Minha última conversa com Aung San Suu Kyi

por John Pilger

Aung San Suu Kyi. Neste momento em que o povo da Birmânia se levanta outra vez, tivemos um raro vislumbre de Aung San Suu Kyi. Ali estava ela, no portão de trás da sua casa junto ao lago, em Rangoon, onde está sob prisão domiciliar. Parecia muito magra. Durante anos as pessoas enfrentavam bloqueios de estradas só para passarem pela sua casa e serem reconfortadas pelo som do seu piano. Ela contou-me que descansava acordada a ouvir vozes do lado de fora e o bater do seu coração. "Eu achava difícil respirar deitada de costas depois que fiquei doente", disse ela.

Isto foi há uma década atrás. Infiltrar-me na sua casa, como fiz, exigiu toda a engenhosidade do movimento subterrâneo birmanês. O meu parceiro na feitura do filme, David Munro, e eu fomos recebidos pelo seu assistente, Win Htein, que passou seis anos na prisão, cinco na solitária. Mas a sua cara era aberta e o seu apertar de punho caloroso. Ele levou-nos para dentro da casa, um sumptuoso edifício que já conhecera melhores tempos. O jardim com suas palmeiras irregulares descia para o Lago Inya e para um arame armadilhado, uma recordação de que isto era a prisão de uma mulher eleita através de uma vitória esmagadora em 1990, um acto democrático extinto por generais em uniformes ridículos.

Aung San Suu Kyi vestia de seda e tinha orquídeas no seu cabelo. Ela é uma figura impressionante e encantadora cuja face em repouso mostra a resolução que tem demonstrado ao longo do seu caminho heróico.

Sentámos numa sala dominada por um grande retrato de Aung San, combatente pela libertação da Birmânia que foi assassinado, o pai que ela nunca conheceu.

"Como devo chamá-la?", perguntei. "Bem, se quiser, os amigos chamam-me Suu".

"O regime está sempre a dizer que você acabou, mas ei-la aqui, não parece acabada. Como é isso?"

"É porque a democracia não está acabada na Birmânia... Olhe para a coragem do povo [nas ruas], daqueles que continuam a trabalhar pela democracia, aqueles já estiveram na prisão. Eles sabem que um dia provavelmente serão postos outra vez ali e ainda assim não desistem".

"Mas como é que recupera o poder que ganhou nas urnas eleitorais com a força bruta a confrontá-la?", perguntei.

"No budismo ensinam-nos que há quatro ingredientes básicos para o êxito. O primeiro é a vontade, a seguir deve-se ter o tipo de atitude correcto, depois a perseverança, depois a visão..."

"Mas o outro lado tem todas as armas?"

"Sim, mas está a tornar-se cada vez mais difícil resolver problemas por meios militares. Não é mais aceitável".

Conversámos acerca da disposição de negociantes estrangeiros virem para a Birmânia, especialmente companhias de turismo, e da hipocrisia dos "amigos" no ocidente. Li para ela um comunicado de imprensa do British Foreign Office: "Através de contactos comerciais com países democráticos como a Grã-Bretanha, o povo birmanês ganhará a experiência dos princípios democráticos".

"De modo algum", respondeu ela,"porque novos investimentos ajudam apenas uma pequena elite a ficar cada vez mais rica. O trabalho forçado continua por todo o país, e muitos dos projectos são destinados ao comércio turístico e o trabalho é executado por crianças".

"As pessoas com que tenho falado encaram-na como uma espécie de santa, uma pessoa que faz milagres".

"Não sou uma santa e é melhor que diga isso ao mundo!"

"Onde estão então as suas qualidades pecadoras?"

"Bem, tenho um temperamento abrupto".

"O que aconteceu ao seu piano?"

"Quer dizer, quando se avariou? Neste clima os pianos deterioram-se e algumas das teclas estavam a ficar encravadas, de modo que rompi uma corda porque estava a premir o pedal com demasiada força".

"Você perdeu-o... arrebentou-o?"

"Sim".

"É uma cena muito emocionante. Aqui está você, solitário, e ficou tão irada que partiu o piano".

"Já lhe disse que tenho um temperamento quente".

"Não houve tempos em que, cercada por uma força hostil, isolada da sua família e amigos, ficou realmente terrificada?"

"Não, porque não sinto hostilidade em relação aos guardas que me cercam. O medo vem da hostilidade e não sinto nenhuma para com eles".

"Mas isso não produziu uma terrível solidão...?"

"Oh, tenho a minha meditação, e tinha um rádio... E a solidão vem de dentro, você sabe. Pessoas que são livre e quem vive em grandes cidades sofrem disso, porque ela vem de dentro".

"Quais eram os pequenos prazeres porque estava ansiosa?"

"Eu ansiava por um bom livro a ser lido na "Off the Shelf" da BBC e naturalmente pela minha meditação... Eu não aprecio muito meus exercícios, nunca fui um tipo atlético".

"Houve um ponto em que teve de vencer o medo?"

"Sim. Quando era pequena nesta casa. Eu vagueava em torno na escuridão até saber onde todos os demónios podiam estar... e eles não estavam ali".

Durante vários anos após aquele encontro com Aung San Suu Kyi tentei telefonar para o número que me havia dado. O telefone tocava e a seguir parava. Um dia consegui.

"Muito obrigado pelos livros", disse ela. "Tem sido uma alegria ler muito outra vez" (Eu lhe enviara uma colecção de T. S. Eliot, seu escritor favorito, e a sátira política de Jonathan Coe: What a Carve Up!]. Perguntei-lhe o que estava a acontecer fora da sua casa. "Oh, a estrada está bloqueada e eles [os militares] estão por toda a parte nas ruas..."

"Preocupa-se por poder ficar presa num terrível beco sem saída?"

"Não gosto realmente dessa expressão", respondeu algo severamente. "O povo tem estado nas ruas. Isso não é um beco sem saída. Etnias, como os Karen, estão a combater. Isso não é um beco sem saída. O desafio é aqui na vida do povo, dia após dia. Sabe, mesmo quando as coisas parecem ainda sobre a superfície, há sempre um movimento por baixo. É como um lago congelado, e por baixo do nosso lago estamos a progredir, pouco a pouco".

"O que quer dizer exactamente»"

"O que estou a dizer é que não importa o poder físico do regime, no fim eles não podem travar o povo, não podem travar a liberdade. Chegará o nosso tempo".

03/Outubro/2007
O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=456

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