Balanço comovido da ficção de Álvaro Cunhal
por Urbano Tavares Rodrigues
[*]
Neste momento de mágoa e rememoração em que vejo ainda com
toda a nitidez o sorriso de Álvaro Cunhal, já muito doente,
comentando as notícias cá de fora, durante a última visita
que lhe fiz (e que era já a despedida, sem eu o saber), repenso o
conjunto da sua obra literária.
Cunhal tinha bem consciência e algumas vezes mo disse de
que a matéria recorrente desse conjunto de novelas e contos, em que
brilha como um diamante o romance
Até Amanhã Camaradas,
é o Partido Comunista, como corpo teórico e prático
voltado para a revolução socialista, ou seja, a
transformação da nossa sociedade, moldada e esmagada pelo
fascismo, numa democracia igualitária, à medida de Portugal.
Quase um exército da sombra, uma força organizada composta por
homens e mulheres que na luta por essa causa afrontam toda a casta de
dificuldades e sacrifícios, cada qual com as suas qualidades e defeitos,
suas marcas pessoais, sonhos e fraquezas.
Até Amanhã Camaradas
narra a reorganização do Partido Comunista num período
difícil e apaixonante de conflitos sociais, greves,
manifestações, reuniões clandestinas,
distribuição de imprensa. Estas acções,
historicamente verídicas, poderiam gerar um discurso frio. No entanto,
cada gesto, cada palavra dessas personagens que correm mil riscos e por vezes
até parecem poder vergar ao peso das responsabilidades chega a
nós cheio de humanidade. A coragem destes heróis da
insegurança e do segredo não exclui a angústia, as
apreensões.
Alguns desafiam a sua própria natureza e até acontece sucumbirem
à doença ou ao cansaço mas, ao longo de todas as
peripécias que se vão desenrolando, todos ou quase todos crescem
e alguns se agigantam nas ocasiões mais perigosas ou de maior
tensão. São muito diferentes uns dos outros, como são os
seres humanos na vida corrente.
A amizade, o amor, o ciúme, a gratidão aqui se nos deparam, o que
significa que, sendo
Até Amanhã Camaradas
um romance político, é antes de mais um romance, forte e
profundo no modo como nos mostra a evolução dos comportamentos e
através dos diálogos não raro desoculta sentimentos
recalcados ou exprime emoções, pulsões eróticas,
receios, esperanças em torno da realização dos projectos
comuns. Sempre na linguagem clara precisa e plástica de Manuel
Tiago/Álvaro Cunhal, ágil no descritivo, rápido na
condução dos eventos.
Talvez a novela mais original e psicologicamente trabalhada de Álvaro
Cunhal seja
Cinco Dias Cinco Noites,
que por outro lado brilha igualmente na captação de uma
paisagem agreste, com aquele ligeiro toque pictórico, por vezes quase
cinematográfico, que também se encontra em
A Casa de Eulália.
A figura do Lambaças, contrabandista e passador, paradigma de um homem
do nosso povo, machista, quase brutal, mas valente e no íntimo generoso,
capaz de desdenhar dos escrúpulos e da sensibilidade do jovem
revolucionário perante a bela e desvalida mãe solteira que se
prostitui, fulcro da surda agressividade e do desacordo entre os dois homens,
é absolutamente magistral e merece figurar na galeria das mais
autênticas personagens rurais da nossa literatura moderna.
O território do não dito, quando o Lambaças se separa do
jovem idealista, já a salvo, do outro lado da fronteira, valoriza ainda
mais a novela, abrindo-a às interrogações do leitor.
Tenho um especial fascínio pela frescura narrativa e pelo halo de
mocidade a ardor revolucionário que envolve os episódios
imaginários e vividos (o próprio Álvaro Cunhal já o
confessou) de
A Casa de Eulália,
onde o autor tão bem surpreende e nos comunica o clima ebuliente de
Madrid em armas contra a avançada fascista e acompanha os combatentes ou
apoiantes portugueses, comunistas, nesses dias de brasa, entre a frente de
combate e as tumultuosas ruas onde a revolução se aprofunda e
até o amor adiado lateja nos gestos e nos olhares dos que acotovelam a
morte. Além do mais,
A Casa de Eulália
é um documento precioso para a história desses dias, sobretudo
da participação portuguesa nas fileiras republicanas.
Também
A Estrela de Seis Pontas
por muitas razões me atrai. A história é linearmente
contada, mas surge-nos tão rica a matéria humana apresentada pelo
narrador externo, o único preso político sobrevivente, que nos
deixamos cativar pela violenta rotina daquele presídio (com seis pontas
como a penitenciária de Lisboa, onde Álvaro Cunhal esteve longa e
solitariamente encarcerado).
Os contactos do protagonista e espectador solidário com os seres desse
estranho microcosmo são raros mas pouco a pouco ele vai penetrando no
passado e no universo mental e moral desses criminosos de direito comum, alguns
dos quais ali expiam assassínios e outros actos monstruosos e que
entretanto vão revelando a sua outra face, toscamente humana e singular
onde podem até florescer afectos e atitudes generosas. O grande
mérito desta novela é a forma como nos deixa entrever a fera e o
anjo que afinal convivem também nos abismos das criaturas vulgares com
quem nos cruzamos habitualmente.
Não vou ocupar-me em pormenor de todos os livros de ficção
de Álvaro Cunhal/ Manuel Tiago. Terá havido nos últimos
que publicou algum declínio no tratamento do espaço, isto
é, na transmissão daquelas informações
aparentemente secundárias que criam o ambiente e dão vida
concreta às coisas. Como se, ao perder progressivamente a luz dos olhos,
Álvaro Cunhal fosse cada vez mais directo ao essencial, ao cerne da
acção, às palavras decisivas. Mesmo assim, quanta
emoção nos transmite em
Sala 3,
quanta observação perspicaz e realista achamos na sua
recriação dos centros de trabalho do Partido, quanta ternura nas
breves histórias de amor que germinam no próprio terreno da luta,
sem esquecer sequer os malentendidos, as zangas e as capitosas
reconciliações dos namorados.
O fabuloso conto
Os Corrécios
representa um ponto alto de humor nas reminiscências ou memórias
inventadas de Álvaro Cunhal, o que ele chamava a ficção
elaborada sobre vivências pessoais. Quase todos esses contos são
também lições de humildade.
Um dos aspectos mais belos da obra literária de Álvaro Cunhal
reside, sendo ele um homem de excepção, tão exigente para
consigo mesmo, na sua aceitação das misérias do ser
humano, em cujo reverso pode inesperadamente surgir alguma grandeza. Isso tem
também a ver com o sentimento visceral que havia em Álvaro Cunhal
de igualdade e compreensão perante o seu semelhante, ignorante,
transviado ou iludido.
Homem de combate, que forjou a sua armadura de aço na dureza da
clandestinidade e das prisões, Álvaro Cunhal preservou sempre no
mais fundo de si um secreto jardim cheio de amor e de sorrisos, que em certas
circunstancias se manifestava sobretudo no seu modo de olhar as crianças.
No momento em que folheio de novo os seus livros para garatujar estas linhas,
ainda quentes da dor da sua perda, torno em espírito à sua casa e
reencontro-o nos seus desenhos e nesses poucos óleos admiráveis
em que ele tanto se projectou, verdadeiras batalhas campais entre a Guarda com
os seus cavalos potentes e as pedras a voarem no outro lado, arma de sempre dos
oprimidos. E, de repente, lembro-me de um outro desenho, que entre todos
particularmente me toca, onde há uma menina, de olhos erguidos e
luminosos, conduzindo pela mão um cego, vendado.
[*]
Escritor.
O original encontra-se no
Jornal de Letras.
As obras mencionadas foram publicadas pelas
Edições Avante!
, Colecção Resistência.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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