O resto do que resta

por Demétrio Alves

Foto de Henrique Matos. O jornalista procurava esclarecer os motivos que a levavam a comemorar o aniversário do 25 de abril, enfrentando a chuva que caía, e a manifestante, já avó, disse-lhe que, desfilar na avenida, era uma forma de defender o resto do que resta.

Poder de síntese e sabedoria no seu estado puro.

Aquela mulher do povo queria dizer, na sua simplicidade, que vale a pena resistir, apesar da brutalidade do ataque feito aos direitos mais elementares dos trabalhadores e aos fatores de desenvolvimento, independência e soberania do estado português.

Uma das formas assumidas pela destruição generalizada que assola o nosso país é, sem qualquer dúvida, o desaparecimento das unidades económicas produtivas, com muito destaque para as pequenas e médias empresas industriais.

Evolução do nº de consumidores de electricidade. Poderemos verificar, no gráfico ao lado, onde se regista a evolução do número dos consumidores de eletricidade por classes de actividade económica, que essa tendência, embora se esteja a intensificar nos últimos dois anos, já vem desde 2001.

Apesar de toda a propaganda em torno da modernização e não obstante ter-se feito crer que o QREN iria aumentar o nosso poder competitivo, o que poderemos constatar é que, em nove anos, desapareceram cerca de 75 mil unidades industriais.

É expectável que as estatísticas relativas a 2011 e 2012 ainda sejam mais catastróficas.

Portugal, que está longe de ser um país classificável como produtor agrícola, tem, hoje, como há quarenta anos, mais unidades dedicadas à agricultura do que empresas industriais. A maioria delas apenas luta pela subsistência.

As pequenas empresas de serviços e comércio, registadas na classe dos “não-domésticos”, também já estão a descer desde 2001.

O resto do que resta é, apesar de tudo, muito, se nele incluirmos a dignidade e a capacidade de indignação e revolta.

26/Abril/2012

O original encontra-se em http://pracadobocage.wordpress.com/2012/04/26/o-resto-do-que-resta/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
27/Abr/12