Tenham uma linda guerra, rapazes
por John Pilger
Aqui vão notícias da Terceira Guerra Mundial. Os Estados Unidos
invadiram a África. Tropas estado-unidenses entraram na Somália,
estendendo a sua frente de guerra desde o Afeganistão e o
Paquistão até o Iémen e agora o Corno da África.
Como preparativo para um ataque ao Irão, foram colocados mísseis
americanos em quatro estados do Golfo Pérsico e dizem que estão a
chegar bombas destruidoras de "bunkers" à base dos EUA na ilha
britânica de Diego Garcia, no Oceano Índico.
Em Gaza, a população abandonada e doente, principalmente
crianças, está a ser sepultada atrás de muralhas
subterrâneas fornecida pela América a fim de reforçar um
cerco criminoso. Na América Latina, a administração Obama
assegurou sete bases na Colômbia, para travar uma guerra de atrito contra
as democracias populares na Venezuela, Bolívia, Equador e Paraguai.
Enquanto isso, o secretário da "defesa" Robert Gates queixa-se
de que "o público [europeu] em geral e a classe
política" são tão opositores à guerra que eles
constituem um "obstáculo" à paz. Lembre-se de que este
é o mês do Coelho Louco
[1]
.
Segundo um general americano, a invasão e ocupação do
Afeganistão não é tanto uma guerra real e sim uma
"guerra de percepção". Portanto, a recente
"libertação da cidade de Marja" da "estrutura de
comando e controle" do Talbian foi pura Hollywood. Marja não
é uma cidade, não havia comando e controle Taliban. Os
libertadores heróicos mataram os civis do costume, os mais pobres dos
pobres. De qualquer forma, foi fraude. Uma guerra de percepção
é feita para proporcionar notícias falsas para a gente lá
de casa, para fazer uma aventura colonial fracassada parecer valiosa e
patriótica, como se o filme
Estado de Guerra
[2]
fosse real e cortejos de caixões envoltos em bandeiras através
da cidade de Wiltshire, vindos de Wooten Basset
[3]
não fossem um exercício de propaganda cínico.
"Guerra é diversão", costumavam dizer com ironia negra
os
soldados no Vietname, o que significava que se a guerra fosse desvendada como
não tendo qualquer finalidade senão justificar o poder voraz
fanaticamente à procura de lucros, como o da indústria de
armamento, havia o perigo de a verdade ser revelada. Este perigo pode ser
ilustrado pela percepção liberal de Tony Blair em 1997 como
alguém "que quer criar um mundo [onde] a ideologia se tenha rendido
inteiramente aos valores" (Hugo Young,
The Guardian
) comparada com a avaliação pública de hoje como um
mentiroso e uma guerra criminosa.
Os estados guerreiros ocidentais, tais como os EUA e a Grã-Bretanha,
não estão ameaçados pelos Taliban ou quaisquer outros
membros de tribos introvertidos em lugares remotos, mas pelos instintos
anti-guerra dos seus próprios cidadãos. Considerem-se as
sentenças draconianas legadas a multidões de jovens que em
Janeiro últimos protestavam contra o assalto de Israel a Gaza. A seguir
a manifestações nas quais a polícia paramilitar encurralou
milhares, réus primários receberam dois anos e meio de
prisão por delitos menores que normalmente implicariam sentenças
leves. Em ambos os lados do Atlântico, discordância séria a
revelar guerra ilegal tornou-se um crime sério.
O silêncio em outros altos lugares permite esta moral travestida.
Através das artes, literatura, jornalismo e do direito, as elites
liberais, tendo corrido para longe dos resíduos de Blair e agora de
Obama, continua a exibir a sua indiferença para com a barbárie e
os objectivos dos crimes dos estados ocidentais ao promoverem
retrospectivamente as maldades dos seus demónios de conveniência,
como Saddam Hussein. Com Harold Pinter já falecido, tente compilar uma
lista de escritores, artistas e advogados famosos cujos princípios
não sejam consumidos pelo "mercado" ou neutralizados pela sua
celebridade. Quem entre eles falou acerca do holocausto no Iraque durante quase
20 anos de bloqueio e assalto letais? E tudo isto foi deliberado. Em 22 de
Janeiro de 1991, a US Defence Intelligence Agency previu com pormenor
impressionante como um bloqueio destruiria sistematicamente o sistema de
água potável do Iraque e conduziria a "incidências
acrescidas, se não a epidemias de doença". De modo que os
EUA começaram por eliminar a água potável para a
população iraquiana: uma das causas, como observou a Unicef, das
mortes de meio milhão de crianças iraquianas com menos de cinco
anos. Mas este extremismo aparentemente não tem nome.
Norman Mailer certa vez disse acreditar que os Estados Unidos, na sua busca
incessante de guerra e dominação, entrou numa "era
pré-fascista". Mailer parecia hesitante, como se tentasse advertir
acerca de alguma coisa que ele mesmo não podia definir bem.
"Fascismo" não está correcto, pois invoca precedentes
históricos inadequados, recorrendo mais uma vez à iconografia da
repressão alemã e italiana. Por outro lado, o autoritarismo
americanos, como apontou recentemente o crítico cultural Henry Giroux,
é "mais matizado, menos teatral, mais astucioso, menos preocupado
com modos repressivos de controle do que com modos manipulativos de
consentimento".
Isto é o americanismo, a única ideologia predatória que
nega ser uma ideologia. A ascensão de corporações
tentaculares que são ditaduras em si próprias e de uma
instituição militar que é agora um estado com o estado,
ajusta-se por trás da fachada da melhor democracia que os 35 mil
lobbystas de Washington pode comprar e uma cultura popular programada para
divertir e imbecilizar, é sem precedentes. Mais matizado talvez, mas os
resultados são tanto não ambíguos como familiares. Denis
Halliday e Hans von Sponeck, responsáveis superiores das
Nações Unidas no Iraque durante o bloqueio conduzido pelos
americanos e britânicos, não têm dúvida de que
testemunharam genocídio. Eles não viram câmaras de
gás. Insidiosa, não declarada, apresentada mesmo de forma
astuciosa como avanço do iluminismo, prossegue a Guerra do Terceiro
Mundo e o seu genocídio, ser humano por ser humano.
Na próxima campanha eleitoral na Grã-Bretanha, os candidatos
referir-se-ão a esta guerra só para louvar os "nossos
rapazes". Os candidatos são múmias políticas quase
idênticas amortalhadas na Union Jack e na Stars and Stripes. Como
demonstrou Blair um tanto demasiado entusiasticamente, as elites
britânicas amam a América porque a América permite-lhes
insultar e bombardear os nativos e considerar-se um "parceiro".
Deveríamos interromper a sua diversão.
25/Março/2010
NT
[1] March Hare: Referência a personagem de
Alice no país das maravilhas,
de Lewis Carroll.
[2]
The Hurt Locker
. O título do filme no Brasil é
Guerra ao Terror.
[3] Wooten Basset: Pequena aldeia, próxima a uma base da RAF, que se
tornou sinonimo dos voos de retorno com cadáveres de soldados
britânicos.
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=570
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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