A banca paga metade da taxa de IRC, as remunerações dos
trabalhadores representam apenas 30% do VAB do sector, e faltam 530
milhões de contos nos fundos de pensões
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RESUMO DESTE ESTUDO
Em Portugal, no ano de 2004, a percentagem do PIB (riqueza criada em cada ano)
que reverte para os trabalhadores sob a forma de remunerações
atingiu apenas de 40%, enquanto a média na União Europeia rondou
os 51%. No nosso País 73% da população activa recebe
apenas 40% da riqueza criada, o que revela um grau de desigualdades muito
elevado.
Se se fizer o mesmo tipo de análise em relação ao sector
bancário conclui-se que, em 2004, de acordo com dados publicados pelo
Banco de Portugal, as remunerações dos trabalhadores
bancários, retirando as contribuições patronais para os
fundos de pensões e para a segurança social, a fim dos dados
poderem ser comparáveis com os anteriores, deverá ter rondado
apenas 30% do VAB (Valor Acrescentado Bruto) do sector bancário, tendo
descido 5 pontos percentuais desde 1998, ou seja, a desigualdade na
repartição da riqueza era ainda mais grave do que a nível
nacional e tem-se agravado ao longo dos anos.
Em 2004, os impostos sobre lucros pagos pela banca ao Estado foram inferiores,
mesmo em valores nominais, aos de 1998, tendo representado, em 1998, 22,8% dos
lucros antes de impostos e, em 2004, apenas 12,1% ou seja, metade da taxa de
IRC em vigor nesse ano. No período compreendido entre 1998 e 2004, a
banca pagou de impostos sobre lucros ao Estado 2.815 milhões de euros,
mas arrecadou 14.363 milhões de euros de lucros líquidos, ou
seja, cinco vezes mais do que os impostos pagos, o que mostra que a
privatização da banca foi um mau negócio para o
País, mesmo em termos financeiros, porque se a banca fosse
pública uma grande parte destes lucros constituiriam receitas do
Orçamento do Estado, contribuindo para reduzir o défice
orçamental.
No fim de 2004, as responsabilidades dos Fundos de Pensões dos
trabalhadores dos cinco maiores bancos somavam 8.862,2 milhões de euros.
No entanto, o valor do património para cobrir essas responsabilidades
era apenas de 6.216,2 milhões de euros, o que significava que estavam em
falta nesses fundos 2.645,9 milhões de euros (530 milhões de
contos) para estarem totalmente provisionados. É urgente alterar a lei
dos fundos de pensões para os trabalhadores bancários no activo e
na reforma possam controlar os seus fundos de pensões, como já
sucede em países da União Europeia (ex. Espanha), pois em
Portugal os banqueiros continuam a utilizar como querem o dinheiro dos fundos
de pensões dos trabalhadores sem terem de prestar quaisquer contas ou
informações dos seus actos aos principais interessados.
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Num estudo anterior
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, utilizando dados do Eurostat e do Banco de Portugal mostramos
que, entre todos os países da União Europeia, era precisamente em
Portugal que a parte do PIB (Produto Interno Bruto), ou seja, da riqueza criada
em cada ano que reverte para os trabalhadores sob a forma de
remunerações era mais baixa. Efectivamente, em 2004, enquanto na
UE25 essa parte representava, em média, 51% do PIB, em Portugal era
apenas de 40%.
Neste estudo, vamos procurar fazer a mesma análise para o sector
bancário. Como se sabe o PIB resulta do somatório dos VAB (Valor
Acrescentado Bruto) de cada sector. Para isso teremos de calcular o VAB do
sector bancário a partir do Produto Bancário já que
não existem dados do VAB disponíveis.
Mas antes interessa esclarecer os conceitos que vão ser utilizados para
que os resultados obtidos sejam facilmente compreensíveis.
Os resultados da actividade bancária resultam, em primeiro lugar, da
diferença entre os proveitos financeiros que a banca obtém pelas
aplicações que faz (por ex.: juros que cobra pelos
empréstimos que realiza) e os custos financeiros resultantes dos
recursos que capta (por ex., juros que paga aos depositantes). A esta
diferença chama-se MARGEM FINANCEIRA (MF). Se se adicionar à MF
os proveitos dos rendimentos dos títulos e dos serviços
bancários que presta (por ex., comissões que cobra por cada
transferência, por cada empréstimo, etc), obtém-se o
chamado PRODUTO BANCÁRIO.
É com este Produto Bancário, obtido desta forma, que os bancos
pagam os chamados custos operativos, que incluem os Custos com Pessoal e os
com Fornecimentos e Serviços de Terceiros (FST), ficando o resto para
amortizações, provisões, impostos, e lucros. Portanto, se
retirarmos ao Produto Bancário os Custos com Fornecimentos e
Serviços de Terceiros obtemos aquilo que praticamente coincide com o VAB
que se obtém para os outros sectores.
É isso que se vai calcular seguidamente utilizando dados constantes do
Relatório de Estabilidade Financeira de 2004 publicado pelo Banco de
Portugal.
ENTRE 1998 E 2004, A PERCENTAGEM QUE OS CUSTOS DE PESSOAL REPRESENTAM NO VAB DO
SECTOR BANCÁRIO DIMINUIU 11,6%, MAS A PRODUTVIDADE POR TRABALHADOR
AUMENTOU 57,5%
Os dados do quadro seguinte são do Banco de Portugal, portanto dados
oficiais e correctos. Qualquer leitor pode ter acesso a eles, consultando o
sítio web do Banco de Portugal.
Como já se explicou, para obter o valor do VAB do sector bancário
subtraímos ao valor do Produto Bancário os Custos com os
Fornecimentos e Serviços de Terceiros. No entanto, os Custos com Pessoal
que constam do quadro II, incluem para além das
remunerações dos trabalhadores do sector bancário, outros
custos como as remunerações e outros benefícios pagos aos
administradores assim como as transferências para os Fundos de
Pensões e para o Regime Geral dos trabalhadores inscritos neste regime.
Mesmo assim a percentagem que, do VAB, reverte para os trabalhadores é
significativamente baixa como revelam os dados do quadro, o que torna evidente
a grande desigualdade na repartição da riqueza que se verifica no
sector bancário entre os trabalhadores e as entidades patronais.
Entre 1998 e 2004, a percentagem que os Custos com Pessoal representam no VAB
do sector bancário desceu de 42,3% para apenas 37,4%, ou seja, teve uma
redução de 11,6%. E tenha-se presente que os Custos de Pessoal
incluem, como já se referiu, muitas mais despesas do que as
remunerações que os trabalhadores recebem.
Por essa razão, os 37,4% que representam os Custos de Pessoal no VAB do
sector bancário em 2004 não podem ser comparados com os 40% que
representam as remunerações recebidas por todos os trabalhadores
portugueses do PIB no ano de 2004. Para os dados serem comparáveis
haveria que retirar aos 37,4% do sector bancária a parte correspondente
ás contribuições patronais para os Fundos de
Pensões e para o Regime Geral da Segurança Social. Fazendo isso
aquela percentagem desceria certamente para menos de 30% do VAB do sector
bancário.
Em resumo, se a nível nacional os 40% que as remunerações
representam em relação ao PIB já revelam uma
situação de grande desigualdade na repartição da
riqueza, pois a média que se verifica na União Europeia é
de cerca de 51% do PIB receberem os trabalhadores sob a forma de
remunerações, os 30% do VAB que os trabalhadores bancários
recebem sob a forma de remunerações representa uma desigualdade
ainda maior do que aquela que se verifica a nível de todo o País.
A REPARTIÇÃO VAB POR BANCOS SEGUNDO DADOS PUBLICADOS PELA REVISTA
EXAME
A revista
Exame
publicou um número especial em 2005, com dados dos bancos referentes a
2004, com base nos quais é possível calcular a percentagem para
cada banco. No entanto, como rapidamente se conclui os dados desta revista
não coincidem com os publicados pelo Banco de Portugal. E embora sejam
os dados publicados pelo Banco de Portugal que estão certos, no entanto
vamos apresentar os dados dessa revista já que permite uma
análise mais fina banco a banco , por um lado, e, por outro
lado, possibilita aos trabalhadores de cada banco analisar esses dados e
identificar as razões que explicam que eles não coincidem com os
publicados pelo Banco de Portugal, que são dados consolidados.
Em 2004, de acordo com os dados publicados pela revista EXAME, os Custos de
Pessoal representaram 44,2% do VAB do sector bancário, enquanto segundo
os dados publicados pelo Banco de Portugal esses custos corresponderam apenas a
37,4% do VAB bancário. É evidente que são os dados
publicados pelo Banco de Portugal que merecem maior confiança.
No entanto, os dados publicados pela revista EXAME têm a vantagem de
permitir calcular a percentagem por banco, levantando algumas questões
importantes que os trabalhadores de cada banco poderiam investigar,
nomeadamente as seguintes: Porque razão a CGD, o MG, o BIG, o Banco
Bilbao e o BNP apresentam percentagens superiores a 50%, enquanto existem
bancos que apresentam percentagens muito mais baixas? Será porque foram
incluídos em 2004 nestes bancos custos classificados como de pessoal que
se verificaram apenas neste ano e que não se registarão de uma
forma regular nos anos seguintes? Se se retirar dos Custos de Pessoal de cada
banco as remunerações e outras despesas com a
administração e as contribuições patronais para os
Fundos de Pensões e para a Segurança Social, qual é a
percentagem que se obteria? São questões que interessaria
responder e que só o não fizemos por falta de dados.
OS BANCOS PAGAM AO ESTADO CADA VEZ MENOS IMPOSTOS SOBRE OS LUCROS
O quadro seguinte, construído com dados publicados pelo Banco de
Portugal, mostra, por um lado, que a parcela dos lucros que a banca paga ao
Estado de Impostos é cada vez menor e, por outro lado, que os lucros
obtidos pela banca atingem volumes extremamente elevados o que prova
também que a privatização da banca foi um mau
negócio para o Estado, até quando a analisamos na óptica
de fontes de receitas para o Orçamento do Estado.
Contrariamente àquilo que o presidente da Associação
Portuguesa de Bancos, João Salgueiro, tem afirmado e pretende fazer
crer, a percentagem de lucros que a banca entrega ao Estado sob a forma de
pagamento de impostos é cada vez menor. Como mostram os dados divulgados
pelo Banco de Portugal em 1998 representou 22,8% dos "Lucros antes de
Impostos", enquanto em 2004 correspondeu apenas a 12,1% dos Lucros Antes
de Impostos, ou seja, a menos de metade. Portanto, uma taxa muito inferior
à taxa de IRC sobre os lucros (em 2004, a taxa de IRC é de 25%, e
a taxa efectiva paga pela banca foi apenas de 12,1%). Mesmo a preços
correntes registou-se uma diminuição significativa: em 1998 a
banca pagou 473 milhões de euros de impostos sobre lucros, enquanto em
2004 pagou apenas 321 milhões de euros de impostos. Interessa recordar
que para esta redução significativa não é estranha
a privatização da banca. Em 1998, uma parte dos bancos ainda eram
públicos, enquanto em 2004, com excepção da CGD, os bancos
são já todos privados.
Esta diminuição significativa no volume de impostos que a banca
paga ao Estado, associada ao facto dos elevadíssimos lucros
líquidos obtidas pela banca 14.363 milhões de euros apenas
no período 1998/2004 mostra que a privatização da
banca, mesmo sob o ponto de vista financeiro, foi um muito mau negócio
para o Estado. Se os bancos que foram privatizados se tivessem mantido no
domínio público, a maioria destes lucros seriam receitas do
Orçamento do Estado, não sendo necessário, como os
sucessivos governos têm feito, incluindo o actual, ou aumentar os
impostos, ou a diminuir os investimentos, ou a reduzir em despesas essenciais
para a população, como são a saúde, a
educação e a segurança social. Portanto, com a
privatização dos bancos perdeu-se um importante instrumento de
politica económica e também um importante meio de financiamento
do Orçamento do Estado.
FALTAM 530 MILHÕES NOS FUNDOS DE PENSÕES DE CINCO BANCOS PARA
ESTAREM TOTALMENTE PROVISIONADOS
Para se poder compreender os dados do quadro seguinte é preciso conhecer
minimamente a forma como funcionam os fundos de pensões.
No fim de cada ano, deve ser calculada actuarialmente as chamadas
"responsabilidades dos fundos de pensões pelo tempo de
serviço passado", que corresponde ao tempo de serviço que os
trabalhadores de cada banco têm (fizeram ) em cada banco. Isto é
calculado de forma que exista na altura em que cada trabalhador se reforme uma
reserva (património) que convenientemente gerida permita pagar ao
trabalhador a pensão durante o tempo que viva. Portanto, as chamadas
"Responsabilidades com pensões" correspondem ao valor do
património que devia existir no Fundo de Pensões correspondente
ao tempo de serviço dos trabalhadores de uma banco feito ao
serviço desse banco. É um valor que pertence aos trabalhadores
por trabalho já prestado. O chamado "Valor do Fundo de
Pensões" corresponde ao valor do património existente para
cobrir essa responsabilidade. Observem-se os dados publicados pela revista
Exame
em 2005.
No fim de 2004, o valor das responsabilidades dos cinco principais bancos, pois
para os restantes não foi possível determinar por falta de dados,
totalizavam 8.862,2 milhões de euros, ou seja, este seria o valor do
património necessário para garantir o pagamento das
pensões correspondente ao tempo de serviço já feito pelos
trabalhadores bancários abrangidos por Fundos de Pensões. No
entanto, nessa data o património que existia nos Fundos Pensões
(imóveis, acções, obrigações, dinheiro, etc)
valia apenas de 6.216,2 milhões, ou seja, estavam em falta 2.645,9
milhões de euros (cerca de 530 milhões de contos) para que os
fundos de pensões dos trabalhadores bancários destes cinco bancos
estivessem totalmente provisisonados.
Contrariamente ao que sucede em outros países da União Europeia
(ex. Espanha), os trabalhadores não têm em Portugal, devido
à lei em vigor, qualquer controlo nas aplicações dos seus
fundos de pensões. Os bancos muitas vezes utilizam os fundos de
pensões para transferir para eles títulos que já
não querem, ou então títulos de empresas que têm
interesse em financiar, ou até chegam a vender as suas próprias
acções ou as instalações que utilizam aos fundos
de pensões que controlam por preços que os trabalhadores
não controlam e depois arrendam-nas também por preços que
os trabalhadores desconhecem, apesar de ser o dinheiro das suas pensões.
Esta situação de não cobertura dos fundos nesta
dimensão (apenas estão cobertos em 70%) é ainda mais grave
pois permite aos bancos utilizarem 530 milhões de contos de dinheiro dos
fundos de pensões dos trabalhadores bancários sem qualquer
controlo pois, o que está nos Fundos de Pensões, ainda se pode
pensar que é controlado minimamente pelo Instituto de Seguros de
Portugal. Num estudo que elaborei que inclui uma parte dedicada aos fundos de
pensões bancários, que enviarei gratuitamente a quem pedir,
mostro que é urgente alterar a lei dos fundos de pensões de forma
a permitir o controlo pelos participantes (trabalhadores do activo) e pelos
beneficiários (trabalhadores reformados) à semelhança do
que sucede em países da União Europeia, pois a
situação actual envolve riscos significativos para os
trabalhadores.
25/09/2005
[1]
Desigualdades aumentam em Portugal com a crise.
[*]
Economista ,
edr@mail.telepac.pt
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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