A renegociação da dívida pública é
indispensável
por Octávio Teixeira
Os últimos 16 anos foram para Portugal de estagnação, em
grande parte devido aos constrangimentos decorrentes da adesão à
zona Euro. Ao longo deste período, em consequência do fraco
crescimento da economia e dos sucessivos défices, a dívida
pública foi aumentando permanentemente, em particular a partir de 2011
com as políticas de austeridade que levaram ao aprofundamento da
recessão e ao aumento acelerado da dívida.
Entre 2011 e 2015, o objetivo declarado da política governamental foi o
da redução da dívida pública e serviu de
justificação para a pesada austeridade que tudo sacrificou: o
crescimento económico, o emprego, os direitos laborais, as empresas
estratégicas que deviam e devem integrar o sector público, as
funções sociais do Estado, o nível de vida dos
cidadãos, o futuro das novas gerações.
A verdade é que nem assim esse objetivo foi atingido. Antes pelo
contrário, a dívida pública aumentou aceleradamente
mostrando, para além do erro das políticas seguidas, que a
dimensão que a dívida atingiu a torna insustentável. E em
2016 a dívida continuou a aumentar fortemente (até Novembro, mais
10 mil milhões).
Os juros da dívida representam um fardo cada vez maior, quase 5% do PIB.
Se a isto somarmos as amortizações da dívida de
médio e longo prazo, o encargo anual duplica. E como 60% desta
dívida pública é dívida externa, significa que nos
consomem anualmente cerca de 16% das exportações de bens,
serviços e turismo.
São recursos financeiros incomportáveis que bloqueiam o
investimento e crescimento económico. Recursos essenciais para promover
o investimento público e para reduzir a carga fiscal visando o aumento
da procura interna.
Para além do mais, esses volumosos encargos sustentam a permanente
dinâmica autofágica da dívida: os juros pagos de 2011 a
2015 são responsáveis por 79% do aumento da dívida que
ocorreu no mesmo período.
E entre os bloqueios que as políticas decorrentes do garrote da
dívida representam para a economia é de realçar o que se
passa com o investimento: nos últimos cinco anos a FBCF recuou, em valor
nominal, para o nível de 1997, não sendo sequer suficiente para
manter o stock de capital preexistente, reduzindo gravemente o potencial de
crescimento.
Mas a dívida pública também é incomportável
do ponto de vista social.
Repare-se desde logo que só os juros da dívida montam este ano a
8.500 milhões de euros, valor superior aos encargos com o SNS ou com a
Educação. E se a prioridade continuar a ser a de satisfazer em
primeiro lugar e a todo o custo, como o dinheiro não chega para tudo, as
responsabilidades com os credores serão as funções do
Estado que continuarão a ser sacrificadas.
Os bloqueios resultantes da dívida incidem igualmente sobre a democracia
politica e a soberania nacional porque a sua subsistência conduziria a
que não pudesse haver alternativa às políticas de
recessão ou estagnação. Tal significaria a
negação da democracia política e do poder soberano do povo
de optar por outras vias.
Só será possível implementar políticas alternativas
às que têm vindo a ser implementadas se houver uma ruptura com os
bloqueios decorrentes da dívida pública a que o País
está sujeito.
A reestruturação da dívida pública é
essencial para reduzir a pressão orçamental e, por conseguinte, a
viabilização de políticas económicas e sociais
não austeritárias, e para gerar condições
favoráveis à resolução dos problemas do
endividamento externo e do das empresas e famílias. E sem a
reestruturação da dívida pública não
será possível libertar e canalizar os recursos suficientes que
permitam o crescimento económico necessário.
Sem a reestruturação da dívida é a própria
sustentabilidade da sociedade portuguesa que está em causa, com os mais
jovens a emigrar, os salários a convergirem cada vez mais para os
limiares da indigência, o empobrecimento a alastrar e a
depauperação dos pilares essenciais de um Estado social.
E não é admissível que a subserviência aos credores
promova um efectivo confisco da soberania popular no país. Não
há nenhuma razão para que o imperativo do pagamento aos credores
seja considerado de natureza superior a outros compromissos igualmente
assumidos pelo Estado, designadamente na saúde, na justiça, na
educação, na protecção social, nos direitos dos
trabalhadores.
Antes pelo contrário, as responsabilidades do Estado para com os
cidadãos estão inequivocamente acima das obrigações
para com os credores. Portugal não será o primeiro país,
nem o último, a ter de reestruturar a dívida (até a
Alemanha já o fez).
A renegociação da dívida pública é
inevitável. Será feita mais cedo ou mais tarde (e quanto mais
tarde pior) nos termos que os credores institucionais imponham ou nos termos
definidos por Portugal. Ou seja, determinada pelos interesses dos credores ou
pelos interesses do país e dos portugueses. Por isso deve ser assumida
por iniciativa do Estado português salvaguardando os interesses nacionais
e assente num serviço da dívida compatível com o
crescimento económico, a promoção do emprego e o
desenvolvimento social.
Fevereiro/2017
O original encontra-se em
www.avozdooperario.pt/images/Jornal/Fevereiro2017/VO3041_web.pdf
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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