A propósito do regresso aos mercados
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Mas o mais importante e que quero destacar é que: Portugal regressou
hoje ao mercado de obrigações
(Vitor Gaspar na conferência de imprensa de 3/10/2012)
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Na conferência de imprensa do passado dia 3, o ministro das
Finanças Vitor Gaspar, falou desenvolvidamente do regresso de Portugal
aos mercados:
"Hoje mesmo realizámos uma operação de troca de
dívida que é para todos os títulos um enorme sucesso.
Marca de forma inequívoca o regresso de Portugal aos mercados",
disse em contraponto do enorme, (corrijo: colossal) pacote fiscal que
tinha como propósito anunciar.
Mas que sucesso foi este, perguntarão muitos, não se deixando
embalar pelos auto-elogios do ministro?
Em 31 de Agosto de 2012, a dívida directa do Estado ascendia a 188.021
milhões de euros (113% do PIB). Desta dívida, 93.633
milhões de euros estava titulada em Obrigações do Tesouro
(OT). Destas OT, havia uma emissão feita em 1998 que tinha como data de
reembolso Setembro de 2013, da qual, segundo a Agência de Gestão
da Tesouraria e da Dívida Pública (que alguns ainda
conhecerão por IGCP) informava no seu Boletim Mensal de Setembro,
estavam ainda em circulação títulos no valor de 9.593
milhões de euros (OT 5,45% Set 98/2013)
[1]
.
Em 3 de Outubro, a IGCP propôs aos detentores de títulos de destas
OT com maturidade em Setembro de 2013 a troca das OT por outros títulos
de dívida pública (também OT) com o mesmo valor nominal,
mas com vencimento em Outubro de 2015. A operação, porém,
só foi aceite por titulares de 39% dos títulos. Foram trocados
títulos representativos de 3.757 milhões de euros, informou em
comunicado a IGCP
[2]
.
Dito de outra maneira, a oferta não foi aceite pelos detentores de
61% da dívida em oferta de troca, mantendo-se os respectivos
títulos na dívida pública com a maturidade em Setembro de
2013, num valor total de 5.829 milhões de euros
[3]
.
Em síntese, a dívida trocada (3.757 milhões de euros de
OT) representou pouco mais de um terço da colocada em oferta de troca no
chamado mercado. A comparação do valor trocado com os valores
globais da dívida pública evidenciam a relatividade da
dimensão da operação menos de 2% da dívida !
Isto não impediu o ministro Gaspar de tecer diversos comentários
auto-elogiosos, de apregoar loas aos resultados do sucesso do programa da
Troika, sublinhando o "
regresso aos mercados
" e rematando: "
Somos hoje em crise capazes de refinanciar esta
operação
".
O que o ministro não explicou, nem lhe foi perguntado pelos jornalistas
presentes, foi quem foram os investidores que responderam à oferta de
troca.
O sítio da agência do Estado que gere a dívida
pública não disponibiliza qualquer informação sobre
os detentores das OT, vá-se lá saber porquê. Se o fizesse,
passávamos a conhecer melhor quem actua afinal no mercado (os chamados
investidores), dando-lhe maior transparência.
Quem não alinhou totalmente nesta operação de propaganda
interna foi a EURONEWS. Com efeito, pela notícia do evento dada pela
estação de televisão EURONEWS, que podemos consultar no
respectivo sítio
[4]
, ficamos a saber quem são os investidores que acorreram ao apelo do
ministro. Disse a EURONEWS que "
"os principais detentores de dívida pública portuguesa
são
bancos, companhias de seguros e fundos de pensões portugueses, com os
investidores internacionais a não se atreverem a participar".
[6]
Ou seja, o tão apregoado auto-sucesso foi obtido com a
"voluntariedade" da banca portuguesa, eventualmente secundada por
alguma seguradora ou fundo de pensões portugueses.
Que a banca está interessada em prorrogar a maturidade destas OT
já nós sabemos, pois elas são elegíveis para
levantar euros junto do BCE, obtendo capitais frescos a 0,75%.
Recordo ainda que a operação de troca
"foi realizada em condições de mercado, a uma taxa de juro
de 5,12%",
como disse o ministro, sem contudo se referir à colossal margem
financeira que ofereceu a ganhar à banca nesta operação.
08/Outubro/2012
[1] Fonte:
http://www.igcp.pt/fotos/editor2/2012/Boletim_Mensal/09_BM.pdf
[2] Fonte:
http://www.igcp.pt/gca/index.php?id=1231
[3] Fonte:
www.igcp.pt/fotos/...
NB: Há uma discrepância de 7 milhões de euros quando comparamos os diversos
números relativos a esta emissão de OT, antes e depois da oferta de troca, em
diferentes locais no sítio da IGCP: 3757+5829= 9586 vs. 9593 MEUR.
[4]
www.euronews.com/2012/10/03/portugal-kicks-debt-can-further-down-the-road/
[5] "Portuguese banks, insurers and pension funds are the main holders
of the country's debt, with international investors still shying away".
[*]
Economista
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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