Balanço comovido da ficção de Álvaro Cunhal

por Urbano Tavares Rodrigues [*]

Foto de 1998. Neste momento de mágoa e rememoração em que vejo ainda com toda a nitidez o sorriso de Álvaro Cunhal, já muito doente, comentando as notícias cá de fora, durante a última visita que lhe fiz (e que era já a despedida, sem eu o saber), repenso o conjunto da sua obra literária.

Cunhal tinha bem consciência — e algumas vezes mo disse — de que a matéria recorrente desse conjunto de novelas e contos, em que brilha como um diamante o romance Até Amanhã Camaradas, é o Partido Comunista, como corpo teórico e prático voltado para a revolução socialista, ou seja, a transformação da nossa sociedade, moldada e esmagada pelo fascismo, numa democracia igualitária, à medida de Portugal. Quase um exército da sombra, uma força organizada composta por homens e mulheres que na luta por essa causa afrontam toda a casta de dificuldades e sacrifícios, cada qual com as suas qualidades e defeitos, suas marcas pessoais, sonhos e fraquezas.

Até Amanhã Camaradas narra a reorganização do Partido Comunista num período difícil e apaixonante de conflitos sociais, greves, manifestações, reuniões clandestinas, distribuição de imprensa. Estas acções, historicamente verídicas, poderiam gerar um discurso frio. No entanto, cada gesto, cada palavra dessas personagens que correm mil riscos e por vezes até parecem poder vergar ao peso das responsabilidades chega a nós cheio de humanidade. A coragem destes heróis da insegurança e do segredo não exclui a angústia, as apreensões.

. Alguns desafiam a sua própria natureza e até acontece sucumbirem à doença ou ao cansaço mas, ao longo de todas as peripécias que se vão desenrolando, todos ou quase todos crescem e alguns se agigantam nas ocasiões mais perigosas ou de maior tensão. São muito diferentes uns dos outros, como são os seres humanos na vida corrente.

A amizade, o amor, o ciúme, a gratidão aqui se nos deparam, o que significa que, sendo Até Amanhã Camaradas um romance político, é antes de mais um romance, forte e profundo no modo como nos mostra a evolução dos comportamentos e através dos diálogos não raro desoculta sentimentos recalcados ou exprime emoções, pulsões eróticas, receios, esperanças em torno da realização dos projectos comuns. Sempre na linguagem clara precisa e plástica de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal, ágil no descritivo, rápido na condução dos eventos.

. Talvez a novela mais original e psicologicamente trabalhada de Álvaro Cunhal seja Cinco Dias Cinco Noites, que por outro lado brilha igualmente na captação de uma paisagem agreste, com aquele ligeiro toque pictórico, por vezes quase cinematográfico, que também se encontra em A Casa de Eulália.

A figura do Lambaças, contrabandista e passador, paradigma de um homem do nosso povo, machista, quase brutal, mas valente e no íntimo generoso, capaz de desdenhar dos escrúpulos e da sensibilidade do jovem revolucionário perante a bela e desvalida mãe solteira que se prostitui, fulcro da surda agressividade e do desacordo entre os dois homens, é absolutamente magistral e merece figurar na galeria das mais autênticas personagens rurais da nossa literatura moderna.

O território do não dito, quando o Lambaças se separa do jovem idealista, já a salvo, do outro lado da fronteira, valoriza ainda mais a novela, abrindo-a às interrogações do leitor.

. Tenho um especial fascínio pela frescura narrativa e pelo halo de mocidade a ardor revolucionário que envolve os episódios imaginários e vividos (o próprio Álvaro Cunhal já o confessou) de A Casa de Eulália, onde o autor tão bem surpreende e nos comunica o clima ebuliente de Madrid em armas contra a avançada fascista e acompanha os combatentes ou apoiantes portugueses, comunistas, nesses dias de brasa, entre a frente de combate e as tumultuosas ruas onde a revolução se aprofunda e até o amor adiado lateja nos gestos e nos olhares dos que acotovelam a morte. Além do mais, A Casa de Eulália é um documento precioso para a história desses dias, sobretudo da participação portuguesa nas fileiras republicanas.

. Também A Estrela de Seis Pontas por muitas razões me atrai. A história é linearmente contada, mas surge-nos tão rica a matéria humana apresentada pelo narrador externo, o único preso político sobrevivente, que nos deixamos cativar pela violenta rotina daquele presídio (com seis pontas como a penitenciária de Lisboa, onde Álvaro Cunhal esteve longa e solitariamente encarcerado).

Os contactos do protagonista e espectador solidário com os seres desse estranho microcosmo são raros mas pouco a pouco ele vai penetrando no passado e no universo mental e moral desses criminosos de direito comum, alguns dos quais ali expiam assassínios e outros actos monstruosos e que entretanto vão revelando a sua outra face, toscamente humana e singular onde podem até florescer afectos e atitudes generosas. O grande mérito desta novela é a forma como nos deixa entrever a fera e o anjo que afinal convivem também nos abismos das criaturas vulgares com quem nos cruzamos habitualmente.

. Não vou ocupar-me em pormenor de todos os livros de ficção de Álvaro Cunhal/ Manuel Tiago. Terá havido nos últimos que publicou algum declínio no tratamento do espaço, isto é, na transmissão daquelas informações aparentemente secundárias que criam o ambiente e dão vida concreta às coisas. Como se, ao perder progressivamente a luz dos olhos, Álvaro Cunhal fosse cada vez mais directo ao essencial, ao cerne da acção, às palavras decisivas. Mesmo assim, quanta emoção nos transmite em Sala 3, quanta observação perspicaz e realista achamos na sua recriação dos centros de trabalho do Partido, quanta ternura nas breves histórias de amor que germinam no próprio terreno da luta, sem esquecer sequer os malentendidos, as zangas e as capitosas reconciliações dos namorados.

. O fabuloso conto Os Corrécios representa um ponto alto de humor nas reminiscências ou memórias inventadas de Álvaro Cunhal, o que ele chamava a ficção elaborada sobre vivências pessoais. Quase todos esses contos são também lições de humildade.

Um dos aspectos mais belos da obra literária de Álvaro Cunhal reside, sendo ele um homem de excepção, tão exigente para consigo mesmo, na sua aceitação das misérias do ser humano, em cujo reverso pode inesperadamente surgir alguma grandeza. Isso tem também a ver com o sentimento visceral que havia em Álvaro Cunhal de igualdade e compreensão perante o seu semelhante, ignorante, transviado ou iludido.

Homem de combate, que forjou a sua armadura de aço na dureza da clandestinidade e das prisões, Álvaro Cunhal preservou sempre no mais fundo de si um secreto jardim cheio de amor e de sorrisos, que em certas circunstancias se manifestava sobretudo no seu modo de olhar as crianças.

No momento em que folheio de novo os seus livros para garatujar estas linhas, ainda quentes da dor da sua perda, torno em espírito à sua casa e reencontro-o nos seus desenhos e nesses poucos óleos admiráveis em que ele tanto se projectou, verdadeiras batalhas campais entre a Guarda com os seus cavalos potentes e as pedras a voarem no outro lado, arma de sempre dos oprimidos. E, de repente, lembro-me de um outro desenho, que entre todos particularmente me toca, onde há uma menina, de olhos erguidos e luminosos, conduzindo pela mão um cego, vendado.

[*] Escritor.

O original encontra-se no Jornal de Letras.
As obras mencionadas foram publicadas pelas Edições Avante! , Colecção Resistência.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

23/Jun/05