O resto do que resta
por Demétrio Alves
O jornalista procurava esclarecer os motivos que a levavam a comemorar o
aniversário do 25 de abril, enfrentando a chuva que caía, e a
manifestante, já avó, disse-lhe que, desfilar na avenida, era uma
forma de defender o resto do que resta.
Poder de síntese e sabedoria no seu estado puro.
Aquela mulher do povo queria dizer, na sua simplicidade, que vale a pena
resistir, apesar da brutalidade do ataque feito aos direitos mais elementares
dos trabalhadores e aos fatores de desenvolvimento, independência e
soberania do estado português.
Uma das formas assumidas pela destruição generalizada que assola
o nosso país é, sem qualquer dúvida, o desaparecimento das
unidades económicas produtivas, com muito destaque para as pequenas e
médias empresas industriais.
Poderemos verificar, no gráfico ao lado, onde se regista a
evolução do número dos consumidores de eletricidade por
classes de actividade económica, que essa tendência, embora se
esteja a intensificar nos últimos dois anos, já vem desde 2001.
Apesar de toda a propaganda em torno da modernização e não
obstante ter-se feito crer que o QREN iria aumentar o nosso poder competitivo,
o que poderemos constatar é que, em nove anos, desapareceram cerca de 75
mil unidades industriais.
É expectável que as estatísticas relativas a 2011 e 2012
ainda sejam mais catastróficas.
Portugal, que está longe de ser um país classificável como
produtor agrícola, tem, hoje, como há quarenta anos, mais
unidades dedicadas à agricultura do que empresas industriais. A maioria
delas apenas luta pela subsistência.
As pequenas empresas de serviços e comércio, registadas na classe
dos não-domésticos, também já
estão a descer desde 2001.
O resto do que resta é, apesar de tudo, muito, se nele incluirmos a
dignidade e a capacidade de indignação e revolta.
26/Abril/2012
O original encontra-se em
http://pracadobocage.wordpress.com/2012/04/26/o-resto-do-que-resta/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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