A guerra dos EUA contra o Iraque:
A destruição de uma civilização
por James Petras
Introdução
A guerra e ocupação do Iraque pelos EUA, que já dura
há sete anos, é ditada por várias importantes
forças políticas e serve uma série de interesses
imperialistas. Mas esses interesses não explicam, só por si, a
profundidade e o âmbito da maciça e prolongada
destruição, que continua, de toda uma sociedade e a sua
redução a um permanente estado de guerra. A gama de forças
políticas que contribuiu para o desencadear da guerra e a subsequente
ocupação americana, incluem as seguintes (por ordem de
importância):
A força política mais importante foi também a
última a ser discutida abertamente. A Zionist Power Configuration (ZPC),
que inclui o proeminente papel de apoiantes radicais incondicionais de longa
data do Estado de Israel, nomeados para altos cargos no Pentágono de
Bush (Douglas Feith e Paul Wolfowitz), operacionais chave no Gabinete do
Vice-Presidente (Irving (Scooter) Libby), no Departamento do Tesouro (Stuart
Levey), no Conselho Nacional de Segurança (Elliot Abrams) e uma falange
de consultores, redactores de discursos presidenciais (David Frum),
funcionários secundários e conselheiros políticos no
Departamento de Estado. Estes empenhados sionistas, inseridos na
administração, eram apoiados por milhares de funcionários
a tempo inteiro da Israel-First nas 51 principais organizações
judaicas americanas, que formam a President of the Major American Jewish
Organizations (PMAJO). Declaravam abertamente que a sua principal prioridade
era implementar a agenda de Israel que, neste caso, era uma guerra dos EUA
contra o Iraque para derrubar Saddam Hussein, ocupar o país, dividir
fisicamente o Iraque, destruir as suas capacidades militares e industriais e
impor um regime fantoche favorável a Israel e aos EUA. Se se fizesse uma
limpeza étnica no Iraque e este fosse dividido, conforme defendia o
primeiro-ministro israelense Benyamin Netanyahu, de extrema direita, e o
militarista-sionista e "liberal" Leslie Gelb, Presidente
Emérito do Conselho de Relações Externas, passaria a haver
vários 'regimes clientes'.
Inicialmente, os políticos de topo pró-Israel que promoveram a
guerra não avançaram directamente com a política de
destruir sistematicamente o que, na verdade, era toda a
civilização iraquiana. Mas o seu apoio e objectivo de uma
política de ocupação incluíam o total
desmembramento do aparelho de estado iraquiano e o recrutamento de conselheiros
israelenses para lhes proporcionar a sua 'perícia' em técnicas de
interrogatório, repressão da resistência civil e
contra-insurreição. Obviamente, a experiência israelense,
que Israel adquiriu na Palestina, contribuiu para fomentar a luta religiosa e
étnica entre os iraquianos. O 'modelo' israelense de guerra colonial e
ocupação a invasão do Líbano em 1982
e a prática de 'destruição total' utilizando a
divisão sectária, étnico-religiosa, foi evidente nos
conhecidos massacres nos campos de refugiados Sabra e Shatila em Beirute, que
se efectuaram sob a supervisão militar israelense.
A segunda poderosa força política por detrás da Guerra do
Iraque foram os militaristas civis (como Donald Rumsfeld e o vice-presidente
Cheney) que tentaram alargar o alcance imperialista dos EUA no Golfo
Pérsico e reforçar a sua posição
geo-política eliminando um forte e secular apoiante nacionalista da
insurreição árabe anti-imperialista no Médio
Oriente. Os militaristas civis procuraram alargar o cerco de bases militares
americanas à Rússia e assegurar o controlo sobre as reservas do
petróleo iraquiano como um ponto de pressão contra a China. Os
militaristas civis estavam menos interessados nas antigas
ligações do vice-presidente Cheney à indústria
petrolífera do que no papel dele como director-geral da Kellogg-Brown
and Root, a gigantesca construtora de bases militares, subsidiária da
Halliburton, que estava a consolidar o Império Americano através
da expansão de bases militares por todo o mundo. As maiores companhias
petrolíferas americanas, que receavam ser ultrapassadas pelos seus
concorrentes europeus e asiáticos, já andavam ansiosas para
negociar com Saddam Hussein, e alguns dos apoiantes de Bush na indústria
petrolífera já se tinham envolvido em negócios ilegais com
o regime iraquiano embargado. A indústria petrolífera não
estava inclinada a promover a instabilidade regional com uma guerra.
A estratégia militarista de conquista e ocupação foi
traçada para instaurar uma presença militar colonial a longo
prazo, sob a forma de bases militares estratégicas com um significativo
e prolongado contingente de conselheiros militares colonialistas e unidades de
combate. A brutal ocupação colonialista de um estado laico
independente, com uma forte história nacionalista e infra-estruturas
avançadas, com um sofisticado aparelho militar e policial, amplos
serviços públicos e uma literacia muito alargada, conduziu
naturalmente ao desenvolvimento de uma série de movimentos, militantes e
armados, contra a ocupação. Em resposta, os funcionários
coloniais americanos, a CIA e as organizações de defesa e
informações conceberam uma estratégia de 'dividir para
reinar' (a chamada 'solução El Salvador' associada ao
ex-embaixador e antigo director da National Intelligence, John Negroponte),
fomentando conflitos armados com uma base sectária e promovendo
assassinatos inter-religiosos para debilitar quaisquer esforços no
sentido de um movimento unificado, nacionalista e anti-imperialista. O
desmantelamento da burocracia civil laica e das forças armadas foi
traçado pelos sionistas da administração Bush para
reforçar o poder de Israel na região e para encorajar a subida de
grupos islâmicos militantes, que tinham sido reprimidos pelo deposto
regime baathista de Saddam Hussein. Israel já dominava esta
estratégia: inicialmente patrocinara e financiara grupos militantes
islâmicos sectários, como o Hamas, em alternativa à
Organização de Libertação da Palestina, laica, e
montara o cenário para a luta sectária entre os palestinos.
O resultado da política colonial americana foi financiar e multiplicar
uma ampla gama de conflitos internos, enquanto proliferavam mulás,
chefes tribais, gangsters políticos, senhores da guerra, expatriados e
esquadrões da morte. Esta 'guerra de todos contra todos' servia os
interesses das forças americanas de ocupação. O Iraque
tornou-se num ninho de jovens desempregados, armados, entre os quais se podia
recrutar um novo exército de mercenários. A 'guerra civil' e o
'conflito étnico' forneceram o pretexto para os EUA e os seus fantoches
iraquianos despedirem centenas de milhares de soldados, polícias e
funcionários do regime anterior (principalmente se eram de
famílias sunitas, mistas ou laicas) e minar a base do emprego civil. Sob
a capa da 'guerra contra o terrorismo' generalizada, as Forças Especiais
americanas e os esquadrões da morte dirigidos pela CIA espalharam o
terror no seio da cidade civil iraquiana, visando todo e qualquer suspeito de
crítica ao governo fantoche principalmente entre as classes
instruídas e profissionais, precisamente os iraquianos mais aptos para a
reconstrução de uma república laica independente.
A guerra do Iraque foi alimentada por um influente grupo de ideólogos
neo-conservadores e neo-liberais com fortes ligações a Israel.
Consideravam o êxito da guerra do Iraque (por êxito queriam dizer o
total desmembramento do país) como o primeiro 'dominó' numa
série de guerras para 're-colonizar' o Médio Oriente (conforme
diziam: "para corrigir o mapa"). Disfarçavam a sua ideologia
imperialista com uma fina camada de retórica sobre 'a
promoção de democracias' no Médio Oriente (excluindo,
claro, as políticas anti-democráticas da sua Israel 'natal' para
com os palestinos, por ela subjugados). Unindo as ambições
israelense de hegemonia regional com os interesses imperialistas dos EUA, os
neo-conservadores e os seus companheiros de viagem neo-liberais do Partido
Democrata, primeiro apoiaram o presidente Bush e depois o presidente Obama na
escalada das guerras contra o Afeganistão e o Paquistão. Apoiaram
unanimemente a selvagem campanha de bombardeamento de Israel contra o
Líbano, o ataque terrestre e aéreo e o massacre de milhares de
civis encurralados em Gaza, o bombardeamento de instalações
sírias e a forte pressão (de Israel) para um ataque militar
preventivo, de grande escala, contra o Irão.
Os defensores americanos de guerras sequenciais e múltiplas, em
simultâneo, no Médio Oriente e no sul da Ásia achavam que
só podiam desencadear toda a força do seu poder altamente
destrutivo depois de terem assegurado o controlo total da sua primeira
vítima, o Iraque. Estavam convencidos de que a resistência
iraquiana se desmoronaria rapidamente depois de 13 anos de brutais
sanções de fome impostas à república pelos EUA e
pelas Nações Unidas. A fim de consolidar o controlo imperial, os
políticos americanos decidiram silenciar permanentemente todos os
dissidentes iraquianos civis independentes. Viraram-se para o financiamento de
clérigos xiitas e de assassinos tribais sunitas e para a
contratação de muitos milhares de mercenários privados
entre os senhores da guerra curdos Peshmerga para que realizassem
assassínios selectivos de líderes de movimentos da sociedade
civil.
Os EUA criaram e treinaram um exército fantoche colonial de 200 mil
iraquianos, constituído quase exclusivamente por soldados xiitas e
excluíram os militares iraquianos experientes, de origem laica, sunita
ou cristã. Uma consequência pouco conhecida da
constituição destes esquadrões da morte, treinados e
financiados pelos americanos, e do seu exército fantoche 'iraquiano',
foi a destruição quase total da antiga população
iraquiana cristã, que foi desalojada, e viu as suas igrejas bombardeadas
e os seus líderes, bispos e intelectuais, académicos e
cientistas, assassinados ou exilados. Os conselheiros americanos e israelenses
sabiam muito bem que os iraquianos cristãos tinham desempenhado um papel
fundamental no desenvolvimento histórico dos movimentos laicos,
nacionalistas, anti-britânicos e anti-monárquicos, e a sua
eliminação enquanto força influente durante os primeiros
anos de ocupação americana não aconteceu por acaso. O
resultado da política dos EUA foi a eliminação da maior
parte dos líderes e dos movimentos anti-imperialistas,
democráticos e laicos e a apresentação da sua rede
assassina de colaboradores 'etno-religiosos' como seus 'parceiros'
incontestados a fim de sustentar a presença colonial americana a longo
prazo no Iraque. Com os seus fantoches no poder, o Iraque serviria de
plataforma de lançamento para a sua perseguição
estratégica dos outros 'dominós' (Síria, Irão,
repúblicas da Ásia central
).
A prolongada purga sangrenta do Iraque durante a ocupação
americana resultou na matança de 1,3 milhão de civis iraquianos
durante os primeiros sete anos após a invasão de Bush em
Março de 2003. Até meados de 2009, a invasão e a
ocupação do Iraque custou oficialmente ao tesouro americano mais
de 666 mil milhões de dólares. Esta despesa enorme atesta a sua
centralidade na estratégia imperialista mais alargada dos EUA para toda
a região do Médio Oriente e da Ásia do sul e central. A
política de Washington para politizar e militarizar as diferenças
etno-religiosas, armar e encorajar líderes tribais, religiosos e
étnicos rivais a entrar numa sangria mútua, serviu para destruir
a unidade e a resistência nacionais. A táctica de 'dividir para
reinar' e o apoio nas organizações sociais e religiosas
retrógradas é a prática mais vulgar e mais conhecida de
conseguir a conquista e a subjugação de um estado nacionalista,
unificado e avançado. A destruição do estado nacional,
pela eliminação da consciência nacionalista e encorajamento
das primitivas fidelidades etno-religiosas, feudais e regionais, exigia a
destruição sistemática dos principais transmissores dessa
consciência nacionalista, da memória histórica e do
pensamento científico laico. O fomento de ódios etno-religiosos
destruiu casamentos mistos, destruiu comunidades e instituições
mistas onde existiam amizades pessoais de longa data e laços
profissionais entre gente de diversas origens. A eliminação
física de académicos, escritores, professores, intelectuais,
cientistas e técnicos, em especial médicos, engenheiros,
advogados, juristas e jornalistas foi decisiva para impor a regra
etno-religiosa sob uma ocupação colonial. A fim de instaurar um
domínio a longo prazo e apoiar os dirigentes etno-religiosos seus
clientes, os EUA e os seus fantoches iraquianos destruíram fisicamente
todo o edifício cultural preexistente, que sustentava um estado
nacionalista laico independente. Isso incluiu a destruição das
bibliotecas, dos gabinetes de recenseamento, e dos arquivos de todos os
registos de propriedade e dos tribunais, dos departamentos de saúde, dos
laboratórios, das escolas, dos centros culturais, das
instalações médicas e, sobretudo, de toda a classe de
profissionais das áreas científica, literária, social, de
ciências sócio-humanísticas. O terror levou centenas de
milhares de profissionais iraquianos e seus familiares a um exílio
interno e externo. Todo o financiamento às instituições
nacionais laicas, científicas e educativas, foi cortado. Os
esquadrões da morte empenhados no assassínio sistemático
de milhares de académicos e profissionais suspeitavam do mais
ínfimo dissidente, do mais ínfimo sentimento nacionalista; quem
quer que apresentasse a mais pequena capacidade de reconstruir a
república ficava marcado.
A destruição de uma civilização árabe moderna
O Iraque laico, independente, tinha o estatuto científico-cultural mais
avançado do mundo árabe, apesar da natureza repressiva do estado
policial de Saddam Hussein. Havia um sistema nacional de cuidados de
saúde, instrução pública universal e abundantes
serviços de previdência, aliados a níveis de igualdade de
sexo sem precedentes. Era isto que distinguia a natureza avançada da
civilização iraquiana no final do século XX. A
separação entre igreja e estado e a estrita
protecção das minorias religiosas (cristãos,
assírios e outros) contrasta fortemente com o que resultou da
ocupação americana e da destruição das estruturas
governamentais e civis iraquianas. O cruel domínio ditatorial de Saddam
Hussein presidia assim a uma civilização moderna, altamente
desenvolvida, em que o trabalho científico avançado andava de
mãos dadas com uma forte identidade nacionalista e anti-imperialista.
Isso verificou-se principalmente nas expressões de solidariedade do povo
e do regime iraquianos em relação à sujeição
do povo palestino ao domínio e ocupação israelense.
Uma simples 'mudança de regime' não conseguiria extirpar esta
avançada cultura laica republicana profundamente entranhada no Iraque.
Os arquitectos da guerra nos EUA e os seus conselheiros israelenses estavam bem
conscientes de que a ocupação colonial aumentaria a
consciência nacionalista iraquiana a não ser que essa
nação laica fosse destruída e, por isso, era um imperativo
imperialista desenraizar e destruir os transmissores da consciência
nacionalista através da eliminação física dos
instruídos, dos talentosos, dos científicos, ou seja, dos
elementos mais laicos da sociedade iraquiana. O retrocesso tornou-se no
instrumento principal que os EUA impuseram aos seus fantoches coloniais, com as
suas fidelidades primitivas, 'pré-nacionais', e que estavam no poder
numa Bagdad culturalmente purgada, privada dos seus estratos sociais mais
sofisticados e nacionalistas.
Segundo o Centro de Estudos Al-Ahram do Cairo, durante os primeiros 18 meses da
ocupação americana, foram eliminados mais de 310 cientistas
iraquianos um número que o ministro da Educação
iraquiano não contestou.
Um outro relatório listou as mortes de mais de 340 intelectuais e
cientistas entre 2005 e 2007. Os bombardeamentos de institutos superiores de
ensino fizeram baixar as inscrições para 30% do número
anterior à invasão. Num bombardeamento em Janeiro de 2007,
à Universidade Mustansiriya de Bagdad, foram mortos 70 estudantes e
ficaram feridos centenas. Estes números obrigaram a UNESCO a alertar que
o sistema universitário do Iraque estava à beira do colapso. O
número de cientistas e profissionais proeminentes iraquianos que fugiram
do país aproximou-se dos 20 mil. O
Los Angeles Times
noticiou que, dos 6 700 professores universitários iraquianos que
fugiram desde 2003, apenas 150 tinham regressado até Outubro de 2008.
Apesar das declarações dos EUA sobre a melhoria das
condições de segurança, em 2008 assistiu-se a
inúmeros assassínios, incluindo o do único
neurocirurgião em exercício em Basra, a segunda maior cidade do
Iraque, cujo corpo foi abandonado nas ruas da cidade.
Os dados por alto sobre os académicos, cientistas e profissionais
iraquianos assassinados pelos EUA e forças de ocupação
aliadas, e pelas milícias e forças secretas por eles controlados
foram retirados duma lista publicada pelo
Pakistan Daily News
(
www.daily.pk
) em 26 de Novembro de 2008. Esta lista contribui para uma
leitura muito desconfortável da realidade quanto à
eliminação sistemática de intelectuais no Iraque sob a
máquina trituradora da ocupação americana.
Assassínios
A eliminação física de um indivíduo por
assassínio é uma forma extrema de terrorismo, que tem efeitos de
longo alcance repercutindo por toda a comunidade a que esse indivíduo
pertence neste caso o mundo iraquiano dos intelectuais,
académicos, profissionais e líderes criativos nas artes e nas
ciências. Por cada intelectual iraquiano assassinado, milhares de
iraquianos instruídos fugiram do país ou abandonaram o seu
trabalho em troca de uma actividade mais segura e menos vulnerável.
Bagdad era considerada a 'Paris' do mundo árabe, quanto à cultura
e arte, ciência e educação. Nos anos 70 e 80, as suas
universidades eram a inveja do mundo árabe. A campanha americana de
'choque e terror' que se abateu sobre Bagdad suscitou emoções
idênticas a um bombardeamento aéreo do Louvre, da Sorbonne ou das
maiores bibliotecas da Europa. A Universidade de Bagdad era uma das
universidades mais prestigiadas e mais produtivas do mundo árabe. Muitos
dos seus académicos possuíam graus de doutoramento e estavam
envolvidos em estudos pós-doutoramento em instituições
prestigiadas, no estrangeiro. Ensinou e formou muitos dos profissionais e
cientistas de topo no Médio Oriente. Mesmo debaixo do aperto mortal das
sanções económicas impostas pelos EUA/ONU, que espalharam
a fome pelo Iraque durante os 13 anos anteriores à invasão de
Março de 2003, entraram no Iraque milhares de estudantes graduados e de
jovens profissionais para formação
pós-graduação. Jovens médicos de todo o mundo
árabe receberam treino médico avançado nas suas
instituições. Muitos dos seus académicos apresentaram
comunicações científicas em importantes conferências
internacionais, e escreveram artigos em jornais prestigiados. Mais importante
ainda, a Universidade de Bagdad formava e mantinha uma cultura
científica laica, profundamente respeitada, liberta de qualquer
discriminação sectária com académicos de
todas as origens étnicas e religiosas.
Este mundo foi estilhaçado para sempre: sob a ocupação
americana, até Novembro de 2008, foram assassinados oitenta e três
académicos e investigadores que ensinavam na Universidade de Bagdad e
vários milhares dos seus colegas, estudantes e familiares foram
forçados a fugir.
Selecção de académicos assassinados por disciplina
O artigo de Novembro de 2008, publicado pelo
Pakistan Daily News,
lista os nomes de um total de 154 académicos de topo com base em
Bagdad, conhecidos nas suas áreas, que foram assassinados. No conjunto,
um total de 281 intelectuais bem conhecidos que ensinavam nas principais
universidades do Iraque, caíram vítimas dos 'esquadrões da
morte' sob a ocupação americana.
Antes da ocupação americana, a Universidade de Bagdad
possuía a principal faculdade de investigação e ensino de
medicina em todo o Médio Oriente que atraía centenas de jovens
médicos para formação avançada. Esse programa foi
devastado durante a ascensão do regime dos EUA e dos esquadrões
de morte, com poucas perspectivas de recuperação. Dos
assassinados, 25% (21) eram os professores mais antigos e os leitores da
faculdade médica da Universidade de Bagdad, a percentagem mais alta de
todas as faculdades. A segunda percentagem mais alta de faculdade trucidada
foram os professores e investigadores da afamada faculdade de engenharia da
Universidade de Bagdad (12), seguida pelos académicos de topo em
humanidades (10), ciências físicas e sociais (8 académicos
seniores em cada), educação (5). Os restantes académicos
de topo da Universidade de Bagdad, assassinados, distribuíam-se pelas
faculdades de agronomia, gestão, educação física,
comunicações e estudos religiosos.
Em três outras universidades de Bagdad, foram chacinados 53
académicos seniores, incluindo 10 nas ciências sociais, 7 na
faculdade de direito, em medicina e humanidades 6 cada, 9 em ciências
físicas e 5 em engenharia. Antes da invasão, em 20 de Agosto de
2002, o secretário da Defesa Rumsfeld gracejou, "
temos que
partir do princípio que eles (os cientistas) não têm andado
a brincar "joguinhos infantis" (justificando a purga sangrenta de
cientistas de física e química do Iraque). Um aviso sinistro para
o banho de sangue dos académicos que se seguiu à invasão.
Em todas as universidades da província ocorreram semelhantes purgas
sangrentas de académicos: 127 académicos e cientistas seniores
foram assassinados nas várias universidades, bem cotadas, em Mosul,
Kirkuk, Basra e noutros locais. As universidades provinciais com o maior
número assassínios de membros seniores de faculdades situavam-se
nas cidades em que os militares americanos e britânicos e os seus aliados
mercenários curdos estiveram mais activos: Basra (35), Mosul (35),
Diyala (15) e Al-Anbar (11).
Os militares iraquianos e os esquadrões de morte seus aliados executaram
a maior parte da matança de académicos nas cidades sob controlo
americano ou 'aliado'. O assassínio sistemático de
académicos foi um movimento à escala nacional, multi-disciplinar,
para destruir as bases culturais e educacionais duma civilização
árabe moderna. Os esquadrões de morte que efectuaram a maior
parte desses assassínios eram grupos etno-religiosos primitivos,
pré-modernos, "deixados à solta" ou instrumentalizados
por estrategas militares americanos para varrer quaisquer intelectuais e
cientistas nacionalistas politicamente conscientes, que pudessem lutar por um
programa de reconstrução de uma república unificada,
independente, moderna, de sociedade laica.
No seu pânico para impedir a invasão pelos EUA, o Directorado
Nacional de Monitorização Iraquiano forneceu à oNU, em 7
de Dezembro de 2002, uma lista que identificava mais de 500 cientistas
iraquianos importantes. Não restam dúvidas de que essa lista veio
a ser um elemento chave para a lista de alvos das forças militares
americanas, para eliminação da elite científica do Iraque.
No conhecido discurso pré-invasão nas Nações
Unidas, o secretário de Estado Colin Powell citou uma lista de mais de 3
500 cientistas e técnicos iraquianos que teriam que ser 'contidos' a fim
de evitar que os seus conhecimentos fossem utilizados por outros países.
Os EUA criaram mesmo um 'orçamento' de centenas de milhões de
dólares, retirados do dinheiro iraquiano "Petróleo em troca
de alimentos", nas mãos das Nações Unidas, para
instituir programas de "reeducação civil" a fim de
re-treinar cientistas e engenheiros iraquianos. Estes programas fortemente
publicitados nunca foram verdadeiramente implementados. Tornou-se claro quais
eram as formas mais baratas de conter o que um especialista político
americano designou por 'excesso de cientistas, engenheiros e técnicos'
do Iraque num Documento da Carnegie Endowment (Política RANSAC, Abril de
2004). Os EUA tinham decidido adoptar e alargar a operação
secreta do Mossad israelense de assassinar importantes cientistas iraquianos
seleccionados, à escala industrial.
As campanhas americanas 'arrasar' e 'auge de assassínios': 2006-2007
A maré alta do terror contra os académicos coincide com a
renovação da ofensiva militar americana em Bagdad e nas
províncias. Do número total de assassínios de
académicos com base em Bagdad, para os quais está registada uma
data (110 conhecidos intelectuais chacinados), quase 80% (87) ocorreram em 2006
e 2007. Encontra-se um padrão semelhante nas províncias com 77%
de um total de 84 intelectuais assassinados fora da capital durante o mesmo
período. O padrão é claro: a taxa de assassínios de
académicos aumenta quando as forças americanas de
ocupação organizam uma força militar e policial de
mercenários iraquianos e entram com dinheiro para o treino e
recrutamento de homens das tribos rivais xiitas e sunitas e de milícias
como modo de reduzir as baixas americanas e de expurgar potenciais dissidentes
críticos da ocupação.
A campanha de terror contra académicos intensificou-se em meados de 2005
e atingiu o auge em 2006-2007, levando à fuga maciça de dezenas
de milhares de iraquianos intelectuais, cientistas, técnicos e suas
famílias. Faculdades inteiras de escolas médicas
universitárias passaram a refugiar-se na Síria e noutros locais.
Os que não puderam abandonar pais ou parentes idosos que ficaram no
Iraque, tomaram medidas extraordinárias para esconder as suas
identidades. Alguns optaram por colaborar com as forças de
ocupação americanas ou com o regime fantoche na esperança
de serem protegidos ou autorizados a imigrar com as suas famílias para
os EUA ou para a Europa, embora os europeus, em especial os britânicos,
não se mostrem muito inclinados a aceitar intelectuais iraquianos.
Depois de 2008, houve uma forte redução no assassínio de
académicos só foram assassinados quatro nesse ano, o que
reflecte sobretudo a fuga maciça de intelectuais iraquianos a viver no
estrangeiro ou na clandestinidade e não qualquer mudança de
política por parte dos EUA e dos seus fantoches mercenários. Por
conseguinte, as instalações de investigação do
Iraque foram dizimadas. As vidas do restante pessoal de apoio, incluindo
técnicos, bibliotecários e estudantes ficaram devastadas com
poucas perspectivas para empregos futuros.
A guerra e a ocupação americana do Iraque, conforme declararam os
presidentes Bush e Obama, é um 'êxito' uma
nação independente de 23 milhões de cidadãos foi
ocupada pela força, foi instalado um regime fantoche, tropas
mercenárias coloniais obedecem aos oficiais americanos e os campos
petrolíferos foram postos à venda. Todas as leis nacionalistas do
Iraque que protegiam o seu património, os seus tesouros culturais e os
seus recursos nacionais foram anuladas. Os ocupantes impuseram uma
'constituição' que favorece o Império Americano. Israel e
os seus lacaios sionistas, tanto na administração de Bush como na
de Obama, festejam a derrota de um adversário moderno
e a
transformação do Iraque num deserto cultural e político.
Em linha com um alegado acordo feito pelo Departamento de Estado americano e
por funcionários do Pentágono com coleccionadores influentes do
Conselho Americano para a Política Cultural, em Janeiro de 2003, os
tesouros pilhados da antiga Mesopotâmia 'encontraram' o seu destino nas
colecções das elites em Londres, Nova Iorque e outros
sítios. Os coleccionadores podem agora ficar à espera da pilhagem
do Irão.
Aviso ao Irão
A invasão e ocupação americanas e a
destruição duma civilização moderna,
científico-cultural, como a que existia no Iraque, é um
prelúdio do que o povo do Irão pode esperar se e quando ocorrer
um ataque militar EUA-Israel. A ameaça imperial aos fundamentos
culturais e científicos da nação iraniana esteve
totalmente ausente do discurso de protesto dos estudantes iranianos e das suas
ONGs financiadas pelos EUA durante as manifestações de protesto
da 'Revolução do Baton' a seguir às
eleições. Os estudantes deviam ter presente que, em 2004,
iraquianos instruídos e sofisticados em Bagdad se consolavam com um
optimismo fatalmente deslocado de que 'pelo menos não somos como o
Afeganistão'. Essa mesma elite encontra-se hoje em sórdidos
campos de refugiados na Síria e na Jordânia e o país deles
parece-se mais com o Afeganistão do que outro qualquer no Médio
Oriente. Cumpriu-se a promessa arrepiante do presidente Bush em Abril de 2003
de transformar o Iraque na imagem do 'nosso recém libertado
Afeganistão'. E as notícias de que os conselheiros da
administração dos EUA analisaram a política do Mossad
israelense para assassínio selectivo de cientistas iranianos deviam
levar os intelectuais liberais pró-ocidentais de Teerão a
ponderar seriamente a lição da campanha criminosa que
praticamente eliminou os cientistas e académicos iraquianos durante
2006-2007.
Conclusão
O que é que os Estados Unidos (e a Grã-Bretanha e Israel) ganham
em instaurar no Iraque um regime cliente retrógrado, com base em
estruturas medievais etno-clericais e sócio-políticas? Primeiro e
acima de tudo, o Iraque passou a ser um posto avançado para o
império. Em segundo lugar, é um regime fraco e atrasado incapaz
de desafiar o domínio económico e militar israelense na
região e que não está interessado em pôr em causa a
limpeza étnica em curso dos nativos árabes palestinos de
Jerusalém, da Margem Ocidental e de Gaza. Em terceiro lugar, a
destruição dos alicerces científicos, académicos,
culturais e legais de um estado independente traduz-se numa dependência
crescente das corporações multinacionais ocidentais (e chinesas)
e das suas infra-estruturas técnicas facilitando a
penetração económica imperialista e a
exploração.
Nos meados do século XIX, depois das revoluções de 1949, o
sociólogo francês conservador Emil Durkheim reconhecia que a
burguesia europeia estava a ser confrontada com um aumento de conflitos de
classes e com o crescimento de uma classe operária anti-capitalista.
Durkheim assinalava que, quaisquer que fossem as suas dúvidas
filosóficas sobre religião e clericalismo, a burguesia teria que
usar os mitos da religião tradicional para 'criar' a coesão
social e combater a polarização de classes. Apelava à
classe capitalista parisiense, instruída e sofisticada, para esquecer a
sua rejeição do dogma religioso obscurantista a favor da
instrumentalização da religião como meio para manter o seu
domínio político. Do mesmo modo, os estrategas americanos,
incluindo o Pentágono-Sionistas, instrumentalizaram as forças
etno-religiosas dos mulás tribais para destruir a liderança
política nacional laica e a cultura avançada iraquiana a fim de
consolidar o seu domínio imperial mesmo que essa
estratégia exigisse a eliminação das classes
científica e profissional. O domínio imperialista
contemporâneo dos EUAS baseia-se no apoio aos sectores social e
politicamente mais retrógrados da sociedade e na
implementação da mais avançada tecnologia de guerra.
Os conselheiros israelenses desempenharam um papel fundamental na
instrução das forças de ocupação americanas
no Iraque quanto às práticas de contra-insurreição
urbana e de repressão de civis, adquiridas nos seus 60 anos de
experiência. O infame massacre de centenas de famílias palestinas
em Deir Yasin em 1948 foi emblemática da eliminação
sionista de centenas de aldeias agrícolas produtivas, que se encontravam
instaladas há séculos pela população nativa, com a
sua civilização endógena e laços culturais com a
terra, a fim de impor uma nova ordem colonial. A política de total
desenraizamento dos palestinos é fundamental nos conselhos de Israel aos
políticos americanos no Iraque. A sua mensagem foi implementada pelos
seus acólitos sionistas nas administrações de Bush e de
Obama, ordenando o desmembramento de toda a burocracia civil e estatal moderna
iraquiana e usando os esquadrões de morte tribais pré-modernos
constituídos por extremistas curdos e xiitas para expurgar as
universidades modernas e as instituições de
investigação desta nação em estilhaços.
A conquista imperial americana do Iraque repousa sobre a
destruição duma república laica moderna. O deserto
cultural que resta (uma 'desolação lamentosa' bíblica
ensopada pelo sangue dos preciosos intelectuais do Iraque) é controlado
por mega-vigaristas, criminosos mercenários armados em
'funcionários iraquianos', iletrados culturais tribais e étnicos,
e figuras religiosas medievais. Operam sob a orientação e
direcção de graduados de West Point, que defendem 'projectos para
o império', formulados por graduados de Princeton, Harvard, Johns
Hopkins, Yale e Chicago, ansiosos em servir os interesses das
corporações multinacionais americanas e europeias.
Chama-se a isto 'desenvolvimento combinado e desigual': O casamento de
mulás fundamentalistas com sionistas da Ivy League ao serviço dos
EUA.
O original encontra-se em
www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=14870
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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