Resolução do Plenário Nacional de Sindicatos
Novo pacote do governo, com o apoio do PSD, agrava o PEC
Pacote Sócrates/Passos Coelho
O Governo anunciou a 13 de Maio um novo injusto e inaceitável pacote de
"medidas de austeridade". O elemento essencial é o aumento dos
impostos sobre o rendimento (com apropriação de parte do
salário dos trabalhadores e das pensões) e sobre o consumo. O
pacote inclui, em particular, o agravamento generalizado do IRS; a
elevação do IVA para todos os produtos; o congelamento de
admissões na Administração Pública;
reduções das indemnizações compensatórias
às empresas de capitais públicas; cortes nas transferências
para as autarquias locais.
Este pacote é o resultado de mais um
acordo celebrado entre o Governo e o PSD
. O mesmo já antes acontecera com as medidas incluídas no
Programa de Estabilidade e Crescimento 2010-2013 (PEC) para "acalmar os
mercados". Na prática, está a ser desenvolvida uma
governação económica cujos rostos e principais
intérpretes são o Primeiro-Ministro e o Presidente do PSD (que
não tem mandato de governação), à margem dos
partidos políticos e da Assembleia da República, num atropelo de
regras básicas do funcionamento democrático.
Cada vez é mais evidente que
não temos uma efectiva governação política do
país
, mas sim a gestão Sócrates/Passos Coelho subordinada às
orientações e decisões dos especuladores financeiros (os
primeiros responsáveis da crise) e aos interesses do grande capital,
cumprindo as políticas neoliberais dos mandantes da União
Europeia.
Sucessivos pacotes de medidas injustas e violentas para os trabalhadores
A consequência mais relevante deste pacote a ser executado
é a quebra do nível de vida da generalidade da
população. A generalidade dos trabalhadores vê o seu poder
de compra atacado por via do aumento dos impostos pagos em sede de IRS (+ 1% a
+ 1,5%) e de impostos pagos quando adquirem bens de consumo (+ 1% no IVA). Uma
parte significativa destes trabalhadores ou não tem aumentos salariais,
como acontece na Administração Pública, em sectores do
privado e no geral, e, empresas do Sector Empresarial do Estado, ou tem
actualizações salariais muito reduzidas.
Este pacote não pode ser visto isoladamente
pois as suas medidas gravosas acrescem às que estão inscritas no
OE e no PEC aprovado em Março. O
PEC
é profundamente injusto. Prevê, entre outras medidas, o
congelamento (redução efectiva) ou forte moderação
dos salários; introduz cortes nas despesas sociais, incluindo as
prestações sociais não contributivas; contém um
programa de privatizações com vista a quase liquidar o que resta
do Sector Empresarial do Estado; agrava a tributação sobre o
trabalho.
Num contexto de agravamento do desemprego e da existência de uma franja
significativa de desempregados que não são cobertos pelas
prestações de desemprego (mais de 200 mil desempregados em
Março), o Governo já aprovou em Conselho de Ministros
normas restritivas sobre o subsídio de desemprego
que, na prática, reduzem o seu valor ao ser criado um novo
limite máximo (75% do salário líquido) e visam
obrigar os desempregados a aceitar empregos a qualquer preço. Os
impactos destas medidas induzem uma redução generalizada dos
salários.
O Governo aprovou também
medidas restritivas sobre o rendimento social de inserção
que, a pretexto de abusos existentes, poderão reforçar o
carácter estigmatizante de apoios e prestações destinadas
a combater a pobreza e a exclusão social., precisamente no ano em que a
U.E. elegeu 2010 como ano de combate à pobreza.
O actual pacote conduz a
novas penalizações
: ao reduzir o salário líquido, devido ao aumento do IRS, vai
representar um novo corte no subsídio de desemprego; elimina medidas de
apoio anti-crise.
Profunda injustiça na repartição dos sacrifícios
É falsa a afirmação do Governo de que os
sacrifícios exigidos à população são
repartidos de uma "forma justa". Sustenta essa
afirmação no facto de o pacote também incluir algum
aumento do IRC para as grandes empresas e a banca, o aumento da taxa
liberatória do IRS aplicável a depósitos a prazo e a
dividendos, pequenos cortes salariais a políticos, gestores e
líderes de entidades reguladoras. Porém, algumas destas medidas
são simbólicas como reconheceu expressamente o Primeiro-Ministro
em relação a estes cortes salariais e outras, como no caso da
tributação das mais-valias, que têm efeitos limitados pelo
facto de deixarem de fora as sociedades gestoras de participações
sociais e os fundos de investimento. Quanto ao aumento do imposto sobre os
lucros, o seu impacto será também reduzido, designadamente, pelo
facto de apenas abranger as empresas com lucros tributáveis superiores a
2 milhões de euros.
Estas medidas adoptadas não significam efectiva justiça social e
fiscal. Contudo, há a registar que as reivindicações e a
luta da CGTP-IN e dos trabalhadores foram determinantes para que o Governo
tivesse de as adoptar.
Não existe justiça relativa
quando o grosso dos sacrifícios pedidos recai sobre os assalariados que
vêem os seus
salários reduzidos e a sua tributação em IRS agravada
; sobre os consumidores em geral por via do aumento do IVA; sobre os
pensionistas; sobre os desempregados; sobre os beneficiários de
prestações não contributivas, incluindo a parte mais pobre
abrangida pelo rendimento social de inserção.
Uma das novas injustiças gritante e absolutamente inaceitável
é o
aumento da taxa mínima do IVA
. Os aumentos verificados no IVA nos últimos anos nunca atingiram esta
taxa que abrange produtos de primeira necessidade, produtos alimentares, bens
energéticos, água, medicamentos e outros produtos de
saúde. A população pobre e os pensionistas serão os
mais atingidos pois são os que têm uma maior despesa relativa com
bens alimentares de primeira necessidade e com medicamentos.
Os custos resultantes deste pacote poderão, inclusive, ser bem maiores
do que parecem à primeira vista. De facto, a redução das
indemnizações compensatórias a empresas do Sector
Empresarial do Estado, incluindo as de transportes, poderá acarretar uma
ainda maior degradação financeira destas empresas e o
acréscimo de encargos para os utentes e/ou redução dos
serviços públicos. Entretanto, os impactos de medidas que
vêm sendo adoptadas na Saúde e no Ensino e as pretensões
expressas pelo PSD no que se refere à revisão da CRP (no
fundamental não combatidas pelo PS), configuram novos atentados a
direitos fundamentais dos portugueses.
Além disso, também algumas ideias já avançadas,
para público, pelo Governo, no que se refere ao "Pacto de
Emprego" e à hipotética revisão da
legislação laboral, indiciam inadmissíveis ataques aos
direitos dos trabalhadores.
O emprego é mais uma vez sacrificado
Nem o PEC nem este novo pacote adicional se preocupam com o emprego.
O Primeiro-Ministro, na Conferência de Imprensa de 13 de Maio, não
usou sequer a palavra emprego.
É como se não houvesse uma crise de emprego e a taxa de
desemprego oficial não estivesse já acima dos 10%.
A preocupação não é a adopção de
políticas económicas que criem emprego nem a melhoria da
cobertura dos desempregados pela protecção social nem o combate
às desigualdades e á pobreza. As prioridades do Primeiro-Ministro
e do líder do PSD centram-se em servir os interesses do grande capital
internacional e nacional e na manutenção no poder
(político e económico) daqueles que há décadas nos
desgovernam e cada vez mais nos exploram.
Que governação é esta
que abandona o primeiro e mais grave problema da sociedade portuguesa? Onde
está o tão propalado interesse nacional?
Os
momentos de crise
revelam não só a qualidade da governação de um
país, como também o
carácter das pessoas
que a ocupam, bem como a
capacidade dos dirigentes
para responder aos problemas que se colocam a uma sociedade.
Esta crise poderia e deveria servir para inverter o caminho de declínio
económico, de crescentes desigualdades sociais, de pessimismo sobre o
nosso futuro colectivo e de perda de valores. Mas não é este o
caminho que o Governo está a seguir.
O Governo tem vindo a explorar o facto de o INE ter estimado um crescimento
para o PIB de 1% no primeiro trimestre, chegando ao ponto de afirmar, de forma
arrogante, que estávamos a ser o campeão do crescimento na UE. Se
a situação fosse assim tão encorajante, como explicar
então que se peçam sacrifícios adicionais?
O INE aponta como causa para o crescimento do 1º trimestre um maior
contributo da procura interna em relação à procura externa
líquida (exportações menos importações).
Porém, as medidas inseridas no PEC e neste pacote adicional, incluindo
os cortes no investimento público e a eliminação das
medidas anti-crise irão reduzir a procura interna num contexto em que as
famílias estão fortemente endividadas, em que os preços no
consumidor retomam o crescimento e em que aumentam os custos do crédito
bancário.
Políticas seguidas não respeitam compromissos assumidos
A situação presente é uma violência social
intolerável e de uma
injustiça gritante
. O colapso financeiro e depois a crise económica mundial não foi
provocado pelos trabalhadores mas por práticas especulativas, por
desequilíbrios económicos globais e por desigualdades sociais
gritantes.
Foi o esforço do geral da população, através dos
seus impostos, que salvou um sistema financeiro originador da crise. Agora, os
mesmos bancos e instituições financeiras, que estiveram no centro
dos problemas, retomaram em força a especulação e
não se tomam medidas de fundo para lhe por termo como tanto foi
prometido pelos Governo, pela Comissão Europeia, pelo G20, etc.
A crise das dívidas na Europa, incluindo a portuguesa, foi provocada
pela especulação e pela recessão, pelos apoios aos bancos
e às empresas, pelo aumento da fuga fiscal. Para iludir a realidade
lá colocam uma ou outra medida pontual (de mera simbologia) de
incidência sobre os capitalistas para fazer passar a mensagem de que
todos pagam. Mas o custo dos sacrifícios recai sobre os trabalhadores,
os pensionistas e as camadas de menor rendimento.
Uma União Europeia sem valores deixou cair a Grécia e só
encarou aplicar medidas de apoio financeiro efectivas face a sinais de risco
sério para o euro. Entretanto, exige que os défices sejam
reduzidos em períodos tremendamente curtos, impondo cortes sociais e a
participação do FMI e preparando-se para tornar ainda mais
estritas e cegas as regras do Pacto de Estabilidade e de Crescimento.
Esta política contrasta com os compromissos assumidos por governos,
organizações sindicais e patronais no âmbito do Pacto
Mundial para o Emprego, aprovado na OIT, no sentido de procurar saídas
para a crise dando prioridade ao emprego, à protecção
social e ao ambiente.
Em Abril passado, a Cimeira de Ministros do Trabalho e do Emprego do G20
afirmou não ser aceitável uma retoma económica sem
recuperação de emprego. E reafirmou compromissos da Cimeira do
G20 de Pittsburgh, realizada em Setembro de 2009, de que os planos de
recuperação económica devem apoiar o trabalho digno,
ajudar a preservar o emprego, priorizar o crescimento do emprego e assegurar
emprego, segurança social e medidas de formação aos
desempregados.
É tempo de pôr termo à hipocrisia! Não se admite o
prosseguimento e aprofundamento das políticas que conduziram à
crise mesmo que inseridas em declarações bondosas e pomposas, o
que se impõe é mudança profunda, com acção e
medidas que respondam às necessidades e anseios dos povos.
Existem e exigem-se políticas alternativas
A CGTP-IN reconhece o significado das dificuldades que os desequilíbrios
das finanças públicas e do endividamento externo podem causar ao
Estado, às empresas e às famílias, em particular, no que
respeita ao agravamento das condições e do próprio acesso
ao crédito. Por isso
a CGTP-IN apresentou um conjunto de propostas indispensáveis
para a recuperação económica e desenvolvimento do
país, para o reequilíbrio das contas públicas pela via do
aumento das receitas e da redução das despesas públicas.
É indispensável continuar a exigir a alteração aos
critérios do PEC e o alargamento do prazo de redução do
défice público para além de 2013, de forma a não
ser posto em causa o crescimento e o desenvolvimento, e a evitar que o povo
seja submetido a sacrifícios desnecessários.
É possível e indispensável dinamizar o sector produtivo,
fazer a reindustrialização do país e dar combate firme
à economia paralela, à corrupção e à
ilegalidade.
É preciso o crescimento dos salários e das pensões, para
estimular a economia nacional interna, para promover o emprego e dar combate
às políticas geradoras da pobreza.
É imperiosa uma resposta adequada às prioridades sociais,
principalmente ao flagelo do desemprego, reforçando a
protecção social.
É necessário o acesso universal aos serviços
públicos e a sua melhoria.
É indispensável a melhoria da qualificação,
incentivando a formação profissional e a
investigação, num contexto geral de afirmação da
qualidade de emprego.
É possível e necessário cortar desperdícios e
gastos desnecessários.
É imperioso alargar a tributação das mais valias às
SPGS e aos Fundos de Investimento. Suspender os benefícios fiscais em
IRS, tributar os dividendos de capital em 30%, e tributar as grandes fortunas.
É possível e necessário aumentar as receitas do Estado,
fazendo pagar quem não paga impostos, o que exige o combate à
fraude e evasão fiscal e contributiva e a eliminação de
benefícios fiscais socialmente injustos.
É preciso pôr fim aos offshores, implementar medidas de
taxação fiscal sobre as transacções financeiras
internacionais, regular seriamente o sistema financeiro e acelerar radicais
mudanças no seu funcionamento.
Resistir às imposições e fazer conquistas para os
trabalhadores na luta do dia-a-dia nos locais de trabalho
A acção e luta sindicais, que temos de intensificar, constitui o
caminho para a conquista de ganhos para os trabalhadores em termos de defesa de
emprego, do direito e da efectivação da contratação
colectiva, de garantia de direitos, de melhoria de salários, de combate
à precariedade, de travagem objectiva aos efeitos dos pacotes de medidas
que vão sendo anunciados.
29 de Maio, uma grande manifestação de indignação,
de confiança no futuro, de exigência de mudança
Exigimos a
abolição das medidas fortemente penalizadoras
dos desempregados, dos trabalhadores e dos reformados e a
adopção de políticas alternativas justas e mobilizadoras
da sociedade. Com uma forte participação de trabalhadoras e
trabalhadores, empregados e desempregados, de jovens, de reformados e
pensionistas, de todos quantos são atingidos pela violência e
injustiça destas políticas daremos expressão à
justa indignação que os portugueses e portuguesas sentem e
tornaremos possível o caminho para a mudança.
Apelamos e exortamos os trabalhadores a darem um
combate sem tréguas às inevitabilidades, à
submissão, ao amorfismo!
Comprometemo-nos com o
reforço da acção para a exigência de politicas mais
justas
e solidárias, com a luta de quem trabalha, de quem está
desempregado, de quem sofre com violentas precariedades, combatendo o desespero
em que querem colocar uma parte significativa da população.
Vamos
juntar todos os descontentamentos e protestos
na luta pela defesa dos direitos e da dignidade de quem trabalha.
Vamos esclarecer, mobilizar, unir forças e vontades dos homens, das
mulheres, da juventude, aumentando a capacidade reivindicativa e a
dimensão da
luta nos locais de trabalho
e desenvolver iniciativas publicas de indignação e protesto face
à violência das medidas que estão a ser desenvolvidas.
Vamos fazer uma
Grande Manifestação Nacional
, no próximo
dia 29 de Maio, em Lisboa
, construindo um momento alto da contestação a estas
políticas injustas e violentas, exigindo um novo rumo para Portugal que
coloque os trabalhadores e o povo no centro das prioridades da política
económica e de toda a acção política
necessária ao desenvolvimento do país.
O futuro exige-nos o alargamento da base de mobilização, a
intensificação e ampliação da luta.
Lisboa, 15 de Maio de 2010
O Plenário Nacional de Sindicatos
O original encontra-se em
http://cgtp.pt//index.php?option=com_content&task=view&id=1659&Itemid=1
Esta resolução encontra-se em
http://resistir.info/
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