Tal como no tempo de Sócrates, as mesmas manhas
Mais uma manipulação
A Execução Orçamental do 1º trimestre de 2013
por José Alberto Lourenço
[*]
1. Antes de mais é inadmissível que a
informação oficial com a
síntese da execução orçamental de Março
seja divulgada no sítio da
Direcção-Geral do Orçamento (DGO) às 19h30, mas
antes disso, pouco depois das 18h00, já estava nas
redacções dos jornais, rádios e televisões um
comunicado do Ministério das Finanças
com a leitura cor-de-rosa
que o Ministério queria fazer passar e que os órgãos de
comunicação social engoliram de bom gosto. A hora da
disponibilização da informação da DGO, às
19h30, também não foi por acaso. É que desta forma a
leitura aprofundada dos números já não ia a tempo dos
telejornais. Isto é uma vergonha e terá de ser por nós
veementemente denunciado.
2. Fazendo a leitura da Síntese da Execução
Orçamental dos três primeiros meses do ano afinal qual é a
conclusão que se poderá fazer dela?
a. A leitura do quadro 2 Conta Consolidada da
Administração Central e da Segurança Social (pág. 5
da Síntese) é um bom auxiliar para a análise deste 1º
trimestre do ano. Neste quadro para além de podermos analisar a
evolução da principais rubricas da receita e da despesa, podemos
também comparar essa evolução com a variação
implícita no Orçamento de Estado para 2013 e dessa forma
verificar se a evolução registada se aproxima daquela que
está implícita no OE para 2013. Ora o que nós verificamos
é o seguinte:
i. o saldo global segundo os critérios de desempenho do Programa de
Assistência Económica e Financeira (PAEF) agravou-se passando de
um défice de -445,7 milhões de euros no 1º trimestre de 2012
para -1335,3 milhões de euros no 1º trimestre de 2013;
ii. A receita corrente aumentou no 1º trimestre do ano apenas 1,4%,
quando de acordo com o OE para 2013 deveria ter aumentado 8,5%, isto é a
receita corrente está 1 036,5 milhões abaixo do previsto no OE.
Para esta evolução muito contribui o facto de a receita dos
impostos directos, tendo subido, ter ficado aquém do previsto em 110
milhões de euros. E de a receita dos impostos indirectos (em especial o
IVA) não só não ter subido, como ter ficado aquém
do previsto com uma queda de 5% (menos 264 milhões de euros do que o
previsto para o 1º trimestre do ano). Para além disso, a queda no
emprego fez com que a descida das contribuições para a
segurança social em relação ao previsto tenha sido de 209
milhões de euros. Como se tudo isto não bastasse, também
as outras receitas correntes caíram no 1º trimestre do ano 7,75%
quando a previsão era de que tivessem subido 8,1%. A receita efectiva
acabou por ter crescido neste 1º trimestre apenas 1,3% quando a
previsão era de que tivesse aumentado 2,7%. O Estado acabou por
arrecadar menos 204 milhões de euros do que tinha previsto, isto apesar
do enorme aumento da carga fiscal (cerca de 30%) sobre os trabalhadores,
aprovada com o OE para 2013.
iii. Do lado da Despesa Consolidada da Administração Central
e da Segurança Social o que se verifica é que esta subiu 7,1% no
1º trimestre quando as previsões apontavam para uma subida de 2,9%.
Gastou-se no 1º trimestre mais 653,8 milhões de euros do que se
tinha previsto para este período no OE para 2013. Dentre as rubricas da
despesa destaca-se a subida dos juros (+150 milhões de euros do que o
previsto), a subida das despesas com aquisição de bens e
serviços (+ 102 milhões de euros do que o previsto), a maior
queda das despesas de capital (+ 127 milhões de euros do que o previsto)
e a maior despesa com transferências correntes do que o previsto (+434
milhões de euros).
iv. Os resultados deste quadro são bem elucidativos da
situação que vivemos: as receitas do Estado estão
praticamente estagnadas no final do 1º trimestre (+1,3%) apesar do enorme
aumento de impostos, enquanto as despesas sobem muito mais do que o previsto
(+7,1%), porque o Estado vê subir as despesas com juros e com os apoios
sociais (entre os quais o subsídio de desemprego +14,5% +92,6
milhões de euros).
b. A leitura dos dados hoje divulgados pela DGO permite constatar já
um claro desvio entre as previsões de evolução da Receita
e da Despesa inseridas no Orçamento para 2013 e a execução
verificada no 1º trimestre do ano. Três meses passados desde o
início do ano, o fosso entre as previsões e a realidade
começa desde já a crescer de forma muito preocupante.
c. A evolução verificada nos saldos da
Administração Local que de um superávite de 25,1
milhões de euros no 1º trimestre de 2012 passou para um
défice de 110,2 milhões de euros e na Administração
Regional que de 18,7 milhões de euros de excedente passou para um
excedente de apenas 3,7 milhões de euros, são outros motivos de
preocupação nestes resultados agora divulgados.
d. Curiosamente ou talvez não os melhores resultados neste 1º
trimestre registaram-se na execução financeira do Serviço
Nacional de Saúde, que passou de um défice de 65 milhões
de euros no 1º trimestre de 2012 para um excedente de 28 milhões de
euros no 1º trimestre de 2013. Lamentavelmente este resultado deve-se
à subida das receitas com taxas moderadoras (+57,5%, +6,9 milhões
de euros), à subida da receita com venda de bens e serviços
correntes (+68,8%, + 12,8 milhões de euros) e à descida da
despesa com fornecimentos e serviços externos (-3,9% - 66,7
milhões de euros), dos quais 43,1 milhões de euros resultaram de
uma menor despesa em produtos vendidos em farmácias. Quanto mais se
degradarem os serviços públicos de saúde e se aumentarem
as taxas moderadoras, melhores serão os resultados financeiros do
Serviço Nacional de Saúde mas bem pior estará certamente a
esmagadora maioria dos portugueses.
3. Concluída esta leitura percebe-se a preocupação do
Ministério das Finanças com a tentativa de confundir a
opinião pública através da emissão de um comunicado
à imprensa que procura mistificar a realidade. Mas os dados estão
aí e provam bem que esta política que tem vindo a ser prosseguida
leva o país à ruína.
4. Os dados da execução orçamental mostram claramente
a necessidade de se interromper rapidamente as políticas que têm
vindo a ser seguidas sob pena da espiral recessiva em que estamos metidos se
vir a aprofundar ainda mais, com mais desemprego, mais recessão, mais
défice orçamental e mais dívida pública a
sucederem-se uns atrás dos outros.
5. O PCP reafirma uma vez mais que só com a rejeição
do Pacto de Agressão, só com a ruptura com a política de
direita, só libertando o país dos interesses do grande capital,
só com a urgente demissão deste Governo e a com a
devolução da palavra ao povo, Portugal poderá ter futuro.
O país precisa de uma outra política, de uma política
patriótica e de esquerda.
23/Abril/2013
[*]
Economista, deputado.
O original encontra-se em
http://foicebook.blogspot.pt/2013/04/mais-uma-manipulacao.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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