O problema mais grave do país não é o do défice
orçamental, como o discurso oficial pretende fazer crer
[1]
por Eugénio Rosa
CONCLUSÕES DESTE ESTUDO
1- O problema mais grave que enfrenta Portugal neste momento não
é o do défice orçamental -- como o pensamento
económico dominante, para não dizer mesmo pensamento
económico único (porque só ele é que se consegue
expressar nos media) e o discurso oficial pretendem fazer crer, embora o
problema das finanças públicas seja importante. O problema do
défice é apenas a consequência, a ponta do
iceberg, de uma crise económica e social muito mais profunda
que se vem a manifestar há vários anos e que agora é mais
violenta por isso é mais visível, como provam os dados do
Eurostat constantes do quadro 1.
2- Entre 1995 e 2004, o PIB por habitante em PPC (Paridades Poder de Compra)
aumentou em Portugal apenas 5.210 euros, pois passou de 11.110 euros para
16.320 euros, enquanto a média dos 15 países que
constituíam a União Europeia ate Maio de 2004, cresceu 7.320
euros por habitante, pois passou de 16.820 euros para 24.140 euros.
3- Se dividirmos a evolução por períodos e governos
concluímos o seguinte: - Entre 1995 e 2001, portanto com governos PS, o
PIB por habitante aumentou em Portugal 4.710 euros PPC, enquanto a média
dos 15 países que constituíam a União Europeia até
Maio de 2004 aumentou 5.580 euros, e a média da UE25 cresceu 5.200
euros, portanto aumentos superiores ao verificado em Portugal. No
período 2001-2004, portanto, com governos PSD/PP, o PIB por habitante
aumentou em Portugal apenas 500 euros PPC, enquanto a média dos 15
países da União Europeia cresceu 1.800 euros PPC, e a
média na UE25 aumentou 1.740 euros (mais do triplo do aumento verificado
em Portugal).
4- A Grécia, que até 2001 estava atrás de Portugal, como o
seu PIB por habitante aumentou, entre 2001 e 2004, 2.970 euros PPC ultrapassou
o nosso País, passando Portugal a ocupar o último lugar entre os
15 países que constituíam a União Europeia até Maio
de 2004, ou melhor, passou a fazer parte do grupo que entrou em Maio de 2004
(quadro 1).
5- Neste Momento, Portugal com os países que entraram para União
Europeia em Maio de 2004 formam o grupo dos países mais atrasados da
UE25, com o PIB por habitante inferior a 75% da média
comunitária, tendo Portugal descido, entre 2002 e 2003, de 77% do PIB
comunitário para apenas 74% (ver gráfico).
6- Fica assim claro que o problema mais grave que enfrenta Portugal neste
momento não é o problema do défice orçamental como
o discurso oficial ou o pensamento económico único pretendem
fazer crer, mas sim o problema de crescimento económico, cujas
verdadeiras causas é urgente identificar para assim se poder definir
objectivos, estratégicas e políticas claras para os portugueses
visando recuperar o atraso crescente do País.
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O PENSAMENTO ECONÓMICO ÚNICO E O DISCURSO OFICIAL
O pensamento económico único e o discurso oficial hoje dominantes
nos media, de que é exemplo a última intervenção do
governador do Banco de Portugal, Victor Constâncio, em que reduz os
problemas do País ao défice orçamental, poderá
levar os portugueses a pensar que o problema mais grave que enfrenta o
País é o do défice orçamental, e que a
solução para os males nacionais se resume a equilibrar uma
simples igualdade contabilística Despesas=Receitas nas
Finanças Publicas, à semelhança da política
financeira seguida durante muito anos antes do 25 de Abril, e os restantes
problemas resolver-se-iam automaticamente e por si, como por milagre.
Ora, isso não é certamente verdade. O desequilíbrio nas
Finanças Publicas é apenas a consequência de problemas
económicos e sociais mais profundos, é somente a ponta do
iceberg de uma crise muito mais profunda que o País
enfrenta, que se veio acumulando devido a políticas erradas seguidas no
passado, e que não se resolve, como se pretende fazer crer, impondo a
nível das finanças da Administração Pública
a igualdade contabilística referida anteriormente.
A experiência dos últimos anos, nomeadamente do período
2001-2004, assim como a análise económica liberta do pensamento
contabilístico/financista neoliberal dominante mostram que a
política que tem sido seguida para resolver o problema do défice
orçamental é errada e que persistir nela e mesmo agravá-la
ainda mais, como defendeu o governador do Banco de Portugal, Victor
Constâncio, na sua intervenção pública de
05/Jan/2005, é tornar a crise económica e social ainda mais
profunda e prolongada, e provocar ainda um maior atraso do País.
A SITUAÇÃO DE PORTUGAL NA UE TEM PIORADO DESDE 1996
O indicador normalmente utilizado para avaliar o nível de
desenvolvimento económico de um país é o chamado PIB
por habitante. E este indicador PIB por habitante
calcula-se dividindo a riqueza criada anualmente num país o
chamado PIB (Produto Interno Bruto ) pelo número dos seus
habitantes.
Para fazer comparações entre países é
necessário anular o efeito da diferença de preços que se
verifica de país para país. E isto porque embora a moeda possa
ser a mesma por ex., o euro com um euro compra-se em Espanha, por
ex., uma quantidade de bens diferente daquela que se adquire em Portugal,
porque os preços dos mesmos produtos nos dois países são
diferentes (ex.. gasolina, garrafa de gás, etc). A este valor a que se
chegou, depois de anular o efeito da diferença de preços chama-se
euros PPC (paridades de poder de compra).
Os dados que vamos utilizar para comparar o ritmo de crescimento
económico de Portugal com os dos outros países da União
Europeia nos últimos anos, foram publicados pelo Eurostat, que é
o serviço oficial da UE, e constam do quadro 1.
Os dados do quadro anterior são em euros PPC (Paridade Poder de Compra),
ou seja, são euros por habitante em que o Eurostat já eliminou o
efeito da diferença de preços que se verificam entre os
países. E as conclusões que imediatamente se tiram são as
seguintes.
Entre 1995 e 2004, o PIB por habitante aumentou em Portugal apenas 5.210
euros, pois passou de 11.110 euros para 16.320 euros, enquanto a média
dos 15 países que constituíam a União Europeia ate Maio de
2004, cresceu 7.320 euros por habitante, pois passou de 16.820 euros para
24.140 euros. Portanto, neste período (1995-2004) Portugal atrasou-se em
termos de desenvolvimento económico relativamente à média
da União Europeia.
Se a comparação for feita incluindo os 10 países do leste
europeu que entraram para a União Europeia em Maio de 2004 a UE25
países o atraso de Portugal continua a verificar-se. Assim,
entre 1995 e 2004, o PIB por habitante aumentou em Portugal 5.210 euros,
enquanto a média dos 25 países da UE cresceu 7.000 euros, pois
passou de 15.100 euros para 22.100 euros
.
Se dividirmos o período analisado por governos em funções
nessa altura em Portugal PS e PSD/PP as conclusões a que
se chegam são as seguintes.
Entre 1995 e 2001, período em que governou o PS, o PIB por habitante
aumentou em Portugal 4.710 euros, enquanto a média dos 15 países
da União Europeia cresceu 5.580 euros, e a dos 25 países da
União Europeia, portanto incluindo os 10 que entraram em Maio de 2004,
aumentou 5.200 euros; portanto,
durante o período em que esteve em funções o governo PS o
PIB por habitante médio da União Europeia, quer UE15 quer UE25,
em euros PPC (euros paridades de poder de compra) cresceu mais do que em
Portugal, portanto já com o governo PS o ritmo de crescimento
económico reduziu-se e Portugal começou a divergir da
média comunitária acentuando-se, desta forma, o atraso de
Portugal em relação à União Europeia.
Mas foi com o governo PSD/PP que o atraso verificado no desenvolvimento do
nosso País foi maior. Assim,
em apenas três anos (2001-2004) de governo PSD/PP, o PIB por habitante, a
que se eliminou os efeitos das diferenças de preços entre
países, ou seja em euros PPC, cresceu em Portugal apenas 500 euros,
enquanto a média dos 15 países da União Europeia aumentou
1.800 euros (portanto, mais do triplo), e a dos 25 países da
União Europeia cresceu 1.740 euros (também mais do triplo).
Como mostram os dados do quadro 1, a Grécia que se encontrava
atrás de Portugal até 2001, embora já com um ritmo de
crescimento superior ao de Portugal (entre 1997 e 2001, o PIB por habitante da
Grécia aumentou 4.060 euros enquanto o de Portugal cresceu apenas 3.330
euros por habitante); repetindo, a Grécia que se encontrava atrás
de Portugal até 2001, ultrapassou o nosso País entre 2001 e 2004,
pois neste período o seu PIB por habitante cresceu 2.970 euros PPC
enquanto o de Portugal aumentou apenas 500 euros.
Uma informação recente divulgada pelo Eurostat em Dezembro de
2004
Statisques en bref,
nº 53/2004 confirma as conclusões anteriores. Dessa
publicação copiou-se um gráfico, pois ele mostra com
clareza a posição de Portugal em relação aos 25
países da União Europeia assim como a sua evolução
entre 2002 e 2003. Para facilitar a sua leitura interessa ter presente o
seguinte:- (1) As barras referentes a Portugal são aquelas que na
1ª coluna têm à sua esquerda as letras PT (a vermelho);
(2) Os números à direita das barras correspondem à
percentagem que o PIB por habitante de cada país corresponde ao PIB
médio da União Europeia dos 25 países: o que está
dentro de parêntesis refere-se ao ano de 2002, e o que está fora
ao ano de 2003 (Portugal, como mostra o gráfico, está no grupo de
países que entraram para a União Europeia em Maio de 2004, tendo
o seu valor, entre 2002 e 2003, baixado de 77 para 74).
Como mostra este gráfico, Portugal, em termos de desenvolvimento
económico, devido ao seu atraso crescente, já não integra
o grupo dos 15 países que constituíam a União Europeia
até Maio de 2004, mas faz parte sim do grupo dos 10 países que
entraram em Maio de 2004. É este o mais grave problema que o nosso
País tem, com consequências económicas e sociais
extremamente graves, que o discurso oficial de tudo reduzir ao défice
orçamental encobre, e que é importante identificar as suas
verdadeiras causas, que não é o défice para as poder
combater. Mas vamos deixar isso para próximos estudos
09/Jan/2005
[1]
Do nosso estudo mais desenvolvido Conhecer Melhor a
Situação do País para a Mudar (para Melhor).
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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