Medo e silêncio na Austrália
por John Pilger
Os mitos nacionais habitualmente são verdades parciais. Na
Austrália, o mito de uma sociedade igualitária, ou das
"oportunidades adequadas"
("fair go"),
tem uma história extraordinária. Muito antes da maior parte do
mundo, a Austrália tinha um salário mínimo, uma semana de
35 horas, benefícios para a infância e o voto para as mulheres. A
urna eleitoral secreta foi inventada na Austrália. Na década de
1960, os australianos podiam orgulhar-se do melhor diferencial
(spread)
de rendimento pessoal do mundo.
Hoje, estas são verdades esquecidas, subversivas. Quando às
escolas é ordenado hastear a bandeira (com a Union Jack ao alto, ainda a
mofar de nós), é destacada a estória piegas de soldados
australianos a morrerem sem motivo em Gallipoli a mando de um mestre imperial,
juntamente com um mal disfarçado colonialismo e racismo velados.
Auto-promovida como um bastião dos direitos humanos, a Austrália
tornou-se uma mostra da sua negação e degradação.
Muitos australianos estão conscientes disto, no mínimo aqueles
que encheram um pequeno teatro em Sidney a 26 de Janeiro, o "Dia da
Austrália", o qual celebra a expulsão dos aborígenes
pelos britânicos em 1770. A notável peça de Stephen
Sewell,
Myth, Propaganda and Disaster in Nazi Germany and Contemporary America,
foi apresentada no Stables Theatre. Inspirada em parte em
O Processo,
de Franz Kafka, ela desnuda a fachada democrática da América de
Bush "se quiser ver a América, olhe nos olhos dos seus
prisioneiros", diz um dos personagens principais. O poder predador
vestido como democracia, e o medo e silêncio dos seus privilegiados
nomeadamente académicos são o tema de Sewell e algo
que raramente é discutido em público na Austrália.
Quando terminou a peça, um jurista, Stephen Hopper, levantou-se e falou.
Foi como se um longo silêncio houvesse sido rompido. Hopper é o
advogado de Mamdouh Habib, um dos dois australianos aprisionados na Baía
de Guantanamo. Ele descreveu o sofrimento e a tortura de Habib, primeiro no
Egipto onde fora "entregue" pelos americanos depois de o terem
sequestrado no Paquistão. Numa prisão apoiada pela CIA no
Egipto, ele foi suspenso do tecto apenas com um cano electrificado para
apoiar-se. "Ele tinha de ficar assim e levava um choque ou pendurar-se
dolorosamente com os seus braços até que entrou em colapso",
disse Hopper. Foi vendado e trancado em salas que foram inundadas com
água e carregadas de electricidade. Na Baía de Guantanamo, os
guardas trouxeram uma prostitua que "que ficou nua por cima do seu corpo,
enquanto estava atado no chão, e menstruou sobre ele". Fotografias
da esposa de Habib e dos seus quatro filhos foram desfiguradas. "Os
americanos, na sua sabedoria, retiraram as cabeças das fotos",
afirmou Hopper, "aumentaram-nas e sobrepuseram-nas com as cabeças
de animais e a seguir afixaram-nas sobre as paredes da sala de
interrogatório. [Disseram-lhe]: "É uma vergonha que
tenhamos de matar a sua família".
Sabemos destas atrocidades desde os primeiros relatos dos prisioneiros
britânicos. A diferença aqui é que nenhum governo que se
considera democrático colaborou tão completamente com o regime de
Guantanamo como aquele de John Howard. Stephen Hopper descreveu como um
oficial australiano ficou ao lado de Habib enquanto este era torturado pelos
americanos e arrastado para um avião; há provas documentadas
disto. O procurador geral australiano, Philip Ruddock, afirma que nada sabia
disto. Ruddock caluniou implacavelmente Habib e o outro prisioneiro
australiano, David Hicks, como terroristas suspeitos quando nem um átomo
de prova fora produzido. Foi só quando parecia que o Supremo Tribunal
americano examinaria o seu caso é que Habib foi apressadamente enviado
para casa. Gareth Peirce, que representa os britânicos em Guantanamo,
contou-me: "O facto de David Hicks estar diante de uma comissão
militar deve-se inteiramente ao facto de o governo australiano nada fazer por
ele". Mesmo o advogado militar americano de Hicks afirma que o seu
"julgamento", com as suas vagas acusações de
conspiração, é uma farsa
(travesty).
Mas Ruddock, cujo trabalho é resistir ao abuso de liberdades nos
termos da lei, permitiu que uma caricatura de processo judicial fosse utilizada
brutalmente contra cidadãos australianos. Tendo colocado Habib sob
vigilância constante e impedindo-o de deixar o país, ele agora
está a tentar impedi-lo de falar publicamente acerca das coisas
grotescas que lhe fizeram. O que é claro é que este
político sujo teme a verdade que Habib agora é livre para contar.
Há um medo que é reflectido fielmente pela maior parte dos media
australianos. O
Sidney Morning Herald
permitiu vergonhosamente a um propagandista de Israel, Ted Lapkin, dizer que
Habid, um homem inocente sob qualquer sistema legal decente, havia "pago o
preço das suas acções com encarceramento pela autoridades
americanas". Um importante comentador "liberal", Michelle
Grattan, descreveu Habib, que está claramente estropiado pelo abusos
sofridos, como tendo "entrado na categoria celebridade" e diz que ele
"não pode razoavelmente queixar-se sobre [permanecer sob
vigilância] por parte das autoridades australianas". Não
é nada surpreendente que, segundo Reportes sans Frontieres, a imprensa
australiana classifique-se em 41º lugar no índice de liberdade da
imprensa mundial, o seu servilismo para com o poder vai à frente de
Estados autocráticos e totalitários. Tal como aqueles na
peça de Sewell, muitos jornalistas australianos permanecem silenciosos
(tal como a maior parte dos académicos australianos; posso recordar-me
apenas de três que falam abertamente de forma regular). Alguns dos mais
proeminentes jornalistas formam uma corte de adoradores de um primeiro-ministro
que ultrapassou Blair quanto a mentiras e está a ultrapassar o seu
mentor Bush em Washington quanto ao desprezo demonstrado pelos direitos humanos.
Sob Howard e Ruddock, a Austrália construiu o seu próprio Gulag,
aprisionando por trás do arame farpado iraquianos e outros que fogem de
ditaduras. Estas pessoas inocentes são mantidas em alguns dos mais
isolados lugares da Terra, incluindo a Ilha Manus e Nauru. Dentre elas
incluem-se crianças. Um refugiado da Cachemira, Peter Qasim, foi preso
durante aproximadamente sete anos. O responsável do Grupo de Trabalho
das Nações Unidas pela Detenção Arbitrária
(UN Working Group on Arbitrary Detention), Louis Joinet, que já fez mais
de 40 inspecções de lugares de detenção
obrigatórios por todo o mundo, afirma que nunca viu pior abuso dos
direitos humanos do que na Austrália.
Os primeiros australianos experimentaram disto por longo tempo. Sob o governo
Howard, o apoio aos serviços de saúde e jurídicos
destinados aos aborígenes diminuíram. Na New South Wales
ocidental a expectativa de vida para os aborígenes homens é de 33
anos; a Austrália é o único país desenvolvido que
consta numa "lista da vergonha" das Nações Unidas, a dos
países que não debelaram a tracoma, uma cegueira evitável
que afecta sobretudo crianças aborígenes, e que é uma
doença da pobreza.
Seis anos atrás entrevistei Ruddock, quando ele era o ministro federal
responsável por assegurar que arrogantes australianos negros não
embaraçariam o governo durante as Olimpíadas de Sidney.
Perguntei-lhe: "Como é que se sente ao receber relatórios
da Amnistia sobre direitos humanos com a palavra 'Austrália' escrita no
topo, e a afirmarem "Aborígenes ainda estão a morrer na
prisão e na custódia policial a níveis que podem equivaler
a tratamento cruel, desumano e degradante'?"
A sorrir, ele replicou: "Por que será que eles utilizam a palavra
'podem'?"
A terra das oportunidades merece algo melhor do que esta crueldade arrogante.
Fotos do campo de concentração de Guantanamo:
http://www.gwadaoka.org/guantanamo_photos.htm
O original encontra-se no
New Statesman
, edição de 07/Fev/2005. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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