O significado mais profundo da espionagem em massa nos EUA
por James Petras
A
revelação
de que o regime utiliza a Agência de Segurança Nacional (NSA na
sigla em inglês) para espionar secretamente as comunicações
de
centenas de milhões
de cidadãos dos EUA e do estrangeiro provocou denúncias à
escala mundial.
Nos Estados Unidos, apesar da cobertura generalizada dos mass media e da
oposição de organizações de liberdades civis,
não houve qualquer protesto em massa. Líderes do Congresso tanto
do Partido Republicano como do Democrata, bem como juízes de alta
hierarquia, aprovaram o programa sem precedente de espionagem interna. Ainda
pior, quando as operações de espionagem generalizada foram
reveladas,
importantes líderes do Senado e do congresso reiteraram seu
endosso
a toda intrusão nas comunicações electrónicas e
escritas envolvendo cidadãos americanos. O presidente Obama e seu
Procurador-Geral defenderam aberta e vigorosamente as
operações de espionagem universal
da NSA.
As questões levantadas por este vasto aparelho de polícia secreta
e sua
penetração
e
controle
sobre a sociedade civil, desrespeitando a liberdade de expressão dos
cidadãos, vão para além das meras
"violações de privacidade", tal como foi salientado por
muitos peritos legais.
A maior parte dos libertários civis centra-se nas
violações
de direitos
individuais, garantias constitucionais
e na privação de direitos dos cidadãos. Estas
questões legais
são
importantes e os críticos estão certos ao levantá-las.
Contudo, estas críticas constitucionais-legais não vão
suficientemente longe; elas deixam de levantar questões ainda mais
fundamentais; elas evitam questões políticas básicas.
Por que um aparelho maciço de polícia de estado e de espionagem
universal se tornou tão central para o regime dominante? Por que toda a
liderança executiva, legislativa e judicial veio a público para
um repúdio tão desavergonhado de todas as garantias
constitucionais? Por que líderes eleitos defendem a espionagem
política universal contra a cidadania? Que espécie de
política exige um estado policial? Que espécie de
políticas interna e externa a longo prazo e em grande escala ilegais e
inconstitucionais exigem a construção de uma vasta rede de
espiões internos e 100 mil milhões de dólares de
infraestrutura corporativa-estatal de tecno-espionagem num período de
"austeridade" orçamental com o retalhamento de programas
sociais?
O segundo conjunto de questões decorre da utilização dos
dados de espionagem. Até então a maior parte dos críticos
questionou a existência da espionagem de estado maciça mas evitou
a questão vital de
que medidas são tomadas
pelos mestres dos espiões quando visam indivíduos, grupos e
movimentos? A questão essencial é: Que represálias e
sanções se seguem à "informação"
que eles coleccionaram, classificaram e tornaram operacional através
destas redes maciças de espionagem interna? Agora que o
"segredo" desta super-abrangente espionagem política do estado
entrou na discussão pública, o próximo passo deveria ser
revela as
operações
secretas que se seguem contra aqueles que os patrões dos espiões
consideram como um "risco para a segurança nacional".
A política por trás da Polícia de Estado
A razão fundamental para a conversão do estado num gigantesco
aparelho de espionagem é a natureza profundamente destrutiva das
políticas interna e externa que o governo tem aplicado tão
vigorosamente. A vasta expansão do aparelho de polícia do estado
não é uma resposta ao ataque terrorista de 11/Set. O crescimento
geométrico de espiões, orçamentos de polícia
secreta e a ampla intrusão em todas as comunicações dos
cidadãos coincide com as guerras por todo o globo. As decisões de
militarizar a política global dos EUA exigem uma vasta
redistribuição orçamental, retalhamento de despesas
sociais para financiar a construção do império; triturar a
saúde pública e a segurança social para salvar a Wall
Street. Estas são políticas que promovem grandemente lucros para
banqueiros e corporações ao mesmo tempo que impõem
impostos regressivos sobre o salário e os trabalhadores assalariados.
Guerras prolongadas e extensas no exterior foram financiadas a expensas do
bem-estar dos cidadãos no país. Esta política levou ao
declínio de padrões de vida para muitas dezenas de milhões
de cidadãos e ao aumento da insatisfação. O potencial de
resistência social como evidenciado pelo breve movimento "Occupy
Wall Street" foi endossado por mais de 80% da população. A
resposta positiva alarmou o estado e levou a uma escalada de medidas de
polícia de estado. A espionagem em massa é concebida para
identificar os cidadãos que se opõem tanto a guerras imperiais
como à destruição do bem-estar interno,
etiquetá-los como "ameaças à segurança"
é um meio de controlá-los através da
utilização de poderes policiais arbitrários. A
expansão dos poderes de guerra do Presidente tem sido acompanhada pelo
crescimento e âmbito do aparelho de espionagem do estado: quanto o
Presidente ordena ataques com drones além-mar e maior o número
das suas intervenções militares, maior a necessidade para a elite
política que cerca o Presidente de aumentar o seu policiamento dos
cidadãos na expectativa de uma reacção popular adversa.
Neste contexto, a política de espionagem em massa é tomada como
uma "acção preventiva". Quanto maiores as
operações da polícia de estado, maior o medo e a
insegurança entre cidadãos dissidentes e activistas.
O assalto aos padrões de vida de americanos trabalhadores e da classe
média a fim de financiar as séries de guerras infindáveis,
e não a assim chamada "guerra ao terror", é a
razão porque o estado tem desenvolvido ciber guerra maciça contra
a cidadania estado-unidense. A questão não é apenas de uma
violação do direito de privacidade individual: é
fundamentalmente uma questão de violação dos direitos
colectivos de cidadãos organizados para livremente empenharem-se na
oposição pública a políticas
sócio-económicas regressivas e questionar o império. A
proliferação de instituições burocráticas
permanente, com mais de um milhão de "coleccionadores de
dados" de segurança, é acompanhada por dezenas de milhares
de "operadores de campo", analistas e investigadores
(inquisitors)
a actuarem arbitrariamente para designar cidadãos dissidentes como
"riscos de segurança" e
imporem represálias
conforme as
necessidades políticas
dos seus patrões que dirigem a política. O aparelho de
polícia estatal tem as suas próprias regras de
auto-protecção e auto-perpetuação; tem as suas
próprias ligações e ocasionalmente pode competir com o
Pentágono. A polícia de estado enlaça-se e protege os
mestres da Wall Street e os propagandistas dos mass media mesmo quando
(deve) espioná-los!
A polícia de estado é um instrumento do Ramo Executivo a actuar
como um veículo para a sua arbitrária prerrogativa de poderes.
Contudo, em matérias administrativas, ela possui um grau
"autonomia" para visar comportamento dissidente. O que é claro
é o alto grau de coesão, disciplina vertical e defesa
mútua, acima e abaixo na hierarquia. O facto de um denunciante
(whistle-blower),
Edward Snowden, emergir dentre as centenas de milhares de cidadãos
espiões é a excepção, o denunciante
solitário, o qual confirma a regra. Há menos desertores entre os
milhões de membros da rede de espionagem dos EUA do que em todas as
famílias da Máfia na Europa e na América do Norte.
O aparelho de espionagem interna opera com impunidade devido à sua rede
de poderosos aliados internos
e externos.
Toda a liderança bi-partidária do Congresso compartilha o
segredo e é cúmplice com as suas operações. Ramos
relacionados do governo, como o Internal Revenue Service, cooperam
proporcionando informação e perseguindo grupos políticos e
indivíduos visados. Israel é um aliado além-mar chave da
Agência de Segurança Nacional, como tem sido documentado na
imprensa israelense (
Haaretz
, June 8, 2013). Duas firmas israelenses de alta tecnologia (Verint e Narus)
com ligações à política secreta israelense (Mossad)
forneceram o
software espião
à NSA e isto, naturalmente, abriu uma janela para a espionagem
israelense nos EUA contra americanos que se opõem ao estado sionista. O
escritor e crítico Steve Lendeman destaca que patrões de
espiões israelenses através do seu software em "companhias
de fachada" têm desde há muito a capacidade para "roubar
propriedade comercial e dados industriais" com impunidade. E devido ao
poder e influência dos presidentes das 52 Principais
Organizações Judias Americanas, responsáveis do
Departamento de Justiça ordenaram que dúzias de casos de
espionagem israelense fossem arquivados. Os estreitos laços israelenses
com o aparelho de espionagem dos EUA servem para impedir um exame mais profundo
da sua operação e objectivos políticos a um
preço muito elevado em termos da segurança de cidadãos
estado-unidenses. Em anos recentes dois incidentes se destacam:
"peritos" israelenses em segurança foram contratados para
aconselhar o Departamento de Segurança Interna da Pennsylvania
(Department of Homeland Security, DHS)
na sua investigação e repressão "estilo Stasi"
[NR]
de críticos do governo e activistas ambientais (comparados pelos
israelenses a "terroristas da Al Qaeda) cuja descoberta em 2010
obrigou à demissão do Director do DHS James Powers. Em 2003, o
governador de Nova Jersey, Jim McGreevy, nomeou sua amante, uma operacional do
governo israelense e antiga oficial IDF, como chefe do Departamento de
Segurança Interna do estado e posteriormente demitiu-se, denunciando a
israelense, Golan Cipel, for chantageá-lo no fim de 2004. Estes exemplos
são uma pequena amostra da profundidade e alcance das tácticas da
polícia de estado israelense que se entrecruzam na repressão
interna nos EUA.
As consequências políticas e económicas da espionagem de
Estado
As denúncias das
operações de espionagem em massa
são um passo positivo, na medida em que avancem. Mas é
igualmente importante a questão de
o que se segue ao acto de espionar?
Sabemos agora que centenas de milhões de americanos estão a ser
espiados pelo estado. Sabemos que a espionagem em massa é
política oficial do Executivo e é aprovada pelos líderes
do Congresso. Mas
temos apenas informação fragmentada sobre as medidas repressivas
resultantes das investigações de "indivíduos
suspeitos". Podemos assumir que há uma divisão de trabalho
entre coleccionadores de dados, analistas de dados e operacionais de campo que
perseguem "indivíduos e grupos de risco", com base em
critérios internos conhecidos só pela polícia secreta. Os
operacionais chaves da espionagem são aqueles que concebem e aplicam o
critério para designar alguém como um "risco de
segurança". Indivíduos e grupos que exprimem visões
críticas da política interna e externa são "um
risco", aqueles que actuam para protestas são um "risco mais
alto"; aqueles que viajam para regiões de conflito são
presumidos estarem na categoria do "risco mais elevado", mesmo que
não tenham violado qualquer lei. A questão da legalidade dos
pontos de vista e acções de um cidadão não entra na
equação dos patrões dos espiões; nem tão
pouco quaisquer questões respeitantes à legalidade dos actos
cometidos pelos espiões contra cidadãos. O critério
definindo um risco de segurança sobrepõe-se a quaisquer
considerações e salvaguardas constitucionais.
Sabemos a partir de um grande número de casos publicados que
críticos cumpridores da lei, ilegalmente espionados, foram
posteriormente presos, examinados e encarcerados suas vidas e as dos
seus amigo e membros da família foram destruídas. Sabemos que
centenas de lares, lugares de trabalho e escritórios de suspeitos foram
invadidos de surpresa em "expedições de busca"
("fishing expeditions").
Sabemos que membros da família, associados, vizinhos, clientes e
patrões de "suspeitos" foram interrogados, pressionados e
intimidados. Acima de tudo, sabemos que dezenas de milhões de
cidadãos cumpridores da lei, mas críticos da política
económica interna e das guerras além-mar, foram censurados devido
ao receio muito real das operações maciças executadas pela
polícia de estado. Nesta atmosfera de intimidação,
qualquer conversação crítica ou palavra falada em qualquer
contexto ou difundido através dos media pode ser interpretada por
espiões sem nome e sem rosto como uma "ameaça à
segurança" e o seu nome pode entrar nas listas secretas
sempre crescentes de "terroristas potenciais". A simples
presença e dimensões da polícia de estado é
intimidatória. Apesar de haver cidadãos a afirmar que a
polícia de estado é necessária a fim de serem protegidos
de terroristas, quantos outros sentir-se-ão obrigados a abraçar o
seu estado terroristas só para afastar qualquer suspeita, com a
esperança de permanecer fora das listas crescentes? Quantos americanos
com mentalidade crítica agora temem o estado e nunca dirão em
público o que murmuram em casa?
Quanto maior a polícia secreta, maiores as suas operações.
Quanto mais regressiva a política económica interna, maior o medo
e o ódio da elite política.
Mesmo quando o Presidente Obama e seus parceiros democratas e republicanos se
jactam acerca da sua polícias de estado e da sua eficaz
"função de segurança", a vasta maioria dos
americanos estão a tornar-se conscientes de que o medo instilado dentro
de casa serve ao interesse de travar guerras imperiais no exterior; que a
covardia face às ameaças da polícia de estado só
encoraja novos cortes nos seus padrões de vida. Quando aprenderão
eles que
revelar
espionagem é apenas o princípio de uma solução?
Quando reconhecerão que
acabar
com a polícia de estado é essencial para desmantelar o
império caro e criar uma América segura e próspera?
14/Junho/2013
[NR] A comparação é injusta para com a Stasi, que
enfrentava inimigos reais e acções de sabotagem contra a RDA.
Ver também:
The Government’s Spying Is Not As Bad As The Whistleblower Said ... It’s WORSE
The Obama Regime: What the NSA Revelations Tell Us about America’s Police State
The Making of a Global Security State
O original encontra-se em
http://petras.lahaine.org/?p=1943
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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