Os fracassos na política externa de Obama:
Diplomacia, militarismo e imagem
por James Petras
Os maiores êxitos de política externa do Presidente Obama
encontram-se publicados em todos os
mass media.
Os seus maiores fracassos, que não são relatados, têm
tido grandes consequências. Um estudo sobre as maiores prioridades da
política externa da Casa Branca revela uma série contínua
de reveses, que põe em questão os principais objectivos e
métodos seguidos pelo regime de Obama.
Estas prioridades foram, por ordem de importância:
1) A tentativa de Washington de conseguir um programa de estímulo
económico conjunto para as 20 maiores economias na reunião do
G-20 em Abril de 2009;
2) A tentativa de um maior empenhamento militar da NATO, com o aumento de
tropas nas zonas de conflito do Afeganistão e Paquistão,
complementando o aumento de 21 mil militares estado-unidenses
(Financial Times,
12/Abril, p. 7);
3) Planos para formar relações políticas e
diplomáticas mais fortes com os países das Américas com
uma agenda comum que incluirá a exclusão continuada de Cuba e o
isolamento da Venezuela, Bolívia e Equador
(La Jornada,
20/Abril);
4) Enfraquecer, isolar e pressionar o Irão através de uma mistura
de gestos diplomáticos e sanções económicas
crescentes, a abdicar do seu programa de energia nuclear
(Financial Times,
16/17 de 16-17/Abril/2009 p. 7);
5) Aplicação de pressão sobre a Coreia do Norte para
suspender os seus programas de testes de satélites e de mísseis,
além de exigir o desmantelamento do seu programa de armas nucleares.
(Financial Times,
13/Abril/2009, p.4);
6) Conseguir um acordo entre Israel e a Autoridade Palestiniana para a
"Solução de dois Estados", no qual Israel concorde com
o fim e desmantelamento dos seus colonatos ilegais em troca do reconhecimento
de Israel como um "Estado Judeu"
(Financial Times,
13/Abril/2009, p.5);
7) Pressionar o governo do Paquistão a aumentar o seu papel militar no
ataque às províncias autónomas do Noroeste e
territórios na fronteira paquistanesa/afegã, em apoio à
guerra dos EUA contra os movimentos de resistência islâmicos,
especialmente entre o povo pashtun (mais de 40 milhões), tanto no
Afeganistão como no Paquistão
(FT,
23/Abril/2009, p.3);
8) Assegurar um regime pró-EUA seguro no Iraque, capaz de se manter no
poder após a retirada da maioria das tropas de ocupação
americanas
(FT,
8/Abril/2009).
O que é impressionante nos objectivos de Obama é a clara
continuidade com a administração de GW Bush, mesmo que os
mass media
proclamem "mudanças significativas"
(American Conservative,
14/Abril/2009).
Continuidade de políticas:
Fracasso nas propostas de estímulos na cimeira do G20 em Abril de 2009
Como o seu antecessor Bush, a primeira prioridade económica de Obama
é despejar milhares de milhões de dólares emprestados no
sistema financeiro em vez de dirigir os recursos do estado para reavivar a
procura popular, reconstruindo o sector manufactureiro, criando um sistema de
saúde universal e empregando directamente os 5 milhões de
desempregados criados no ano passado. O regime económico de Obama
é totalmente dominado pelos banqueiros de Wall Street e completamente
desprovido de quaisquer representantes do sector produtivo, do Trabalho ou da
Saúde
(FT,
2/Abril/2009, p.11). Essencialmente, Obama reforçou e agudizou o modelo
de desenvolvimento capitalista "baseado na finanças", que
exige que os G20 sigam programas de estímulo financeiro ignorando
a criação de emprego através de investimentos
públicos focados na produção. Para Obama,
"estímulo económico" significa reconstruir o poder do
capital financeiro, nem que tal signifique manter défices
orçamentais gigantes que minem outros investimentos públicos. A
"teoria" que justifica o foco nas finanças baseia-se na
crença que o império mundial dos EUA construir-se-á na
recuperação do capital financeiro ao qual as
potências industriais se deveriam submeter
(FT,
15/Abril/2009, p.9). Os conflitos na cimeira do G20 e a derradeira falha de
Obama em conseguir apoio seguro para a dita proposta de
"estímulo" ocorreu porque ele procurava promover um
"estímulo" baseado na finanças enquanto o resto das
potências excepto o Reino Unido estava preocupada em
"estimular" a produção, o emprego e a
exportação de bens
(FT,
2/Abril/2009, p.4). As pressões do trabalho e do sector manufactureiro
europeu em particular na Alemanha e em França têm
muito maior peso no rumo da política económica que nos EUA
(FT,
26/Março/2009, p. 1).
A incompatibilidade do regime de Obama dominado pelas finanças e os
regimes europeus, asiáticos e latino-americanos reflecte uma classe
dirigente economicamente mais diversificada nos últimos, e leva ao
fracasso da Casa Branca em conseguir uma política de estímulos
"coordenada".
Cimeira das Américas: Isolamento e divergências
Conflitos de interesses evitaram que Washington conseguisse quaisquer acordos
favoráveis na "Cimeira das Américas" em Abril. A queda
do império financeiro dos EUA em todos os países da
América minou os esforços de Obama para reassumir a
liderança hegemónica dos EUA (ver Comissão
Económica para a América Latina Relatório da
Cimeira de 17 a 19 de Abril de 2009). A Casa Branca já sabia da
futilidade de quaisquer esforços para reavivar o acordo comercial na
região. Ainda pior, o argumento de Washington a favor das vantagens da
"globalização" foi seriamente minado pela
promoção de Obama de um "proteccionismo financeiro" no
qual os bancos subsidiários dos EUA na América Latina receberam
ordens para redireccionar os seus recursos financeiros para as
casas-mãe, secando o financiamento e o crédito para os
exportadores latino-americanos. Por outras palavras, sob o stress da
depressão económica, a "globalização"
levou a uma migração no sentido contrário dos recursos
financeiros da América Latina, que migraram de volta para os EUA,
criando sérios preconceitos quanto à influência
norte-americana e aumentando as ligações regionais e o
nacionalismo económico nos países latino-americanos.
O resultado é que o império de Obama, baseado num regime
financeiro, nada tinha a oferecer e tudo a perder em quaisquer
diagnósticos de fundo do impacto da recessão/depressão. A
Casa Branca nada oferecia para os mercados em expansão, para os fluxos
de capitais ou para a estimulação de investimentos produtivos
para a criação de emprego. Nestas apertadas circunstâncias,
o regime de Obama preferiu optar por afirmações vazias e
evasões sistemáticas acerca dos mais importantes problemas
económicos para criar a ilusão de um "bom sentimento"
entre os participantes
(La Jornada,
20/Abril/2009). Em vez de "projectar poder" no hemisfério,
Washington ficou reduzido a reiterar políticas de bancarrota e a
justificar o embargo a Cuba em esplêndido isolamento
(La Jornada,
17/Abril/2009).
O declínio do poder dos EUA, baseado no seu império financeiro em
crise, é evidente na sua incapacidade de manter os seus tradicionais
líderes-clientes ou de desestabilizar presidentes adversos. Mesmo
enquanto decorria a Cimeira, na Bolívia um grupo de mercenários
armados, contratados pelas elites apoiadas pelos EUA na província
separatista de Santa Cruz para derrubar o regime de Morales, foi capturado, com
muitos elementos mortos pelos militares bolivianos
(La Jornada,
20/Abril/2009). Após três anos de financiamento norte-americano e
envolvimento profundo com as elites regionais envolvidas em conflitos
políticos e económicos contra Evo Morales, e após sofrer
várias derrotas eleitorais, Washington e os seus aliados regionais
apenas conseguiram organizar um tiroteio num hotel de quinta categoria entre
mercenários do Leste europeu e o exército boliviano, que terminou
numa ignominiosa derrota.
A fraqueza política do regime de Obama é ainda mais evidente nas
grandes derrotas eleitorais que sofreu no Equador, onde o presidente Correa foi
reeleito com mais de 52% dos votos uma margem de 22% sobre o candidato
pro-Washington Lucio Gutierrez
(La Jornada,
27/Abril/2009). Na Nicarágua, Bolívia, Venezuela, El Salvador e
Honduras, o eleitorado votou decisivamente em candidatos de esquerda e
centro-esquerda, derrotando a ala direita apoiada pelos EUA. A única
excepção foi o Panamá, onde um milionário de
extrema-direita foi eleito em Maio de 2009. Apesar de poucos dos regimes de
centro-esquerda seguirem políticas económicas nacionalistas,
mantêm um certo grau de independência em termos de políticas
externas e internas, especialmente nas relações que mantêm
com Venezuela e Cuba, no comércio, investimento,
intervenção estatal e oposição aos ditames do FMI.
Além disso o colapso financeiro nos EUA e a depressão
económica que o acompanha levou a uma grande crise e conflito entre os
americanos do Norte e do Sul, com profundas consequências a longo prazo.
A implosão de empréstimos transfronteiriços nos bancos dos
EUA (e europeus) provocou uma depressão regional e mundial das
finanças pelo regresso exigido do capital às casas-mãe,
que não tem um fim há vista
(Financial Times,
30/Abril/2009, p. 7). O crash financeiro da Wall Street deu um golpe
estratégico na "globalização" financeira
(imperialismo). Entre Abril e Dezembro de 2008 as instituições
financeiras do EUA "repatriaram" US$750 mil milhões das suas
subsidiárias além-mar. Os holdings estrangeiros dos bancos
estado-unidenses estão a encolher enquanto fatia dos balanço
totais atingindo especialmente os regimes latino-americanos que dependem
de fluxos de capital provenientes dos EUA. Os investidores norte-americanos na
América Latina, incapazes de obter crédito, cortaram na sua
actividade no estrangeiro. Os processos de
"descapitalização" da América Latina aceleraram
com a intervenção estatal nos bancos feita pelos EUA e Europa, o
que levou ao "proteccionismo financeiro" onde os bancos "do
estado" pressionam para um aumento dos empréstimos internos em
detrimento das operações no exterior
(Financial Times,
30/Abril/2009, p. 7). Isto prejudica especialmente países como o
Brasil, o México e a Argentina, onde as instituições
financeiras em repatriamento (estado-unidenses e espanholas) possuem uma
percentagem significativa dos bancos internos. A retirada do capital para os
estados imperiais, o proteccionismo financeiro e o declínio do
financiamento oficial dos EUA significam que o "plano de
recuperação" de Obama baseia-se na
descapitalização da América Latina e na secagem do
crédito para importação/exportação,
exacerbando a recessão. As implicações em termos de
políticas são facilmente visíveis.
Obama tem poucos activos para pressionar a América Latina e muitas
desvantagens a abordar. Dada a baixa prioridade atribuída à
América Latina na actual crise, Washington depende das elites locais,
que têm sido enfraquecidas pela Wall Street, e a presença em
declínio do FMI e estão agora mais dependentes da
intervenção estatal para enfrentarem a queda na procura do
mercado de exportações. As prioridades económicas e as
políticas de proteccionismo financeiro vão directamente contra a
"harmonização dos juros" e fortalecem as
políticas económicas nacionalistas, regionalistas e estadistas
dos governos da América Latina. Os "movimentos
históricos" em direcções opostas entre os EUA e a
América Latina são exacerbados pelo compromisso de Obama com a
construção imperial centrada na força militar. Enquanto os
regimes civis da América Latina estão desesperadamente à
procura de novos mercados, créditos e investimentos para contrariar o
declínio do seu sistema capitalista, adiando desafios sociais
domésticos que vêm de baixo, Obama projecta o império
através do militarismo. As políticas falhadas de Obama na
América Latina são o resultado de
relações
estruturais
dependentes de mercados financeiros (e do seu colapso) e do
militarismo global. Ao longo do tempo a composição divergente dos
regimes e políticas socio-económicas tornar-se-á mais
aguda com o aprofundar da recessão, até atingir uma grande
depressão na América Latina. Uma consequência desta
divergência pode ser vista pelas trocas crescentes entre a América
Latina e os países árabes, que triplicaram o seu volume desde
2005 (Al Jazeera, 31/Março/2009).
O mais evidente indicador do declínio da presença
económica e da influência política dos Estados Unidos na
América Latina vê-se nos números de comércio do
Brasil, a maior e mais industrializada economia da América Latina. Em
Abril de 2009, o total de trocas entre o Brasil e a China atingia os US$3.2 mil
milhões, enquanto o seu comércio com os EUA era de US$2.8 mil
milhões
(Telegraph (UK),
10/Maio/2009). Este foi o segundo mês
de seguida em que a China ultrapassou os EUA como maior parceiro comercial,
acabando com 80 anos de primazia estado-unidense. Tal como os EUA despejam
centenas de milhares de milhões de dólares na sua
construção militar de império, a China persegue o seu
império económico além-mar, através de trocas de
milhares de milhões e investimentos conjuntos com o Brasil em
petróleo, gasolina, minérios, soja e celulose. A China já
suplantou os EUA como principal parceiro económico também no
Chile e aumenta as trocas com a Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina
e até com clientes crónicos dos EUA, como a
Colômbia, o Peru e o México.
Enquanto guerras regionais e depressão económica impõe a
retirada dos EUA da América Latina, as classes dirigentes da
região olham para a Ásia, em particular para a China, para
atingirem as suas necessidades de troca e investimento.
Cedo problemas de produção económica superior e de
crescimento impedirão que o poder militar puro molde a hierarquia das
nações na economia mundial. Este processo de uma potência
económica em ascensão desalojar uma potência militar em
crise aguda como principal interlocutor desenrola-se neste momento. Embora a
transição possa ter começado há mais de uma
década antes desta administração, as políticas do
presidente Obama estão a acelerar a "mudança" na
América Latina, afastando-a dos EUA.
Conferência da NATO: A escalada militar de Obama na procura por aliados
A 4 de Abril de 2009 Obama esteve na conferência da Nato em Estrasburgo
para pressionar apoio aliado para a Guerra em expansão na Ásia
Meridional. A Ásia Meridional, particularmente a região
fronteiriça Afeganistão-Paquistão, tornou-se a zona chave
da política externa de Obama. É nesta área que os Estados
Unidos estão mais vulneráveis a perdas estratégicas
militares e políticas e onde têm tido mais dificuldade em obter
apoio material e tropas dos aliados da NATO.
Desde o seu primeiro dia no cargo, Obama tem enfatizado a importância
"estratégica" de ganhar a Guerra no Afeganistão,
revertendo os avanços dos talibã e outros resistentes e
estabelecendo um regime pró-Washington em Kabul. Com esse fim em mente,
Obama anunciou uma escalada massiva no envio de tropas (mais de 21 000) para o
Afeganistão, fundos adicionais de US$80 mil milhões aos US$750
mil milhões já atribuídos ao Pentágono, e manteve
uma política agressiva de pressão sobre os aliados europeus e
asiáticos para que estes adicionem quantidades substanciais de tropas e
apoio financeiro. Na conferência de Abril da NATO, as propostas de Obama
foram liminarmente recusadas (Financial Times, 2 de Abril, 2009 p.7). Os
principais aliados concordaram enviar 5000 soldados temporariamente e com
funções de não-combatentes, incluindo 3000 para
"monitorizar" eleições em Agosto de 2009 e depois
regressarem e dois mil para treinar e "aconselhar" em regiões
fora das zonas "quentes" (Financial Times, 8 de Abril, 2009 p.2). O
que Obama não consegue perceber é que os países da NATO
não consideram o Afeganistão uma área de importância
estratégica para a segurança europeia. Não vêm as
forças em combate como uma ameaça à sua segurança;
não vêm perspectivas de uma vitória rápida e de
baixo custo. Não concordam com a proposta de Obama de estender a guerra
até ao Paquistão multiplicando assim a resistência
aos seus planos. Não querem alienar a vasta maioria das suas
próprias populações e desestabilizar o seu próprio
poder.
Os aliados europeus e a maioria dos asiáticos não estão
dispostos a desperdiçar os seus escassos recursos e pessoal militar numa
guerra perdida, numa região não-estratégica, na altura de
um depressão económica cavalgante. Obama, por outro lado,
seguindo Bush e muitos dos seus outros antecessores, mergulhado na
construção imperial militar, fala de diplomacia enquanto
prossegue com guerras de conquista.
As suas tentativas de elevar o conflito local a uma ameaça à
segurança mundial baseando-se para tal na presença de um pequeno
número de combatentes da Al-Qaeda nas montanhas do Kush Hindu
dificilmente convencem. A recusa de Obama em reconhecer que os talibã e
outros grupos têm acesso a fronteiras vastas, contíguas e porosas
com aliados étnicos, religiosos e clãs capazes de manter uma
guerrilha prolongada, levam-no a estender as fronteiras da guerra e a aumentar
o número de tropas estado-unidenses. A expansão da guerra, por
sua vez, multiplica os inimigos e recrutas armados. No Paquistão esta
situação tem criado uma maior falange de apoio à
oposição política armada, que mina o estado-cliente em
Islamabad
(Financial Times,
06/Maio/2009, p.1; ver também Gareth
Porter, "Errant Drone Attacks Spur Militants in Pakistan, IPS
16/Abril/2009). Sob forte pressão da Casa Branca, o Paquistão
lançou uma grande campanha militar na região de Swat causando a
fuga em massa de 2 milhões de refugiados e não logrando derrotar
os talibã.
Despejar milhares de milhões de dólares numa longa guerra
colonial com poucas possibilidades de ganhos económicos numa altura em
que o PIB caiu 6% e as exportações 30% demonstra a centralidade
contínua da construção militar do império, e o
papel de Obama como um "executante voluntarioso" (BBC News,
02/Abril/2009).
A divergência entre Europa/NATO e EUA/Obama está estruturalmente
enraizada nas suas visões conflituais de poder mundial: os primeiros
enfatizam o financiamento das suas economias para recuperar e expandir as
exportações, os segundos operam sob a ilusão que guerras
coloniais prolongadas em zonas remotas do mundo são essenciais para a
"estabilidade" do capitalismo mundial. O fracasso de Obama na
obtenção de apoio da NATO para expansão no
Afeganistão/Paquistão realça o seu completo isolamento
político e militar numa das principais áreas-chave da
política da sua administração. Isto significa que os EUA
aguentarão o custo total da guerra no Afeganistão, que se
expandiu para o Paquistão, e sofrerão condenação
mundial enquanto crescem aos milhares as vítimas civis e aos
milhões os refugiados desta guerra aérea e terrestre (BBC News,
07/Maio/2009).
Irão: A presença sionista e as oportunidades perdidas
A abordagem política prometida por Obama para o Irão deveria
"virar uma nova página", com negociações
abertas, sem condições prévias para assegurar um acordo
que acabasse com o alegado programa de armas nucleares iraniano, e o seu
alegado apoio a organizações "terroristas",
nomeadamente o Hamas e o Hezbollah. Obama ainda esperava assegurar a sua
cooperação na guerra americana no Afeganistão assim como
um apoio ao regime-cliente de Maliki no Iraque (
Financial Times,
06/Março/2009 p. 5).
A política de Obama começou imediatamente com o pé errado.
Nomeou dois dos mais pro-israelenses e virulentos inimigos do Irão para
lugares-chave no Tesouro e no Departamento de Estado. Stuart Levey foi
renomeado como sub-secretário para o Terrorismo e Serviços
Secretos Financeiros no Departamento do Tesouro e Dennis Ross (muitas vezes
chamado de "O Advogado de Israel") foi nomeado como o homem forte
para o Irão no Departamento de Estado. Stuart Levey lidera uma campanha
mundial de intimidação e coerção contra qualquer
negócio, banco, ou companhia petrolífera que mantenha
relações económicas com o Irão. Ross, que deixou um
think-tank financiado pelo governo de Israel para assumir a sua nova
posição na administração Obama, apoiou o documento
publicado em finais de 2008 que defendia a "opção
militar" contra o Irão. Ross e Levey dificilmente apoiarão a
viragem "de uma nova página" nas relações
EUA-Irão. Na verdade eles encaixam que nem uma luva na política
belicosa que advoga um maior confronto e que aumenta a possibilidade de uma
nova guerra dos EUA no Médio Oriente.
A nomeação de Hillary Clinton como secretária de Estado
não favorecerá uma abertura em relação ao
Irão. Há registo público de afirmações suas
apoiando a "obliteração" do Irão durante a
campanha presidencial de 2008 e, agora que chegou ao seu novo cargo, apoia
"sanções de amputação" para forçar
o Irão a desmantelar o seu programa de energia nuclear. A sua abordagem
segue à risca o guião da anterior Administração
Bush (
Financial Times,
23/Abril/2009, p.3).
O regime Obama não procurou "negociações"
em vez disso tem seguido na procura de sanções crescentemente
duras contra o Irão, ditando os desfechos de quaisquer encontros com
Teerão.
Sob a mão orientadora do lobby Israel-First (AIPAC), os líderes
congressionais dos dois partidos apoiam agora novas e mais duras
sanções contra empresas, "incluindo a Lloyds de Londres, a
Total (França) e a British Petroleum, se estas não pararem o seu
envolvimento na exportação de petróleo refinado para o
Irão ou na construção de refinarias nesse
país" (
Financial Times,
23/Abril/2009, p.3). O vice-presidente Biden, na Conferência Anual da
AIPAC em Washington DC (1 a 3 de Maio, 2009) apoiou sanções
militares contra o Irão. Claramente a retórica inicial de
apaziguamento de Obama está em contradição directa com as
suas nomeações de elementos da linha dura anti-Irão e com
as pesadas sanções em que o seu regime insiste. A
nomeação para posições estratégicas por
Obama de sionistas de linha dura, ligados directamente a Israel, reflecte a
poderosa influência que as Configurações de Poder Sionista
mantêm sobre assuntos estratégicos para o Médio Oriente.
Como resultado, a política de Obama para o Irão está
enviesada na direcção de servir os interesses militares de Israel
em vez dos mais abrangentes interesses económicos e estratégicos
do Império estado-unidense (
Financial Times,
24/Fevereiro/2009, p. 13).
Obama mantém uma política de
"negociações" em termos exclusivamente sionistas: Ao
exigir ao Irão que desista do seu programa de enriquecimento,
internacionalmente reconhecido e sujeito a estreita regulação, e
ao abandonar aliados estratégicos e princípios de solidariedade
com os direitos do povo palestino, sob ameaça de um bloqueio
económico americano, a Casa Branca rejeita qualquer possibilidade de uma
solução de paz negociada.
Ao manter uma política de punho de ferro para satisfazer as
exigências da Configuração de Poder Sionista, agindo em
nome de Israel, Obama desperdiça grandes oportunidades
diplomáticas, económicas e políticas para estabilizar os
interesses imperiais na região. Através de um processo de dar e
receber, Washington poderia assegurar a cooperação iraniana para
a estabilização do Iraque e do Afeganistão. No passado o
Irão já mostrou a sua disposição de apoiar os
regimes-fantoche dos EUA no Iraque e Afeganistão. No caso do
Afeganistão, o Irão ajudou directamente a ocupação
americana ao atacar forças talibã em fuga na região das
suas fronteiras ocidentais. Por outro lado, a relação estreita de
Washington e Israel fortalece os talibã no Afeganistão e
resistência muçulmana à sua ocupação do
Iraque.
Ao opor-se à política israelense de expropriação
dos palestinos, o Irão declarou a sua disposição de
aceitar uma "solução de dois estados", se "for
isso que os palestinos quiserem". O novo regime de extrema-direita que
governa Israel, liderado por Netanyahu e Liebermann, apoiado pelas principais
organizações sionistas americanas, rejeitou abertamente a
"solução de dois estados", em repúdio da
posição pública do governo de Obama durante o encontro com
o mesmo a 18 de Maio de 2009 em Washington (BBC News, 19/Maio/2009).
As Agências de Informação Nacionais dos EUA publicaram um
relatório em Novembro de 2008 que rejeitava publicamente as
afirmações de Israel de que o Irão está a
transformar o seu urânio enriquecido em armas. Nas
investigações de campo das Nações Unidas e
inspectores internacionais da Agência Internacional de Energia
Atómica não foram encontrados quaisquer indícios de um
programa iraniano de armas nucleares (Relatório da AIEA sobre o
Irão, 19/Fevereiro/2009). Ao escolher apoiar as afirmações
por provar de Israel acerca de uma "ameaça existencial" por
parte do Irão, a Administração Obama tornou-se um
cúmplice nas preparações explícitas de Israel para
uma guerra contra o Irão. Ao recusar-se a utilizar os relatórios
dos inspectores internacionais e das suas próprias agências de
informação para lidar com o programa de energia nuclear do
Irão, Obama corre o risco de se ver envolvido numa guerra devastadora
provocada pelo governo de Israel.
Numa altura em que as exportações estado-unidenses caíram
mais de 30% no primeiro quarto de 2009 e a economia está a entrar numa
recessão profunda e prolongada, o regime de Obama prioriza as
relações militares com Israel sob termos altamente
desfavoráveis. Neste aspecto as perdas económicas gerais
provindas da política de Obama de negociação exclusiva com
uma potência económica menor como é Israel levaram ao
desperdício de muitos milhares de milhões de dólares em
trocas potenciais com o Irão (BBC News, 29/Abril/2009). Ao
contrário da altamente desfavorável balança comercial dos
EUA com Israel e monstruosa ajuda de 30 mil milhões de dólares
dada ao Estado Judeu, o Irão oferece uma forte potencialidade para
investimentos e um mercado lucrativo para as empresas americanas de
petróleo, agro-business, indústria química e empresas
financeiras.
Ao apoiar as políticas israelenses de bloqueio e boicote contra
líderes árabes eleitos, especialmente o Hamas em Gaza e o
Hezbollah no Líbano, Washington apoia ditaduras violentas e corruptas na
Cisjordânia, Egipto e Jordânia, simplesmente porque estas
são aliadas de Israel. Se, como o regime de Obama defende, os processos
eleitorais estabilizarão a região, então o seu apoio
incondicional a Israel e aos seus aliados desestabiliza a mesma.
Em vez de procurar novas políticas para o Irão, visando assegurar
os interesses imperiais na região, o regime de Obama escolhe a
confrontação que mina a sua "retórica
conciliatória" e, ainda pior, leva a tensões crescentes.
Novas sanções contra exportadores de gasolina poderiam provocar
uma nova e ainda mais extensa guerra, que seguramente afundaria os EUA numa
depressão ainda mais profunda.
Coreia do Norte: O desmascaramento de uma política
O regime de Obama destruiu quaisquer tentativas de acordos para desarmamento
nuclear obtidas entre a Administração Bush e o Governo
Norte-Coreano. O acordo original baseava-se em concessões
recíprocas, em que a Coreia do Norte concordava em desmantelar o seu
programa de armas nucleares em troca de apoios económicos e
energéticos dos EUA, Japão, China, Coreia do Sul e Rússia.
Os norte-coreanos cumpriram o acordo, mas o apoio económico não
chegou, em particular devido a exigências dos EUA para a inclusão
de inspecções inesperadas (
Financial Times,
15/Abril/2009). A recém-chegada Administração Obama
não tomou quaisquer medidas para fazer avançar os programas de
apoio. Pelo contrário, em resposta ao lançamento de um
satélite experimental, a secretária de Estado Hillary Clinton
exigiu e conseguiu uma condenação ao acesso legal da Coreia do
Norte à tecnologia espacial, exigindo ainda a
implementação de novas sanções económicas (
Financial Times,
13/Abril/2009, p. 4). Estas duras represálias levaram os norte-coreanos
a terminar as negociações e a reiniciar o seu programa de armas
nucleares, elevando tensões militares na península e minando o
processo de paz (Al Jazeera, 14/Abril/2009). Num breve período de
três meses a Casa Branca de Obama reverteu quase uma década de
negociações de paz, criando uma nova arena para
confrontação militar.
Afeganistão-Paquistão: Estender a guerra e desestabilizar um
cliente
Em resposta à resiliência da resistência afegã e
à expansão da sua influência além das suas bases no
Sul, Obama abriu novas frentes de conflito no Paquistão ao
começar o bombardeamento sistemático de aldeias e comunidades.
Como resultado, os combatentes paquistaneses e os seus aliados afegãos
passaram a obter apoio popular de modo crescente nos territórios de
Noroeste. Ao pressionar o regime fraco e impopular de Zadari para que este
intensificasse as operações militares contra os paquistaneses que
se opunham aos raids bombistas dos EUA, o regime de Obama conseguiu destruir
toda e qualquer base de apoio que tinha dentro do aparelho de estado (
Financial Times,
02/Abril/2009, p. 7). Mais de 2 milhões de paquistaneses na
região foram afastados das suas casas pela ofensiva militar (BBC News,
19/Maio/2009). A política de Obama para o Paquistão é a
extensão da fracassada estratégia afegã de tornar
áreas civis alvos preferenciais (neste caso mais de 40 milhões de
pessoas do grupo etno-linguístico pachtun), influenciados ou controlados
pela resistência anti-EUA, na esperança de eliminar alguns
combatentes talibã entre os milhares de mortos civis. O resultado
é previsível: o exército paquistanês, maior
sustentáculo do fraco presidente-cliente dos EUA, Zadari, tem-se tornado
a
ferramenta
de continuação de uma guerra colonial e da entrega
da
soberania
em face aos sistemáticos ataques transfronteiriços
promovidos pelos EUA. Ao forçar o dividido e enfraquecido regime
paquistanês a entrar numa guerra de grande escala contra os seus
independentes e desafiantes cidadãos dos Territórios Noroeste, as
cidades e aldeias paquistanesas terão de lidar com a catástrofe
de 2 milhões de refugiados internos afugentados das suas casas e
comunidades. Obama aumenta a possibilidade de uma revolta militar dirigida por
soldados e oficiais nacionalistas-islamistas, o que desequilibraria
completamente a balança do poder na região (e além) contra
Washington (BBC News, 08/Maio/2009). Em vez de "conter" e limitar a
área de combate ao Afeganistão, a política de Obama para o
Paquistão alargou a frente e implicou um grande mas frágil
estado-cliente numa guerra prolongada que poderá implicar a sua queda
de modo similar ao derrube do Shah do Irão (
Financial Times,
27/Abril/2009, p.5).
A escalada de Obama no Afeganistão antecipa um acordo nacional com os
talibã, limitando-os ao Afeganistão por troca da exclusão
de apoio à Al Qaeda. Sob ataque crescente dos EUA, os talibã
internacionalizaram a sua luta além das fronteiras contíguas com
o Paquistão fazendo aparecer o espectro de os EUA terem de se embrenhar
ainda mais nesse país em apoio ao regime-cliente de Islamabad.
Política Israel-Palestina
A política da Casa Branca em relação à
ocupação israelense da Palestina tem-se caracterizado por uma
reiteração ritual da "Solução de Dois
Estados" e tentativas indecisas e inconsequentes de formular uma
estratégia coerente e a capitulação da continuada
expansão territorial de Israel (BBC News, 18/Abril/2009). Obama
defronta-se com um governo de extrema-direita, abertamente
pró-anexações, que rejeita até a linguagem da
"Solução de Dois Estados" em repúdio directo da
política do presidente americano (BBC News, 01/Abril/2009). Washington
submete-se passivamente às rejeições de Israel. Os
nomeados da política de Obama para o Médio Oriente são, do
primeiro ao último, membros do lobby israelense. O regime de Obama e as
chefias do Partido Democrata estão profundamente em dívida para
com o lobby sionista, que rejeita qualquer tentativa de tentar pressionar
Israel desarmando assim quaisquer alavancas económicas ou
militares que pudessem ser utilizadas para tentar obter concessões do
regime de Netanyahu-Lieberman. Ainda pior, Washington apoia o bloqueio
israelense a Gaza, dirigida pelo democraticamente eleito Hamas, fortalecendo
assim o pulso de ferro que Israel mantém sobre os palestinos.
Um dos mais egrégios fracassos de política externa na
reunião de 18 de
Maio de 2009 em Washington com o primeiro-ministro de Israel,
Benyamin Netanyahu. Após ter feito a apologia da política dos
"Dois Estados", um dos principais objectivos de política
externa, Obama não conseguiu sequer um compromisso verbal do
líder extremista israelense (BBC News, 19/Maio/2009). Após 4
horas de discussão, Netanyahu rejeitou a oferta de Obama de considerar
um período temporal para conversações diplomáticas
com o Irão (com a ameaça implícita de opção
militar) em em contrapartida de o primeiro-ministro do Likud balbuciar
"três palavras":
solução de dois estados
! Pior ainda do ponto de vista da Casa Branca: Netanyahu insistiu que
quaisquer
negociações
com os palestinos seriam condicionadas ao
seu reconhecimento de Israel como um
Estado Judeu,
excluindo assim o
milhão e meio de muçulmanos e cristãos palestinos que
permaneceram no território após as expulsões em massa.
A ostentar o seu desprezo para com a proposta de Obama de congelar os novos
colonatos, o regime de Netanyahu acelerou o planeamento de 20 novas estruturas
habitacionais na Cisjordânia ocupada precisamente no dia do
encontro. Pior que tudo, Obama saiu destes encontros com uma imagem de total
impotência não pôde sequer fazer um "show"
por ter influenciado o primeiro-ministro extremista judeu. O repúdio
público feito a Obama por Netanyahu baseou-se no entendimento claro de
que o poder da Configuração Sionista de Poder sobre o Congresso
dos EUA e sobre o ramo executivo do poder americano garante que Obama
não poderá contrariar o extremismo israelense através de
ameaças de retirada de apoio financeiro ou militar dos EUA ao estado
judeu. Após semanas de rumores e de histórias acerca da
"disposição" de Obama de confrontar ou pressionar
Netanyahu a aceitar a
solução de dois estados, a conclusão foi uma humilhante
derrota pública, em que Obama nada conseguiu.
Após o seu encontro com Obama, Netanyahu (o visitante) foi ao Congresso
dos EUA com a sua base de poder entre a grande maioria dos membros dos
Representantes e do Senado e líderes judeus sionistas de topo, onde a
quase totalidade dos representantes eleitos reafirmou o seu apoio incondicional
à política de Israel nos termos estritamente definidos por
Netanyahu. A impotência e os fracassos do Presidente Obama nas
negociações com Netanyahu não passaram despercebidas em
todo o mundo (em particular no mundo árabe). O porta-voz do Hamas Fawzi
Brahoum sumarizou a percepção geral do seguinte modo: "As
declarações (acerca da solução de dois estados) de
Obama não são mais que desejos, com os quais não poderemos
contar" (Al Jazeera, 19/Maio/2009).
A "imersão" do regime de Obama em políticas
sionistas-israelenses cega-o para as oportunidades favoráveis de um
grande acordo na região. Os líderes do Hamas cessaram todos os
ataques retaliatórios a Israel com rockets e apelaram a um cessar-fogo
de 10 anos (
The New York Times,
04/Maio/2009). A Liga Árabe (incluindo os estados do Golfo) reiterou a
sua vontade de reconhecer Israel e de abrir relações
diplomáticas em troca do fim da ocupação da
Cisjordânia e do bloqueio a Gaza. A União Europeia abriu
diálogos com o Hamas e o Hezbollah, adiando a extensão de
estatuto económico "especial" a Israel. Até o
Irão concordou aceitar uma solução para a Palestina
baseada nos Dois Estados. Face a grandes alterações e
concessões, o regime de Obama permanece impotente. É incapaz de
pressionar em favor das suas propostas; debate-se até para impor uma
conclusão para as negociações de paz. No entanto, a
Configuração de Poder Sionista no interior e no exterior
pressiona por novas e mais perigosas sanções contra o
Irão. Durante a conferência AIPAC em Washington (1 a 5 de Maio),
seis mil lobbystas estabeleceram como objectivo assegurar que a maioria do
Congresso apoie bloqueios e sanções provocativas contra empresas
que exportem refinados de petróleo para o Irão (
Jerusalem Post,
01/Maio/2009). O Acto de Sanções de Petróleo Refinado
para o Irão (Iran Refined Petroleum Sanctions Act, IRPSA) actualmente no
Congresso e da autoria dos operacionais do AIPAC é encarado como uma
arma para esmagar a economia iraniana e derrubar o governo. Ao tentar conciliar
a ideia de que um acordo de paz para a Palestina levará a um
"consenso" com o AIPAC e Israel para a confrontação com
o Irão, o regime de Obama desiste da sua opção
diplomática com o Irão em favor da abordagem militarista de
Israel sem assegurar quaisquer mudanças na política desta
em relação à Palestina.
Conclusão: Consequências das políticas fracassadas de Obama
Desde o início as políticas externas do regime de Obama têm
sofrido fortes reveses.
As suas iniciativas económicas no G20 para assegurar o apoio às
propostas de políticas coordenadas de estímulos baseadas em
salvamentos financeiros e défices mais elevados foram rejeitadas. A
revitalização do FMI via uma injecção de US$750 mil
milhões não foi bem-vinda pelos países de "mercados
emergentes" devido às duras condições impostas por
esta instância. A cimeira da NATO rejeitou as exigências de
Washington de mais tropas de combate para o Afeganistão. Das 5000 tropas
prometidas, três quartos servirão apenas durante a
eleição presidencial afegã (Agosto/2009) e o resto como
treinadores e conselheiros, longe das linhas da frente.
A Cimeira das Américas foi um fiasco para Washington. Ficou
completamente isolado na sua defesa da política estado-unidense em
relação a Cuba, o Embargo a Cuba e a sua designação
de Cuba como "um estado apoiante de terrorismo". Obama nada ofereceu
em termos de novas políticas face à recessão
económica regional que os EUA induziram na região. Ao mesmo tempo
os países latino-americanos voltaram-se para outros lados
Irão e China, assim como para o mercado regional, como locais de
oportunidade para estimularem as suas economias. A postura belicosa de Obama em
relação à Coreia do Norte reverteu seis anos de
negociações, pelo que se passaram a reviver tensões
passadas e a reactivação do programa de armas nucleares de
Pyongyang. A escalada da guerra dos EUA/NATO no Afeganistão e a sua
extensão para o Paquistão mina a força dos clientes
americanos na região e faz com que seja possível que o
exército dos EUA se encontre novamente com uma guerra colonial sem
possibilidades de vitória.
Os laços profundos de Obama com as políticas e
organizações americanas-sionistas e a sua lealdade para com a
nova ala da extrema-direita israelense impossibilita a procura de qualquer
política que possa abrir o caminho na direcção de uma
resolução de dois estados como forma de resolução
do conflito. A linha dura da Casa Branca de escalada de sanções
contra o Irão e o armamento de Israel com armas ofensivas de longo
alcance põe em causa quaisquer novas iniciativas significativas em
relação a Teerão (
Financial Times,
23/Março/2009, p.3). O resultado destas políticas fracassadas
é que Washington se encontra cada vez mais isolado politicamente: Luta
sozinho no Sul da Ásia; É o único apoiante da
intransigência de Israel. Está sozinho entre as
nações do Hemisfério Ocidental na sua
imposição do embargo de Cuba. Isolamento político
significa que os custos políticos e económicos da
construção militar do império por Obama serão
suportados quase exclusivamente pelo Tesouro Americano e pelos seus
cidadãos numa época de défice sem precedentes em
épocas de paz e uma recessão em agravamento.
O foco de Obama em aventuras militares no estrangeiro, injecções
financeiras no país e a promoção do FMI provocou um
afastamento da América Latina do seu tradicional grande parceiro
económico. O Brasil acolheu uma centena de membros de
delegações empresariais do Irão, liderada pelo
primeiro-ministro e composta por uma vasta gama de líderes de empresas e
de bancos para assinarem negócios multimilionários e de
co-investimentos. Em finais de Maio, o presidente Lula da Silva promoveu um
grande aumento de trocas e investimentos com o seu maior parceiro comercial
a China. A resposta da secretária Clinton foi patética: em
vez de reconhecer o eclipse económico dos EUA e procurar aumentar a
presença económica, citou a ameaça do terrorismo iraniano
entre o petróleo, o agribusiness e os executivos bancários
(
www.presstv.com
, 02/Maio/2009).
O apoio contínuo de Obama aos líderes regionais de
extrema-direita na Bolívia e Equador contra presidentes reformistas
contribuiu para as recentes vitórias eleitorais e para o isolamento
político dos EUA. A retórica de Obama de uma "abertura"
à Venezuela, acompanhada por duros ataques aos perigos do
"chavismo", em que inclui acusações infundadas de
cumplicidade no tráfico de drogas, levaram a um aumento de trocas entre
a Venezuela e a China, Irão e Rússia.
Políticas falhadas têm consequências. A
manutenção de compromissos militares de longo-prazo e grande
escala no estrangeiro numa época de depressão económica
é auto-destrutiva, auto-isolante e destinada ao fracasso. Satisfazer as
aspirações coloniais ilegais e os objectivos militares de Israel
sacrifica centenas de milhares de milhões de dólares em trocas
com o Irão, os estados do Golfo e as economias do Sul da Ásia.
O grande problema não é que o regime de Obama prossiga com
guerras que terminarão em derrotas, mas sim que continue a lançar
recursos para a construção militar de um império numa
época de recessão em agravamento, o que está a levar
à morte de centenas de milhares de pessoas e ao aparecimento de
milhões de refugiados por todo o mundo, enquanto destrói as
condições de vida e segurança social de milhões de
cidadãos estado-unidenses.
11/Maio/2009
O original encontra-se em
http://petras.lahaine.org/articulo.php?p=1779&more=1&c=1
.
Traduzido por João Camargo.
Este ensaio encontra-se em
http://resistir.info/
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