Notícias vindas de trás de A Fachada
por John Pilger
Quando eu vivia nos Estados Unidos, no fim da década de 1960,
muitas vezes o meu lar era em Nova Orleans, numa casa de tábuas
cinzentas de um amigo construída numa parte da cidade em que lutadores
pelos direitos civis se refugiavam da violência do Sul Profundo
(Deep South).
Dizia-se que Nova Orleans era cosmopolita; também era sinistra e
assassina. Éramos protegidos pelo então Promotor Distrital Jim
Garrison, um liberal independente cujas investigações quanto ao
assassínio de John Kennedy lhe fizeram poderosos inimigos por
trás de A Fachada
(The Facade).
A Fachada era como descrevíamos a linha divisória entre
a América da vida real de uma pobreza tão profunda que a
escravidão ainda existia e um poder de estado tão voraz que
travava guerra contra os seus próprios cidadãos, assim como
contra negros e pessoas de pele morena em países remotos e a
América que desovava a gula do corporatismo e inventou as
relações pública como meio de controle social: o
"Sonho americano" e o "Modo de vida americano"
começaram como slogans publicitários.
A deliberada negligência do regime Bush antes e após o
furacão Katrina proporcionou um raro vislumbre da parte de trás
de A Fachada. Os pobres não eram mais invisíveis; os corpos a
flutuarem na água contaminada, os sobreviventes ameaçados com
tiros da polícia, a característica obesidade da pobreza americana
tudo isto ridicularizou as florestas de cartazes publicitários,
os implacáveis anúncios na televisão e as notícias
em pílulas (duração média de 9,9 segundos) que
glorificam o "sonho" da riqueza e do poder. Uma palavra há
muito expropriada e falsificada realidade mostrou o seu
verdadeiro significado, ainda que brevemente.
Como que por acidente, os media americanos, os quais são o
braço legitimizador das relações públicas
corporativas, relatou a verdade. Durante uns poucos dias, a um selecto grupo
de leitores de jornais liberais foi dito que a pobreza havia aumentado
espantosos 17 por cento sob Bush; que um bebé afro-americano nascido num
raio de um milha (1609 m) da Casa Branca tinha menos oportunidade de sobreviver
ao seu primeiro ano do que um bebé urbano na Índia; que os
Estados Unidos agora estavam classificados na 43ª posição na
mortalidade infantil mundial; na 84ª posição na
imunização de sarampo e na 89ª na de pólio; que a
mais rica companhia petrolífera do mundo, a ExxonMobil, faria 30 mil
milhões de dólares de lucros este ano, tendo recebido uma enorme
fatia dos 14,5 mil milhões de dólares de
"isenções fiscais" que a nova lei da energia de Bush
garante aos seus apaniguados da elite.
Nas suas duas eleições Bush recebeu a maior parte das
"contribuições corporativas" o eufemismo para
subornos que totaliza 61,5 milhões de dólares de
companhias de petróleo e gás. A conquista sangrenta do Iraque, a
segunda maior fonte de petróleo do mundo, será o prémio:
o seu saque.
Iraque e Nova Orleans não estão muito separados. Em 13
de Abril de 2003, Matt Frei, o correspondente em Washington da BBC, relatou o
banho de sangue da invasão americana com estas palavras:
"Não há dúvida de que o desejo de levar o bem, levar
os valores americanos, ao resto do mundo, e especialmente agora ao Médio
Oriente... está agora cada vez mais ligado ao poder militar". As
justificações de Frei para o regime Bush a partir da frente da
Casa Branca, e especificamente para o arquitecto da carnificina no Iraque, Paul
Wofowitz, eram coerentes com a sua reportagem a partir de Nova Orleans, que foi
eloquente. Em 5 de Setembro, ele descreveu as tropas prontas para a batalha da
82ª Aerotransportada
(Airborne)
a andarem com dificuldade através das ruas de Nova Orleans como os
"heróis de Tikrit". A maior parte da mortandade em Tikrit e
em outros lugares do Iraque foi cometida não pelos
"insurgentes" mas sim pelos tais "heróis": um facto
quase nunca aceite na "cobertura", seja na Fox ou na BBC. Com as
mãos na cabeça em Nova Orleans, Frei queria saber porque Bush
havia feito tão pouco. A usurpação da realidade estava
completa.
Antes que passe o momento, e as atrocidades e mentiras de Bush no
Iraque sejam outra vez aceites como boas, vale a pena ligar o seu desrespeito
pelo sofrimento em Nova Orleans com outras verdade por trás de A
Fachada. A natureza imutável dos 500 anos da cruzada imperial do
ocidente é exemplificada no sofrimento não relatado de pessoas de
todo o mundo, inimigos declarados nas suas próprias pátrias. O
povo de Tal Afar, uma cidade do norte iraquiano que agora surge no
noticiário como "uma fortaleza insurrecta" isto
é, daqueles que se recusaram a ser expulsos dos seus lares
está a ser bombardeado e descarnado e torturado enquanto você
lê isto, assim como o foi o povo de Faluja, e o povo de Najaf, e o povo
de Hongai, uma "fortaleza" no Vietnam, outrora o lugar mais
bombardeado da Terra, e o povo de Neak Loeung, no Cambodja, uma das
incontáveis cidades arrasadas pelos B-52. A lista de tais lugares
remetidos à notoriedade, e a seguir ao olvido, é aparentemente
infindável. Por que?
A resposta em grande parte está em que muitos dos
académicos ocidentais puseram a humanidade fora do estudo das
nações, congelando-a com jargão e reduzindo-a a um
esoterismo denominado "relações internacionais", o
grande tabuleiro de xadrez do poder ocidental que classifica as
nações como utilizáveis ou não, dispensáveis
ou não. (Ouçam a conversa do secretário britânico
dos Negócios Estrangeiros Jack Straw acerca de
"nações fracassadas": pura invenção dos
fanáticos anglo-americanos). É esta ortodoxia desenfreada que
determina como fala o poder e como os seus historiadores e repórteres
relatam.
Tal ortodoxia, afirma Richard Falk, professor de
Relações Internacionais em Princeton e dissidente distinto,
"que é tão amplamente aceite entre cientistas
políticos a ponto de ser virtualmente indesafiável em jornais
académicos, encara a lei a moralidade como irrelevante para a
identificação da política racional". Assim, a
política externa ocidental é formulada "através de um
farisaico écran moral/legal, de sentido único com imagens
positivas dos valores ocidentais e de inocência retratada como
ameaçada, validando uma campanha de violência política
irrestrita..." Este é o filtro através do qual a maior
parte do povo obtêm o seu noticiário sério. Esta é
a razão porque a maior parte de verdades óbvias, tal como a
predominância do terrorismo de estado ocidental sobre a minúscula
variedade al-Qaeda, nunca é relatada. Esta é razão porque
a destruição pela América de 35 democracias em 30
países (última contagem do historiador William Blum) é
desconhecida do público americano.
Mais prementemente, esta é a razão porque as
implicações históricas dos assaltos de Bush e Blair
às nossas liberdades mais básicas tais como o
habeas corpus
raramente são relatadas. Em 9 de Setembro, o Tribunal Federal
americano de recursos adiou para as calendas gregas um julgamento contra
José Padilla, uma alegada testemunha de uma alegada "trama" de
reclusos da Baía de Guantanamo, permitindo aos militares americanos
mantê-lo detido sem acusação, indefinidamente. Apesar de
não haver processo contra ele, é improvável que o Supremo
Tribunal derrube esta simulação, o que significa o fim da Carta
de direitos
(Bill of Rights)
e do "próprio núcleo da liberdade... liberdade de
aprisionamento indefinido à vontade do Executivo", como escreveu um
jurista americano outrora famoso.
Isto esteve longe de ser notícia na Grã-Bretanha, assim
como as advertências de Lord Hoffmann passaram ao lado da maior parte de
nós. Como membro da Casa do Lordes, ele afirmou que os planos de Blair
para destruir nossos próprios direitos básicos constituíam
uma ameaça maior do que o terrorismo. Aprisionamento indefinido para os
inocentes perante a lei e intimidação de uma comunidade
minoritária e de dissidentes são estes os objectivos das
"medidas necessárias" de Blair, tomadas de empréstimo a
Bush. Quem o desafia? A sua conferência de imprensa na Downing Street
é uma carneirada a escrever, com balidos escassamente audíveis.
Na Índia, relatou outro dia o editor político do
Guardian
londrino, "o sr. Blair mal se susteve no chão quando desafiado
acerca da guerra do Iraque" isto é, por repórteres
indianos.
The Guardian
não descreveu nem os seus desafios nem as réplicas de Blair.
Por trás de A Fachada, a destruição da democracia
tem sido um projecto a longo prazo. Os milhões de pobres, como a maior
parte do povo de Nova Orleans, não têm lugar no sistema americano,
razão pela qual eles não votam. O mesmo está a acontecer
sob Blair, que atingiu a mais baixa porcentagem de votantes desde a cidadania.
Tal como Bush, isto não é preocupação para ele,
pois os seus horizontes vão muito mais além. Vender armas e
negócios de privatização para a Índia um dia,
preparar o terreno para atacar o Irão a seguir. Sob Blair, o Secret
Intelligence Service, MI6, executou a Operação
Atracção em Massa
(Operation Mass Appeal),
uma campanha para plantar estórias nos media acerca das armas de
destruição maciça de Saddam Hussein. Sob Blair, jovens
paquistaneses vivendo na Grã-Bretanha foram treinados como combatentes
jihadi
e recrutados para a primeira das suas guerras o desmembramento da
Jugoslávia em 1999. Segundo a Observer Research Foundation, com sede em
Delhi, eles aderiram a esta rede terrorista "com o pleno conhecimento e
cumplicidade das agências de inteligência britânicas e
americanas".
Na sua obra clássica, "O grande tabuleiro de xadrez"
(The Grand Chessboard),
Zbigniew Brzezinski, o padrinho das políticas e acções
americanas no Afeganistão e no Iraque, escreve que para a América
dominar o mundo ela não pode manter uma democracia genuína,
popular, porque "a busca do poder não é um objectivo que
comande a paixão popular... A democracia é inimiga da
mobilização imperial". Ele descreve como o presidente
Carter, persuadido secretamente, em 1976 financiou e armou os
jihadis
no Paquistão e no Afeganistão como meio de assegurar o
predomínio da América na Guerra Fria. Quando lhe perguntei em
Washington, dois anos atrás, se lamentava que as consequências
fossem a al-Qaeda e os ataques do 11 de Setembro, ele ficou muito exasperado e
não respondeu; e uma fenda em A Fachada fechou-se. É tempo de
aqueles de nós pagos para manter os registos correctos façam-no
completamente.
14/Setembro/2005
O original encontra-se em
http://pilger.carlton.com/print
.
Primeira publicação em
News Statsman.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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