Entrevista de James Petras
O imperialismo e a resistência dos povos
por Hugo Janeiro
James Petras esteve em Portugal a convite de resistir.info e
da Câmara Municipal de Serpa, em Setembro de 2005.
O semanário
Avante!
aproveitou a presença de Petras no país para realizar a entrevista que
se
segue.
A conferência pronunciada em Serpa por esse importante sociólogo
norte-americano autor de uma vasta obra de investigação e
solidário com as lutas dos oprimidos será publicada dentro em
breve pela municipalidade daquela cidade alentejana.
Que papel podem desempenhar no mundo países sobretudo da
América Latina que hoje se afirmam como tendo governos de
esquerda?
James Petras:
O problema é que alguns desses governos não são
verdadeiramente de esquerda, não representam uma ruptura. Se analisarmos
as políticas de fundo percebemos que, no Brasil, Lula pactuou com o
Fundo Monetário Internacional (FMI); no Uruguai, Tabaré
Vásquez está a fazer um acordo com os EUA; na Argentina,
Kirchner, mais heterodoxo, está a limitar os benefícios do
crescimento económico concentrando-o na burguesia mais poderosa e,
simultaneamente, abandonou a pretensão de reverter as
privatizações. Estes governos são um reflexo de uma
determinada "esquerda". Não podemos esquecer que Lula,
Kirchner e Tabaré aumentaram a sua presença militar no Haiti.
O que existe na Argentina, no Brasil e, com menos incidência, no Uruguai,
são grupos e movimentos de massas contra a ALCA, contra a invasão
do Haiti, contra a guerra e o imperialismo de Bush, mas não estão
articulados com os respectivos governos.
Os únicos executivos da América Latina que tomaram
posições claramente anti-imperialistas foram os de Cuba e da
Venezuela.
A outro nível sim, temos poderosos movimentos no Equador ou na
Bolívia. Por isto, a nossa análise deve ser mais fina e
simultaneamente mais concreta. Não devemos classificar partidos,
governos ou presidentes pelo seu passado. Como sabemos, a sociedade mostra
sempre mudanças e evoluções. Os Tupamaros estão
agora no governo do Uruguai, mas acordaram deixar de lado as
violações e os genocídios cometidos pelos militares. Como
se podem esquecer que os seus companheiros morreram sob tortura? Como podem
fazer tamanha inversão política?
Eu creio que, por isto, devemos ser muito concretos nas nossas análises
e classificações, muito atentos para percebermos as
mudanças, até porque parte dos dirigentes históricos
encontram-se hoje institucionalizados, integrados nos sistemas locais ou
globais de dominação.
Quando fala de Cuba e da Venezuela, considera que existe um perigo real de
serem invadidos pelos EUA?
JP:
Na minha opinião é um perigo constante. No caso da Venezuela os
acontecimentos demonstram precisamente isso. Primeiro ocorreu um golpe militar
que, felizmente, fracassou. Depois, por via de um bloqueio económico
concertado entre patrões, altos funcionários do Estado e gestores
de empresas públicas tentaram derrubar o governo. Seguidamente,
incitaram a Colômbia a agredir a Venezuela. Não fosse a guerra
prolongada no Iraque e, na minha perspectiva, os EUA já tinham atacado o
governo bolivariano, já tinham escolhido outro alvo.
A questão é que a resistência no Iraque é tão
forte, tão prolongada e tão profunda, tem causado tantos danos e
desgaste ao exército e à economia dos EUA, que para eles torna-se
impossível abrir um terceiro vector de combate para além do
Afeganistão e do Iraque.
A AGENDA DA GUERRA
Então encara igualmente o recente acordo com a República Popular
Democrática da Coreia como o adiamento de um possível conflito?
JP:
Não é segredo para ninguém que os EUA têm uma
doutrina e uma agenda de guerras contínuas. Está confirmado por
declarações de Bush ou Rumsfeld.
Primeiro o Afeganistão, depois o Iraque, em seguida a RPD da Coreia, o
Irão, a Síria, estes três ao mesmo tempo ou com algum
intervalo temporal.
A agenda baseava-se na crença de que facilmente imporiam a sua ordem
nestes territórios e podiam então partir para as restantes fases:
a eliminação da oposição na América Latina e
a repressão da oposição interna.
Estes planos estão de momento bloqueados porque foram obrigados a
concentrar parte da sua máquina militar no Iraque e, desta forma, para
além de terem que lidar com a carência de meios para a abertura de
outros teatros de guerra, têm que jogar com a crescente
oposição popular no seu próprio país.
Um paralelo que podemos fazer é com o prolongamento da guerra do
Vietname na década de 60. Na época, a guerra "salvou"
Cuba de um ataque frontal. Os EUA chegaram a ter 500 mil soldados no Vietname,
facto que paralisou a preparação da invasão de Cuba. Este
é um factor global que devemos ter sempre em conta na análise das
agressões. Cuba é um bom exemplo.
Podemos falar de uma resistência iraquiana minimamente consistente?
JP:
Não é fácil falar de unidade da resistência
iraquiana. É melhor ter em consideração várias
frentes de luta armada, civil e política as quais incluem
grupos islâmicos, grupos seculares-religiosos, de
mobilização de massas. Aparentemente funcionam dentro de um
espectro de unidade para forçar a desocupação, mas um
facto importante a considerar é que as forças repressivas dos EUA
e da Grã-Bretanha têm certamente infiltrados na dita
resistência.
Um caso muito explícito foi o dos dois soldados ingleses em
Bassorá. Procuraram acicatar as tensões e o conflito entre os
sunitas e o xiitas, portanto é crível que este tipo de
actividades possa já ter ocorrido às centenas noutras partes do
território. É a política externa resumida na frase
"dividir para reinar", isto é, procuram criar um conflito
civil por forma a cindirem a acção de massas e controlarem mais
facilmente o país. Não encontro justificação
política para os ataques aos mercados ou às iniciativas
religiosas, quer da parte dos sunitas, quer da parte dos xiitas. Este tipo de
atentados foram, em minha opinião, na sua grande maioria levados a cabo
por agentes infiltrados dos próprios ocupantes.
Os EUA tinham o objectivo de controlar o petróleo do Iraque, mas parece
que para já não conseguiram fazê-lo em toda a linha. Como
avalia a situação?
JP:
Julgo que o problema deve ser reformulado.
Nas investigações que fiz, as companhias petrolíferas que
eventualmente lucravam com a guerra já tinham estabilizado, de forma
directa ou contornando o embargo ao Iraque, o saque dos recursos. O factor
constante do qual me apercebi foi que alguns dos principais políticos na
administração norte-americana estavam ligados ao movimento
sionista internacional. Ninguém quer falar disto com medo de ser acusado
de anti-semitismo, até porque o poder destes grupos permite
desqualificar politicamente um indivíduo.
Certo é que Paul Wolfovitz ou Douglas Feist, entre outros, são
fanáticos ultra-sionistas, ligados a organizações que
desde há muito tempo faziam propaganda para destruir o Iraque. A
razão é simples. O Iraque era, do ponto de vista
científico e até pela tradição secular, o
país mais avançado no mundo árabe.
Igualmente certo é que Rumsfeld, Rice ou Cheney têm
ligações aos interesses petrolíferos, mas a sua principal
relação é com o militarismo, com o domínio
geo-político da região a partir de acções militares
por forma a ganharem vantagem no conflito inter-imperialista. Contudo,
não anteciparam três factores: que a guerra se iria prolongar
tanto; que os boicotes da resistência não permitiriam uma baixa do
preço do petróleo no mercado interno norte-americano que
era sem dúvida um dos objectivos centrais , e que a
concorrência da China levaria a um aumento da procura do petróleo
com tamanha influência no mercado mundial.
Para os sionistas é pouco importante se o petróleo baixa ou
não, desde que os seus objectivos de domínio na região
sejam alcançados e Israel tenha eliminado um competidor directo.
Para os restantes é verdade que os planos tanto ao nível do
petróleo como ao nível dos custos da guerra saíram bem
mais difíceis de cumprir no período estimado.
A RESPOSTA NECESSÁRIA
Que resposta pode dar o povo a esta guerra total?
JP:
O Iraque é hoje o centro da luta anti-imperialista. Há muitas
formas de luta e, em última análise, elas dependem da
organização política das massas e até da
história dos próprios movimentos nos respectivos países.
Nos países árabes, por múltiplas razões, os grupos
marxistas sofreram derrotas e foram amplamente reprimidos. Os movimentos
nacionalistas, fruto das suas contradições internas, encontram-se
debilitados. Neste vazio surgem os movimentos islâmicos que
alcançam grande influência junto das massas. Muita gente sente-se
atraída por este tipo de movimentos porque, no actual contexto,
são os únicos que apresentam instrumentos práticos de
acção.
E que papel podem desempenhar os comunistas?
JP:
Em minha opinião, as eleições são menos importantes
para os partidos comunistas que a luta de massas.
Não resolve, por exemplo no Uruguai, o Partido Comunista ser
responsável no governo pelos programas assistencialistas, nos quais os
pobres não têm apenas que sê-lo, devem demonstrá-lo,
devem provar e humilhar-se.
O mesmo relativamente ao PC do Brasil, metido num governo que pouco
mantém de progressista, antes colabora com o imperialismo no Haiti, como
já disse.
Eu creio que como sumário mais generalizado, a história dos
últimos 30 anos mostra que as lutas mais eficazes pelo progresso
são as de massas, de acção directa. Por outro lado, a
política eleitoral de apoio a "males menores" tem sido um
desastre para os partidos comunistas, integrando-os no sistema e, pior,
revelando que se institucionalizam, imitam os restantes e se corrompem.
O que eu defendo é que a táctica eleitoral tem que ser muito
estreitamente controlada pela luta de massas. Os salários dos eleitos
devem ser do partido e a sua acção deve estar sempre de acordo
com as linhas definidas pelo colectivo e pelas necessidades das massas. Se
assim não acontecer são absorvidos e começam a considerar
como legítimos certos privilégios do parlamentarismo.
Eu estive com partidos que participaram em eleições na
Grécia, em Espanha, na América Latina, e as conclusões a
que chego hoje foram confirmadas pela experiência prática,
não resultam de simples decalques de textos de Lénine ou de Rosa
Luxemburgo onde esta problemática é abordada.
BALANÇO DA ASSEMBLEIA GERAL DA ONU:
UM FRACASSO GLOBAL
Qual a sua opinião sobre o resultado da recente Assembleia Geral das
Nações Unidas onde foi discutida a chamada "reforma" da
instituição?
JP:
O consenso, tanto de gente progressista como de gente de direita, é que
a Assembleia se revelou um grande fracasso.
No campo da esquerda, o fracasso mede-se pelo facto de não terem sido
abordadas medidas urgentes sobre a pobreza, a desigualdade ou
exploração no mundo.
Do ponto de vista da direita, ele traduz-se na medida em que não foi
possível concentrar todo o poder no grupo mais reduzido de países
que, no fundamental, pretendem eliminar a ONU como fórum.
Deste ponto de vista, o resultado da Assembleia foi um fiasco, uma falta de
visão estratégica, uma ausência de definição
e rumo, de contributos que permitam a superação dos grandes
problemas que assolam a humanidade.
A táctica do imperialismo é debilitar ao máximo as
Nações Unidas. Por essa razão, os EUA nomearam John
Bolton, um ultra conservador, como seu representante. O projecto
norte-americano passa por bloquear as Nações Unidas a tal ponto
que estas deixem de funcionar.
Neste âmbito, considero que os EUA granjearam um êxito relativo na
medida em que com as emendas apresentadas dificultaram a acção da
Assembleia.
Do ponto de vista dos movimentos progressistas, sobretudo do terceiro mundo, e
dos governos de "esquerda", penso que devem considerar a necessidade
de revitalizar movimentos fora da ONU. Movimentos não alienados, de
solidariedade com o Iraque ou a Venezuela e construir plataformas
de cooperação económica e política. Neste sentido,
o problema passa por saber em que moldes é possível criar um novo
fórum entre iguais, coerente e interventivo em oposição ao
unilateralismo militar dos EUA. Isto sem deixar cair as Nações
Unidas como espaço de debate.
Ainda a respeito da Assembleia das Nações Unidas, muito se
discutiu sobre a necessidade de o continente africano estar representado no
Conselho de Segurança. Considera ser possível alcançar
este objectivo?
JP:
É difícil falar do assunto porque estamos numa fase de
pós-colonialismo, pós-apartheid.
Por exemplo, o governo de Tabo Mbeki, na África do Sul, apresenta
traços neoliberais. Surgiu uma nova burguesia negra, com novos actores a
tomarem alguns dos lugares dos antigos senhores brancos nas empresas, na
economia. O país mantém uma elevadíssima taxa de
desemprego e os movimentos rurais dos sem-terra permanecem sem a reclamada
reforma agrária. A terra ainda não foi distribuída e, onde
tal já aconteceu, a propriedade passou de brancos para negros, mas
manteve a mesma relação de propriedade e
exploração. Assim torna-se difícil acreditar que nas
instituições internacionais passem da crítica a uma
postura consequente e progressista.
O original encontra-se em
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=11656&area=19
(edição em papel nº 1666, 03/Novembro/2005).
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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