Povo e cultura

por João Pedro Delgado [*]

"Devemos dar ao povo aquilo que o povo gosta"
Joaquim Valente, Presidente da Câmara Municipal da Guarda, 2006

'A arte da pintura', Vermeer, 1662-68. 1

A afirmação que serve de epígrafe a este estudo, não contendo em si nada de espantoso, evidencia uma doutrina estratégica de como gerir a cultura e os bens culturais altamente enraizada por entre dirigentes e políticos regionais.

À vista desarmada, tal citação dá a sensação de ser acertada, mesmo bastante democrática. Dar ao povo pagante de impostos aquilo que ele quer parece ser uma lógica instituída da mais elementar justiça. Uma outra perspectiva mais aprofundada, porém, leva-nos a conclusões bem distintas.

Tendo em conta que esta frase é sempre anunciada num contexto de condenação da cultura erudita – dita superior – o que ela quer na realidade insinuar é que se trata de uma falta de respeito para com o povo despender o seu pecúlio em eventos culturais alegadamente elitistas, sendo preferível oferecer-lhe o que ele na realidade prefere: o entretenimento popular.

Ora, tal posição envolve os pressupostos seguintes:

  • A cultura erudita é um passatempo para elites formadas.
  • O povo não pertence nem pertencerá a essas elites, logo não gosta nem gostará de cultura erudita.
  • Por via de pagar impostos, tem o povo direito ao entretenimento que melhor satisfaça os seus intentos imediatos, o qual, pelos pressupostos anteriores, não é nem nunca será a expressão artística intelectual e erudita.
  • Investir recursos no acesso generalizado à alta cultura é anti-democrático porque se está, em última análise, a investir no bem-estar de uma elite.

    Será este um silogismo legítimo?

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    Sabendo de antemão que definições taxativas incorrem, não raro, em perigos vários, mormente as que se referem a cultura e arte, torna-se todavia útil fixar desde já três conceitos que servem de instrumento para o compor das linhas que aqui se cosem.

    Quando se diz cultura erudita ou alta cultura, referimo-nos à expressão artística resultante de uma exteriorização emocional e estética conseguida através de um processo técnico e intelectual. Subentende-se ainda que a tal cultura erudita é dotada simultaneamente de um corpo de interpretação fixo e de um vasto campo de interpretação individual. Representa, a supracitada, a racionalização em linguagem universal de um lastro histórico que integra a forma como um povo foi sentindo a vida ao longo do seu percurso.

    Referimo-nos, por outro lado, a cultura popular tradicional, quando apontamos o corpo de expressão artística resultante da exteriorização de emoções e momentos cruciais de um povo, por meios regionais e métodos tradicionais de assimilação empírica.

    Por fim, denominamos cultura popular comercial, ao produto consumível destinado ao usufruto casual por parte da sociedade, por forma a pontuar determinados momentos sociais, rentabilizando-os. Hoje em dia, a máquina de entretenimento comercial apoderou-se, de certo modo, do espaço que antes era reservado à expressão popular artística, levando a uma confusão constante entre um discurso genuíno, peculiar, antiquíssimo, e um outro descartável, construído para viciar o consumo, uniformizar gostos, exterminar individualismos estéticos e potenciar um mercado.

    Feitas as apresentações, voltemos ao raciocínio falacioso descrito anteriormente. A primeira premissa é facilmente refutável, sobejando provar apenas que a alta cultura não constitui um passatempo seja para quem for, independentemente da classe proveniente. Com efeito, a música erudita, o teatro clássico e moderno, a nova e antiga dança, a literatura, as artes plásticas, enfim, todas as diferentes expressões artísticas patentes nos dias de hoje um pouco por todo o mundo, não são produtos para entretenimento de nenhum grupo, seja ele o povo ou uma elite. As obras de arte hoje criadas ou recriadas representam a ponta de um iceberg constituído por tudo o que o intelecto humano foi capaz de produzir nos últimos dez mil anos, representam a face visível de uma enorme montanha formada por infinitas camadas de sedimento histórico, artístico, sentimental, intelectual, enfim, humano. Qualquer obra hoje apresentada é um reflexo ou uma reacção a uma obra anterior, a uma visão do mundo prevalecente; qualquer revolução estética é apenas um ulterior acrescento ao longo percurso artístico desenhado pela mente humana desde o início dos tempos. A obra de arte não faria sentido sem o que se passou para trás, é indubitavelmente uma expressão do momento presente e vem sempre dar sentido ao que virá no futuro. O espólio artístico erudito é a única herança que uma civilização deixa às outras, é a única marca que um ser inteligente é capaz de comunicar com outro ser inteligente, independentemente do tempo e do espaço. Ao contrário das manifestações populares ou tradicionais, a cultura erudita é intemporal.

    A sua utilidade para o bem comum – para além da óbvia função de veículo para a expressão do artista – é o facto de promover perspectivas abstractas sobre factos concretos, causar interrogações racionais acerca de objectos emocionais, fomentar o relacionamento de ideias práticas com materiais hipotéticos, envolver o sujeito em interpretações abstractas sobre obras abstractas. Enfim, a cultura erudita abre novas portas a quem a ela tem acesso e promove liberdade intelectual a quem é capaz de a apreender.

    Num tempo em que tanto se apregoa acerca de produtividade no trabalho, responsabilidade, capacidade de gestão, etc, etc, não terá ainda ocorrido às cúpulas de poder (essas sim, de elite) que um trabalhador habituado a consumir e interpretar alta cultura terá uma superior desenvoltura no compreender e executar da sua tarefa? Não se terá ainda chegado à conclusão que um operário com acesso generalizado à arte apreenderá mais eficazmente o manual de instruções da máquina que opera? Que um gestor habituado a sentir revolta ou desvanecimento mediante a apreciação de uma obra de arte será capaz de melhor analisar as vicissitudes da empresa a gerir, conseguindo assim um melhor resultado?

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    Por uma penada superficial, iremos de seguida explanar as razões que nos levam a afirmar que dar ao povo o que ele reclama não é democrático, e muito menos sério. Desta forma cairão sem dificuldade os outros pressupostos formais que sustentam tal entendimento.

    Em primeiro lugar, experimentemos levar ao extremo tão célebre doutrina – cometimento por absurdo, se bem que necessário. É óbvio que, feita uma análise às preferências de entretenimento da generalidade da população, chegamos a conclusões assustadoras: os programas televisivos com maior audiência são os intelectualmente mais pobres, a música mais consumida é a mais descartável, fácil e que ostenta maiores atractivos imediatistas, as letras mais lidas são as que, de um forma geral, não obrigam à integração num corpus cultural denso, a venda de jornais sensacionalistas e desportivos bate inapelavelmente a dos generalistas, entre tantas outras e variadíssimas demonstrações de mediocridade "democratizada". E se estas são as preferências, valerá a pena referir que o são por esmagadora maioria.

    Tendo a nossa sociedade filtrado em definitivo o tipo de produtos "culturais" que, alegadamente, o povo "quer", será fácil agora colocar em prática a máxima expressa no início do texto.

    Generalize-se, pois, aquele tipo de espectáculo e, por forma a não beneficiar elites, eliminem-se por completo as orquestras do país, acabe-se com as galerias de arte, retire-se o apoio à produção teatral, extingam-se as companhias de dança, cumpram-se os desígnios do mercado literário, extermine-se, inclusivamente, qualquer fonte de expressão artística de carácter etnográfico ou regionalista. A inteligência mundial pertencerá a Hollywood e à MTV. Quer queiramos, quer não, é esta a consequência última do "democrático" mote "Dar ao povo o que o povo gosta": cem mil euros por ano gastos num só grupo de teatro? Duzentos mil euros por ano para uma elite poder ouvir Beethoven? Nem mais um cêntimo para a alta cultura!

    Julgamos nós que, na moderação de costumes que apesar de tudo caracteriza o nosso povo, até o ilustre edil – autor da famigerada frase que hoje glosamos – sente um arrepio na espinha ao imaginar um mundo tal. Poderiam os adeptos desta doutrina, em consciência, suportar um povo eivado de semelhante atavismo e maciça cupidez?

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    As tais elites, tão comummente referidas pelos arautos do gosto popular, têm e sempre terão acesso a uma educação para a alta cultura. Caso assim o desejem, possuirão necessariamente recursos económicos e sociais que lhes permitam manter um contacto privilegiado com a arte, oferecendo-lhes assim vistas mais largas, possibilitando-lhes ver mais caminhos, mais hipóteses, assumir mais preponderância do que todos aqueles que não têm, à partida, tal facilidade. A única forma de democratizar e evitar esta quase fatalidade é promover um acesso generalizado à alta expressão artística, a essa mesma educação exigente para a interpretação estética. Sem o fomento do estado, tal acesso massivo não poderá ser nunca uma realidade, quer pelos custos que a produção artística implica, quer pela renitência com que o dito "povo" encara a cultura erudita.

    No termo deste esboço, côa-se que existem duas vias antagónicas, sendo necessário ter a coragem de fazer uma escolha:  generalizar o consumo cultural erudito, igualando assim as oportunidades de desenvolvimento intelectual e deixando de dar preponderância a uma elite, ou, por outro lado, "dar ao povo o que o povo gosta", contribuindo para a manutenção do obscurantismo massificado, para o alheamento social, premiando a preguiça intelectual, o atavismo no entretenimento e a alienação generalizada em relação aos confrontos estéticos e políticos, cuidando na prática, da manutenção de uma elite.

    [*] Professor, Conservatório de Música da Guarda.

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

  • 26/Fev/07