Não foi
para
isto que se fez o 25 de Abril; foi
por causa
disto
por Guilherme Alves Coelho
[*]
Dizem alguns cientistas que "o progresso científico é a
substituição de um erro por um erro menor". Se a politica
fosse uma ciência exacta assim deveria ser também. Mas não,
a existência de classes sociais, que se opõem fortemente, perturba
a "correcção do erro". O progresso social não
é linear como na ciência, mas sim feito de avanços e recuos
onde, por vezes, é preciso recomeçar do zero.
A história de Portugal está repleta de exemplos desta
dinâmica. O "erro" da monarquia demorou séculos a
substituir pelo "erro" menor da República. Mas conseguido esse
avanço, de novo a situação se foi degradando, até
ser preciso emendá-lo de novo. A correcção, que muitos
creram ser para melhor, depressa se revelaria um pesadelo ainda pior que o
anterior: foi o fascismo. O "erro" cresceu durante 48 anos, atingindo
limites insuportáveis, até mais uma vez o povo repor o rumo no
dia 25 de Abril de 1974.
Parecia dado o grande e definitivo salto em frente. Muitos se convenceram que
as forças conservadoras nunca mais regressariam e finalmente estava
instituída a democracia. Engano. Desde então, os sucessivos
governos de alternância sucederam-se com o mesmo objectivo de sempre:
repor "o erro" anterior.
Hoje, decorridos quase tantos anos como os que levou o fascismo, a
história repete-se. Parece ter chegado outra vez o momento
histórico de emendar o "erro".
Há cerca de um século, dois portugueses preocupados com o seu
país e com o seu povo, davam-se conta dos mesmos problemas. Um deles,
Guerra Junqueiro, na época que antecedeu a revolução
republicana, apresentava algumas das razões por que havia que emendar o
"erro". Comentava ele acerca do povo, da burguesia, do poder
legislativo, da justiça e finalmente dos dois partidos que então,
como agora, monopolizavam o poder:
"
Um povo
imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e
sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de
vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de
dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é
capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se
lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo,
enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da
sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia
, cívica e politicamente corrupta até à medula, não
discriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem
carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam
na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga
e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da
violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa
sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos,
absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo
, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador;
e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime
do País.
A justiça
ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer
dela saca-rolhas.
Dois partidos
sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos
do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas
palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do
mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela
razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos
duma vez na mesma sala de jantar." (
Guerra Junqueiro
, 1896).
Apesar desse quadro negro, a esperança popular renascia. O "lampejo
misterioso da alma nacional, guardado na noite da inconsciência" do
povo, conduziu, 14 anos depois, à revolução republicana.
Porém apenas nove anos de regime republicano eram passados e já
era preciso novo combate. Fialho de Almeida zurzia fortemente os governantes
coevos, não lhes perdoando o desbaratar da esperança ganha com o
novo regime:
"Aqui d'el-rei! Isto é uma liquidação geral nos bens
do povo; um saque trinta vezes mais vil que o de Junot; uma epopeia de furto,
mais audaciosa de que a história célebre de Ali-Babá, onde
também figuram cavernas de riquezas, um poderoso chefe e quarenta
ladrões. Morreu o chefe (o Rei D. Fernando), as preciosidades foram
arroladas, mas os quarenta ladrões multiplicaram-se e por aí
continuam a saquear até ao fim. (...)
Conclui-se disto a deliquescência da vida portuguesa, nos seus duplos
aspectos da consciência e da moral. Lá começa primeiro uma
separação completa e desdenhosa entre os interesses da grossa
massa da população, e os da matilha que reparte entre si os
dinheiros das rendas públicas, e se crapulisa na porfia escandalosa do
poder. Vê-se em seguida a indiferença pública crescer em
matéria politica, os jornais serem lidos só por passatempo, os
actos do governo serem mencionados só por uma variante de anedotas
obscenas, a politica armar em profissão sem hombridade, em impune
chantage, e jornalistas e homens de estado enfileirarem, no conceito geral,
logo em seguida aos ratoneiros e assassinos. (...) Virá um dia em que o
povo desnaturado por todas aquelas lições de compra e venda,
farto de ludíbrios e vexames, abdique por fim do seu ideal de autonomia,
perca a noção de solo, encha de excremento as páginas da
história... e permita Deus que não o ouçamos bramir, com
desesperada voz, aos ecos da fronteira:
- Livrem-me desta canalha que me fez odiosa a liberdade, que em paga disso aqui
lhes ofereço a minha servidão! (
Fialho d'Almeida
,
Os Gatos
, 1919)
Trinta e oito anos decorreram sobre o 25 de Abril. O que se vê crescer
é novamente o grito popular: "livrem-me desta canalha que me quer
fazer odiosa a liberdade" conquistada em 1974. "A matilha que reparte
entre si o dinheiro das rendas públicas" continua a mesma de
sempre. É a mesma do fascismo, é a mesma da república, e a
mesma da monarquia. A mesma que reparte com o estrangeiro ocupante "o
saque trinta vezes mais vil que o de Junot".
O povo, como então, parece estar "farto de ludíbrios e
vexames". Mas agora com uma grande e determinante diferença. A
experiência ganha com as conquistas pós 25 de Abril trouxe-lhe uma
visão do que pode ser uma sociedade mais justa. De que não
está disposto a abdicar para "oferecer a servidão" ao
ocupante!
Não foi para isto que se fez o 25 de Abril, costuma dizer-se; foi
precisamente por causa disto, acrescento. Foi por apresentar os mesmos sinais
de "deliquescência da vida portuguesa nos seus duplos aspectos da
consciência e da moral" que hoje apresenta, que o povo
português foi então chamado a "corrigir esse erro".
Saberá fazê-lo de novo, e tantas vezes quantas os seus inimigos,
cá dentro e lá fora, insistirem em regressar ao passado.
13/Dezembro/2012
[*]
Arquitecto
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|