1.
Como caracterizar a política económica em curso? Não
temos dúvidas em afirmá-lo: uma versão de "fascismo
económico" conduzindo o País para o desastre total.
De facto, estamos perante uma cruzada em marcha forçada de
concentração e centralização de capitais à
custa de uma reforçada exploração do trabalho e a
espoliação dos pequenos capitais (micro, pequenas e médias
empresas) por recurso ao poder e potência do Estado. Pela total
promiscuidade do poder económico com o poder político. (Por
outros ver caso recente da CIMPOR).
Uma política de salvação dos Grupos Económicos
Monopolistas e do capital financeiro. Uma política que faz sr. 1º
Ministro pagar aos trabalhadores, às pequenas empresas, às
despesas sociais e ao investimento público, a factura dos desmandos, da
especulação, dos jogos de casino, o lixo tóxico do capital
financeiro nacional (BPN, BPP, BCP, etc) e estrangeiro, o enriquecimento sem
limites e despudorado de grandes capitalistas e banqueiros, que tiveram total
cobertura política do PSD, CDS e PS!
Políticas que não só ameaçam o futuro como
mergulham o presente na agonia económica, pondo em causa qualquer
recuperação no curto e médio prazos. E nem as contas
públicas, que dizem fundamentar estas políticas, endireitam.
Há quem pense que esta "destruição" que alguns
dizem "criadora" é o ponto de partida necessário para
uma recuperação económica! Naturalmente, são as
respostas dos responsáveis pela crise, que outras respostas não
têm para a crise, senão as das políticas que aqui nos
conduziram.
2.
E para os que podem considerar exagerada a nossa classificação
de "fascismo económico" a política económica em
curso, faria um breve registo histórico.
No próximo sábado, 1 de Julho, perfazem-se 84 anos sobre a
entrada em vigor do Orçamento Geral do Estado para 1929/1930 do ministro
das Finanças Oliveira Salazar. Um orçamento com um excedente, com
"saldo positivo". Um orçamento que cumpria com
antecipação os critérios de convergência de
Maastricht e do Pacto de Estabilidade.
Orçamento que foi recordado no ano de 1999, quando fez 70 anos, nas
páginas do
Diário de Notícias,
os comentários
económicos elogiosos de ex-ministros e economistas de governos PSD, PS e
CDS. Escreviam então (e cito para os que gostam de anacronismos):
"Salazar ( ) é um ministro das Finanças moderno."
(Braga de Macedo). "eu não gostaria de sugerir que os meus amigos
do FMI são salazaristas, mas fazem as contas da forma como Salazar
refere ( ) " (Miguel Beleza). "se dermos números
às medidas ( ) (de Salazar) acabamos por anunciar em termos
teóricos, os critérios de Maastricht." (Ernâni Lopes).
"Salazar tinha "toda a razão quando afirmava que a
consolidação (orçamental) era absolutamente
indispensável para o País ganhar condições de
progresso económico"" (Silva Lopes)
Anacrónicos, sr. Deputado Luís Montenegro, srs. deputados,
são os que adoptam, passados mais de 80 anos, os critérios de
Salazar na gestão orçamental e económica!
E foi pena que os ex-ministros não tirassem conclusões sobre
aonde conduziu o País essa política de "equilíbrio
orçamental", porque teriam de afirmar: conduziu ao país mais
atrasado da Europa e a uma negra ditadura necessária para impor aquela
"ditadura financeira" aos trabalhadores e ao povo português!
Regressemos ao presente. A semana passada, deputados do Grupo de Trabalho da
Grande Distribuição/Comissão de Economia e Obras
Públicas, tiveram a oportunidade, na Audição da
CONFAGRI
,
de ouvir o seu Presidente referir que o poder económico dos Grupos da
Grande Distribuição não era já e apenas uma
questão de economia, mas que punha a democracia em causa. E puderam
ouvir, na mesma Audição, o Presidente da Federação
Portuguesa das Associações de Suinicultores falar de
"ditadura económica" desses Grupos.
3.
É, assim, risível, ouvir o Governo falar da mudança de
paradigma, a propósito das ditas "reformas estruturais" do
governo.
Risível, porque faz "reformas" como a da concorrência,
em que deixa intacto e sem qualquer alteração significativa o
poder de mercado dos grupos monopolistas e oligopolistas, ao não assumir
o conceito de "posição económica dominante
colectiva", ao não desenvolver e tipificar o conceito de abuso de
dependência económica, e o mesmo com o conceito de
"dumping".
Risível, porque propagandeando o corte de lucros/rendas excessivas dos,
monopólios da energia, com a EDP à cabeça e anuncia um
ligeiro aparar desses lucros inaceitáveis (a EDP é afectada em 1%
dos seus resultados), não os faz devolver o que cobraram a mais nos
últimos anos, em profunda contradição de que faz com os
trabalhadores e beneficiários da segurança social a quem, ilegal
e retroactivamente, corta e recupera verbas. E em menos de um ano, aumentaram a
electricidade 3 vezes!
Risível, porque prossegue uma política de afundamento das micro,
pequenas e médias empresas e do sector produtivo, pela sobrecarga fiscal
(caso do IVA), encarecimento dos custos dos factores de produção
(energia) e secagem total do crédito. Que era também a agenda do
Governo PS.
Risível, porque através das privatizações, feitas e
anunciadas, completa a espoliação do património do povo
português de empresas estratégicas, num grave ataque à
soberania nacional, pela sua entrega ao capital estrangeiro, e mesmo a
desindustrialização do País, como foi o abrir caminho ao
desmembramento da CIMPOR. Que era também a agenda do Governo PS.
Risível, porque é a política de continuidade absoluta de
um modelo económico centrado na pseudo produtividade e falsa
competitividade, pelos custos salariais, assente na mão-de-obra barata e
de baixo valor acrescentado, com toda a focagem na exportação e
completa desvalorização do mercado interno. Que era também
a agenda do PS.
Não, não há qualquer mudança de paradigma, de
modelo económico, de estratégia para as políticas
nacionais. É a continuidade absoluta das políticas
económicas dos últimos 35 anos de PSD, CDS e PS. Políticas
de classe, centradas na exploração dos trabalhadores e do povo,
da ruína das pequenas empresas e destruição da
produção nacional, de empobrecimento do País.
Disse.
[*]
Intervenção na Assembleia de República em 25/Junho/2012,
dia apresentação da Moção de Censura ao governo.