Presidenciais a direita dividida
por José Paulo Gascão
Vai para dois anos que Cavaco, escaldado com a derrota de há 10 anos,
começou a gerir o tempo de lançamento da sua candidatura à
Presidência da Republica . A servil comunicação social
portuguesa, pressurosa, acorria à convocação e
trombeteava,
urbi et orbe,
o banal comentário como se de ideia profunda se tratasse, comentava o
simples artigo com um alarido despropositado, não fora tudo fazer parte
da longa, meditada e programada manobra. Pretendia-se criar a ideia do
distanciamento que a docência propicia e iludir a realidade: a
declaração de retirada para a docência em 1996, depois da
humilhante derrota nas presidenciais, escondia mas não esbateu a
desmedida ambição de poder do
omnisciente
professor. A direita, parecia, tinha encontrado o candidato a apoiar, sem que
este necessitasse de assumir a candidatura.
Ao longo de dois anos procurou-se adoçar a indisfarçável
arrogância, esquecer as gravíssimas lacunas culturais,
apresentando Cavaco Silva como o salvador da crise de que ele foi o primeiro e
um dos principais responsáveis. Tentaram vende-lo como a última
essência da competência, esbatendo as suas imensas
responsabilidades, enquanto primeiro ministro, no aumento do desemprego (mais
de 400.00 desempregados), do déficit das contas públicas que em
1993 chegou aos -8,9%, das falências sem conta que então se
verificaram, da instabilidade criada no emprego com a Lei da
sub-contratação, etc, etc.
Será preciso lembrar forma como Cavaco Silva passou o testemunho a
Fernando Nogueira quando viu que a vitória do PS de Guterres
(também de má memória) era irreversível, a sua
relutância a disputar as eleições presidenciais em 1996,
para que foi muito empurrado e a contragosto, e na qual sofreu esmagadora
derrota?
A forma arrogante e autoritária como sempre se comportou e a forma como
os seus apaniguados o tentam agora apresentar esconde a tentativa de passar
para Belém, institucionalmente ou de facto, a política de direita
da responsabilidade do PSD e do PS, desde o I governo constitucional. A
candidatura de Cavaco Silva, pelas ideias subjacentes e por apoios que
já concitou até antes de ser assumida, só pode
perspectivar um período de instabilidade e conflituosidade com o
governo, de que a principal vítima será o povo português.
Enquanto Cavaco Silva preparava a sua putativa candidatura, o PS, multiplicando
o lançamento de nomes como se de pães se tratasse, todos eles
passados pelo funil da fidelidade à política neoliberal, aos
ataques ao estado social e ao balancear submisso aos interesses imperialistas,
afastou a possibilidade de candidatura de um cidadão português,
maior de 35 anos e no pleno uso dos seus direitos, de esquerda, que enfrentasse
e derrotasse a direita nas eleições presidenciais. Mesmo que
esse cidadão fosse socialista ou da área ideológica do PS.
Sem nome credível avançado, num processo indecoroso,
lançaram a
lebre
Manuel Alegre, enquanto no segredo dos gabinetes, Sócrates e
Mário Soares acordavam os trâmites da manobra que levou este
último a decidir o que há muito tinha pensado: o candidato sou eu!
Os mídia logo sentenciaram: a esquerda já tem o candidato capaz
de enfrentar, e eventualmente derrotar, Cavaco Silva.
Pura mistificação, trata-se de dois candidatos da direita, pelo
passado, pelas opções e pelos apoios, alguns comuns, que
congregam no poder económico. Mário Soares foi o líder da
contra-revolução, transformando o PS no guarda-chuva protector de
toda a direita que procurasse abrigo. Aliou-se a Spínola formando, na
opinião de Álvaro Cunhal
"uma das mais estáveis e duradouras alianças
político-militares do processo contra-revolucionário".
Logo no 1º Governo Provisório,
"sempre (me) expôs
[a Spínola],
com a máxima lealdade, as suas opiniões e me alertou para os
perigos
[o processo revolucionário, com a ampla participação do
povo português que se sabe]
que o País estava a correr com base na actuação do
PC",
tendo tido conhecimento antecipado, se não mesmo
participação, no golpe Palma Carlos: reuniu com Palma Carlos,
à margem do governo de que fazia parte e sem o avisar como era do seu
mais elementar dever de lealdade (que é isso?), tendo-lhe, então,
sido exposto o plano golpista de Spínola. Diz que discordou, mas logo
acrescenta que isso não pressupunha a sua vontade
"de que o general Spínola caísse ou saísse de
cena",
pois queria aguentá-lo.
Aliás, depois de Spínola ter conspirado, de armas na mão,
contra a revolução de Abril (11 de Março de 1975) e ter
dirigido a rede bombista que lançou morte e destruição no
Portugal de Abril, promove o seu regresso sem julgamento a Portugal e
atribui-lhe o cargo de chanceler das ordens!
Renegando expressamente o socialismo,
engavetou-o
até hoje, promove activamente a divisão do movimento
operário e sindical, inicia a recuperação capitalista,
incentiva o regresso dos monopolistas que foram o sustentáculo do
fascismo em Portugal, inicia a destruição da reforma
agrária... Nesta sua cruzada contra o Portugal de Abril, conspira com
Frank Carlucci (homem da CIA, onde subiu até subdirector operacional),
então embaixador dos EUA em Portugal, chegando ao desplante de o
condecorar por serviços prestados à "liberdade dos
portugueses" e exigir, há três ou quatro anos, que fosse este
seu amigo a entregar-lhe o "Globo de Ouro" que a SIC de Pinto
Balsemão (outro do antigamente que é seu amigo) lhe atribuiu.
Seria fastidioso continuar a folha corrida de Mário Soares neste seu
combate contra uma verdadeira democracia (política, económica,
social e cultural) em Portugal.
Hoje, o PS e a servil comunicação social portuguesa, pretendem
apresentá-lo como o candidato da esquerda. Seria cómico,
não fossem os perigos dessa mistificação constituir um
motivo mais para o descrédito dos generosos ideais de esquerda junto do
povo português.
Um dos dois putativos candidatos, Cavaco Silva ou Soares, será eleito.
O PCP já anunciou que irá apresentar um candidato para defender o
seu conceito de democracia e o seu projecto de sociedade e de futuro.
O Bloco de Esquerda
[1]
vai estafar-se a explicar as razões porque vai apoiar Soares logo
à primeira volta, que os favores com favores se pagam,
[1]
e até o
lebre
Manuel Alegre, ainda tão justamente queixoso pela safadeza que lhe
fizeram e disponível para apresentar a sua candidatura,
proclamará uma vez mais, em voz tonitruante, o seu apoio ao camarada
Mário Soares. Depois..., bem, depois escreverá um poema,
excelente como sempre, intitulado dignidade ou outro qualquer valor eterno.
A verdade, nua e crua, é que um dos dois candidatos da direita
será Presidente da República, os ideais e valores da esquerda
serão uma vez mais postos de lado e o regime democrático vigente
cavará mais uma razão de descontentamento até que, com a
sua luta, o povo português descubra o caminho para uma nova sociedade
democrática, política, económica, social e cultural, que
comece por concretizar, o que não sucedeu até hoje, os
princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.
Lisboa/18/Agosto/2005
[1]
Posteriormente à publicação deste artigo, o Bloco de
Esquerda foi "obrigado", a 1 de Setembro, a
anunciar a candidatura de um dos seus líderes, Francisco
Louçã. Na véspera, outro dos líderes do Bloco de
Esquerda e seu candidato às últimas eleições
presidenciais, Fernando Rosas, foi apoiar Mário Soares na sessão
de apresentação desta candidatura. Aí, Soares e Rosas
trocaram abraços e sorrisos cúmplices. Soares tomou o lugar na
tribuna donde falou, Rosas tinha lugar reservado na primeira fila. A
apresentação da candidatura de Jerónimo de Sousa pelo
Partido Comunista, obrigou-os a mudar a táctica, não a
estratégia acordada.
O original encontra-se no
Jornal de Fundão
de 26/Agosto/2005.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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