vasco Gonçalves) e ministro do
Equipamento Social e Obras Públicas do VI Governo Provisório
(Primeiro-Ministro: Pinheiro de Azevedo), deputado à Assembleia da
República pelo PCP e vice-presidente do grupo parlamentar do PCP entre
1976 e 1984. Filia-se no PS em 1999 e apoia, para as eleições
presidenciais de 2006, a candidatura de Cavaco Silva à
Presidência, vindo a afirmar que o comunismo foi "um embuste
gigantesco" (cit. por Paulo Martins,
Morreu Veiga de Oliveira, o homem de cara "única",
JN,
28/08/2006).
O
grupo dos seis
considerava que "A liberdade de expressão dentro do PCP continua a
estar limitada e condicionada" (cit. por Helena Pereira,
Primeiro comunicado foi a gota de água para onda de demissões,
Público,
19/08/2001), defendendo o voto secreto no XII Congresso (que se realizaria em
1988) e criticando o facto de, no projeto de teses em discussão para
esse mesmo Congresso, a discussão estar condicionada.
O grupo dos seis
torna públicos vários documentos de contestação
entre 1987 e 1988. É também na fase preparatória deste
Congresso que surge um outro documento, assinado por Zita Seabra, e entregue
à direção do PCP.
Em ano de eleições legislativas, o PSD atinge, em 1987, a
primeira maioria absoluta
[1]
, e Cavaco Silva torna-se então Primeiro-Ministro. Num quadro de fortes
ataques internos por parte de militantes com tarefas institucionais e
diretivas, num momento de descrédito do socialismo no leste da Europa e
na URSS (processo iniciado em 1985 com a política da Perestroika,
encetada por Mikhaïl Gorbatchev, e que conduziria à
desagregação da URSS) o PCP, que nas
eleições legislativas a 25 de Abril de 1983
[2]
havia alcançado 1.031,609 de eleitores, ou seja, 18% dos votos, e
eleito 44 deputados alcança 689.137 eleitores, 12,14% dos votos,
e elege 31 deputados. É neste contexto que, em 1988, ano de
concretização do XII Congresso, surge um terceiro documento,
subscrito pela chamada
Terceira Via,
a qual congregava então militantes como Raimundo Narciso
(ex-operacional da Acção Revolucionária Armada. ARA), Pina
Moura, Barros Moura ou José Luís Judas, a grande maioria dos
quais membros do Comité Central. Juntando a sua voz social-democrata
àquela outra do
grupo dos seis,
os subscritores desta
Terceira Via
propunham, tal como aquele, a eleição de delegados ao Congresso
e a eleição do Comité Central através de voto
secreto, exigindo a aprovação de um novo programa do PCP.
É neste ambiente de contestação interna e num quadro
internacional em que a grande burguesia gradualmente fortalece as suas
posições fato que culminaria com a
desagregação da URSS em 1991 , que é aprovado no XII
Congresso o novo programa do PCP,
Para uma Democracia avançada no Limiar do Século XXI,
cuja aprovação, segundo o ex-militante do PCP Raimundo Narciso,
depois militante do PS, ia de encontro às exigências dos
integrantes da
Terceira Via
e seria o resultado de uma tentativa de estancamento das inevitáveis
saídas dos então ainda militantes do PCP
[3]
.
A realidade é que as exigências e formulações dos
posteriores integrantes do PS não representavam nada de novo no seio de
um partido revolucionário. As constantes influências e
imposições da ideologia dominante e as suas tentativas de alterar
o carácter revolucionário do inimigo contam sempre com
participação ativa interna. Como disse. O percurso
político dos então militantes evidencia claramente o oportunismo,
carreirismo e deslealdade daqueles:
Álvaro Cunhal, no período agudo de turbulência interna do
PCP de 1987 e 1988, que culmina no XII Congresso de 1 de Dezembro de 1988,
caracterizou a situação política interna do partido como
sendo expressão da "crise da consciência comunista de alguns
militantes", mais do que uma crise do Partido. O diagnóstico do
estado de consciência político-ideológica dos elementos do
chamado "Grupo dos Seis" e dos da designada "Terceira Via"
está, meia dúzia de anos volvidos, perfeitamente confirmado. A
atitude preventiva da direcção do PCP, a vigilância, o
controlo e a luta contra a dissidência, permitiu evitar o pior. Se
porventura qualquer dos dois grupos, aliás muito semelhantes na teoria e
na prática, e convergentes nos propósitos, tivesse levado de
vencida as suas teses de reestruturação, renovação
e revitalização do PCP, teríamos a
liquidação do Partido. Se os partidários da proclamada
renovação dos finais dos anos 80 se foram meter com armas e
bagagens no PS, que poderíamos esperar de tão encarniçados
(como o rabanete!) militantes, então nominalmente ainda comunistas?
(José Manuel Jara,
Avante!,
n° 1750, 14/06/2007).
Em 1990, Zita Seabra (que no XII Congresso já não havia sido
eleita para o Comité Central) seria expulsa do Partido Comunista
Português. O imediato e fulgurante ascenso político desta
ex-militante comunista evidencia, uma vez mais, os objetivos políticos
daqueles que tão arduamente condenavam o funcionamento interno do
Partido Comunista Português. Convidada pelo então
Primeiro-Ministro Cavaco Silva, coordenou, em 1993, o Secretariado Nacional
para o Audiovisual, e assumiu a presidência do Instituto Português
de Cinema. Em 1997, Marcelo Rebelo de Sousa, na altura líder do PSD,
convida-a para ser candidata à Câmara Municipal de Vila Franca de
Xira. Marcelo Rebelo de Sousa é filho de Baltasar Rebelo de Sousa,
comandante do Centro Universitário de Lisboa da Mocidade Portuguesa
enquanto estudante, depois assumindo funções diretivas de relevo
dentro desta mesma instituição, subsecretário de Estado da
Educação entre 1955 e 1961, depois secretário do ministro
das Colónias, Marcelo Caetano, e Governador-geral de Moçambique
entre 1968 e 1970 isto para além da assunção de
outras funções de importância dentro do fascismo. O mesmo
Baltasar Rebelo de Sousa que, assustado com Revolução portuguesa,
decide instalar-se no Brasil.
O PSD não ganhou a Presidência da Câmara Municipal, mas Zita
foi eleita vereadora, tendo o PCP perdido a presidência camarária
deste órgão municipal. Em 1998 filia-se no PSD e, em 2005, a
convite do então Primeiro-Ministro Santana Lopes, encabeça a
lista de deputados do PSD por Coimbra à Assembleia da República.
Eleita deputada, foi até 2007 vice-presidente do Grupo Parlamentar do
PSD. Editora na Quetzal, foi administradora e diretora editorial da Bertrand
Editora. Atualmente, é diretora editorial da casa de
edição que fundou, a Alêtheia Editores, a qual conta entre
as suas edições obras claramente anti-comunistas, como
Foi Assim,
da própria Zita Seabra,
O Livro Negro de Cuba,
de Repórteres Sem Fronteiras, obras de teor religioso e conservador,
como
Teologia do Corpo,
de João Paulo II,
A Europa de Bento na crise de culturas,
de Joseph Ratzinger,
Auto-de-Fé - A Igreja na Inquisição da Opinião
Pública,
entrevista da própria Zita Seabra a um padre, obras de teor
sensacionalista e eleitoralista, como
Carla
[Bruni]
e Nicolas
[Sarkozy]
: uma ligação perigosa
ou
Somos o que queremos ser: uma biografia de Pedro Passos Coelho.
Data do mesmo ano em que Zita é expulsa do PCP, o INES (Instituto de
Estudos Sociais), instituto que, reunindo o
grupo dos seis
e a chamada
Terceira Via,
e pretendendo-se de reflexão política, fora organizado por
militantes cujo caminho se cruzaria, inelutavelmente, com o do Partido
Socialista: "A semente da discórdia floresceu numa bela rosa
social-democrata, e a "terceira via", conglomerada com os
"Seis" (e tutti quanti) no Instituto Nacional de Estudos Sociais
(INES), depois transformada em gabinete da Plataforma de Esquerda, converteu-se
numa via terceira à moda de Guterres ou à Sócrates, pelo
figurino neoliberal do Tio Blair" (José Manuel Jara,
Avante!,
n° 1750, 14/06/2007). Lembremo-nos, por exemplo, de José de
Magalhães, antes deputado comunista e que em 1990, apesar de ter
abandonado a bancada do PCP, não abandonou o lugar na Assembleia da
República (ao contrário do que ética e estatutariamente
havia assumido enquanto eleito) , eleito em 1991 para a Assembleia da
República, onde se manteve até 2005, pelo Partido Socialista.
Filiando-se (oficialmente) no Partido Socialista em 1999, é nomeado
secretário de Estado Adjunto e da Administração Interna,
em 2005, no primeiro governo de José Sócrates, e posteriormente,
em 2009, secretário de Estado da Justiça e da
Modernização Judiciária, no segundo governo de José
Sócrates.
Em 1991
[4]
, ano da queda da URSS, vários dos integrantes do
grupo dos seis,
da
Terceira Via
e do INES que ainda não tinham saído do Partido são ou
expulsos (Mário Lino, Raimundo Narciso e Barros Moura) ou abandonam do
Partido (como José Luís Judas).
Goradas as seguidas tentativas de desestruturar ideológica e
politicamente o PCP, surge, em 1992, a
Plataforma de Esquerda,
que, depois de reunir ex-militantes que ativamente haviam combatido os
fundamentos que justificam a atuação política e
revolucionária de um Partido Comunista, como Barros Moura, José
Luís Judas, Pina Moura, Miguel Portas, Osvaldo Castro ou Raimundo
Narciso, serviria como porta de entrada de muitos deles ora para o PS (a grande
maioria), ora para pequenas estruturas político-ideológicas que,
pretendendo ocupar o espaço político-social do PCP, apoiadas por
uma burguesia que bebe as suas fontes num anti-comunismo primário e
visceral, identificam em lutas setorializadas e desligadas das massas
trabalhadoras o seu limitado oportunismo de ação.
Sobre Zita Seabra, Vital Moreira, José Luís Judas, Barros Moura,
e tantos outros, as palavras sobre os respetivos percursos bastariam para
compreender os objetivos e pretensões que os moviam quando militantes
empenhados na crítica e combate ao PCP:
Desses grupos, num breve sumário, iremos encontrar três
secretários de Estado (José Magalhães, Mário Vieira
de Carvalho e Isabel Pires de Lima
[5]
) e um ministro (Mário Lino), do Governo de Sócrates,
vários deputados do PS, gestores de grandes empresas (Pina Moura, depois
de vários ministérios), empresários, um presidente de
Câmara do PS (José Ernesto). Vital Moreira, relator principal dos
documentos dos "Seis", tornou-se um defensor oficioso do Governo do
PS, depois de ser um deputado algo "independente" (José Manuel
Jara,
Avante!,
n° 1750, 14 de junho de 2007).
As sempre presentes tentativas de destruir o PCP, nomeadamente a partir do seu
próprio seio, são históricas. E merecem que sobre elas
reflitamos, discutamos, escrevamos,
de forma a compreender o que somos, fomos e não poderemos deixar de ser.
Não acrescentaremos mais sobre as experiências de combate ao
Partido, a partir do seu próprio seio, movidas pelos grupos acima
citados.
Referir-nos-emos, de seguida, ao ano de 1998. Ano que vê nascer, em 15 de
fevereiro, o Comunicado do Comité Central do PCP
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido,
comumente conhecido por
Novo Impulso.
De 1998 a 2002, data da Conferência Nacional do PCP (passando pelo XVI
Congresso, em 2000), muitos dos então militantes tomariam, pela primeira
vez, contacto com a luta de classes. Não fora, mas dentro da casa Nossa.
Aquela que tem paredes de vidro.
O Novo Impulso: nova tentativa de subjugação de um partido
revolucionário
O
Novo Impulso
retomaria as já conhecidas fórmulas do
grupo dos seis,
da
Terceira Via
e do grupo do INES. Já que os ex-militantes se encontravam então
percorrendo alegremente os caminhos política e financeiramente
profícuos dos partidos representativos da classe dominante, outras caras
teriam de dar a cara pela velha tentativa de renúncia a uma
prática política revolucionária. Uma vez mais, dentro de
Nós. Os ataques, esses, repetiriam as já velhas fórmulas
de falta de democracia interna, de ataque cerrado ao centralismo
democrático, de tentativas de reverter a estrutura revolucionária
do PCP, sobretudo para assim o aproximar de posições
institucionais e de alianças políticas com partidos
representantes
da
(e representados
pela
) burguesia.
O Comunicado do Comité Central (CC) do PCP sai a 15 de fevereiro. A
reação não foi imediata, mas cedo se fez sentir. O PCP
estava, uma vez mais, a ser atacado na sua matriz revolucionária.
Haviam-se passado apenas oito anos desde a formação do INES e da
expulsão de Zita Seabra, e sete anos desde o desmoronar da União
Soviética.
O inimigo não dá tréguas, pelo que as forças da
reação logo se (re)organizam. Para de novo atacar. Internamente,
ao mais alto nível de responsabilidade e de direção
política, um comunicado que indo ao encontro daqueles diversos
grupos de militantes que haviam abandonado as estruturas do Partido para
integrar as forças representativas do inimigo que haviam combatido
emana diretamente do CC. Nele, definia-se o partido como
"firmemente empenhado em impulsionar a agregação de
forças, energias e aspirações democráticas e de
esquerda, que é indispensável para a concretização
de uma alternativa progressista à mera alternância entre PS e PSD
na realização da política de direita" (
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido,
ponto I).
Dissimulando projetos que atacariam as bases mesmas do centralismo
democrático, definia-se a necessidade de "a par do reforço
do quadro de funcionários com tarefas de organização, [a
militância] alargue o assumir de responsabilidades por camaradas
não funcionários, libertando assim forças para tarefas
mais exigentes, designadamente em disponibilidade e mobilidade dos
quadros" e a realização de "Assembleias que (...)
"devem distribuir tarefas entre os seus membros". Nessa
responsabilização individual, deve incluir-se a possibilidade da
escolha/eleição, no âmbito do organismo, do ou da camarada
que vai coordenar e dinamizar o funcionamento do colectivo, no quadro dos
princípios estatutário" (
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido
, ponto I). Pretendia-se, deste modo, atacar o centralismo democrático,
fator fundamental, segundo os próprios Estatutos do PCP, para
"assegurar simultaneamente, como características básicas,
uma profunda democracia interna, uma unica orientação
geral e uma única direccção
o central" (
Estatutos do PCP,
Capítulo III): ou seja, punha-se em causa a unidade de
direção, a unidade de ação, a discussão
interna, a "livre expressão
das opiniõ e a sua atenta consideração
e debate" para que "o cumprimento por todos das decisões
tomadas por consenso ou maioria" (
Estatutos do PCP,
Capítulo III) canalizem as forças para a luta numa única
direção. Buscava-se a descaracterização do elemento
que materializa a própria força do PCP, buscava-se a
horizontalidade das decisões, desacreditando as ferramentas
organizativas que haviam permitido ao PCP permanecer como o referente da luta
da classe operária e de todos os trabalhadores.
Assimilando, num processo de desmoronamento da estrutura ideológica
revolucionária, a
democracia
à
democracia burguesa,
excluindo o fundamental papel da luta de classes para a
transformação revolucionária da sociedade com vista
à construção do socialismo, excluindo a
conceção de que o Estado constitui sempre o domínio de uma
classe sobre outra, excluindo a etapa intermédia que permitirá a
praticidade do projeto comunista o socialismo (o modo de
produção mais democrático para a maioria explorada), o
Novo Impulso
afirmava que o PCP deveria ter como bandeira de luta "o descrédito
e desvirtuamento do regime democrático e da acção
política, e o abstencionismo cívico e eleitoral" (
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido,
ponto I). Confundindo cidadania e classes sociais, omitindo estas e,
portanto, renegando a própria luta de classes (valorizando, ao
invés, as categorias pós-modernas de
cidadania
e de
civismo
), distanciava-se do papel de vanguarda da classe operária, propondo um
desvirtuamento do projeto socialista estratégico, encontrando-se
já subjacente a influência das pós-modernas teorias de que
territórios
ou
multidões
ou
cidadãos
seriam os novos sujeitos de transformação histórica e que
a luta pelo poder político representava um fim em si mesmo.
Aproximação ao PS: quando a tática e a estratégia
se confundem
Uma orientação estratégica clara e afirmada: um
projecto de esquerda e de poder, para um novo rumo democrático,
assim é intitulado o ponto 2. do documento em questão:
Apesar da derrota dos partidos da direita nas legislativas de Outubro de 1995,
e do facto de socialistas e comunistas terem passado a dispor da maioria dos
lugares na Assembleia da República, as possibilidades que então
podiam ter-se aberto para a concretização de uma viragem
democrática, no sentido da esquerda, da situação nacional,
não tiveram qualquer expressão devido às
opções tomadas pelo PS. A estratégia das forças de
direita, protagonizada na primeira linha pelo PSD, evidencia-se com crescente
nitidez. Por um lado, essas forças acompanham as opções
fundamentais do Governo do PS, que correspondem, em grande medida, às
suas. Mas, por outro lado, movem-se de forma activa com o objectivo de
reagrupamento de um bloco à direita e de capitalização por
parte da direita do descontentamento social e da frustração que
alastram em amplos sectores sociais, com correspondência política
no eleitorado do centro e da esquerda (Por um novo impulso na
organização, intervenção e afirmação
política do Partido, ponto I).
Com efeito, a 1 de outubro de 1995, haviam-se realizado eleições
legislativas que, após dez anos de governação do PSD com
maioria absoluta, haviam dado a maioria relativa ao PS (43,76%). O PSD fora o
segundo partido mais votado com 34,12%, o CDS o terceiro, com 9,05%, e a CDU o
quarto, com 8,57% (506.157 votantes). Sejamos capazes de ter uma visão
totalizante (na secção abaixo desenvolveremos sumariamente esta
categoria marxista), e compreendamos as similitudes com a realidade concreta
atual.
O PS e a CDU somavam, apenas os dois, 52,33% dos votos. Seria esta maioria
eleitoral que moveria os defensores do
Novo Impulso
e que acalentaria as suas esperanças de construção de uma
unidade política na qual o PCP se resumisse a um mero apêndice
gestor de um modo de produção dominado pelos representantes do
seu inimigo de classe (o qual se congrega ora no PSD, ora no PS), num processo
de transformação, de subjugação e de
desintegração político-ideológica realizado,
apresentando uma incompleta leitura da realidade atual e a compreensão
desta como uma parte desprovida de totalidade, ou seja, a não
consideração da então situação
política de uma forma totalizante, e consequentemente desvinculada de um
processo estratégico de confronto entre o trabalho e o capital.
Não vale a pena referir as consequências que esta
estratégia da burguesia, defendida pelo
Novo Impulso,
teve na destruição de históricos partidos
revolucionários como o PCE, o PCF ou o PCI.
Em Dezembro de 1996, mais de 1.600 delegados são eleitos para o XV
Congresso do PCP, no qual se realizou um balanço de um ano de governo
PS.
O balanço teve em conta fatores que, hoje, nos poderiam remeter para
similitudes com a atualidade: após dez anos de governação
(com maioria absoluta) PSD, o PS ganhou com maioria relativa. O PSD e o CDS
não tinham uma maioria parlamentar, mas antes a CDU e o PS. Apesar
disso, O PS empenhou-se, no seguimento quer do anterior governo PSD, quer dos
anteriores governos, na destruição de conquistas e direitos
alcançados na Revolução de abril de 1974.
Ora, tendo em consideração a avaliação do novo
quadro parlamentar, o XV Congresso conclui que o PS, apesar de ter maioria
relativa, prosseguiu como o havia feito de 1976 a 1978, sob o governo de
Mário Soares (I e II governos constitucionais o segundo em
aliança com o CDS) e de 1983 a 1985 (IX governo constitucional, em
coligação com o PSD) uma política ao serviço
de uma privilegiada classe dominante:
No período que decorreu desde o XIV Congresso acentuou-se a
política de direita, prosseguida primeiro pelo Governo do PSD e, mais
recentemente, pelo actual Governo do PS, de reconstituição,
restauração e institucionalização do capitalismo
monopolista de Estado como sistema socioeconómico e sua
associação ao capital estrangeiro. Este processo, em
desenvolvimento desde 1976, encontra-se em fase avançada, embora
não concluído, e caminha a par de transformações
profundas do regime político, do agravamento da exploração
dos trabalhadores e de atentados contra os seus direitos e liberdades, de
limitações da soberania e independência nacionais
(Resolução Política aprovada no XV Congresso do PCP, II,
ponto 2.).
O PCP caracteriza a prática política do PS em
consonância com o que este sempre havia posto em prática desde
1976 como uma "política económica de direita"
(Resolução Política aprovada no XV Congresso do PCP, II,
ponto 2.) fraudulenta, ao serviço do grande capital nacional e
estrangeiro, no sentido de uma constante e gradual exploração dos
trabalhadores, de uma submissão do poder político ao poder
económico, desmanteladora do sector público que entrega
sectores-chave ao grande capital (nacional e estrangeiro), prosseguindo com
processos de privatização, consolidando novos e velhos
monopólios nacionais "que não só reforçaram o
seu poder económico como recuperaram poder político" e
reconstituindo "a propriedade de extensão latifundiária no
Sul do País com a destruição da Reforma
Agrária" (Resolução Política aprovada no XV
Congresso do PCP, II, ponto 2.). Em paralelo, o PS limitava a soberania e
independência nacionais no quadro da União Europeia:
Em vez de, numa base de firmeza e de fidelidade aos interesses nacionais,
enfrentarem os problemas reais existentes e as debilidades da economia
portuguesa para dar resposta a um quadro de competição alargada,
que tem trazido grandes problemas ao nosso tecido produtivo, nomeadamente
à agricultura, às pescas e a importantes sectores industriais, os
sucessivos governos (primeiro os do PSD, agora o do PS) optaram por uma
política de abdicação e subserviência às
orientações e determinações dos poderes dominantes
na União Europeia, ao mesmo tempo que abriram as portas e alimentaram as
práticas de favoritismo de clientelas, de falta de transparência,
de corrupção e dilapidação de fundos
comunitários (Resolução Política aprovada no XV
Congresso do PCP, II, ponto 1.).
Se, como afirma a Resolução Política aprovada no XV
Congresso, um ano após as eleições legislativas que haviam
levado ao poder o PS, "a análise da evolução das
realidades nacionais nestes últimos anos põe em evidência
que as políticas de direita antes com os governos do PSD, agora
com o Governo do PS são incapazes de lançar as bases
estáveis e duradouras de um processo de desenvolvimento económico
e social", agravando, ao contrário, "os problemas de fundo da
economia e da estrutura produtiva portuguesas, aumentam o atraso relativo do
País e acentuam as injustiças e desigualdades sociais"
(Resolução Política aprovada no XV Congresso do PCP, II,
ponto 1.), a conclusão é a de que o PS, como partido de poder,
está ao serviço da grande burguesia, nacional e estrangeira,
colocando ao dispor desta(s) a sua prática institucional e
política.
O exercício do poder político e institucional do PS conduziu,
portanto, à aplicação de uma política que
beneficiou a classe que colocou as instituições do Estado ao seu
dispor.
Não poderemos nunca esquecer. Como revolucionários. O Estado
constitui sempre o domínio de uma classe sobre outra, pelo que o Estado
capitalista é sempre o reflexo do domínio da burguesia sobre a
grande maioria explorada. Neste sentido, as instituições que nele
funcionam, são (re)organizadas
por
e
para
que o domínio de classe daquela perdurem. O PS não apenas
exerceu e efetivou o seu poder político submetendo-se à classe
económica e politicamente dominante, como o exerceu combatendo as
restantes classes e camadas que aquela subjuga e domina.
Omitir a natureza de classe de um Estado, como o fizeram os subscritores do
Novo Impulso,
negar o papel da luta de classes como um movimento constante de progresso que
permitirá a transição revolucionária para o
único modo de produção onde a grande maioria explorada
assumirá a construção de um Estado ao seu serviço,
pensar a luta de um partido revolucionário como limitada à luta
pelo poder institucional ao serviço da classe que aquele deveria
combater, é negar a própria teoria capaz de materializar as
transformações socioeconômicas que dirigem a luta
revolucionária. É submeter-se à ideologia e ao poder
político e económico dominante, abdicando da luta transformadora
e emancipatória pela construção de uma outra
organização socioeconómica. É esquecer que, em
política, não existem espaços neutros.
Se temos de remontar à Revolução Francesa de 1789 e
à posterior organização da respetiva Assembleia
parlamentar para compreender o porquê da atual
(vulgarização) dos termos
esquerda
e
direita,
teremos de assumir que a ideologia dominante continua logrando os seus
objetivos de domínio ideológico quando incorpora na linguagem
termos desprovidos de qualquer cientificidade como é o caso de
centro:
mera invenção linguística-ideológica, tem como
objetivo central a manutenção de uma falsa ideia de alternativa,
dentro do quadro parlamentar burguês, a qual, alimentada constantemente
pelos meios de comunicação social que expressam de forma massiva
a ideologia dominante (e, portanto, as suas vulgarizações e
(des)construções linguísticas e simbólicas),
permite a sobrevivência do próprio sistema.
O que guia a ação de um partido revolucionário é a
sua organização como vanguarda política num processo de
luta que conduz à conscientização das massas
trabalhadoras, num movimento social e político onde a teoria se
transforma em força material. Neste processo de luta, entram em
confronto duas classes fundamentais, antagónicas (porque
antagónicos são os seus interesses de classe), que constroem os
seus instrumentos, num caso de domínio, no outro de luta pelo derrube
desse domínio. Neste processo, existem classes (não fundamentais)
e camadas intermédias que ora se aproximam de uma classe, ora se
aproximam da outra, em função dos interesses que as movem em
determinado contexto socio-histórico. Não existe centro. Como
não existe neutralidade.
O centro é uma construção ideológica de uma minoria
que oprime e subjuga, a neutralidade é um processo de
desideologização e de opressão que afasta a maioria
laboriosa explorada da luta por um movimento emancipatório.
Adotar e assumir conceitos, categorias e elementos linguísticos que,
impostos e criados pela burguesia, nos distanciam da luta de classes, é
já assumir o abandono dos conceitos e categorias que guiam a luta pela
libertação do Homem.
Tudo, no
Novo Impulso,
se resume à luta institucional. Tudo, no
Novo Impulso,
se resume à descaracterização de um partido
revolucionário para o adaptar à mera institucionalidade da luta.
É no quadro institucional do capitalismo, perdendo a perspetiva
emancipatória de construção de um novo modo de
organização socioeconómico, que o
Novo Impulso
refere como solução institucional uma aproximação
do PCP ao PS - o mesmo PS que sempre executou uma política ao
serviço do inimigo daquela classe cuja vanguarda de luta se materializa
no próprio PCP -, alegando que desta forma o PS abandonaria a sua
"actual política" (
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido,
II, 2.) e que uma "verdadeira alternativa democrática e uma nova
política" (
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido,
II, 2.) seriam, então, postas em prática.
O PCP como consciência do PS? O PS como alternativa política? Que
alternativa? Dentro de que quadro institucional? Com que condicionantes?
A resposta está numa conceção ideológica que tem no
poder institucional o seu fim último, a qual implica que o PCP assuma
"particulares responsabilidades e exigências (...) nas diversas
frentes de intervenção e de luta" (
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido
, II, 3.). E assim se fecharia um alegre ciclo: PS e PCP juntos, "no
sentido da esquerda" (
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido
, II, 3.), numa convergência "de uma esquerda e de um projecto que
suporte a perspectiva, a possibilidade e a luta pela
concretização de um novo rumo democrático para
Portugal" (
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido
, II, 1ª).
A organização da luta, nos locais de trabalho, nos bairros, nas
escolas, nas universidades, numa perspetiva de elevar a consciência de
classe dos trabalhadores, de permitir o processo de aquisição de
uma consciência de classe
para si,
a qual, através da luta e da organização daqueles, sob a
vanguarda do proletariado, teria como estratégia a
construção do socialismo, rumo ao comunismo, não
constituiria, segundo o
Novo Impulso,
o objetivo primordial de um Partido Comunista. O Partido Comunista
Português passaria, ao contrário, a ter como objetivo central a
luta por um quadro institucional preciso, de forma a "participar num
alargado e genuíno processo de diálogo e de debate, à
esquerda, susceptível de estabelecer pontes e de construir
convergências que contribuam para viabilizar um projecto de poder" (
Por um novo impulso na organização, intervenção e
afirmação política do Partido
, II, 1ª).
Neste contexto, o Partido Comunista teria, portanto, de abandonar o projeto
revolucionário que constitui a sua própria essência, a sua
razão de ser, a sua matriz, que justifica a sua organicidade interna e
permite a elevação qualitativa e quantitativa dos padrões
de luta.
O XVI Congresso em 2000, depois a Conferência Nacional em 2002,
reafirmariam o projeto de emancipação humana que justifica a
existência do Partido Comunista Português, que marca a sua
diferenciação relativamente às restantes
organizações políticas que atuam no quadro
hegemónico da democracia burguesa; partido que, apropriando-se de uma
teoria emancipatória, tem como visão estratégica a
superação das desigualdades e da barbárie crescente
imposta pelo capitalismo.
Os instigadores e defensores do projeto político, social e
económico que representou o
Novo Impulso
engrossariam, à imagem dos seus antecessores, as fileiras do PS,
escondidos ou assumidos, ou contribuiriam ora para a
concretização, ora para o engrossamento, mais uma vez, de mais um
projeto de falsa alternativa, destituído de uma perspetiva
revolucionária, confinado aos meios intelectuais e urbanos, afastado de
qualquer estrutura de organização de massas, setorializando a
luta e desvinculando-a de um processo de transformação, numa
tentativa conciliatória classista e de abrandamento do projeto
capitalista monopolista de Estado, no fundo revelando um velho projeto da
burguesia de criar estruturas que, aparentando diferença e projetos
inovadores, mais não são do que uma tentativa de
destruição de projetos revolucionários cimentados.
Esquerda, Democracia e Liberdade: a dominação
ideológico-linguística e a totalidade marxista
No artigo
Da dominação ideológica através dos conceitos aos
graus transitórios de um processo revolucionário
(2014), escrevemos sobre a forma como a dominação
ideológica da atual classe dominante se efetua através de
diferentes meios e em diferentes disciplinas, materializando-se, igualmente, no
plano linguístico.
Com efeito, atendendo ao facto de que a realidade determina as ideias e
conceções, consideramos, como marxistas, que a linguagem e a
consciência são determinadas pela forma como o nosso ser exprime a
sua vida produtiva. Neste sentido, a consciência e a linguagem constituem
um fenómeno social, baseando-se nas relações reais que os
indivíduos estabelecem entre si: "serão antes os homens que,
desenvolvendo a sua produção material e as suas
relações materiais, transformam, com esta realidade que lhes
é própria, o seu pensamento e os produtos desse pensamento"
(K. Marx e F. Engels, 1845, A Ideologia Alemã).
A linguagem não pode, desta forma, ser desligada da ideologia, pelo que
a dominação ideológica de uma classe abrange, como acima
afirmamos, o plano linguístico. Esta dominação
manifesta-se ora na criação, ora na modificação e
alteração de conceitos ou de categorias, de forma a que o seu
domínio perdure, através da construção e
imposição da ideologia que subjaz a esse domínio. Assim, a
propósito da vulgarização de conceitos como
esquerda, democracia
ou
liberdade,
relembramos:
(...) há que compreender tais expressões (e, consequentemente, os
conceitos que as formam) num determinado quadro de imposição
ideológica e, portanto, num determinado quadro de
dominação de classe. Neste sentido, a compreensão do
conceito de democracia ou de liberdade depende da leitura de classe que lhe
está subjacente. (...) Num sistema estruturalmente desigual, mantido
através do domínio de uma minoria, exploradora, por um maioria,
explorada, baseado na exploração do Homem e dos recursos naturais
do planeta, nunca pode haver liberdade, ainda menos democrática, pelo
que é fundamental (re)pensar conceitos globalmente vulgarizados. Assim
sendo, para um revolucionário capaz de entender e ler cientificamente a
sociedade que o rodeia, a democracia burguesa é "a democracia para
uma ínfima minoria, a democracia para os ricos - tal é a
democracia da sociedade capitalista" (Lénine, 1917, O Estado e a
Revolução). Este conceito não pode, consequentemente, ser
desligado (tal como o exercício do poder) da natureza de classe de um
Estado (
Da dominação ideológica através dos conceitos aos
graus transitórios de um processo revolucionário,
2014).
É, assim, fundamental não perder de vista quer a teoria que se
transforma em força material, quer a capacidade de análise
crítica nos vários domínios de conhecimento, de modo a que
possamos desmontar, rebater e denunciar o discurso da burguesia, a sua
linguagem, a sua manipulação, a sua tentativa de
imposição ideológica que se manifesta no pensar, no ser,
no agir.
A luta de classes é um movimento contínuo. E trava-se em todas as
frentes.
Outra categoria fundamental marxista diz respeito à
conceção de
totalidade.
Com efeito, considerando que os homens são produtos e produtores da
História, a análise de Marx aplica o ponto de vista da
totalidade, afirmando que a compreensão de uma qualquer totalidade
implica a compreensão da cadeia de relações que a
constitui.
No plano teórico e metodológico, Marx considera que uma
totalidade é sempre uma unidade de totalidades concretas. Neste sentido,
a totalidade é sempre uma unidade interatuante de dois níveis
distintos de totalidade: no primeiro nível, encontramos as totalidades
sobredeterminantes, conquanto no segundo, encontramos as totalidades
subordinadas. Aplicando esta teoria à sociedade, Marx conclui que cada
nível histórico inclui ambas as totalidades, sendo que as
determinações econômicas sempre participam da totalidade
sobredeterminante (ou seja, quando de uma leitura científica dos
diferentes modos de produção que acompanharam a história
da humanidade, nenhum fenômeno pode ser considerado sem a
sobredeterminante econômica).
Sem compreender ontológica e intrinsecamente o valor da categoria
totalidade, "qualquer interpretação teórica do mundo
fica reduzida a um amontoado incoerente, amorfo e desarticulado de fragmentos,
do qual não pode resultar qualquer processo de efetiva
produção do conhecimento" (Edmilson Costa,
A totalidade como categoria central na dialética marxista
). Para a constituição desta categoria e para a sua consequente
aplicação científica, é portanto necessário
recorrer ao método dialético.
Tendo em conta que um fato é sempre determinado e composto por um
conjunto de partes, de relações em constante movimento, a sua
fragmentação, a fragmentação da totalidade que
é, do todo, do seu conjunto, faz com que o mesmo seja incorretamente
apreendido, impossibilitando-nos, por conseguinte, a sua compreensão
como totalidade. Assim sendo, o mero conhecimento de partes constitutivas de um
todo, não só não nos permitem a
identificação das leis que regem o seu funcionamento, como
não permitem o conhecimento das partes fragmentadas, já que
são as relações dialéticas que se estabelecem entre
estas que permitem o conhecimento do todo, e, portanto, que permitem a
análise e identificação das suas
determinações ontológicas: as
"determinações (...) só podem ser apreendidas se a
análise percorre a transversalidade essencial do todo" (Edmilson
Costa,
A totalidade como categoria central na dialética marxista
).
É neste sentido que as leis que regem o modo de produção
capitalista apenas podem ser compreendidas numa relação de
movimento dialético que possibilite a sua identificação
para posterior compreensão do funcionamento da totalidade que constitui
o modelo imposto pela burguesia.
Nas relações que se estabelecem entre as partes de uma
totalidade, exercem um papel fundamental as relações de
contradição ou de antagonismo. Apesar de nem todas as
relações entre as partes de uma totalidade serem
contraditórias, elas implicam necessariamente antagonismos, os quais
são decisivos historicamente para a constituição quer de
unidades, quer de ruturas. É neste sentido que se considera que o
capitalismo relaciona duas categorias fundamentais,
capital
e
trabalho
, as quais, ao mesmo tempo que funcionam como uma unidade dentro do
capitalismo, operam, em simultâneo, um processo de rutura
[6]
a partir do seu próprio seio.
Como marxistas, como leninistas, cabe-nos compreender o atual contexto
socio-histórico através da compreensão da categoria
totalidade.
Cabe-nos, por exemplo, analisar o historial das dissidências e sua
posterior integração em movimentos e partidos ao serviço
da burguesia, como um fenómeno não isolado, mas antes inserido
num projeto mais amplo, histórico, de destruição de
organizações que possam pôr em causa as estruturas
políticas e económicas de uma classe minoritária,
opressora, que aquelas controla. Cabe-nos, por exemplo, analisar a atualidade
histórica tendo em conta o passado, as relações entre os
momentos socio-históricos, as lutas, as unidades, as ruturas. Cabe-nos,
por exemplo, ler os atuais desenvolvimentos eleitorais num espaço para
além do presente, compreendendo o passado como um feixe de
relações dialéticas nas quais se opõem as
contradições emanantes do capitalismo. Cabe-nos, por exemplo,
pensar as políticas de alianças como parte de um todo, como uma
tática com vista ao reforço de uma estratégia que vai
além do presente eleitoral, e não como um ato tático
isolado sem relação dialética com a
contradição fundamental que opõe
capital
e
trabalho.
Cabe-nos, por exemplo, encontrar semelhanças com períodos
passados, mais ou menos recentes, e a partir deles retirar ensinamentos para a
utilidade, ou perigo, de alianças eventualmente concretizadas, as quais,
para além de expressar a realidade concreta a partir de uma leitura
totalizante, não devem contribuir para um processo conciliatório
das contradições fundamentais, mas, ao contrário, para um
acirramento destas, de modo a que no processo de agudização da
luta de classes o
trabalho
possa, finalmente, vencer o
capital.
Cabe-nos, concreta e cientificamente, para uma pertinente, capaz e totalizante
análise da realidade concreta, identificar os objetivos da
fundação do PS, ainda antes da Revolução de abril,
em 1973. Cabe-nos, concreta e cientificamente, para uma pertinente, capaz e
totalizante análise da realidade concreta, identificar o seu papel na
luta entre
capital
e
trabalho.
Cabe-nos, concreta e cientificamente, para uma pertinente, capaz e
totalizante análise da realidade concreta, identificar o papel que teve
na contrarrevolução de 25 de novembro de 1975, cujo desencadear e
desenvolvimentos, para além de uma íntima e crucial
atuação do PS, tiveram na sua base uma forte
intervenção estrangeira, nomeadamente da CIA (através do
seu representante Frank Carlucci). Cabe-nos, concreta e cientificamente, para
uma pertinente, capaz e totalizante análise da realidade concreta,
identificar o seu papel no desagregar das conquistas alcançadas com o 25
de abril de 1974. Cabe-nos, concreta e cientificamente, para uma pertinente,
capaz e totalizante análise da realidade concreta, identificar o seu
papel na destruição do aparelho produtivo nacional, na
imposição de uma legislação que sempre combateu os
interesses e conquistas dos trabalhadores, que sempre defendeu fiscalmente as
grandes empresas, na destruição do SNS, na
acentuação da precariedade e na imposição de uma
legislação que conduziu à vulgarização de
contratos precários, no ataque à negociação
coletiva, no caminho de declínio, de injustiça, de
exploração e de empobrecimento (cujo presente não pode
nunca ser desligado do passado) nacionais, na imposição
legislativa de políticas que se traduziram no empobrecimento das classes
e camadas trabalhadoras, numa estratégia de subjugação ao
grande capital baseada, não apenas no empobrecimento de uma maioria, mas
também no ataque aos serviços públicos, no ataque ao setor
empresarial do estado e aos seus trabalhadores.
Cabe-nos, concreta e cientificamente, para uma pertinente, capaz e totalizante
análise da realidade concreta, identificar o seu papel
no ataque que desde 1976 efetua à Constituição da
República Portuguesa.
Tudo isto nos cabe, como comunistas, como marxistas, como leninistas, como
homens e mulheres que levam avante o mais belo projeto de
transformação da humanidade.
[1] O PSD será igualmente eleito com maioria absoluta nas
eleições legislativas de 1991.
[2] A 6 de Outubro de 1985, o PCP alcança 898.281 votos, 15,49% dos
votos, elegendo 38 deputados.
[3] Cf. Paulo Martins,
PCP de Cunhal espiou dissidentes, JN
, 16/05/2007.
[4] No XIII Congresso extraordinário do PCP, em 1990, Carlos Carvalhas
é eleito secretário-geral adjunto de Cunhal e é candidato
à presidência da República. Mário Soares (com o
apoio de muitos ex-militantes) é reeleito para a presidência.
[5] Adenda à citação de José Manuel Jara: Isabel
Pires de Lima foi ministra da Cultura, e não secretária de Estado.
[6] Edmilson Costa,
A totalidade como categoria central na dialética marxista:
"Essa contradição, presente no topo da totalidade
abrangente modo de produção, também está presente
na outra ponta - a da categoria mais simples (molecular), a mercadoria - desse
modo de produção. Também a mercadoria é uma
totalidade e, como tal, encerra, na sua objetivação,
através da produção capitalista, conexões de outras
categorias que se revelam como relações de
oposição, tais como: valor e mais-valia, visibilidade e fetiche
etc.".
Da mesma autora:
Da dominação ideológica através dos conceitos aos graus transitórios de um processo revolucionário
[*]
Professora do Ensino Superior. Pós-doutoramento em sociologia da
literatura a decorrer na Universidade Estadual de São Paulo.
Este artigo encontra-se em
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