Depois do SIM, o que vão fazer as populações que se
deixaram levar pela hierarquia e votaram NÃO?
por Padre Mário de Oliveira
[*]
Com a inquestionável vitória do SIM no referendo de ontem, a vida
com dignidade e, mais especificamente, a vida e a dignidade das mulheres
portuguesas acabam de conhecer um irreversível passo em frente no nosso
país e, por arrastamento, na Europa e no resto do mundo. O mesmo se diga
da autonomia da sociedade civil portuguesa frente à Igreja
católica romana, cuja hierarquia (bispos residenciais e párocos,
assessorados por Movimentos de leigas/leigos feitos à imagem e
semelhança deles!), infelizmente, nesta matéria, não soube
manter-se no seu lugar e continuou a comportar-se como se ainda
vivêssemos sob o famigerado regime de Cristandade que o próprio
Concílio Vaticano II, de feliz memória, oficialmente enterrou
para sempre, mas que ela não se tem cansado de tentar restaurar. No que
tem sido vergonhosamente apoiada pela conservadora e moralista Cúria
Romana e seus sucessivos papas, os quais têm estado muito longe do
espírito de abertura e de macroecumenismo do seu antecessor João
XXIII, o mesmo que convocou aquele Concílio, para que ele fosse uma
saudável e fecunda Revolução no interior da Igreja
católica em todo o mundo.
Estou feliz com este passo em frente, o primeiro de muitos outros que o
país terá agora de dar, para consolidar e corporizar esta
vitória e para a alargar a outros âmbitos da sexualidade humana e
da vida humana em geral que, até agora, têm sido tratados como
tabu, também e sobretudo por estúpida imposição do
Moralismo sem moral da referida hierarquia católica. Estou feliz e acho
que também Deus, o de Jesus, está, porque a sua alegria é
que a vida, e vida em abundância e em qualidade tenha cada vez mais
oportunidade na História e seja garantida a todas as pessoas, a
começar pelas mais fragilizadas e mais pobres.
Dei muito de mim para esta causa maior, assim como muitas mulheres e muitos
outros homens, católicas e católicos incluídos, do
país. É legítimo que nos sintamos contentes e cheios de
esperança. Estaremos também vigilantes, para não consentir
que o Poder do Obscurantismo e do Moralismo eclesiástico tente recuperar
na secretaria o que acaba de perder no terreno. Por isso, não
desmobilizo nesta Causa maior. E peço às minhas irmãs, aos
meus irmãos do SIM que não desmobilizem também. Toda a
atenção é necessária. E todo o acompanhamento
lúcido. Porque os das Trevas costumam ser sempre mais hábeis, nos
seus negócios, do que os da Luz. Vigiemos!
A partir deste SIM, o Parlamento tem agora ainda mais luz verde para alterar a
actual lei e o Código Penal e terá obrigação moral
de ajudar a dotar progressivamente a Sociedade civil de serviços que
garantam às populações a possibilidade de saírem de
vez do obscurantismo e da ignorância em que grande parte delas ainda hoje
vive, neste campo da vida.
É de esperar que os párocos e os bispos aprendam a
lição deste referendo e sejam os primeiros a converter-se ao
Evangelho de Jesus que não suporta o Moralismo dos fariseus, nem o
legalismo em que eles gostam de dar cartas. Já que não
evangelizaram as populações, tenham ao menos agora a humildade de
se deixarem evangelizar por elas. Neste campo, as populações
católicas portuguesas, sobretudo do Centro e do Sul do país,
mostraram estar muito adiante da hierarquia. Apenas no Norte do país e
nas Ilhas, as populações continuam ainda sob a tutela dos
párocos e dos bispos. Mas até aí a situação
está em vias de alteração. As novas
gerações, mais escolarizadas e mais ilustradas que os seus pais e
avós, já não suportam as velhas catequeses
eclesiásticas, carregadas de moralismo e de mitos. Bem sei que correm o
risco de atirarem fora com a água do banho a Boa Notícia de Deus
que é Jesus com a sua prática libertadora e cheia de
Misericórdia, mas, mesmo assim, é melhor do que permanecerem
prisioneiras do Moralismo e dos Mitos eclesiásticos, como aconteceu com
a generalidade das gerações que, desde o imperador Constantino,
as precederam até agora. Afinal, a Boa Notícia de Deus que
é Jesus chega-lhes, hoje, por outras vias mais seculares, com destaque
para a via das Ciências sociais e humanas, que se debruçam sobre
os seres humanos e a vida em geral, uma vez que entre Deus, o de Jesus, e a
Ciência não há contradição mas
convergência, ao contrário do que se passa entre Deus e a
Religião, em que a contradição é total.
Perante os resultados do referendo, os bispos residenciais e os párocos
católicos farão bem, se reconhecerem humildemente perante o
país que perderam em toda a linha. Mas não só. Para que
esta sua confissão seja sinónimo de conversão, os bispos e
os párocos católicos têm de reconhecer igualmente que a
derrota deles é a grande vitória do Evangelho de Deus que
é Jesus e a sua prática libertadora e misericordiosa. Se o
não fizerem, permanecerão no seu pecado e, como estão
canonicamente à frente da totalidade do institucional na Igreja
católica, constituem-se num dos mais perigosos inimigos das
populações que continuarem a dar-lhes credibilidade e
atenção. Serão contumazes guias cegos que
arrastarão as populações para o abismo. Dos quais as
populações precisam de saber defender-se a toda a hora. E de
ensinar as suas filhas, os seus filhos a defender-se também.
Por sua vez, as populações católicas têm que tirar
igualmente as suas conclusões. Se votaram NÃO no referendo, por
instigação dos párocos e dos bispos, terão de
concluir que fizeram mal, porque, em questões de tanta monta, como
são as questões da bioética, ninguém, nenhuma
pessoa pode alguma vez decidir pela consciência de outro, nem por
indicação de outro. Apenas pela própria consciência.
E se o outro em questão é pároco ou bispo da Igreja, ainda
mais grave será terem decidido por sua indicação ou por
sua instigação. Será gravíssimo. Neste caso,
farão bem as populações se, de agora em diante, nunca mais
derem ouvidos aos conselhos e às ameaças dos respectivos
párocos e dos bispos em geral. O descrédito deles, perante as
populações do país, é agora ainda maior, depois
desta vitória do SIM à Lei de despenalização do
aborto. E se, nem assim, os bispos e os párocos derem mostras de
verdadeira conversão ao Evangelho de Deus que é Jesus e a sua
prática cheia de Misericórdia e de Ternura, então as
populações católicas deverão afastar-se
definitivamente das suas homilias e das suas catequeses. E passarem a reunir-se
umas com as outras em nome de Jesus, nas casas umas das outras, guiadas pelo
Espírito Santo que está presente e actuante, sempre que duas ou
três pessoas se reúnem em nome e em memória de Jesus.
Esta é, por isso, uma hora de grandes audácias, na Sociedade
civil e na Igreja católica. A Vida humana deu um grande passo em frente
com a vitória do SIM. A dignidade humana também. Sejamos dignas,
dignos desta hora.
[*]
Mais conhecido por Padre Mário de Macieira da Lixa. Autor de
"Fátima nunca mais", "Na companhia de Jesus e de ateus"
e outros livros. O seu sítio web é
www.padredalixa.org/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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