O velho Bill, herói liberal
por John Pilger
No dia 14 de Agosto você está convidado para uma
"audiência" com Bill Clinton em Londres. Pode fazer uma
escolha: comparecer ao "pequeno-almoço e discurso" ou ao
"pequeno-almoço tardio e discurso". Isto terá lugar no
Millenium Dome, pintado de branco elefantino, onde um lugar na "Fileira do
rei" custará £799 [1175]. No ano passado, Clintou
ganhou mais de 5 milhões de libras [7,36 milhões de euros] a
conceder "audiências". Não são apenas os
habituais tipos corporativos que ali vão. Alguns anos atrás
observei uma dança de escritores, jornalistas, editores e outros de
reputação liberal a deslocarem-se, com a sua presença
grotescamente paga, rumo ao Guardian Hay Festival.
Esta fraude de Clinton é sintomática da morte do liberalismo
não do seu lado narcisista e amante da guerra
("intervenção humanitária"), o qual está
em ascensão, mas do liberalismo que fala contra crimes cometidos em seu
nome, enquanto estende os degraus da escada económica para aqueles de
baixo. Foi a promoção de Clinton do primeiro e o esmagamento
deste último que inspirou o "projecto" do new Labour.
Clinton, não Bush, foi o verdadeiro padrinho da Mafia na Grã
Bretanha. Observadores perspicazes de Tony Blair recordarão que durante
um dos seus muitos discursos de despedida, o sociopata fez uma estranha
personificação do balancear de cabeça de Clinton.
Clinton é capaz de fazer um camião de dinheiro por ser
posto em contraste com o famigerado Bush, como se fosse o bom menino que fez o
seu melhor pelo mundo e trouxe o boom económicos para os EUA a
fábula do sonho americano, nada menos. Ambas as noções
são mentiras finamente articuladas. O que Clinton e Blair têm em
comum é sobretudo que ambos foram os mais violentos líderes
dos seus países na era moderna; o que inclui Bush. Considere-se o
verdadeiro record de Clinton.
Em 1993 ele prosseguiu a invasão de George H. W. Bush da Somália.
Invadiu o Haiti em 1994. Bombardeou a Bósnia em 1995 e a Sérvia
em 1999. Em 1998 bombardeou o Afeganistão; e, na altura das suas
perturbações com Monica Lewinsky, ele momentaneamente desviou as
manchetes para um grande "alvo terrorista" no Sudão que
ordenou destruir com uma carnificina de mísseis. Verificou-se ser a
maior fábrica farmacêutica da África ao sul do Saara, a
única fonte de cloroquina, para o tratamento da malária, e de
outras drogas vitais para centenas de milhares de pessoas. Como resultado
disso, escreveu Jonathan Belke, então da Near East Foundation,
"dezenas de milhares de pessoas muitas delas crianças
sofreram e morreram de malária, tuberculose e outras doenças
tratáveis".
Muito antes da operação "Pavor e choque", Clinton
já estava a destruir e a matar no Iraque. Sob o pretexto ilegal de uma
"zona de não-voo"
("no-fly zone"),
ele administrou o mais longo bombardeamento aéreo aliado desde a
Segunda Guerra Mundial. Isto quase não foi relatado. Ao mesmo tempo,
impôs e endureceu um sítio económico dirigido por
Washington que se estima ter morto um milhão de civis. "Nós
pensamos que este preço valeu a pena", disse a sua
secretária de Estado, Madeleine Albright, num momento de rara
honestidade.
O "legado" económico de Clintou tal como o de Blair
é a mais desigual sociedade que os americanos já
conheceram. No seu último ano presidencial, 1999, ele passeou junto
à costa oceânica em Santa Monica, na Califórnia, e ficou
impressionado pelo número de pessoas da classe média sem casa,
"montes de cavalheiros que haviam perdido seu empregos de executivos e
famílias graças em grande parte ao tratado North American Free
Trade (NAFTA) de Clinton. Para os trabalhadores americanos, os apregoados
altos números do emprego escondiam um retrocesso para os níveis
de salários reais da década de 1970. Foi Clinton, não
Bush, que destruiu os últimos resquícios do New Deal de
Roosevelt. De volta a Santa Monica outro dia, notei que os tais montes de
cavalheiros se haviam multiplicado.
Por estes dias você vê o Velho Bill, o Comebak Kid, como é
conhecido, a menear sua cabeça nos noticiários da TV, a fazer
campanha pela sua esposa, Hilary, entre americanos que, com ingenuidade
extrema, ainda acreditam que o Partido Democrata é seu e que
"é tempo de votar por uma mulher na Casa Branca". Em
conjunto, os Clintons são conhecidos como "Billary". Tal como
o Velho Bill, sua esposa não tem planos para corrigir as divisões
de uma sociedade que permite a 130 mil americanos roubarem a riqueza de
milhões dos seus cidadãos compatriotas. Tal como Velho Bill, ela
quer continuar o tormento do Iraque talvez por uma década. E ela
não "descartou" o ataque ao Irão.
Aquele ajuntamento na Fileira do Rei no Millenium Dome a 14 de Agosto para o
pequeno-almoço com o Velho Bill, com mais um depósito na conta
bancária de Clinton, provavelmente não reflectirá o sangue
derramado e o sofrimento dantesco provocado, ou a corrupção moral
da ideologia liberal que cortejou e aclamou Clinton, juntamente com o criminoso
Blair.
Mas nós deveríamos fazê-lo.
08/Ago/2007
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=449
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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