Lissabonner Requiem

por César Príncipe

O ultimatum inglês de 1890 visto por Rafael Bordalo Pinheiro. Um agente da Central de Inteligência Portuguesa decidiu, por rebate de consciência ou imperativo constitucional, violar o Segredo de Estado. Convocou uma Conferência de Imprensa-Relâmpago. Irrompeu (encapuzado). E justificou a acção de cara encoberta: Interceptei um Correio Diplomático Berlim-Lisboa. Trata-se do Ultimato do Segundo Mapa Cor-de-Rosa . O primeiro, o Inglês, de 1890, levou à perda de soberania africana; o segundo, o Alemão, de 2011, levou à perda de soberania metropolitana.

Avançarei com um enquadramento histórico.
Terminarei com a cibertelegrafia diplomática.

Há 124 anos, o Povo saiu à rua e cobriu de crepes a estátua de Camões, dois artistas compuseram A Portugueza (que ainda se vai entoando) e até o Monarca Carlos da Boa Mesa & da Boa Cama & dos Adiantamentos da Fazenda, num Solene Gesto de Desagravo (a fim de limitar os custos de imagem), protagonizou uma rábula: devolveu as condecorações ao Nosso Mais Velho Aliado. O Ultimatum elevou a febre patriótica, contribuiu para uma agitada reportagem RTP/Regicídio do Terreiro do Paço, acelerou a Queda da Multissecular Monarchia, alargou a Base Social da República.

E agora qual a postura das Novas Agremiações do Rotativismo? Acabado de assinalar o centenário do Regime Republicano (2010), a Troika da Submissão correu a subscrever o Memorando de Entendimento do Ocupante Germânico (2011), Nosso Mais Recente Aliado, no cânone protocolar. Nem sequer devolveu uma insígnia ou redigiu uma nota de desafronta. O vexame supera as raias da insolência e roça as vaias da indecência. Visa anular o último sentimento/signo de identidade nacional. Espera-se que o Poboo de Fernão Lopes acorra (ainda neste século) a tomar os rossios e os palácios, que os letristas e compositores reescrevam o Hino e que o Ilustre Peito Lusitano manifeste a Mais Profunda IndigNação. De Norte a Sul se confia que o épico dos Descobrimentos se junte às multidões espoliadas e humilhadas e retire o seu Alto Patrocínio à Cerimónia do Adeus a Portugal.

Na verdade, da Troika Interna pouco ou nada haverá a esperar além de servilismo, colaboracionismo, negocismo, inevitabilismo, embustismo, com voz grave ou de falsete. Seja no Parlamento da Moeda Única, seja no Governo do Pouvoir à Trois, seja na Presidência de Vichy à Portugaise. Os trigémeos juraram vassalagem a Angela Dorothea Merkel, soberana da Casa Reinante da Idade das Trevas Electrónicas, aclamada pela Europa dos Bancos & pelos Ministérios da Propaganda. Não merecem perdão eleitoral nem judicial. Foram avisados com a devida antecedência das bofetadas da Pérfida Álbion & das monstruosidades do Flagelo Átila. [1]

No entanto, muito prezaríamos que algum(a) agraciado(a) ousasse ler o Elektronische Post da Chancelaria do IV Reich, num 10 de Junho, na Tribuna das Ordens Honoríficas, perante as Autoridades Civis, Militares e Religiosas, principalmente ante Thomaz II, que Deus cubra com a SIC/Sua Infinita Compaixão e faça acompanhar de Katia, anja-música.

Eis o post.
Eis o diktat.

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (no antigo regime Dia de Camões) passará a denominar-se Lissabonner Requiem. [2]

Bundeskanzleramt
Will-Brandt-Straße 1, 10557 Berlim

Notas
[1] Antunes/Acácio (1853-1927), A Bofetada Ingleza, Carta a Sua Magestade El Rei e Senhor D. Carlos 1º, Tip. Mattos Moreira, 1890, Cota: 7-34-10-18/BGUC/Universidade de Aveiro/Fundação Portugal-África; Junqueiro/Guerra (1850-1923), O Monstro Alemão. Átila e Joana D`Arc. Officinas de O Comércio do Porto, 1918, CDU: 869.0-9 Junqueiro, G. Opúsculo oferecido à Junta Patriótica do Norte e cujo produto de venda se destina à sua obra de assistência aos órfãos de guerra. Uma das conclusões e um dos prenúncios de Junqueiro: A Alemanha unificando-se, pangermanizou-se (…)
[2] Tabucchi/Antonio (1943-2012), Lissabonner Requiem (Requiem de Lisboa), dtv Deutscher Taschenbuch Verlag, München, 1998, ISBN 9783423126144; Hanser Verlag, München, 2002, ISBN 9783446201736.


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10/Jun/14