A crise e a pobreza
Esta crise internacional torna mais presente a dramática
situação da pobreza
[1]
. Os milhões de cidadãos sem emprego, o encerramento de empresas
deixando trabalhadores de meia idade sem esperança, as sopas dos pobres
e as diversas manifestações de caridade, colocam a questão
nos noticiários e na ordem do dia. Talvez por isso se tenha decidido
instituir o ano de 2010, como "Ano Europeu de Combate à Pobreza e
à Exclusão Social". Objectivamente é uma forma de
mostrar preocupação com esta chaga social desviando as
atenções das medidas que a promovem. Na verdade, com a
política monetária e cambial do BCE ao serviço do
Directório das grandes potências e designadamente da Alemanha, e
com as exigências do Pacto de Estabilidade o que vamos ter é o
prolongamento das dificuldades económicas, mais desemprego, mais
problemas sociais e mais pobreza.
Mas se a crise torna mais presente a chaga da pobreza, a questão que se
tem de colocar é por que razão, mesmo nos períodos de
pujança económica e mesmo nos países mais desenvolvidos,
que nunca foram colónias, mas sim colonizadores, as bolsas de pobreza
nunca deixaram de ter significado?
E por que razão as meritórias acções de caridade e
assistencialistas nunca resolveram o problema? Não será porque a
pobreza é inerente a um sistema baseado na exploração e no
imperativo do lucro, na acumulação, nas políticas de
concentração da riqueza com a consequente perda de poder de
compra das camadas médias, da classe operária e a extensão
do cortejo dos pobres quer se lhes chame excluídos ou marginalizados!
Sabemos que se considera haver várias formas de pobreza e vários
factores que as determinam. Mas fora do quadro da guerra e de cataclismos o
principal factor reside nas baixas pensões da Segurança Social e
das Companhias de Seguros aos acidentados, nos baixos salários que
são as baixas pensões de amanhã e nas políticas
designadamente fiscais e orçamentais que promovem a
polarização da riqueza e a degradação dos
serviços públicos.
E tudo isto é ainda mais chocante quando somos confrontados com os
espectaculares avanços científicos e técnicos nos mais
diversos domínios, que permitiam resolver os problemas básicos da
humanidade, melhorar o nível e a qualidade da vida, reduzir os
horários de trabalho, com muito mais espaço para as actividades
culturais, lúdicas e de formação.
No entanto, o que vemos paralelamente aos espantosos e fulgurantes
avanços científicos e técnicos é a
intensificação do combate à redução e
liquidação de direitos e regalias duramente conquistados!
Lembro que no nosso país ainda não há muito tempo houve
quem pusesse em causa, a pretexto da situação económica do
país, o direito às férias pagas!
A ofensiva contra os direitos e regalias, a ofensiva contra os salários
e as pensões, o prolongamento dos horários de trabalho, a
desregulação e o desmantelamento do "Estado social"
desenvolveu-se com o afundamento da União Soviética e
intensificou-se com a livre circulação de capitais.
O "Estado social" nos países capitalistas desenvolvidos foi
criado pela luta dos trabalhadores e dos sindicatos numa
correlação de forças em que pesou e muito, as conquistas e
avanços sociais dos povos dos países do então chamado
"socialismo real".
Com a "globalização" do sistema capitalista e as
deslocalizações intensificou-se a ofensiva do capital levando
à erosão do poder de compra de largas camadas da
população e ao seu endividamento crescente, mesmo nos
países mais desenvolvidos.
Foi-se criando uma situação em que não basta ter emprego
para se deixar de ser pobre de tal maneira os salários têm sido
esmagados no nosso país 12% dos empregados vivem abaixo do limiar
de pobreza; nem basta ter uma licenciatura para se ter um emprego ou um emprego
qualificado 100 mil licenciados exercem funções não
qualificadas e 64 mil e trezentos encontravam-se desempregados (3.º
trimestre de 2009).
[2]
Para dar resposta às dificuldades de escoamento da
produção face à diminuição do poder de
compra das massas instituiu-se a política do crédito
fácil. A ilusão do aumento do poder aquisitivo fez-se à
custa do endividamento crescente dos cidadãos e das famílias, na
maioria por muitos e longos anos. Nalguns casos foi mesmo o disfarce de
situações de pobreza. Na base dos títulos de
dívida, designadamente no imobiliário, gerou-se uma
especulação fantástica que rebentou nos EUA com o aumento
das taxas de juro e estendendo-se a praticamente todo o Planeta.
É a questão central das crises: a sobreacumulação,
a sobreprodução em relação ao poder aquisitivo das
massas, isto é, em relação à procura
solvável.
E esta questão não se resolve com a caridade, nem com votos pios
que se encontram nos diversos manifestos contra a pobreza, tais como: "o
direito aos pobres de viver com dignidade e a participar activamente na
sociedade"; "a responsabilidade partilhada e a
participação no combate à pobreza e à
exclusão"; "a coesão da sociedade aceitando a
adversidade e as diferenças". Ainda recentemente o Presidente da
Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) condenou em Fátima,
(Público,
13 de Abril) as situações de
"miséria escandalosa" que existem no país. Como Igreja
afirmou: "temos de descobrir, reconhecer e libertar os pobres...
precisamos de ir ao encontro daqueles que sofrem e oferecer-lhes uma dignidade
superior à de um mero número estatístico". São
boas palavras, mas o que os povos precisam é de direitos e de uma
distribuição do Rendimento Nacional mais justa, pois não
consta que a ameaça da não entrada no reinos dos céus,
mais difícil do que o camelo passar no "dito" da agulha, tenha
assustado ou modificado o comportamento dos poderosos.
Libertar os pobres sem questionar o modelo económico, sem questionar as
políticas não nos parece possível.
Portugal é hoje o resultado da abdicação nacional face ao
Directório das grandes potências na União Europeia e das
políticas neoliberais dos governos do bloco central ao serviço
dos grandes interesses assentes nas "teorias" do menos Estado, na
diminuição da intervenção do Estado na economia, na
privatização das empresas básicas e estratégicas,
na privatização dos serviços públicos, na
desregulação da legislação laboral.
Políticas que tiveram e têm a sua expressão clara na
distribuição do Rendimento Nacional. Nos anos de 1974/75 e 76 o
peso dos salários no Rendimento Nacional ultrapassou os 50%, atingindo
os 59,5% em 1975. Os últimos dados disponíveis (2006) mostram-nos
que o seu peso era apenas de 40,6% ou seja, um valor inferior ao registado em
1973.
De acordo com o Eurostat somos também dos países em que é
maior a diferença entre os 20% das famílias de maiores
rendimentos e as dos mais baixos e se esta situação não se
tem agravado mais deve-se à luta dos trabalhadores e à luta da
CGTP, na subida do salário mínimo que beneficia centenas de
milhares de trabalhadores (estima-se em 500 mil).
Paralelamente crescem as grandes fortunas, os lucros especulativos e a
acumulação do capital financeiro. Os últimos dados
disponíveis mostram que as 100 maiores fortunas detêm 1/5 da
riqueza nacional (20%). E são estes mesmos e os seus representantes
políticos na Assembleia da República e no Governo que afirmam que
vivemos acima das nossas possibilidades, que não produzimos riqueza
suficiente para aguentar o Serviço Nacional de Saúde e a
Segurança Social, que temos de aumentar a competitividade pelos
salários, que é necessário mais
desregulação. Recentemente até apareceu um novo
líder a defender o Estado fora dos negócios, associando
negócios a negociatas lembrando a nomeação de figuras
gradas do PS, cavalgando um sentimento de descrédito que existe na
opinião pública. Está no fundo a defender mais e mais
privatizações sem falar no seu nome! Talvez seja por não
haver Estado suficiente nas empresas básicas e estratégicas que
as administrações ignoraram displicentemente as
recomendações do governo para português ver
no sentido de limitarem os prémios e os ordenados escandalosos aos
respectivos gestores.
[3]
Também não nos falam das negociatas dos privados, nos offshores,
ou sobre os casos do BCP, BPP e BPN, ou sobre as operações
"Furacão" e outras... É que as "negociatas"
dos privados, ao contrário das verificadas nas empresas públicas,
só se sabem quando há casos de polícia, ou quando se
zangam as comadres (BCP), ou quando estão perto da falência, BPP e
BPN, este último recheado de figuras proeminentes do PSD! Nestes casos
já se esquece a regulação pelo mercado, o "menos
Estado" e pede-se a intervenção do Estado com o dinheiro dos
contribuintes...
No entanto, estes são os mesmos que são capazes, nos discursos de
circunstância, de verterem lágrimas pelos pobres com a mais
refinada hipocrisia e até são capazes de nos lembrar que eles
também têm coração! Com arritmias!!!
Também o governo do PS, no ano Europeu de luta contra a pobreza nos
brindou com o PEC que vai reduzir ainda mais o poder de compra das camadas mais
desfavorecidas, lançando mais uns milhares de famílias para a
situação de pobreza, levando à prática uma
política que objectivamente se pode definir com o slogan: os pobres que
paguem a crise! E depois de apresentar a "bomba atómica"
antisocial que é o PEC, o governo através da ministra da
Solidariedade, apresentou na Assembleia da República um programa
denominado "INOV Inclusão" que abrangerá 1 500 jovens
no que designou fazer parte do programa contra a pobreza. É uma
hipocrisia, uma espécie de "brioches para famintos" ao estilo
Maria Antonieta. Lançam milhares e milhares de pessoas no desemprego e
na pobreza e depois apresentam uns programazinhos de marketing político
na tentativa de disfarçar a essência da sua política.
Camaradas,
É necessário uma política de ruptura com a política
de direita, com o modelo neoliberal e uma política de
afirmação nacional nesta União Europeia. Há outras
soluções do que a cura pela regressão social e a
austeridade!
A política neoliberal da União Europeia é a maior
"fábrica" de pobreza. Com as suas políticas neoliberais
lança milhões de trabalhadores no desemprego e na pobreza para
depois aparecer também com umas medidazinhas assistencialistas atirando
poeira aos olhos da opinião pública, como se dissessem: fazemos
milhões de vítimas, mas temos um programa de
aquisição de ambulâncias para o 112!
Não se combate a pobreza e a crise exigindo a aplicação
dos critérios de Maastricht e designadamente a redução do
défice a "mata cavalos" para satisfazer os interesses da
Alemanha e a concepção do que já se designou do "euro
marco"!
Neste quadro de crise tal política vai travar o crescimento
económico, que é uma questão nuclear, prolongar o marasmo
podendo inclusive criar condições de nova recessão, de
deflação ou de estagno-inflação.
Não se vence a pobreza e a crise sem se combaterem drasticamente as
especulações sobre as dívidas públicas. A atitude
da União Europeia e muito especialmente a que teve em
relação à Grécia é inaceitável.
Até o especulador George Soros diz que os juros a que a Zona Euro
está a exigir à Grécia apesar de serem os melhores dos
mercados são consideravelmente elevados.
(Jornal de Negócios,
16/04/2010)
A solidariedade, a "coesão económica e social"
são conceitos sem conteúdo. E num quadro destes mesmo para os
fanáticos europeístas é de se colocar a questão:
para que serve uma União Económica e Monetária se esta
permite a especulação contra Estados membros e se esta admite
Taxas de Juro diferentes para empréstimos obrigacionistas. Dizem-nos que
são os mercados! Quais mercados? Os mercados são os Bancos, os
tais que beneficiaram de empréstimos dos Orçamentos de Estado e
do BCE quando estavam à beira da falência e que agora especulam
com essas mesmas dívidas servindo-se das correias de transmissão
ao seu serviço e ao serviço dos EUA e do dólar, que
são as empresas de notação, "rating".
O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, afirmou que é
"paradoxal que as agências de "rating" tenham apelado a
que os Estados ajudassem a economia e agora digam para estes saírem de
cena rapidamente".
(Jornal de Negócios,
07 de Abril/20010).
Pois é, mas que consequências é que tira disto? Que
posição é que toma perante a União Europeia e o BCE
que tiveram o mesmo comportamento!
São milhões de euros que Portugal já está a pagar a
mais pela especulação contra a sua dívida pública,
com o beneplácito da Comissão Europeia e do Banco Central
Europeu. Isto é inaceitável, mesmo para as
concepções neoliberais e mesmo para os que pactuam com uma Europa
cada vez mais alemã!
Não se combate a pobreza nem se vence a crise com a
liquidação de direitos e garantias aos trabalhadores, nem com um
modelo económico assente nos baixos salários. As
declarações do comissário para os Assuntos Europeus e
financeiros Ohli Rehn, sobre o PEC português são não
só erradas, como irresponsáveis. Os juros da dívida
dispararam no dia em que este Comissário questionou o PEC, aliás
em contradição ao que afirmou o Presidente da Comissão.
(Jornal de Negócios,
15/Abril/2010). E a pergunta a fazer é o de saber quem paga a
factura destas públicas declarações irresponsáveis.
A Comissão Europeia que aumentou os seus membros principescamente afirma
também que Portugal deve adoptar políticas de forte
contenção salarial de forma a ganhar competitividade.
É a defesa do aumento da competitividade à custa da
diminuição dos salários reais, uma medida que se inscreve
bem no Ano Europeu de luta contra a pobreza!!!
E a perda de competitividade pela valorização artificial do Euro?
Sobre isto e sobre a política do BCE não há uma palavra?
O combate à pobreza passa também pelo desmascaramento destas
posições políticas, mostrando a sua hipocrisia e pela luta
ideológica, aos que dizendo-se preocupados em palavras com a pobreza e a
situação social são, pelas medidas que defendem,
exímios defensores e executores da política de
concentração da riqueza, da política de
acumulação capitalista da política da submissão e
da resignação.
Notas
1- Segundo o último Relatório Anual da ONU sobre a fome no mundo,
em 2009 o número de famintos no Planeta aumentou 100 milhões em
relação ao ano passado! Segundo a FAO, 1 em cada 6 habitantes do
mundo passa fome! Paralelamente, segundo o SIPRI Stockholm Internacional
Peace Research Institute as despesas com armamentos continuam a aumentar.
2- Alguns ideólogos a partir da alteração da
relação de forças desfavorável aos meios populares
teorizaram sobre o fim do trabalho assalariado, da luta de classes, da morte da
classe operária, tentando mostrar que o antagonismo capital/trabalho
tinha sido superado com a extensão das profissões intelectuais,
com a "terciarização" da sociedade, com o
desenvolvimento de uma "sociedade da classe média". A
precariezação crescente destas camadas, o desemprego e a
extensão da pobreza aí está a mostrar as fantasias destas
pseudo teorias da conservação do "status quo", da
aceitação e da resignação face às
desigualdades sociais e à pobreza.
3- Os presidentes executivos de 17 empresas cotadas na Bolsa receberam em
média mais de 1 milhão de euros cada e são todos estes os
que nos falam de moderação social.
[*]
Economista. Intervenção no debate sobre "Pobreza e
justiça
social", realizado a 20/Abril/2010 no Hotel Roma, em Lisboa.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|