A campanha eleitoral e a politização

por João Vilela

. Pode parecer contraditório que o principal momento de participação política do proletariado na democracia burguesa, as eleições burguesas, seja um momento em que se tenta por todos os meios que a política não esteja presente. Mas a contradição é apenas aparente: no momento, único e sem exemplo, em que a burguesia finge que entrega poder sobre o seu aparelho de Estado ao proletariado, dizendo-lhe que com uma cruz num papel pode mudar a sua vida, ela garante, através de um esforço paciente e diário, que a decisão tomada tem seja que conteúdo for, menos um conteúdo político.

Algumas palavras devem ser ditas sobre a real importância das eleições burguesas. Palavras tanto mais importantes quando vivemos um contexto histórico em que uma vitória eleitoral da esquerda, na Grécia, se saldou na aplicação, por essa mesma esquerda, do mesmíssimo plano que os partidos burgueses gregos teriam aplicado no seu lugar. A eleição não tem poderes mágicos, não é uma varinha de condão que transforma a sociedade, não é a chegada ao poder. Um Governo saído de eleições burguesas tem acesso à chefia do Estado burguês. E o Estado burguês é uma máquina cuidadosamente construída, oleada, afiada, configurada, para garantir a dominação burguesa sobre os trabalhadores. Um Governo anticapitalista que tente usar o Estado burguês contra a burguesia, ou é sacudido com uma patada (como foram Allende, Zelaya, Mossadeqh, entre tantos outros) ou é compelido pela força das coisas a aplicar o projecto político da burguesia (como aconteceu ao Syriza na Grécia, ao PT no Brasil, e a tantos outros em tantos lugares). Só a montagem, a mobilização, a organização, e a força do movimento de massas do proletariado pode libertá-lo. E libertá-lo não tomando o Estado da burguesia para si – mas desfazendo esse mesmo Estado, até não sobrar pedra sobre pedra, e pondo no seu lugar um Estado dos trabalhadores, agora montado, construído, cuidadosamente oleado e afiado, para servir quem trabalha e derrotar quem quer a exploração de volta.

Ainda assim há um motivo forte para esvaziar de qualquer conteúdo político as eleições burguesas: só para o proletariado organizado é que o pior analfabeto, nas palavras de Brecht, é o analfabeto político. Para a burguesia, o analfabeto político é o seu melhor amigo. É a sua principal base de apoio. É a garantia de que continuará a explorar e a oprimir por muito tempo, com uma larga e pesada capa de chumbo, de crosta bruta, a soterrar os trabalhadores conscientes. Essa crosta é a da alienação, da cegueira imposta, da estupidez cultivada, da imersão em toneladas de lixo que distraem, embasbacam, prostram, e impedem de pensar os trabalhadores. Fala-se amiúde da intoxicação ideológica, e ela existe: mas mais forte – e sinceramente, mais política – que essa intoxicação é o esforço permanente e cuidadoso para que o trabalhador não pense em nada de político, tenha, de resto, a atenção demasiado ocupada com assuntos exteriores à política para que ela possa contar para os seus interesses.

Assim, quando as eleições chegam, é com os critérios de toda a massa de lixo intelectual que foi forçado a engolir que o proletariado escolhe um candidato: com base em critérios clubísticos escolhe o seu partido; com base em critérios de oratória, de fluidez, de boa aparência,com uma lógica de programa televisivo de talentos misturada com entrevista de emprego, decide em quem vai votar. A política está em absoluto ausente desta decisão. Quando muito assomam à sua (sempre vaga) tradução da escolha em palavras alguma linguagem moralista (busca seriedade, honestidade) ou técnica (procura candidatos competentes, determinados). Candidatos para gerir o sistema adequadamente, com boas palavras para os enganar e diligência em fazê-lo. Os candidatos que a burguesia lhe ensinou a escolher.

É por isso fundamental que as forças da esquerda entendam a sua tarefa central junto dos trabalhadores: a de os mobilizar, de os organizar, e de os politizar. Sem o desenvolvimento de uma consciência política profunda, sem a compreensão dos problemas de uma forma clara e plena, o proletariado não poderá assumir as suas tarefas de transformação a sociedade e derrubar a burguesia, edificando uma sociedade socialista, em que finalmente seja livre. Toda a cedência, nessa matéria, à política das vedetas, do espectáculo, da demagogia, do sentimentalismo ou de qualquer outra forma de tentar contornar esse dever de politização, será paga bem caro, e bem cedo. O exemplo do Syriza, bem como o do assumidamente eleitoralista e populista Podemos, que no Estado Espanhol já começa a retirar-se das (poucas e tímidas) posições progressistas que assumiu, são comprovação absoluta disso mesmo.

A luta dos trabalhadores pela liberdade não se resolverá nas urnas, nem em nenhum outro passo de mágica que faça com que o capitalismo exista às 8h da manhã e cesse pelas 21h, depois de contados os votos e divulgados os resultados oficiais. Essa tese, oportunista e social-democrata, deixemo-la aos Syrizas da vida. Os revolucionários sabem que o seu trabalho é árduo, diário, difícil, espinhoso – sinuoso, sim, mas com um horizonte vermelho. Não vendem ilusões. Não se servem de vedetas nem de estrelas, não tentam contornar resistências da hegemonia burguesa com exploração emocional e demagógica, não mentem, não manipulam. E um dia vencem. E quando vencem, na frente das massas, intimamente ligados com elas e assegurando que estas desempenham as suas tarefas históricas de forma empenhada e consciente, trazem à luz a única liberdade pela qual vale a pena viver.

15/Agosto/2015

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19/Ago/15