Cretinismo parlamentar e democracia oligárquica
por Daniel Vaz de Carvalho
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"O cretinismo parlamentar consistia numa espécie de delírio
que acometia as suas vítimas, as quais acreditavam que todo o mundo, o
seu passado e o seu futuro se governavam por uma maioria de votos ditada por
aquela assembleia (
) e tudo o que se passava fora daquelas quatro paredes
muito pouco ou nada significavam ao lado dos debates importantes".
Marx, Revolução e Contrarrevolução na Alemanha
Et leur bulletin dans les urnes
Et le mépris dans un placard!
Ils ont voté et puis, après?
(
) Le jour de gloire est arrivé!
Canção de Léo Ferré
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1 O CRETINISMO PARLAMENTAR
Marx considerava o cretinismo parlamentar "a forma não de dar
expressão á vontade do povo, mas de bloquear essa vontade".
Pretende-se reduzir a luta de classes a uma retórica de que o povo
é alheado, acabando por ficar desiludido, desenganado, face às
ações dos que deveriam ser os seus representantes.
Mas será que segundo o marxismo a legalidade, a democracia, enfraquece a
revolução e os revolucionários? Engels, considera que pelo
contrário "nós os revolucionários, os "elementos
subversivos", prosperamos muito mais com os meios legais que com os
ilegais. Os partidos da ordem, como eles se designam, afundam-se com a
legalidade criada por eles próprios".
[1]
É neste sentido que Marx afirma: "Os partidos da ordem burguesa
só podem conter o avanço dos partidos revolucionários
mediante a violação das leis e a sua subversão."
[2]
O que se aplica totalmente ao governo de direita/extrema-direita do PSD-CDS
que desgoverna o país pela subversão das leis e em continuada
afronta à Constituição.
A transição para o socialismo far-se-á portanto no
aprofundamento da democracia e não na sua supressão, o que passa
pela superação do "cretinismo parlamentar". Para Marx o
que distingue os indivíduos é a sua "qualidade social",
não a cor da pele, religião, etc. Não há seres
humanos em abstrato, há modos de existência, resultantes, no
fundamental, do modo e condições de produção
prevalecentes. Neste sentido, a atividade social de cada pessoa, de cada
cidadão, torna-se política seja pela participação
seja pela indiferença. A abstenção política
é, pois, um ato negativo em termos marxistas.
O cretinismo parlamentar tornou-se a forma de garantir a rotatividade de
partidos enfeudados aos interesses oligárquicos: a troika interna, que a
propaganda difunde como "o arco do poder". Uma falácia, pois o
poder nestas condições reside efetivamente nas oligarquias e na
burocracia europeia ao seu serviço.
A república parlamentar (
) era a condição
indispensável para o domínio comum (das diversas
fações da burguesia) a única forma de governo na qual o
interesse geral da classe podia submeter não só as
reivindicações das diferentes fações como as das
demais classes da sociedade"
[3]
Neste sentido, procura-se manter a opinião pública num
nível de ignorância e preconceitos políticos que
impeçam uma análise objetiva e minimamente aprofundada da
realidade. Procura-se que as pessoas estejam política e socialmente
desinformadas e confusas, para poderem ser facilmente convencidas da ideia que
não há alternativas senão entregar o poder ao grande
capital e à burocracia europeia.
A oligarquia, a direita procuram que o proletariado não tenha
consciência da dialética do processo social, de modo a deixar-se
iludir por falsas promessas e discursos fascizantes contra "os
políticos" e contra os partidos "todos iguais e sem
alternativas". Como se sabe, a propaganda (e a repressão) fascista
tinha como objetivo as pessoas não se "meterem na
política".
O PS é um partido democrático, porém rendido ao
"cretinismo parlamentar", consequência de na sua
ação prática não possuir referências
ideológicas. Nas críticas ao governo do PSD-CDS, a
veemência das palavras cresceu à medida que se tornavam
inúteis. Baixava de tom ou calava-se sempre que seria necessário
juntar-se às forças populares em ações concretas.
Tal foi e é evidente, apesar da mudança de liderança, por
exemplo, no caso da exigência de demissão deste governo.
Com medo de surgir como fator de instabilidade dos interesses
oligárquicos não hesita em demarcar-se ou mesmo hostilizar as
forças à sua esquerda na contestação aos ditames do
imperialismo e das burocracias da UE. O chamado "arco do poder"
não passa então duma disfarçada coligação
pró-oligárquica, a troika interna, que adota conceitos e
fundamentos políticos idênticos, limitando-se a procurar
"pessoas mais competentes", pondo de parte a alteração
das relações de produção, condição
essencial para a da saída da crise e o progresso económico e
social.
2 A DEMOCRACIA OLIGÁRQUICA
"Nos países ocidentais a democracia está atacada por uma
casta, na realidade entramos num regime oligárquico. Nesta forma de
fazer política o poder está reservado a um pequeno grupo de
pessoas que formam uma classe dominante."
[5]
J. Saramago fez notar que "a democracia parece ser tão
intrinsecamente boa que nela se pode fazer de forma não
democrática, tudo o que não é democrático. (
)
A democracia é apenas uma fachada que mantém as
aparências."
[6]
O crescente poder do dinheiro no sistema político é evidenciado
por Stiglitz: "o sistema é mais semelhante a "um dólar
um voto" que "uma pessoa um voto".
[4]
Escreveu Aldous Huxley: "Oligarcas plutocráticos aspiram a
governar sob a capa das instituições democráticas
impessoalmente e sem responsabilidades. Explorar a democracia viram eles
é mais fácil e rendoso que opor-se a ela. Deixem que muitos
votem, mas conforme lhes disserem os poucos opulentos que são donos dos
jornais"
[7]
A oligarquia e seus burocratas ditam a nível europeu até ao
pormenor as políticas a serem seguidas, arrogam-se o direito de
inspecionar os OE, podem mover processos a instituições soberanas
dos Estados. Decidem sobre o económico e o social. As
reivindicações dos trabalhadores, as políticas sociais e
progressistas são consideradas "devaneios utópicos com os
quais há que acabar"
[8]
A Igualdade política foi subvertida pela privatização da
sociedade e pelos mecanismos da alienação, garantido a
desigualdade social. A mentira tornou-se um ato de gestão corrente do
governo. É o que nos contava Diderot: "Um ministro do rei de
França, que tem engenho por cinco provou-nos que não há
nada mais útil aos povos que a mentira, nem nada tão nocivo como
a verdade."
[9]
A propaganda fala em "responsabilidade social" da empresa privada,
porém trata-se de uma mistificação, pois confronta-se com
a dura realidade de que as empresas privadas estão submetidas à
lei da maximização do lucro e segundo declaram os seus
próceres "não são instituições de
beneficência". Então quem? A falácia adotada foi a da
"flexisegurança", neologismo rapidamente atirado para a valeta
das imposturas e transformado em "flexibilidade" para os
trabalhadores e segurança para o grande capital, à custa do resto
da sociedade.
Apesar do estrondoso falhanço destas políticas, os interesses
rentistas dos monopólios e da finança, são apresentados
como eficientes e "criação de riqueza",
justificação para as políticas do BCE que colocam os
destinos dos povos nas mãos de usurários e especuladores.
A "ciência económica" adotada não passa de uma
metafísica, ou pior, uma superstição, com seus
anátemas, destinada a subordinar os povos e o funcionamento das
economias nacionais aos interesses de uma minoria transacionais e seus
bilionários. Sob o lema da "modernidade" foi imposto um
drástico retrocesso das condições sociais, caminhando-se
para níveis do século XIX sob a tutela da UE. O oportunismo da
social-democracia começou por defender: o "movimento é
tudo", agora "o retrocesso é tudo". A direita promove-o
com o sofisma de ser contra o "imobilismo"!
Raul Proença escrevia em 1928 na
Seara Nova,
acerca dos sofismas liberais, que a liberdade económica não
é mais que a capacidade "que alguns indivíduos têm de
se oporem em nome dos interesses criados à liberdade de todos os
outros". É justamente o que caracteriza a democracia
oligárquica.
A democracia oligárquica procura unir a oligarquia e dividir o povo. A
ideologia dominante veiculada nas Universidades e mesmo no ensino
secundário tem o objetivo de produzir jovens desprovidos de
espírito universal, aptos a estabelecerem o antagonismo entre classes e
camadas sociais, o ódio ao coletivo, ao social. Procuram-se "homens
práticos", ao serviço da oligarquia.
A ministra das Finanças exibiu na AR mais uma vez o seu rancor ao que
é público, a tendência para escamotear a verdade e proteger
a especulação financeira, ao declarar que o comprometimento de
dinheiro do Estado no escandaloso caso BES, eram "os custos de ter um
banco público". Zeinal Bava, que levou a PT à ruina foi
sucessivamente considerado gestor de excelência a nível europeu,
foi condecorado pelo PR (tinha de ser!), abandonou o cargo com 5,4
milhões de euros, a empresa perdeu num ano metade do valor em bolsa e
continua em queda
Os oligarcas são promovidos a heróis da
"eficiência" e do "sucesso" de que os casos BES, BPN,
BPP, BANIF, PT, etc, são paradigmáticos. Mas a oligarquia
só consegue apresentar gente sem dimensão, os seus
políticos e comentadores refletem a pequenez da sua visão e a
incipiência das suas teses, mas são promovidos ao estrelato da
erudição e da clarividência.
Gente que manipulava contas como qualquer vigarista de vão de escada,
era escutada em S. Bento e Belém, determinava como o país devia
funcionar. O povo é depois chamado a pagar os seus desmandos e a
sacrificar-se para suportar o seu estatuto de grandes senhores. Governadores do
B de P e outros responsáveis nada vêm. Incompetência?
Desonestidade? Não, estão ao serviço dos interesses
financeiros ligados por critérios de economia política totalmente
falsos e contraproducentes, da qual, lamentamos, o PS não se demarca.
Uma maioria de direita servil a esses interesses estabeleceu um governo que
mente, humilha a dignidade das pessoas na sua condição de
trabalhadores e destrói ou permite a destruição do que
melhor o país tem ou teve, enquanto as propostas das forças
consequentemente de esquerda são rejeitadas e escamoteadas do grande
público.
O objetivo é reduzir a força de trabalho às antigas
condições da ditadura. As tão faladas "reformas
estruturais", nunca se dizendo concretamente em que consistem, são
apenas isto: o retorno ao passado na saúde, na educação,
na precariedade das relações laborais. Os salários
diminuem, mas a parte que cabe ao grande capital é cada vez maior.
As desigualdades sociais são fatores de crise económica e social,
assim o revela não só a teoria económica como a
própria História dos povos. Para o neoliberalismo, como para o
malthusianismo, as desigualdades representam, pelo contrário, fator de
criação de riqueza. As falências financeiras da banca
têm sido um processo de o património dos pequenos acionistas e
contribuintes ir parar às mãos da oligarquia. No caso BES,
enquanto o governo, o PR e o B de P enganavam a opinião pública
garantindo que tudo estava bem, os grandes acionistas (como a Goldman
Sachs
) vendiam ações, dias depois consideradas lixo!
A democracia oligárquica é a forma de garantir os interesses da
finança e dos monopólios, quando para o progresso dos povos
é necessário combater esses interesses, como sempre se verificou
no passado. Dizia Marx: "a emancipação do proletariado
é a abolição do crédito burguês. O
crédito público e o crédito privado são o
termómetro pelo qual se pode medir a intensidade de uma
revolução. Na mesma medida em que aquele baixe sobem o calor e a
força criadora da revolução".
[10]
A libertação do domínio da oligarquia em que o poder do
dinheiro vale mais que o poder do voto, passa, pois, por reconquistar a
soberania monetária, lançar impostos sobre as
transações financeiras e o grande capital. O país
não suporta mais a atual "democracia oligárquica",
escudada na ditadura da UE, controlada pelo imperialismo alemão com o
seu euro.
15/Outubro/2014
Notas
[1] Introdução de Engels à "Luta de Classes em
França", para a edição de 1895, Obras Escojidas de
Marx e Engels, Ed. Progresso, Moscovo, 1973, p. 206.
[2} idem, p. 207
[3] O 18 do Brumário de Luís Bonaparte, obra citada, p. 469
[4] Joseph Stiglitz, The price of inequality, Ed. W. W. Norton, p.14
[5]
www.legrandsoir.info/...
[6] J. Saramago, em diálogo com I. Ramonet,
Le Monde Diplomatique
, julho
2010
[7] Aldous Huxley, Sobre a Democracia, Livros do Brasil, p. 131.
[8] Marx, O 18 do Brumário de Luís Bomaparte, obra citada, p. 414
[9] Diderot: O Sobrinho de Rameau
[10] A Luta de Classes em França, obra citada, p. 221
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