A BBC está do lado de Murdoch
por John Pilger
Diz-se que a Grã-Bretanha está a aproximar-se do seu Momento
Berlusconi. Isto quer dizer que se Rupert Murdoch ganhar o controle da Sky
passará a comandar metade do mercado da televisão e dos jornais e
a ameaçar o que é conhecido como serviço público de
difusão. Embora o alarme esteja a tocar, é improvável que
algum governo venha a travá-lo enquanto o seu séquito estiver
cheio de políticos de todos os partidos.
O problema com este e outros apavorantes Murdoch é que, apesar de
ninguém duvidar da sua gravidade, eles desviam-se de uma não
reconhecida e mais insidiosa ameaça à informação
honesta. De uma vez por todas, os media de Murdoch não são
respeitáveis. Tomem-se as actuais guerras coloniais. Nos Estados Unidos,
a Fox Television de Murdoch é quase uma cópia em caricatura no
seu belicismo. É o augusto e solene
New York Times,
"o maior jornal do mundo", e outros tais como o outrora celebrado
Washington Post,
que tem dado respeitabilidade às mentiras e contorções
morais da "guerra ao terror", agora reclassificada como "guerra
perpétua".
Na Grã-Bretanha, o liberal
Observer
desempenhou esta tarefa de tornar respeitáveis as burlas de Tony Blair
sobre o Iraque. Ainda mais importante, assim o fez a BBC, cuja
reputação é o seu poder. Apesar da tentativa de um
repórter independente de revelar o chamado dossier manhoso, a BBC tomou
os sofismas e mentiras de Blair sobre o Iraque pelo seu valor facial.
Isto foi tornado claro em estudos da Universidade de Cardiff e da
Media Tenor
com sede na Alemanha. A cobertura da BBC, diz o estudo da Cardiff, foi
esmagadoramente "simpática à causa do governo". Segundo
a Media Tenor, uns meros dois por cento das notícias da BBC durante a
preparação da invasão permitiram às vozes
anti-guerra serem ouvidas. Em comparação com as principais redes
americanas, só a CBS foi mais favorável à guerra.
Assim, quando o director-geral da BBC, Mark Thompson, utilizou o recente
Festival de Televisão de Edimburgo para atacar Murdoch, a sua hipocrisia
apresentou-se. Thompson é a corporificação de uma elite
administrativa financiada pelo contribuinte, para quem a reacção
política há muito substituiu o serviço público. Ele
posicionou-se mesmo na sua própria corporação, estilo
Murdoch, como "fortemente à esquerda". Estava a referir-se
à era do seu antecessor na década de 1960, Hugh Greene, que
permitia o florescimento da liberdade artística e jornalística na
BBC. Thompson é o oposto de Greene; e sua difamação do
passado é a manutenção do moderno papel corporativo da
BBC, o que se reflecte nos prémios pedidos pelos do topo. Thompson
ganhou £834 mil [946.704] no ano passado dos fundos públicos
e os seus 50 executivos sénior ganham mais do que o primeiro-ministro,
juntamente com jornalistas enriquecidos como Jeremy Paxman e Fiona Bruce.
Murdoch e a BBC partilham este corporatismo. Blair, por exemplo, era o seu
perfeito político. Antes da sua eleição em 1997, Blair e
sua esposa foram transportados em primeira classe por Murdoch para a Ilha
Hayman, na Austrália, onde perorou no púlpito da Newscorp e, com
efeito, comprometeu-se a uma obediente administração trabalhista.
A sua mensagem codificada sobre propriedade cruzada dos media e
desregulamentação era que seria descoberto um caminho para
Murdoch alcançar a supremacia que agora pretende.
Blair foi abraçado pela nova classe corporativa da BBC, a qual se
considera como meritória e não ideológica: os
líderes naturais numa administração britânica em que
classe é assunto não falado. Poucos fizeram mais para enunciar a
"visão" de Blair do que Andrew Marr, então um
jornalista de proa e hoje a voz da classe média britânica na BBC.
Assim como o
Sun
de Murdoch declarou em 1995 que partilhava os "altos valores morais"
de Blair em ascensão, do mesmo modo Marr, a escrever no
Observer
em 1999, louvou a "substancial coragem moral" do novo
primeiro-ministro e a "clara distinção em sua mente entre
proteger prudentemente a base do seu poder e impulsivamente utilizar o seu
poder para altos propósitos morais". O que impressionou Marr foi a
"absoluta falta de cinismo" de Blair por ocasião do seu
bombardeamento da Jugoslávia o qual "salvaria vidas".
Em Março de 2001, Marr era o editor político do BBC. De pé
em Downing Street na noite do assalto "pavor e choque" ao Iraque, ele
rejubilou com a afirmação de Blair o qual, disse ele, prometera
"tomar Bagdad sem um banho de sangue e de que no fim os iraquianos
estariam a celebrar. E ambos os pontos ele demonstrou-se conclusivamente
correcto" e em consequência "esta noite ele posiciona-se como
um grande homem". De facto, a conquista criminosa do Iraque esmagou uma
sociedade, matando mais de um milhão de pessoas, expulsando quatro
milhões dos seus lares, contaminando cidades como Faluja com venenos que
provocam câncer e deixando a maioria das crianças mal nutridas num
país outrora descrito pela Unicef como um "modelo".
Assim, foi inteiramente adequado que Blair, ao apregoar o seu livro de
auto-louvação, seleccionasse Marr para a sua "entrevista de
TV exclusiva" na BBC. A manchete sobre a entrevista na revista do
Observer
dizia: "Olhem que está a rir por último". Por baixo
havia uma foto de um Blair radiante participando de uma gargalhada com Marr.
A entrevista não produziu um único desafio que travasse Blair na
sua trilha mentirosa. Foi-lhe permitido dizer que "absolutamente,
claramente e inequivocamente, a razão para derrubar [Saddam Hussein] foi
a sua violação de resoluções sobre Armas de
Destruição em Massa, certo?" Não, errado. Uma grande
quantidade de evidências, inclusive o infame Memorando de Downing Street,
torna claro que Blair secretamente conspirou com George W. Bush para atacar o
Iraque. Isto não foi mencionado. Em momento algum Marr lhe disse:
"Você fracassou em persuadir o Conselho de Segurança da ONU a
avançar com a invasão. Você e Bush estavam sozinhos. A
maior parte do mundo foi ultrajada. Não estava consciente que estava
prestes a cometer um crime de guerra monumental?"
Na verdade, Blair utilizou o encontro amistoso para enganar, mais uma vez, e
mesmo para promover um ataque ao Irão, um ultraje. A Fox de Murdoch
ter-se-ia diferenciado apenas no estilo. O público britânico
merece melhor.
30/Setembro/2010
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=588
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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