Carta Aberta ao General Petraeus
Soube pelo
Manchester Guardian,
pelo
New York Times,
pelo
Wall Street Journal
e pelo
Washington Post
que o senhor tem umas credenciais académicas e militares
impecáveis. Bush nomeou-o "Comandante das Forças
Multinacionais no Iraque", e portanto o senhor pode agora implementar as
suas tão publicitadas teorias contra-insurreccionais. O senhor é
quase meu homónimo visto que tem uma versão romanizada do
meu nome helenizado (Petraeus/Petras). Chamam-lhe um 'guerreiro' ou
'intelectual contra-insurreccional'. Eu possuo credenciais como 'intelectual
insurrecto' ou como diz Alex Cockburn 'um membro cinquentenário na luta
de classes'. Os seus publicitários classificaram-no como 'a melhor
última esperança da América para a salvação
(do império) no Iraque'. Previsivelmente os Democratas no Congresso,
liderados pelo senador Clinton caíram de joelhos em oração
e apoio ao seu profissionalismo e registo de guerra no norte do Iraque.
Reconheçamos pois que desfruta de uma vantagem: o apoio de ambos os
partidos, da Casa Branca, do Congresso e dos meios de
comunicação, mas apesar de eu ser um intelectual insurrecto,
não estou convencido de que vá conseguir ter êxito na
salvação do Iraque para o império. Pelo contrário;
penso que vai fracassar redondamente, porque os seus pressupostos e
estratégias militares se baseiam em análises fundamentalmente
defeituosas, o que tem profundas consequências militares.
Comecemos pelos seus tão gabados êxitos militares no norte do
Iraque principalmente na província de Nínive. O norte do
Iraque, e em especial Nínive, está dominado pelos líderes
tribais e militares curdos e pelos chefões partidários. A
estabilidade relativa da região pouco ou nada tem a ver com as suas
proezas contra-insurreccionais, mas sim com o alto grau da
'independência' ou 'separatismo' curdo na região. Em poucas
palavras, as forças militares americanas e israelenses e o apoio
financeiro do separatismo curdo criaram um verdadeiro estado curdo
independente, um estado baseado numa brutal limpeza étnica de grandes
massas de cidadãos turcos e árabes. General Petraeus, quando o
senhor autorizou as aspirações irredentistas dos curdos para um
'Curdistão Maior' etnicamente purificado, alargando-se pela Turquia,
Irão e Síria, o senhor assegurou a lealdade das milícias
curdas e em especial das mortíferas 'forças especiais' Peshmerga
eliminando a resistência à ocupação americana em
Nínive. Além disso, os Peshmerga forneceram aos EUA unidades
especiais para se infiltrarem nos grupos de resistência iraquianos, para
provocar disputas intra-comunais através de incidentes de terrorismo
contra a população civil. Por outras palavras, o êxito do
general Petraeus no norte do Iraque não se vai repetir no resto do
Iraque. Na verdade o próprio êxito no fabrico de um Iraque
dominado pelos curdos aumentou as hostilidades no resto do país.
A sua teoria de 'defender e manter' o território pressupõe uma
força militar fortemente motivada e experiente capaz de resistir
à hostilidade de pelo menos oitenta por cento da população
colonizada. A verdade é que a moral dos soldados americanos no Iraque e
dos que estão mobilizados para serem enviados para o Iraque é
muito baixa. As listas dos que estão a tentar sair rapidamente do
serviço militar incluem já soldados de carreira e comandantes de
baixo escalão a espinha dorsal das forças militares (
Financial Times,
3-4 de Março de 2007, pág. 2). As ausências não
autorizadas (AWOLs) dispararam 14 mil entre 2000-2005 (FT ibid). Em
Março, mais de mil soldados e marines no activo e na reserva entregaram
uma petição ao Congresso para a retirada dos EUA do Iraque. A
oposição de generais aposentados e no activo à escalada de
tropas de Bush repercute-se até aos 'magalas' no terreno, principalmente
entre reservistas no activo cujas comissões de serviço no Iraque
têm sido alargadas repetidas vezes (os 'destacamentos
sub-reptícios'). As prolongadas estadias desmoralizantes ou uma
rápida rotação minam qualquer esforço de
'consolidar os laços' entre os oficiais americanos e iraquianos e
evidentemente minam grande parte dos esforços para conquistar a
confiança da população local. Se as tropas americanas se
encontram profundamente perturbadas pela guerra no Iraque e cada vez mais
sujeitas à deserção e à
desmoralização, o exército mercenário iraquiano
ainda é muito menos fiável. Os iraquianos, recrutados com base na
fome e no desemprego (provocado pela guerra americana), com laços
familiares, étnicos e nacionais a um Iraque livre e independente
não constituem soldados fiáveis. Todos os especialistas
sérios chegaram à conclusão que as divisões na
sociedade iraquiana se reflectem na lealdade dos soldados.
General Petraeus, conte as suas tropas todos os dias, porque vão
desaparecer mais uns quantos e talvez no futuro venha a enfrentar um
acampamento vazio ou, pior ainda, uma revolta no quartel. As permanentes altas
taxas de baixas entre os soldados americanos e civis iraquianos, durante o seu
primeiro mês como comandante sugerem que 'manter e defender' Bagdad
não conseguiu alterar a situação geral.
Petraeus, o seu 'manual de normas' dá prioridade 'à
segurança e à partilha de tarefas como o meio de transferir o
poder para os civis e de fomentar a reconciliação nacional'. A
'segurança' é um embuste porque aquilo que o comandante americano
considera 'segurança' é o movimento livre de tropas americanas e
de colaboradores com base na insegurança da maioria iraquiana
colonizada. Estão sujeitos a buscas arbitrárias casa a casa,
invasões e humilhantes buscas e detenções. A 'partilha de
tarefas' sob um general americano e suas forças militares é um
eufemismo para a colaboração iraquiana na
'administração' das suas ordens. 'Partilha' implica uma
relação de poder fortemente assimétrica: os EUA ordenam e
os iraquianos obedecem. Os EUA definem a 'tarefa' de denunciar os insurrectos e
pressupõe-se que a população forneça
'informações' sobre as suas famílias, amigos e
compatriotas, por outras palavras, que denunciem a sua própria gente.
É mais fácil pôr em prática no seu manual do que no
terreno.
'Transferir o poder para os civis', conforme defende, pressupõe que
aqueles que 'transferem o poder' cedem o poder aos 'outros'. Por outras
palavras, as forças militares americanas cedem o território, a
segurança, a gestão e distribuição dos recursos
financeiros a uma população colonizada. Mas é precisamente
essa população que protege e apoia os insurrectos e se
opõe à ocupação americana e ao seu regime fantoche.
Pelo contrário, comandante, o que o senhor realmente pretende é
'transferir o poder' para uma pequena minoria de civis que são
colaboradores voluntários de um exército ocupante. A minoria
civil a quem o senhor 'transfere o poder' vai precisar de forte
protecção militar americana para resistir à
retaliação. Até agora nada disto aconteceu: não
foi delegado um verdadeiro poder aos colaboradores civis locais e aqueles que o
receberam estão mortos, escondidos ou fugiram.
Petraeus, o seu objectivo de 'reconciliação nacional'
pressupõe que o Iraque existe como uma nação soberana e
livre. Isto é uma pré-condição para a
reconciliação entre os partidos em guerra. Mas a
colonização dos EUA no Iraque é uma negação
grosseira das condições para a reconciliação.
Só quando o Iraque se libertar de si, comandante Petraeus, do seu
exército e dos ditames da Casa Branca, é que as
facções em guerra podem negociar e procurar a
'conciliação'. Só os grupos políticos que assentam
na soberania popular iraquiana podem fazer parte desse processo. De outro modo,
aquilo de que o senhor está a falar é da imposição
militar de 'reconciliação' entre grupos colaboracionistas em
guerra sem qualquer legitimidade entre o eleitorado iraquiano.
A antiga admiradora de Clinton, Sarah Sewall (ex-vice-secretária adjunta
da Defesa e 'especialista de assuntos estrangeiros' com assento em Harvard)
ficou empolgada com a sua nomeação. Afirma que 'um rácio
inadequado de tropas para a tarefa' pode minar a sua estratégia (
Guardian,
6.Março.2007). O 'rácio de tropas para a tarefa' constitui toda
a base da 'crítica' dos senadores Democratas Hilary Clinton e Charles
Schumers quanto à política do Iraque de Bush. A
solução deles é 'enviar mais tropas'. Este argumento
implica uma questão: um número inadequado de tropas reflecte a
solidez da oposição popular à ocupação
americana. A necessidade de melhorar o 'rácio' (maior número de
tropas) deve-se ao nível de oposição das massas e
está directamente relacionada com o crescente apoio local à
resistência iraquiana. Se a maioria da população e a
resistência não se opusessem aos exércitos imperialistas,
então qualquer rácio seria adequado limitando-se a poucas
centenas de soldados passeando na Zona Verde, na embaixada americana ou nalguns
bordéis locais.
As prescrições do seu manual lembram fortemente a era da Guerra
do Vietname, em especial a doutrina contra-insurreccional do general Creighton
Abrams, 'Limpar e Manter'. Abrams deu ordens para uma enorme campanha de guerra
química que aspergiu milhares de hectares com o mortífero 'Agente
Laranja' para 'limpar' terreno de batalha. Aprovou o Plano Fénix
o assassinato sistemático de 25 mil líderes camponeses para
'limpar' os insurrectos locais. Abrams implementou o programa de 'aldeias
estratégicas', a reinstalação forçada de
milhões de camponeses vietnamitas em campos de
concentração. No final, os planos de Abrams para 'limpar e
manter' fracassaram porque todas essas medidas alargaram e reforçaram a
hostilidade popular e aumentaram o número de recrutas para o
exército de libertação nacional vietnamita.
Petraeus, o senhor está a seguir a doutrina de Abrams. O bombardeamento
em grande escala de zonas sunitas densamente povoadas ocorreu entre 5 a 7 de
Março (2007); as detenções em massa de líderes
locais suspeitos são acompanhadas pelo apertado cerco militar de bairros
inteiros enquanto as buscas abusivas casa a casa transformam Bagdad num enorme
campo de concentração. Tal como o seu antecessor, general
Creighton Abrams, o senhor pretende destruir Bagdad para o salvar. Na verdade a
sua política é simplesmente punir os civis e aprofundar a
hostilidade da população de Bagdad, enquanto os insurrectos se
misturam com a população ou nas províncias vizinhas de
Al-Anbar, Diyala, e Salah e Din. Petraeus, o senhor esquece-se que pode
'manter' um povo refém com veículos blindados mas não pode
governar com espingardas. O fracasso do general Creighton Abrams não se
deveu à falta de 'vontade política' nos EUA, como ele se queixou,
mas ao facto de que a 'limpeza' de uma região é
temporária, porque a insurreição assenta na sua capacidade
de se misturar com a população.
Os seus pressupostos fundamentais (e falsos) são que o 'povo' e os
'insurrectos' são dois grupos distintos e opostos, que as suas
forças no terreno e os mercenários iraquianos conseguem
distinguir e explorar esta divergência e 'limpar' os insurrectos e
'manter' o povo. A história de quatro anos da invasão,
ocupação e guerra imperial americana fornece ampla prova do
contrário. Com mais de 140 mil efectivos americanos, cerca de 200 mil
iraquianos e mais de 50 mil mercenários estrangeiros incapazes de
derrotar a insurreição durante quatro anos inteiros de guerra
colonial, as evidências indicam um forte, extensivo e continuado apoio
civil à insurreição. A alta taxa de mortes, tanto de
civis como insurrectos, pelas forças combinadas
americanos-mercenários indica que as suas próprias tropas
não têm sido capazes de distinguir (nem estão interessadas
na diferença) entre civis e insurrectos. A insurreição vai
buscar um forte apoio às ligações familiares alargadas,
aos amigos e vizinhos da região, aos líderes religiosos, aos
nacionalistas e patriotas: estes laços primários,
secundários e terciários unem a insurreição
à população numa forma que não pode ser imitada
pelos militares americanos nem pelos seus políticos fantoches.
General, o senhor já reconheceu, passado apenas um mês como
comandante, que o seu plano para 'proteger e dar segurança à
população civil' está a fracassar. Enquanto inunda as ruas
de Bagdad com veículos blindados, reconhece que as 'forças
anti-governamentais
se estão a reagrupar a norte da capital'. O
senhor está condenado a fazer o papel a que o vice-general Robert Gaid
chamava pouco poeticamente 'dar com o martelo na toupeira: os insurrectos podem
ser suprimidos numa área mas vão reaparecer noutro local
qualquer'.
É uma presunção, general, partir do princípio de
que a população civil iraquiana não sabe que as
forças de 'operações especiais' da Ocupação,
com quem o senhor está intimamente ligado, são
responsáveis por grande parte do conflito étnico-religioso. O
repórter de investigação Max Fuller na sua análise
detalhada de documentos, sublinha que a grande maioria das atrocidades
atribuídas às 'vis' milícias xiitas ou sunitas "foram
de facto obra de comandos de 'forças especiais' controladas pelo
governo, treinadas pelos americanos, 'aconselhadas' por americanos e chefiadas
principalmente por antigos agentes da CIA" (Chris Floyd 'Ulster on the
Euphrates: The Anglo-American Dirty War',
www.truthout.org/docs.2006/021307J.sthml
). A sua tentativa para jogar ao 'Bom Polícia/Mau Polícia' com o
objectivo de 'dividir para reinar' não correu bem, nem vai correr bem
agora.
O senhor reconheceu o contexto político mais geral da guerra!
"Não há solução militar para um problema como
este no Iraque, para a insurreição
No Iraque, é
necessária a acção militar para ajudar a melhorar a
segurança
mas é insuficiente. É preciso haver um
aspecto político" (BBC, 8.Março.2007). No entanto o 'aspecto
político' chave, como lhe chama, é a redução e
não a escalada das tropas americanas, o fim dos intermináveis
assaltos aos bairros civis, o termo das operações especiais e dos
assassínios destinados a fomentar o conflito étnico-religioso e,
acima de tudo, um calendário para a retirada das tropas americanas e o
desmantelamento da cadeia de bases militares americanas. General Petraeus, o
senhor não está disposto nem está em posição
de implementar ou traçar o contexto político apropriado para
acabar com o conflito. A sua referência à "necessidade de
entrar em conversações com alguns grupos de insurrectos" vai
cair em orelhas moucas, ou será vista como a continuação
da táctica de dividir para reinar (ou 'salame'), que até agora
não tem conseguido atrair nenhum sector da insurreição.
Contrariamente às suas impecáveis credenciais académicas
de contra-insurreição de Princeton/West Point, o senhor é
principalmente um estratega, hábil na técnica, mas bastante
medíocre na compreensão do enquadramento político de
'descolonização' em que a sua táctica poderia funcionar.
Comandante Petraeus, o senhor é rápido a aperceber-se da
dificuldade da sua missão colonial. Passado apenas um mês
após assumir o comando, já está a assumir o mesmo discurso
de sofisma e duplicidade de qualquer coronel 'bush'. Para manter o fluxo de
fundos e tropas de Washington, fala da "diminuição de mortes
e do descontentamento em Bagdad", omitindo habilidosamente o aumento de
mortes de civis e de americanos noutras áreas. Refere-se 'a alguns
sinais encorajadores' mas também reconhece que é 'demasiado cedo
para discernir tendências significativas' (Ajazeera,
8.Março.2007). Por outras palavras os 'sinais encorajadores' não
têm significado!
Já se atribuiu uma missão sem prazo certo, alargando o prazo da
instauração da segurança em Bagdad de dias e semanas para
'meses' (e mais ainda?). Não será uma forma encapotada de
preparar os políticos americanos para uma guerra prolongada com
poucos resultados possíveis? Não se pode levar a mal que um
guerreiro filósofo tente salvar a pele na expectativa do fracasso.
General, tenho a certeza de que, como intelectual militar, leu '1984' de George
Orwell visto que o senhor é muito fluente na fala dúplice. Dum
só fôlego fala em que "não há necessidade
imediata de pedir mais tropas americanas para o Iraque" (para além
dos 21 500 a caminho). Por outro lado pede uma polícia extra de 2 200
efectivos para lidar com o próximo encarceramento maciço de civis
suspeitos de Bagdad.
Numa 'fala honesta', no tempo presente, acerca do número de tropas para
a sua guerra, o senhor prepara o terreno para uma escalada ainda maior no
próximo futuro. "Neste momento não lobrigamos outras
necessidades (de tropas). Isso não quer dizer que qualquer missão
ou tarefa que surjam não o venha a exigir, e se isso acontecer
então pedi-lo-emos" (AlJazeera, 8.Março.2007). Primeiro
há uma 'emergência' depois há uma 'missão que surge'
e, antes de darmos por isso, há mais cinquenta mil efectivos no terreno
e no triturador de carne que é o Iraque.
Pois é, general, o senhor é um hábil mestre da 'fala
dúplice' mas além do mais, o senhor e os seus colegas na
Casa Branca e no Congresso estão condenados a percorrer a mesma estrada
de derrota político-militar que os vossos antecessores na Indochina. A
sua polícia militar pode encarcerar milhares de civis e mesmo muitos
mais. Eles serão interrogados, torturados e alguns podem vir a ser
'rachados'. Mas muitos mais ocuparão os lugares deles. A sua
política de segurança através da intimidação
apenas se 'manterá' enquanto os carros blindados em cada bairro
apontarem os seus canhões para todos os edifícios. Mas durante
quanto tempo pode aguentar isso? Logo que se movimentar, os insurrectos
voltarão: podem continuar durante meses e anos porque é ali que
vivem e trabalham. O senhor não. O senhor chefia um dispendioso
exército colonial, que sofre baixas sem parar. Mais cedo ou mais tarde,
a gente da sua terra obrigá-lo-á a ir-se embora.
As suas ambições, general Petraeus, excedem as suas capacidades.
É melhor começar a preparar o seu adeus às armas e a
cobiçar um posto mais alto em Washington. Lembre-se que as suas
probabilidades são fracas: só são eleitos presidente
generais vencedores ou quem conseguiu escapar ao serviço militar.
Há sempre um lugar de professor na Escola Kennedy em Harvard para o
'intelectual guerreiro' que é bom com livros mas um fracasso no terreno.
09/Março/2007
[*]
Autor e editor de 67 livros editados em 31 línguas. O seu último
livro é
The Power of Israel in the United States
(Clarity Press).
O original encontra-se em
http://www.uruknet.de/?p=m31263&hd=&size=1&l=e.
Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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