Última entrevista de Vasco Gonçalves
Entre 18 de Junho de 1974 e 12 de Setembro de 1975, foi o Primeiro-Ministro de
Portugal, e esse foi o tempo mais gratificante da sua vida. Aos 452 dias
iluminados que então viveu, mais de dez mil horas quase todas vividas de
olhos abertos, juntem-se-lhe todos os outros e as noites e as madrugadas acesas
que fizeram o ano e meio da Revolução. Vasco Gonçalves
sorri quando fala desse período, e não é um sorriso de dor
ou de saudade: é o riso sereno de quem cumpriu o seu destino e
está feliz por com isso ter contribuído para melhorar o destino
dos outros.
Vasco, o Companheiro Vasco, foi o único ocupante do Palácio de
São Bento a quem o povo concedeu o gosto de tratar pelo nome
próprio. Os adversários e os inimigos vingaram-se, inventando o
gonçalvismo
tentanto resumir num homem aquilo que para eles era a fonte de todos os
medos, mas que mal ou bem nascia dos mais puros anseios de um povo que, pela
primeira vez na história recente, tinha como chefe do Governo um homem
que o escutava e, mais importante, o compreendia.
Por esse tempo, Lisboa era um centro de conspirações e um ninho
de espiões como já não havia desde a II Guerra Mundial.
Longe, em Washington e em Moscovo, os senhores do mundo sentiam-se incomodados
com este homem que falava como quem ama. Por razões diferentes mas
concatenantes, Brejnev e Kissinger estavam preocupados com o futuro
político deste país esquecido à beira-Atlântico.
Esquecido, mas fundamental por razões geo-estratégicas, já
que fica a meio do eixo que ligava e separava as capitais dos dois
impérios.
Depois do 11 de Março de 1975, Vasco Gonçalves foi o centro de
todas as atenções: daqueles que o admiravam, como daqueles que o
temiam. Durante o PREC, Vasco e a Revolução foram uma e a mesma
coisa. A queda do V Governo Provisório, dois meses antes de Novembro,
foi o prenúncio de que a Revolução estava a chegar ao fim:
"Vasco voltará", garantiam, então, os seus seguidores
mais crédulos. Vasco não voltou, claro. Pela simples razão
de que não chegou nunca a partir: ficou aqui, entre os seus. Certamente
magoado por não ter tido todo o tempo que merecia, mas ainda assim feliz
por ter vivido o que viveu. E o certo é que, nesse tempo, as pessoas
eram felizes mesmo as que não gostavam dele. E, isso,
ninguém lhe pode tirar.
Viriato Teles: Saudades de Abril, General Vasco Gonçalves?
Vasco Gonçalves: Tenho, naturalmente, saudades de Abril. Mas
saudades saudáveis, não nostálgicas ou
melancólicas. Saudades que animam a luta pelo futuro.
VT: "Não imagino como seria a minha vida se não
tivesse participado no 25 de Abril". São palavras suas. Como
é a sensação de estar não apenas a viver a
História mas também a transformá-la?
VG: Uma grande alegria de estar a participar activamente, com o nosso
povo, com os militares, num processo de transformação profunda,
estrutural, da nossa sociedade a caminho da justiça social, da
libertação do homem, do socialismo.
VT: Há quem diga que o 25 de Abril nasceu como golpe de Estado e
só quando o povo saiu à rua se deu a revolução.
Está de acordo?
VG: No dia 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas
derrubou o governo fascista-colonialista. Nesse mesmo dia, apoiando o golpe
militar, desencadeou-se um espontâneo e vigoroso movimento popular e
nacional. O impulso das massas populares e dos trabalhadores, exigindo um
empenhamento social e político mais alargado e profundo do que o
inicialmente previsto pelo Movimento das Forças Armadas, fez com que a
relação de forças dentro do Movimento fosse
favorável aos militares que mais se identificavam com as
aspirações, as reivindicações, os interesses
populares, e imprimiu uma dimensão revolucionária ao golpe
militar.
VT: Há uma frase sua no
livro que fez com Maria Manuela Cruzeiro
a propósito do Programa do MFA, em cuja
redacção participou: "Considerei que o Programa era muito
interessante, uma vez que tinha sido elaborado por militares e estava
nitidamente mais avançado do que o pensamento comum da generalidade dos
militares". Quem o ouvir falar, até pode pensar que o senhor
não tem grande apreço pelas qualidades intelectuais dos
militares. É verdade?
VG: Essa dedução é errada. Do conteúdo em
que se insere essa passagem da entrevista conclui-se, facilmente, que
"pensamento" se refere a pensamento político, e não a
pensamento tomado em sentido intelectual ou de desenvolvimento intelectual. Os
militares eram sistematicamente educados e endoutrinados com o objectivo de
afastar o seu pensamento das questões políticas e de os fazer
aceitar como nacional e patriota a política do Estado Novo, ditatorial,
da qual as Forças Armadas eram o último e decisivo
sustentáculo. A Guerra Colonial foi para a grande parte dos oficiais do
Quadro Permanente uma verdadeira escola de educação
política, uma escola de consciencialização
política, de percepção e de conhecimento das
relações económico-sociais que conduziam à guerra
que o governo fascista-colonialista fazia aos movimentos de
libertação anti-colonialista e que arrastava o país para a
grave situação em que se encontrava. Ora, o Programa reflectia
essa consciencialização política, adquirida em grande
parte com a guerra, pelos militares mais esclarecidos, que dirigiam o Movimento.
VT: Já ouvi algumas pessoas dizerem que, a princípio,
desconfiaram do 25 de Abril por ser "uma coisa de militares". A
verdade é que, por regra, quando os militares tomam o poder não
é por boas razões. O que é que fez a diferença em
Portugal?
VG: O facto de as Forças Armadas terem sido o principal
sustentáculo do governo fascista-colonialista, durante 48 anos, o
conhecimento do mal estar generalizado existente nas Forças Armadas,
provocado pela continuação da Guerra Colonial sem
solução à vista, o conhecimento de que elementos da
ultra-direita, entre os quais Kaúlza de Arriaga, descontentes com o
governo pelo rumo que a guerra tomava, se movimentavam politicamente,
terão levado a que houvesse esses temores. Mas essa
movimentação política da ultra-direita foi, desde logo,
contrariada e desmascarada, no seio das Forças Armadas pelo movimento de
oficiais em processo de formação o qual pretendia que fosse
alcançada uma solução política para a Guerra
Colonial.
VT: Durante os seus governos, Portugal conheceu
modificações extraordinárias: nacionalizaram-se os bancos
e as principais indústrias, fizeram-se as campanhas de
alfabetização, garantiram-se os principais direitos dos
trabalhadores, avançou a reforma agrária
Pode dizer-se que
o essencial das "promessas de Abril" se desenvolveu durante os seus
governos. Na altura teve consciência plena da dimensão da
mudança que estava a protagonizar?
VG: Tive. De facto, ao longo do processo histórico da
Revolução de Abril foi surgindo, nas suas linhas gerais, um
modelo de transição pacífica, democrático e
pluralista para a democracia e o socialismo. Este modelo foi sendo elaborado,
na prática, nas condições políticas, sociais,
económicas e culturais do nosso país, fortemente determinadas
pela aliança Povo-MFA, na dinâmica de uma acesa luta de classes,
no contexto da crise económica capitalista de 1973-75 e das
relações internacionais caracterizadas pela Guerra Fria. Sem
dúvida que tive consciência da mudança que se estava a
verificar, na qual participava, empenhadamente, como membro do Movimento das
Forças Armadas, no contexto da aliança Povo-MFA.
VT: Depois de uma viagem a Cuba, Otelo Saraiva de Carvalho teve uma das
suas declarações mais famosas, ao dizer que podia ser "o
Fidel de Castro da Europa". O General Vasco Gonçalves alguma vez
pensou em algo semelhante?
VG: Não.
VT: Por falar em Cuba: acredita que os cubanos vão conseguir
resistir aos apetites norte-americanos?
VG: Acredito. O êxito da resistência depende de numerosos
factores objectivos e subjectivos, nacionais e internacionais, das
correlações de forças que se vão verificando a
nível nacional. Entre esses factores se destacam o patriotismo, a
coesão, a consciência política, a vontade e a
determinação do povo cubano, a construção real,
apesar dos tremendos condicionalismos impostos pelo imperialismo
norte-americano, de 45 anos, de uma sociedade que tem por objectivo,
fundamental, a justiça social e a equidade. Cuba é um exemplo,
para todos nós, de que é possível resistir ao imperialismo
norte-americano.
VT: A meu ver, a sobrevivência até aos nossos dias do
regime cubano deve-se não apenas às condições
geopolíticas já que Cuba conhece como ninguém o
significado da palavra imperialismo mas também ao facto de ali se
ter desenvolvido um "socialismo latino", de características
próprias. Nós, em 74-75, também pensávamos que era
possível uma "via original" para o socialismo. Hoje, ainda
acredita nisso?
VG: A Revolução de Abril instaurou um regime de amplas
liberdades, garantias e direitos políticos, cívicos, culturais,
sindicais e laborais; destruiu as bases do capitalismo monopolista de estado e
dos grupos económicos monopolistas; nacionalizou a banca e as companhias
de seguros, os sectores básicos da produção, as principais
empresas de transportes e comunicações, criando um sector
público de peso determinante na nossa economia, na
regulação do mercado e no comércio externo; realizou a
Reforma Agrária com a supressão do latifúndio, dando
origem à constituição de unidades colectivas de
produção constituídas e dirigidas por trabalhadores
assalariados rurais, trabalhadores sem terra e pequenos e médios
proprietários rurais; aprovou uma nova lei de arrendamento rural, e
devolveu aos povos os terrenos baldios; melhorou e dignificou substancialmente
as condições de vida dos trabalhadores em geral e das mais vastas
camadas da população; promoveu transformações
progressistas no ensino, e um extraordinário aumento da frequência
escolar; aprovou a criação do Serviço Nacional de
Saúde, e desenvolveu a cultura e o desporto populares. As conquistas
democráticas alcançadas, nomeadamente no período mais
criativo da Revolução, entre o 11 de Março e a queda do V
Governo Provisório, foram todas consagradas na
Constituição da República de 1976. A
Constituição é filha da Revolução. As
conquistas de Abril eram o caminho para o futuro de Portugal. Elas continuam,
hoje, a ser devidamente analisadas, ponderadas, adaptadas e ajustadas, um
objectivo para esse futuro, face às novas realidades do nosso
país e do mundo. Uma missão da OCDE que esteve entre nós
de 15 a 20 de Dezembro de 1975, composta por três professores do
Departamento de Economia do Instituto de Tecnologia de Massachussets afirmou no
seu relatório que "no princípio de 1976 a economia
portuguesa está surpreendentemente saudável". A
política económica que foi posta em prática, numa
situação com as características da situação
revolucionária que vivemos, naturalmente agitada e de grandes
contradições sociais, no contexto da crise capitalista de
1973-75, a maior do pós-guerra, mostrou-se, pois, adequada. Penso que,
nas suas linhas estruturais, definidoras, o ordenamento económico-social
constitucional, de 1976, era correcto. Foram, precisamente, as mudanças
estruturais, as nacionalizações, a reforma agrária, a
participação dos trabalhadores, os aumentos salariais, a
intervenção do Estado nas empresas em dificuldades que salvaram a
nossa economia do colapso. Foi a falta do cumprimento, do ordenamento
económico-social constitucional, foi a política neoliberal
globalizadora, deliberadamente destrutiva desse ordenamento
(privatizações, destruição da reforma
agrária, cerceamento dos direitos dos trabalhadores, submissão
às directivas da União Europeia, mercantilização da
saúde, do ensino, da segurança social, etc.) que conduziram
á presente situação. A mudança da
correlação de forças políticas e sociais, civis e
militares fez que não fossem consolidadas as conquistas da
Revolução, e foi a origem dum processo
contra-revolucionário que decorre há cerca de 28 anos. A
mudança da correlação de forças teve
múltiplas causas, entre as quais são de salientar: o agravamento
da luta de classes; as divisões profundas dentro da esquerda do MFA; a
persistência da ideologia burguesa e pequeno-burguesa entre a maioria dos
militares e dos trabalhadores; os resultados das eleições para a
Assembleia Constituinte. A Revolução de Abril terá sido,
na Europa Ocidental, e depois da Comuna de Paris, a maior ofensiva contra o
capitalismo. Penso que os sectores revolucionários da nossa
população, civis e militares fizeram o que lhes foi
possível fazer, dentro dos objectivos do Programa das Forças
Armadas, e tendo em vista a correlação de forças existente
no momento.
VT: Na altura em que foi primeiro-ministro, teve a noção
das movimentações de bastidores da diplomacia internacional no
sentido de, de algum modo, traçar um rumo para a revolução
portuguesa que fosse ao encontro dos vários interesses mundiais?
VG: Sim.
VT: Pergunto isto porque fui amigo do Francisco Costa Gomes Jr. o
filho, já falecido, do Marechal Costa Gomes que uma vez me contou
alguns pormenores muito curiosos da visita do pai, enquanto Presidente da
República, a Moscovo. Ao que parece, terá havido uma
pressão clara de Brejnev no sentido de Portugal abandonar a via
socialista, que seria um projecto contrário à política de
"coexistência pacífica" acordada tacitamente entre as
duas super-potências. Soube disso?
VG: Soube, sim, da opinião dos soviéticos.
VT: E qual foi a sua reacção?
VG: Essas opiniões dos soviéticos não tiveram
influência nas nossas decisões. Não foram novidade para
nós, que fazíamos ideia das relações de
força a nível internacional, e da existência da
guerra-fria, a que já fiz referência quando falei do processo
histórico do 25 de Abril.
VT: Dos líderes mundiais que conheceu nessa altura, havia algum
em quem verdadeiramente confiasse?
VG: Conheci, fugazmente, um número reduzido de dirigentes de
países da NATO, por ocasião de uma reunião, de chefes de
Estado e de Governo, em Bruxelas. Naturalmente, não podia confiar em
ninguém.
VT: Calculo que se mantenha atento ao que vai acontecendo pelo mundo.
Concorda que estamos numa fase preocupante de retrocesso social e
político a nível global?
VG: O modo de produção capitalista, em consequência
da sua própria essência, das leis do seu desenvolvimento, das
condições necessárias à sua
reprodução e perpetuação, conduziu à
globalização neoliberal. Esta política, comandada pelos
Estados Unidos da América, sustentada pela sua força militar e
dos seus poderosos aliados da NATO, embora com contradições
internas e externas, procura impor-se a todo o mundo. Será
possível que a acção consciente e organizada dos
trabalhadores e dos povos seja capaz de criar condições para
pôr fim a esta ofensiva global do capital e substituir a sociedade
capitalista por uma sociedade mais justa, a socialista? Ao contrário do
que pode parecer, o capitalismo está em crise. Mas a crise do
capitalismo, hoje, é estrutural e não conjuntural. Por isso, o
sistema procura impor a todo o mundo a globalização neoliberal,
como fase final e definitiva da sua evolução história.
Contudo o capitalismo não é reformável, porque as
relações sociais em que se baseia e sem as quais não pode
sobreviver, são intrinsecamente contraditórias, injustas e de
exploração do homem. O novo imperialismo planetário
necessita do controlo dos recursos naturais e das guerras
"preventivas" e de "intervenção
humanitária" para garantir a sua dominação e superar
as suas fraquezas económicas intrínsecas. O capitalismo necessita
da guerra, da fome e da miséria para milhares de milhões de
pessoas. Com a guerra e a destruição do ambiente, põe em
perigo a própria sobrevivência da humanidade. Por isso, se coloca,
hoje, no horizonte histórico do homem, a necessidade de travar a actual
ofensiva do capitalismo neoliberal e de o substituir por um a sociedade
orientada para a construção do socialismo. Por estas
razões se coloca, hoje, na perspectiva histórica do homem a
alternativa "socialismo ou barbárie". Como diz o
filósofo húngaro-britânico Istvan Meszaros: "A
terceira fase, potencialmente a mais mortal, do imperialismo hegemónico
global, que corresponde à profunda crise estrutural do sistema do
capital no plano militar e político não nos deixa espaço
para tranquilidade ou certeza. Pelo contrário, lança uma nuvem
escura sobre o futuro, caso os desafios históricos postos diante do
movimento socialista não sejam enfrentados com sucesso enquanto ainda
há tempo. Por isso, o século à nossa frente deverá
ser o século do 'socialismo ou barbárie'."
VT: A implosão da União Soviética surpreendeu-o?
VG: Sim.
VT: Como vê a conversão dos russos ao capitalismo?
VG: Penso que a palavra "conversão" não é
a mais adequada à mudança que houve e há na Rússia.
O movimento socialista sofreu uma muito grave derrota. Contudo, o grande
desafio histórico do futuro continua a ser a superação do
capitalismo pelo socialismo.
VT: Que leitura faz da reeleição de George W. Bush como
presidente dos EUA?
VG: Penso que se vai acentuar a política de
dominação planetária da mais forte potência militar
que jamais existiu sobre a terra. Ao mesmo tempo estão surgindo em todo
o mundo movimentos contra a guerra e de resistência anti-imperialista
cuja frente principal se localiza no Médio Oriente e na Ásia
Central, no Iraque, no Afeganistão, na Palestina. Esta resistência
tem contrariado os planos do governo norte-americano de futuras
agressões à Síria e ao Irão.
VT: Diz-se que "o poder corrompe e que o poder absoluto corrompe
absolutamente". O senhor general, que passou pelo poder e deixou uma marca
tão funda na história deste país, acha que é mesmo
assim?
VG: Não. O poder em si não corrompe. Os homens é
que se corrompem ou são corrompidos. Devemos ter presente a
existência duma sociedade de diferentes classes sociais, algumas das
quais, com interesses antagónicos entre si, interesses
incompatíveis. Tenhamos presente a luta de classes, a
posição dos indivíduos em relação aos
interesses de classe, e em relação à honra, à
dignidade, ao patriotismo, à consciência política e social.
Todas estas são condições objectivas e subjectivas que
influem no comportamento dos indivíduos que ocupam
posições no âmbito do poder político.
VT: Trinta anos passados sobre o Verão Quente, sente que cumpriu
o seu dever?
VG: Sim. Cumpri o meu dever para com o nosso povo e para com o Movimento
das Forças Armadas.
VT: Como reage quando ouve falar do "gonçalvismo"?
Existiu tal coisa?
VG: No livro de Carlos Coutinho,
Companheiro Vasco
, nas páginas 45 a 57, essa questão está tratada
extensamente. Da página 45 e em resposta a uma pergunta idêntica
à sua, passo a citar: "O gonçalvismo foi inventado para se
utilizar o anti-gonçalvismo, como uma arma da guerra psicológica,
como uma arma da tenaz luta, política e ideológica, que a
burguesia portuguesa trava contra as classes trabalhadoras e seus aliados
objectivos e potenciais, no sentido de bloquear o processo
revolucionário, recuperando-o para o capitalismo. O
anti-gonçalvismo, do ponto de vista da guerra psicológica e da
luta ideológica, é um contraditório conjunto de mentiras,
calúnias e invenções relativas às
acções desenvolvidas no período mais criador da
revolução. É a deturpação total da
política dos II, III, IV e V Governos Provisórios, em particular
do IV e V. Do ponto de vista político (o anti-gonçalvismo)
é um conjunto de acções cujo objectivo é a
recuperação capitalista".
VT: Se pudesse voltar atrás, o que é que fazia de
diferente? Alguma vez se arrependeu?
VG: Penso que nas suas linhas gerais, definidoras, o ordenamento
constitucional de 1976, que consagra as conquistas democráticas
alcançadas no período mais criador da revolução,
era correcto. Foi a falta do seu cumprimento, a política deliberadamente
destruidora desse ordenamento, coberta por sucessivas revisões
constitucionais que conduziu à situação actual. Mas
devemos reconhecer que não houve base de apoio social e político
para garantir o cumprimento do ordenamento constitucional, o que tem permitido
as sucessivas revisões constitucionais que alteraram, profundamente, a
organização económico-social institucionalizada na
Constituição de 1976. Nas suas linhas mestras, definidoras,
não voltaria portanto, atrás em matéria de conquistas
democráticas e revolucionárias.
VT: No seu discurso de tomada de posse como primeiro-ministro, em 74,
citou Almeida Garrett, dizendo que a liberdade só se aprende com a
prática. O que lhe ensinou a prática da liberdade?
VG: A liberdade não se define ou não se consubstancia,
apenas, nos direitos políticos, no direito de poder falar livremente, no
direito de opinar e contestar ou de se organizar colectivamente sem ser preso.
A liberdade não existe de per si. São necessárias
estruturas políticas, económicas, sociais, culturais que garantam
o exercício das liberdades consagradas na Constituição. O
desemprego, a miséria, a fome, a falta de instrução, a
falta de habitação, as relações sociais de
exploração são contrários ao exercício livre
da liberdade. Porque a liberdade não diz respeito, apenas, à
liberdade política. Mesmo esta tem condicionamentos económicos e
sociais, culturais e até, ambientais. Por exemplo, o novo código
de trabalho, as novas leis aprovadas em 2004 nos domínios da
segurança social, da saúde, da educação, do
arrendamento urbano, limitam claramente as condições de vida das
pessoas, a sua formação e independência material e
espiritual, a sua formação cultural, o acesso à
justiça social. Têm uma influência decisiva sobre a
igualdade de oportunidades, condição indispensável para o
exercício das liberdades. Outro exemplo: o domínio dos meios de
comunicação social de maior difusão pelo sistema do
capital. A desinformação deliberada influencia negativamente a
formação cultural, a formação da consciência
social e política dos cidadãos, e, consequentemente, o
exercício do direito à liberdade.
VT: O mundo unipolarizou-se, os valores inverteram-se. Ainda há
algo porque valha a pena lutar?
VG: A resposta a esta pergunta está em grande parte contida no
que lhe disse há pouco. Devo acrescentar: a ciência e a tecnologia
são utilizadas, sistematicamente, permanentemente, como meios para a
superação da crise estrutural do sistema do capital, com
consequências dramáticas para o meio ambiente, colocando em risco
a própria continuidade da vida humana na terra, tal como se conhecem
hoje. Um recente e extenso estudo sobre as consequências da subida geral
da temperatura no planeta mostra que a mudança de clima nos
próximos 50 anos conduzirá à extinção de um
quarto dos animais e plantas terrestres. A perda de uma em cada dez
espécies de plantas e animais já é irreversível
devido ao aquecimento global provocado pelos gases já descarregados na
atmosfera. A gravidade da situação é tal que a
revolução científico-técnica não pode adiar
indefinidamente a explosão das contradições
antagónicas e insanáveis do sistema. Impõe-se, pois, a
luta contra o neo-liberalismo e contra as guerras que o mesmo desencadeia.
Nestas condições tão difíceis e tão
exigentes para cada um de nós, a missão que se põe
às forças democráticas e progressistas no nosso
país (como no mundo) é o trabalho empenhado, denodado,
persistente, quotidiano, inteligente, pela consciencialização
política e social do nosso povo para a efectiva
participação na construção do seu próprio
futuro. As lutas nacionais não devem ser desligadas das
acções internacionais. Só a luta sobre a base de problemas
concretos, procurando mobilizar consciências e corações,
estimular a disponibilidade para a acção ao longo da qual se
promoverá a participação e a intervenção
populares em todos os domínios da vida da sociedade, poderá
conduzir o homem a que seja sujeito do seu próprio futuro. Há
algo porque vale a pena lutar.
VT: Está disponível para participar num novo 25 de Abril?
VG: Muitas vezes se faz essa pergunta, de há quase 30 anos para
cá. As condições históricas, objectivas e
subjectivas, as situações são irrepetíveis. A
pergunta significa, para mim, se continuo confiante no valor, na capacidade
transformadora, das ideias do 25 de Abril, uma vez tomadas pelo nosso povo.
Continuo. Penso que os caminhos de Abril continuam bem actuais para a
construção duma sociedade de justiça social no nosso
país.
_________
[*]
Esta entrevista faz parte do livro "Contas à Vida
Histórias do Tempo que passa", de Viriato Teles
(
http://viriatoteles.com.sapo.pt
) a publicar na segunda quinzena de Julho pela Editora Sete Caminhos.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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