Grécia: A praga de três gerações de Papandreus
por James Petras
Em cada um dos três momentos decisivos da história recente, a
Grécia foi impedida de aproveitar uma oportunidade de
transformação social, independência política e
libertação da tutela externa por alguém da família
Papandreu.
Os três períodos que prometiam novos horizontes para os movimentos
populares gregos incluem:
O período a seguir à derrota do exército de
ocupação nazi e do seu regime colaborador fantoche pelos partisan
da resistência grega, graças ao seu exército de
libertação nacional (ELAS-EAM) e os seus aliados civis.
(1944-1945)
A derrota eleitoral decisiva em 1981 do Novo Partido Democrático, de
extrema-direita. A votação maioritária no Partido
Socialista Pan-helénico (PASOK) assim como no Partido Comunista
permitiu o controle de aproximadamente dois terços do Parlamento.
Herdando uma
economia capitalista "falida, em bancarrota e não
viável" e com uma direita desacreditada e esmagada, o PASOK recebeu
um
mandato popular para socializar a economia.
As crises capitalistas mundiais de 2007-2010 e, em particular, a bancarrota e o
altamente endividado estado capitalista grego levaram à
eleição de George Papandreu (Júnior) em 2010 com uma
plataforma de "mudança social" e aumento do bem-estar social.
Ele atraiu a classe trabalhadora e o apoio sindical com base na
criação de uma nova sociedade moderna e mais justa.
Entre revolução e reacção: O papel de George
Papandreu (Sénior)
Na esteira de um maiores movimentos vitoriosos de partisans anti-fascistas da
Europa, a resistência grega, apoiada por mais de 2 milhões de
partisans avançou rumo à libertação da capital do
país, Atenas, em Outubro de 1944. Com escasso apoio dentro do
país, George Papandreu foi apoiado pelos aviões de guerra e
tanques do império britânico assim como pela monarquia no
exílio. A actuar como primeiro-ministro, ele ordenou o desarmamento da
Resistência e apoiou o assalto militar britânico a dezenas de
milhares de manifestantes pacíficos na Praça da
Constituição, em Atenas, matando e ferindo centenas de
combatentes gregos pela liberdade. Papandreu presidiu o recrutamento militar de
numerosos ex-colaboradores nazis e monárquicos, financiados, armados e
comandados por generais britânicos e posteriormente estado-unidenses. Ele
posteriormente actuou como ministro em governos que lançaram um assalto
odioso a movimentos populares de massa. Eles transformaram o que era um momento
de alegria pela libertação no princípio de um
período sórdido de repressão selvagem e de
restauração de toda a escumalha da classe superior da
Grécia anterior à guerra, juntamente com os seus colegas
colaboracionistas pro-nazis. A Grécia foi transformada num estado
cliente dos EUA, dominada por uma série de polícias de estado
cleptocráticas subsidiadas do estrangeiro, as quais mantiveram o seu
domínio inflacionando um clientelismo baseado na burocracia, divorciado
da indústria moderna.
Andreas Papandreu e a morte da direita (1981)
Após o fim da junta militar (1967-1974) a direita grega chegou ao poder,
mantendo grande parte do velho aparelho de estado e impulsionando uma rica mas
disfuncional classe dominante que vivia de transferências
monetárias da CEE. A pilhagem dos recursos do estado, a bancarrota da
maior parte das firmas do sector privado, o atraso do sector agrícola, a
natureza fechada e autoritária das instituições
públicas e privadas, levaram a vasta maioria da classe trabalhadora, dos
estudantes, agricultores e desempregados a dar um vitória eleitoral
maciça a Andreas Papandreu. A votação combinada dos
Partidos Socialista e Comunista era superior a 60% e proporcionou uma maioria
clara para legalmente transformar a sociedade e a economia. Além disso,
o programa de Andreas Papandreu prometia "socializar a economia",
modernizar as zonas rurais e romper com a dominação imperial. Ele
prometeu, em particular terminar com a condição de membro da NATO
e com o acordo para bases militares dos EUA.
Dada a fragmentação, desmoralização,
dispersão e decadência da direita, a oposição
política para um avanço socialista era mínima. Dado alto
endividamento dos sectores privados para com bancos do estado, o governo
Papandreu nem mesmo precisava de legislação para expropriar as
empresas: podia pedir os reembolsos dos empréstimos ou as chaves da
firma.
Papandreu rejeitou a opção de transformar o moribundo sistema
capitalista: ele ofereceu novos empréstimos, esqueceu dívidas e
interveio para restaurar a propriedade privada leiloando as firmas a novos
proprietários privados (estrangeiros). Naquele tempo eu era um
conselheiro de Papandreu. Quando lhe perguntei porque ele não
socializava as firmas endividadas, respondeu que "por causa das crises,
não é o momento para transformar a economia; isto teria de
esperar até que a economia ficasse de pé". Quando lhe
repliquei que fora eleito para mudar o sistema precisamente por causa das
crises e que uma vez restaurado o capitalismo a oposição
política e económica seria mais formidável ele respondeu
"que a 'economia' é demasiado fraca para suster um regime
socialista"; e acrescentou que "a classe trabalhadora está
interessada apenas no consumo não em investir para modernizar a
economia".
Em termos práticos Papandreu restaurou o capitalismo apesar da sua
condição moribunda, aumentando a dívida pública no
processo. Durante o seu primeiro mandato mais de oitenta por cento da
opinião pública grega era favorável ao encerramento das
bases militares dos EUA e das suas operações de
inteligência na Grécia. Através de demagogia e de falsas
promessas de actuar "no futuro", Papandreu manteve as bases.
Analogamente, Papandreu repudiou as vasta maioria de eleitores que o elegeram
para retirar o país da NATO envolvendo-se em "crítica"
inconsequente ... a partir de dentro. Pior ainda, Papandreu permaneceu na
Comunidade Económica Europeia, aceitando transferências e
empréstimos em troca de reduções de barreiras
tarifárias. Isto começou o processo de ganhos inesperados a curto
prazo em gastos de consumo e do estado com uma base clientelista inchada pela
burocracia em troca da dizimação do atrasado sector industrial e
agrícola. Papandreu utilizou as transferências da CEE para comprar
votos através de subsídios a agricultores, ganhos salariais a
curto prazo e enorme cancelamentos de dívidas ao fisco e de
empréstimos às elites dos negócios. Os défices e as
dívidas cresceram, enquanto o aparelho produtivo para sustentar o
consumo atrofiava-se. O clientelismo era a "alternativa" de Papandreu
à transformação social. A CEE estava desejosa de financiar
Papandreu e aguentar as suas políticas económicas disfuncionais
porque ele estava a destruir e a minar os movimentos sociais favoráveis
à mudança que originalmente o levaram ao poder.
Enquanto Andreas Papandreu denunciava a NATO em comícios frente
às massas mantinha consultas semanais com o embaixador dos EUA
confirmando a sua lealdade à aliança militar... Durante o
primeiro ano do seu governo (1982-1984) quando eu dirigia o Center for
Mediterranean Studies e era conselheiro não oficial de Papandreu
saia da sua casa em Kastri pela porta dos fundos enquanto o embaixador dos EUA
entrava pela porta da frente. Após algum tempo, percebi que ele tomava
emprestada críticas de esquerda para justificar políticas de
direita. Uma prática na qual tornou-se um virtuoso ... do engano. Mais
recentemente um responsável do Departamento do Estado comentou comigo
certa vez que preferia o George Papandreu mais jovem ao seu pai: "as
mesmas políticas conformistas", comentou, "sem a
demagogia". Ao longo dos anos, Andreas esvaziou a sua retórica e a
prática pró Nato converteu toda uma geração de
socialistas militantes em oportunistas cínicos e carreiristas sociais,
os quais sacrificaram a solidariedade de classe pelo clientelismo, os postos
lucrativos na burocracia da CEE à transformação social. A
geração pós-junta, os estudantes idealistas da luta do
Politécnico tornaram-se os corpulentos funcionários do estado da
NATO.
George Papandreu (Júnior): A história como farsa (terceira vez)
Tal como os seus antecessores da família, George Papandreu foi eleito em
Outubro de 2009 em meio à mais profunda das crises capitalistas mundiais
desde a década de 1930. As finanças gregas estavam "debaixo
d'água"; a economia estava em queda livre; o tesouro público
estava vazio; o capitalismo estava literalmente em bancarrota e os partidos da
direita estavam desgraçados e desacreditados.
Durante a sua campanha eleitoral Papandreu prometeu um moderno estado de
bem-estar social com prioridade para investimentos sociais em saúde
pública, educação e melhoria da pobreza. Uma vez no
gabinete, fiel à tradição Papandreu, ele mudou de cara.
Exibindo uma postura indignada, afirmou "descobrir" que o tesouro
grego estava vazio e que o país estava super-endividado e que a
única solução era cortar nos padrões de vida pela
redução de salários, cortes de programas sociais e de
pensões a fim de pagar aos banqueiros estrangeiros. Tal como seus
antecessores familiares, não foi feito qualquer esforço para
arrecadar impostos atrasados dos ricos ou embargar contas secretas no
estrangeiros de banqueiros, executivos corporativos, proprietários de
navios, especuladores em acções, consultores, correctores de
investimento que burlaram contribuintes e pensionistas gregos em milhares de
milhões de Euros. Não foi feito qualquer esforço para
recuperar as dívidas do sector privado às
instituições financeiras do estado. Ao contrário,
Papandreu virou-se para os vigaristas da Wall Street o Goldman Sachs
(banco que, em 2001, facilitou a pilhagem de empréstimos públicos
para ganho privado) em busca de conselho e apoio.
Tal como o seu avô, confrontado com inquietação em massa,
voltou-se para as potências imperiais em busca de
orientação e direcção. Com efeito, Papandreu
submeteu a soberania grega e a política económica a Merkle,
Sarkozy, Obama e o FMI. Eles formularam o mais draconiano programa de
austeridade de base classista da história recente da Europa. Os
decisores políticos da UE e dos EUA ao encontrarem em Papandreu um
cliente dócil e submisso, insistiram uma, duas três muitas vezes em
cortes nos padrões de vida, durante mais de quatro meses (Dezembro 2009
Março 2010), reduzindo os padrões de vida gregos a
níveis inferiores dos princípios da década de 1980. Os
protestos iniciais fracos e simbólicos dos líderes sindicais
socialistas encorajaram Papandreu e os seus ministros da Economia e das
Finanças a pressionarem mais duramente por maiores concessões, na
esperança de satisfazer "o mercado" um eufemismo para
financeiros e especuladores.
Após trinta anos de política clientelista da direita e do PASOK,
de benefícios fiscais para os seus clientes de negócios e de
empréstimos a "investidores" cleptocráticos e
disfuncionais, Papandreu, sempre receptivo aos banqueiros estrangeiros e seu
mentores políticos imperiais, escalou a repressão aos movimentos
sociais e sindicais. Em contrapartida, voou a Paris, Berlim e Washington a
prometer
mais cortes em orçamentos sociais, a mendigar por financiamento para
salvar o estado corrupto e a decadente classe dominante da Grécia.
Em Outubro de 2009 surgiu uma outra oportunidade histórica para
lançar um novo estado pós-capitalista, pondo um fim à
bancarrota do sistema económico clepto-especulador e dos seus
desacreditados apoiantes da direita. Ao invés disso, Outubro tornou-se
um pesadelo político. O regime Papandreu e seus robots parlamentares
foram muito além até mesmo dos anteriores regimes de direita
ao corroer padrões de vida, transferiu a concepção,
direcção e aplicação da retrógrada
política sócio-económica para a UE e Washington, os quais
em defesa das suas elites financeiras estão determinados a extrair
até a última libra de carne da classe trabalhadora do sector
público e privado.
A política de Papandreu é "salvar a economia" ... pela
sua destruição. Em meio a uma profunda recessão o seu
regime está a reduzir despesas e rendimentos e a aumentar impostos
regressivos sobre o consumo; uma fórmula segura para transformar uma
recessão numa depressão crónica. A missão
histórica do regimes Papandreu é abraçar o império
para salvar os ricos, não importa quantos anti-fascistas morram, quantos
trabalhadores desencantados, quantos pensionistas pauperizados tenham de pagar
o preço.
Conclusão
A história política da família Papandreu é uma
farsa trágica grega; a tragédia de um povo que travou o bom
combate contra os nazis e seus colaboradores só para ser canibalizado
pela ascensão dos régulos anglo-americanos. A luta heróica
dos estudantes da Universidade Politécnica (1973) contra a ditadura
militar apoiada pelos EUA acabou por testemunhar a ascensão de um
demagogo pseudo-populista (Andreas Papandreu) que prometia o socialismo
democrático e acabou por socializar as dívidas privadas dos
cleptocratas capitalistas. Agora vem o último (esperançosamente)
na
linha dos sicofantas imperiais (George Papandreu), que prometeu mudanças
progressivas e impôs políticas regressivas, enquanto entregava as
chaves do poder aos seus supervisores imperiais além-mar. Para
além das idiossincrasias da Grécia, a história dos regimes
social-democratas gregos ilustra o seu papel histórico como os
salvadores do capitalismo nas crises. É-lhes permitido, pelas elites
estrangeiras e interna, chegarem ao poder porque têm apoio popular para
implementar as duras políticas reaccionárias que os
desacreditados direitistas estabelecidos são demasiado fracos para
impor. Ao abraçar e forçar as suas políticas impopulares e
retrógradas, os sociais-democratas alienam profundamente os seus
apoiantes da classe trabalhadora e da classe média baixa cometem
suicídio político. Mas para os sociais-democratas, os Papandreus
da Europa, eles cumprem a sua finalidade: repelem a maré de
mudança radical ou revolucionária. Eles sacrificam os seus
regimes mas salvam o estado capitalista.
A mudança mais esperançosa e prometedora hoje é que a
mística Papandreu-PASOK se tenha evaporado; mesmo o mais leal
responsável sindical socialista não ousa levantar a mão
para permanecer no movimento ... nem ousam eles apontar um caminho
revolucionário de saída ... Assim, as greves gerais
continuarão ... os anarquistas lançarão os seus
mísseis ... os níveis de ira popular estão a crescer ... e
as lutas continuarão.
22/Março/2010
O original encontra-se em
http://globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=18255
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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