Povo e cultura
por João Pedro Delgado
[*]
"Devemos dar ao povo aquilo que o povo gosta"
Joaquim Valente, Presidente da Câmara Municipal da Guarda, 2006
1
A afirmação que serve de epígrafe a este estudo,
não contendo em si nada de espantoso, evidencia uma doutrina
estratégica de como gerir a cultura e os bens culturais altamente
enraizada por entre dirigentes e políticos regionais.
À vista desarmada, tal citação dá a
sensação de ser acertada, mesmo bastante democrática. Dar
ao povo pagante de impostos aquilo que ele quer parece ser uma lógica
instituída da mais elementar justiça. Uma outra perspectiva mais
aprofundada, porém, leva-nos a conclusões bem distintas.
Tendo em conta que esta frase é sempre anunciada num contexto de
condenação da cultura erudita dita superior o que
ela quer na realidade insinuar é que se trata de uma falta de respeito
para com o povo despender o seu pecúlio em eventos culturais
alegadamente elitistas, sendo preferível oferecer-lhe o que ele na
realidade prefere: o entretenimento popular.
Ora, tal posição envolve os pressupostos seguintes:
A cultura erudita é um passatempo para elites formadas.
O povo não pertence nem pertencerá a essas elites, logo
não gosta nem gostará de cultura erudita.
Por via de pagar impostos, tem o povo direito ao entretenimento que melhor
satisfaça os seus intentos imediatos, o qual, pelos pressupostos
anteriores, não é nem nunca será a expressão
artística intelectual e erudita.
Investir recursos no acesso generalizado à alta cultura é
anti-democrático porque se está, em última análise,
a investir no bem-estar de uma elite.
Será este um silogismo legítimo?
2
Sabendo de antemão que definições taxativas incorrem,
não raro, em perigos vários, mormente as que se referem a cultura
e arte, torna-se todavia útil fixar desde já três conceitos
que servem de instrumento para o compor das linhas que aqui se cosem.
Quando se diz
cultura erudita
ou
alta cultura,
referimo-nos à expressão artística resultante de uma
exteriorização emocional e estética conseguida
através de um processo técnico e intelectual. Subentende-se ainda
que a tal
cultura erudita
é dotada simultaneamente de um corpo de interpretação
fixo e de um vasto campo de interpretação individual. Representa,
a supracitada, a racionalização em linguagem universal de um
lastro histórico que integra a forma como um povo foi sentindo a vida ao
longo do seu percurso.
Referimo-nos, por outro lado, a
cultura popular tradicional,
quando apontamos o corpo de expressão artística resultante da
exteriorização de emoções e momentos cruciais de um
povo, por meios regionais e métodos tradicionais de
assimilação empírica.
Por fim, denominamos
cultura popular comercial,
ao produto consumível destinado ao usufruto casual por parte da
sociedade, por forma a pontuar determinados momentos sociais,
rentabilizando-os. Hoje em dia, a máquina de entretenimento comercial
apoderou-se, de certo modo, do espaço que antes era reservado à
expressão popular artística, levando a uma confusão
constante entre um discurso genuíno, peculiar, antiquíssimo, e um
outro descartável, construído para viciar o consumo, uniformizar
gostos, exterminar individualismos estéticos e potenciar um mercado.
Feitas as apresentações, voltemos ao raciocínio falacioso
descrito anteriormente. A primeira premissa é facilmente
refutável, sobejando provar apenas que a alta cultura não
constitui um passatempo seja para quem for, independentemente da classe
proveniente. Com efeito, a música erudita, o teatro clássico e
moderno, a nova e antiga dança, a literatura, as artes plásticas,
enfim, todas as diferentes expressões artísticas patentes nos
dias de hoje um pouco por todo o mundo, não são produtos para
entretenimento de nenhum grupo, seja ele o povo ou uma elite. As obras de arte
hoje criadas ou recriadas representam a ponta de um
iceberg
constituído por tudo o que o intelecto humano foi capaz de produzir nos
últimos dez mil anos, representam a face visível de uma enorme
montanha formada por infinitas camadas de sedimento histórico,
artístico, sentimental, intelectual, enfim, humano. Qualquer obra hoje
apresentada é um reflexo ou uma reacção a uma obra
anterior, a uma visão do mundo prevalecente; qualquer
revolução estética é apenas um ulterior acrescento
ao longo percurso artístico desenhado pela mente humana desde o
início dos tempos. A obra de arte não faria sentido sem o que se
passou para trás, é indubitavelmente uma expressão do
momento presente e vem sempre dar sentido ao que virá no futuro. O
espólio artístico erudito é a única herança
que uma civilização deixa às outras, é a
única marca que um ser inteligente é capaz de comunicar com outro
ser inteligente, independentemente do tempo e do espaço. Ao
contrário das manifestações populares ou tradicionais, a
cultura erudita é intemporal.
A sua utilidade para o bem comum para além da óbvia
função de veículo para a expressão do artista
é o facto de promover perspectivas abstractas sobre factos
concretos, causar interrogações racionais acerca de objectos
emocionais, fomentar o relacionamento de ideias práticas com materiais
hipotéticos, envolver o sujeito em interpretações
abstractas sobre obras abstractas. Enfim, a cultura erudita abre novas portas a
quem a ela tem acesso e promove liberdade intelectual a quem é capaz de
a apreender.
Num tempo em que tanto se apregoa acerca de produtividade no trabalho,
responsabilidade, capacidade de gestão, etc, etc, não terá
ainda ocorrido às cúpulas de poder (essas sim, de elite) que um
trabalhador habituado a consumir e interpretar alta cultura terá uma
superior desenvoltura no compreender e executar da sua tarefa? Não se
terá ainda chegado à conclusão que um operário com
acesso generalizado à arte apreenderá mais eficazmente o manual
de instruções da máquina que opera? Que um gestor
habituado a sentir revolta ou desvanecimento mediante a
apreciação de uma obra de arte será capaz de melhor
analisar as vicissitudes da empresa a gerir, conseguindo assim um melhor
resultado?
3
Por uma penada superficial, iremos de seguida explanar as razões que nos
levam a afirmar que dar ao povo o que ele reclama não é
democrático, e muito menos sério. Desta forma cairão sem
dificuldade os outros pressupostos formais que sustentam tal entendimento.
Em primeiro lugar, experimentemos levar ao extremo tão célebre
doutrina cometimento por absurdo, se bem que necessário. É
óbvio que, feita uma análise às preferências de
entretenimento da generalidade da população, chegamos a
conclusões assustadoras: os programas televisivos com maior
audiência são os intelectualmente mais pobres, a música
mais consumida é a mais descartável, fácil e que ostenta
maiores atractivos imediatistas, as letras mais lidas são as que, de um
forma geral, não obrigam à integração num
corpus
cultural denso, a venda de jornais sensacionalistas e desportivos bate
inapelavelmente a dos generalistas, entre tantas outras e variadíssimas
demonstrações de mediocridade "democratizada". E se
estas são as preferências, valerá a pena referir que o
são por esmagadora maioria.
Tendo a nossa sociedade filtrado em definitivo o tipo de produtos
"culturais" que, alegadamente, o povo "quer", será
fácil agora colocar em prática a máxima expressa no
início do texto.
Generalize-se, pois, aquele tipo de espectáculo e, por forma a
não beneficiar elites, eliminem-se por completo as orquestras do
país, acabe-se com as galerias de arte, retire-se o apoio à
produção teatral, extingam-se as companhias de dança,
cumpram-se os desígnios do mercado literário, extermine-se,
inclusivamente, qualquer fonte de expressão artística de
carácter etnográfico ou regionalista. A inteligência
mundial pertencerá a Hollywood e à MTV. Quer queiramos, quer
não, é esta a consequência última do
"democrático" mote "Dar ao povo o que o povo gosta":
cem mil euros por ano gastos num só grupo de teatro? Duzentos mil euros
por ano para uma elite poder ouvir Beethoven? Nem mais um cêntimo para a
alta cultura!
Julgamos nós que, na moderação de costumes que apesar de
tudo caracteriza o nosso povo, até o ilustre edil autor da
famigerada frase que hoje glosamos sente um arrepio na espinha ao
imaginar um mundo tal. Poderiam os adeptos desta doutrina, em
consciência, suportar um povo eivado de semelhante atavismo e
maciça cupidez?
4
As tais elites, tão comummente referidas pelos arautos do gosto popular,
têm e sempre terão acesso a uma educação para a alta
cultura. Caso assim o desejem, possuirão necessariamente recursos
económicos e sociais que lhes permitam manter um contacto privilegiado
com a arte, oferecendo-lhes assim vistas mais largas, possibilitando-lhes ver
mais caminhos, mais hipóteses, assumir mais preponderância do que
todos aqueles que não têm, à partida, tal facilidade. A
única forma de democratizar e evitar esta quase fatalidade é
promover um acesso generalizado à alta expressão
artística, a essa mesma educação exigente para a
interpretação estética. Sem o fomento do estado, tal
acesso massivo não poderá ser nunca uma realidade, quer pelos
custos que a produção artística implica, quer pela
renitência com que o dito "povo" encara a cultura erudita.
No termo deste esboço, côa-se que existem duas vias
antagónicas, sendo necessário ter a coragem de fazer uma escolha:
generalizar o consumo cultural erudito, igualando assim as oportunidades de
desenvolvimento intelectual e deixando de dar preponderância a uma elite,
ou, por outro lado, "dar ao povo o que o povo gosta", contribuindo
para a manutenção do obscurantismo massificado, para o alheamento
social, premiando a preguiça intelectual, o atavismo no entretenimento e
a alienação generalizada em relação aos confrontos
estéticos e políticos, cuidando na prática, da
manutenção de uma elite.
[*]
Professor, Conservatório de Música da Guarda.
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