por Guilherme Alves Coelho
Há uns anos atrás a revista humorística norte-americana
MAD
ilustrava, num
cartoon
em dois desenhos, uma metáfora inesquecível. No primeiro desenho
o Super-homem dirigia-se a alta velocidade na direcção de uma
donzela, de braços e pernas atados, atravessada sobre os carris de um
comboio que se aproximava a todo o vapor. No segundo desenho o Super-homem,
já no chão, de pé entre os carris, exibia a donzela
sã e salva num dos braços, enquanto que com o outro sustinha
firmemente o comboio, de cujas carruagens completamente destruídas e
empilhadas pendiam corpos esfacelados, membros humanos e sangue por todo o
lado. Com um ar de satisfação pelo dever cumprido o Super-homem,
em pose, sorria alarvemente.
Recordei mais uma vez aquele
cartoon
a propósito de a cimeira da NATO a decorrer em Lisboa, a sétima
da sua existência de sessenta anos. Como as precedentes, destina-se a
fazer a contagem dos actos de bravura praticados pela Organização
nos últimos anos e, principalmente a renovar o stock de donzelas a
salvar nos próximos. Como as precedentes, mandando às urtigas os
prejuízos causados à humanidade, contabilizados na coluna dos
danos ou efeitos colaterais.
O documento base, datado de Maio de 2010, apresentado ao fórum por doze
peritos chefiados pela Sra. Albright (EUA) apresentava no final um
resumidíssimo e vago programa até 2020, onde se podia ler que
A NATO prospera como uma fonte de esperança porque desde o inicio
os estados membros definiram o seu programa comum em termos positivos:
reforçar a segurança internacional, salvaguardar a liberdade e
promover o estado de direito.(...)
Não sabemos o que mais espanta, se a vulgaridade dos conceitos, se a
hipocrisia subjacente, se a incapacidade para entender o mundo. Quando tentamos
encontrar o destinatário daquelas intenções e pensamos que
seja o
povo
tudo fica incoerente. Porém, uma leitura mais atenta revela que sob o
aparente arrazoado de generalidades, iniquidades e infantilidades havia afinal
frases coerentes e lógicas. Bastava encontrar, como nos textos cifrados,
as palavras-chave que davam sentido ao conjunto. Ou seja encontrar os
verdadeiros destinatários daqueles objectivos e tudo se torna claro. O
texto correcto ficaria então assim:
Reforçar a segurança internacional
da alta burguesia
;
Salvaguardar a liberdade
do capitalismo
;
Promover o estado de direito
para a plutocracia
.
Ou seja, encontrar as donzelas a salvar e ocultar os danos colaterais
provocados pelo salvamento.
Uma dúzia de peritos, produzirão em Lisboa um documento onde se
definirão quais as donzelas a salvar no próximo decénio.
Os danos para os povos, esses, serão sempre e apenas colaterais.
20/Novembro/2010
Este artigo encontra-se em
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