Crimes mortais
por Jorge Cadima
A morte do militar português no Afeganistão vem chamar a
atenção para a participação de Portugal na ofensiva
global do imperialismo. O Primeiro-Ministro afirma (
Público,
18/Nov/05) que o primeiro-sargento Pereira
"perdeu a sua vida ao serviço do país, mas também da
paz e da liberdade".
Qual país? Qual paz? Qual liberdade?
Este mês, o
Washington Post
revelou a existência de uma rede mundial de prisões secretas da
CIA, incluindo no Afeganistão (02/Nov/05):
"Quase nada se sabe de quem está detido nestas
instalações, quais os métodos de interrogatório
usados, ou como são tomadas as decisões sobre se, e durante
quanto tempo, devem ficar detidos".
Algumas dezenas de presos
"estão totalmente isolados do mundo exterior. Mantidos em celas
escuras e por vezes subterrâneas, não têm direitos legais, e
ninguém fora da CIA está autorizado a falar com eles ou sequer
vê-los".
O
Post
informa que a tortura é prática regular nestas prisões
medievais da CIA:
"Os países anfitriões assinaram a Convenção da
ONU contra a Tortura [
] tal como fizeram os EUA. Mas os interrogadores da
CIA nestes locais no estrangeiro estão autorizados a guiar-se pelo
documento [
] relativo a "Técnicas Reforçadas de
Interrogatório", algumas das quais estão proibidas pela
Convenção da ONU e pelo Direito Militar dos EUA".
Que a tortura tem o patrocínio dos mais altos dirigentes da
"mãe de todas as democracias ocidentais" já não
é, aliás, segredo para ninguém: a revista
Newsweek
(14/Nov/05) informa que num almoço semanal dos Senadores Republicanos, o
Vice-Presidente Cheney manifestou-se
"muito perturbado com a aprovação no Senado, por grande
maioria, de uma emenda proibindo o tratamento desumano de terroristas
presos".
Até um ex-chefe da CIA, Stansfield Turner, se confessa
"envergonhado de ter um Vice-Presidente que defende a tortura"
(CNN, 18/Nov/05), embora conhecendo a história da CIA se desconfie que
à frase faltou acrescentar
"em público".
É esta a "liberdade" de que fala Sócrates? O artigo
7º, da Constituição da República afirma (no nº1)
que
"Portugal rege-se nas relações internacionais pelos
princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do
homem, dos direitos dos povos
",
e (nº2) que
"Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do
colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e
exploração nas relações entre os povos
".
Há quem diga que "temos obrigações resultantes da
nossa participação na NATO". Mas a obrigação
que Portugal tem é de lutar pela
"dissolução dos blocos político-militares"
(Constituição da República, artº7, nº2).
Razão tem o camarada Jerónimo de Sousa quando afirma que os
nossos governantes não cumprem o texto constitucional. Incluindo o ainda
Presidente Sampaio, que afirmou que
"não é um incidente, por mais dramático que seja, que
faz pôr em causa a bondade e a justiça de uma missão deste
tipo"
(TSF, 18/Nov/05).
Os crimes do imperialismo vão muito para além da tortura e das
prisões medievais. É também destes dias a
confirmação do uso de fósforo branco em Falluja, no
Iraque.
"O fósforo queima os corpos, aliás derrete a carne
até ao osso
Eu vi os corpos queimados de mulheres e
crianças. [
] O fósforo explode e forma uma nuvem. Quem quer
que esteja num raio de 150 metros está feito"
relata um ex-militar dos EUA no documentário passado pela TV italiana
(vídeo e fotos dos efeitos disponíveis em
www.rainews24.rai.it
. Após desmentir as acusações da TV italiana, um porta-voz
do Pentágono acabou por ter de confirmar a utilização do
fósforo branco
"como arma incendiária contra combatentes inimigos" (Daily
Telegraph,
20/Nov/05): a confissão tinha sido feita por uma revista militar dos
EUA, a
Field Artillery,
no seu número de Março/Abril 2005
A criminalidade do imperialismo dos nossos dias está à vista de
todos. Ninguém pode dizer que "não sabia". E a nossa
Constituição (artº7, nº3) diz que
"Portugal reconhece o direito dos povos [
] à
insurreição contra todas as formas de opressão".
O original encontra-se em
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=11935&area=24
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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