Referendo venezuelano: Uma autópsia e os seus resultados
por James Petras
As reformas constitucionais da Venezuela que apoiavam o projecto socialista do
Presidente Chavez foram derrotadas pela mais estreita das margens: 1,4% de 9
milhões de votos. O resultado contudo foi severamente comprometido pelo
facto de 45% do eleitorado ter-se abstido, o que significa que apenas 28% do
mesmo votou contra as mudanças progressistas propostas pelo
Presidente Chavez. Apesar de a votação ter sido um golpe na
tentativa da Venezuela de desembaraçar-se da dependência do
petróleo e do controle capitalista sobre os estratégicos sectores
financeiro e produtivo, ela não altera a maioria de 80% no parlamento
nem enfraquece as prerrogativas do ramo executivo. No entanto, a
vitória marginal da direita proporciona uma aparência de poder,
influência e força nos seus esforços para descarrilar as
reformas sócio-económicas do Presidente Chavez e remover o seu
governo e/ou forçá-lo a reconciliar-se com a velha elite dos
intermediários do poder.
Já começaram as deliberações internas e os debates
no interior do movimento chavista e entre os diferentes grupos de
oposição. Um facto que certamente será sujeito a debate
é porque mais de 3 milhões de eleitores que deram os seus votos a
Chavez na eleição de 2006 (onde ele ganhou 63% dos votos)
não votou no referendo. A direita apenas aumentou os seus resultados em
300 mil votos, ainda que assumindo que estes votos foram de votantes
decepcionados com Chavez e não de activistas de extrema direita da
classe média o que deixa mais de 2,7 milhões de votantes por
Chavez que se abstiveram.
Diagnóstico da derrota
Sempre que a questão de uma transformação socialista
é colocada no topo de uma agenda governamental, tal como fez Chavez
nestas mudanças constitucionais, todas as forças da
reacção de extrema direita e os seus seguidores ('progressistas')
da classe média unem forças e esquecem a sua rivalidade
partidária habitual. Os apoiantes e organizadores populares de Chavez
enfrentavam um vasto conjunto de adversários cada um dos quais com
poderosas alavancas de poder. Eles incluíam: 1) numerosas
agências do governo americano (CIA, AID, NED e os responsáveis
políticos da embaixada), suas 'activos' subcontratados (ONGs,
recrutamento de estudantes e programas de doutrinação, editores
de jornais e conselheiros de mass media), as multinacionais estado-unidenses e
a Câmara de Comércio (a pagar por anúncios anti-referendo,
propaganda e acção de rua); 2) as principais
associações de negócios venezuelanas: FEDECAMARAS,
Câmaras de Comércio e grossistas/retalhistas que despejaram
milhões de dólares na campanha, encorajaram a fuga de capitais e
promoveram o açambarcamento, fazendo com a actividade de mercado negro
provocasse escassez de produtos alimentares básicos em mercados
populares; 3) mais de 90% dos media privados empenharam-se numa incessante e
virulenta campanha de propaganda constituída pelas mais grosseiras
mentiras incluindo estórias de que o governo tomaria
crianças das suas famílias e confiná-las-ia em escolas
controladas pelo Estado (os mass media dos EUA repetiram as mais escandalosas e
viciosas mentiras sem quaisquer excepções); 4) A
totalidade da hierarquia católica, desde os cardeais até os
párocos locais utilizaram as suas belas plataforma e homilias para
propagandear contra as reformas constitucionais ainda mais importante:
vários bispos transformaram as suas igrejas em centros organizadores
para a extrema direita muito violenta, o que resultou, num caso, na morte de um
trabalhador petrolífero pro-Chavez que ignorou as suas barricadas de
rua. Os líderes deste quarteto da contra-reforma foram capazes de
comprar e atrair pequenos sectores da ala 'liberal' da delegação
de Chavez no Congresso e ainda um par de governadores e presidentes de
municipalidades, bem como vários ex-esquerdistas (alguns dos quais
estiveram comprometidos em guerrilhas 40 anos atrás), ex-maoistas do
grupo 'Bandeira Vermelha' e vários líderes sindicais e seitas
trotzquistas. Um número substancial de académicos
social-democratas (Edgar Lander, Heinz Dietrich) encontraram desculpas reles
para opor-se às reformas igualitárias, proporcionando um brilho
intelectual à raivosa propaganda da elite acerca das tendências
'ditatoriais' ou 'bonapartistas' de Chavez.
Esta coligação disparatada encabeçada pela elite
venezuelana e pelo governo dos EUA confiou basicamente em martelar a mesma
mensagem geral: A emenda da reeleição, o poder de suspender
temporariamente certas medidas constitucionais em tempos de emergência
nacional (como o golpe militar e os lockouts de 2002 e 2003), a
nomeação executiva de administradores regionais e a
transição para o socialismo democrático eram parte de uma
conspiração para impor o 'comunismo cubano'. Propagandistas da
extrema-direita e liberais tornaram a reforma da reeleição
ilimitada (uma prática parlamentar por todo o mundo) numa 'captura do
poder' por um tirano 'autoritário/totalitário/faminto de
poder" de acordo com todos os media privados venezuelanos e os seus
congéneres americanos da CBC, NBC, ABC, NPR, New York e Los Angeles
Times, Washington Post. A emenda concedendo os poderes de emergência ao
Presidente foi des-contextualizada da realidade do golpe militar-civil apoiado
pelos EUA e do lockout de 2002-2003, do recrutamento e
infiltração de grande quantidade de esquadrões da morte
paramilitares colombianos (2005), do sequestro de um cidadãos
venezuelano-colombiano pela política secreta colombiana (2004) no centro
de Caracas e de apelos abertos a um golpe militar pelo ex-ministro da Defesa
Baduel.
Cada sector da coligação de contra-reforma conduzida pela extrema
direita focou grupos diversos e sobrepostos com diferentes apelos. Os EUA
focaram o recrutamento e treinamento de estudantes para combates de rua,
canalizando centenas de milhares de dólares através da AID e da
NED para treinamento em 'organização da sociedade civil' e
'resolução de conflitos' (um toque de humor negro?) no mesmo
estilo das experiências jugoslava/ucraniana/georgiana. Os EUA
também disseminaram fundos entre os seus clientes de sempre a
quase defunta confederação sindical 'social democrata' a
CTV, os mass media e outros aliados da elite. A FEDECAMARA focou o sector das
pequenas e médias empresas, profissionais bem pagos e consumidores da
classe média. Os estudantes da extrema direita foram os detonadores da
violência de rua e confrontaram estudantes de esquerda dentro e fora dos
campuses. Os mass media e a Igreja Católica empenharam-se em mercadejar
o medo para a massa da sua audiência. Os académicos
social-democratas pregaram o 'NÃO' ou abstenção aos seus
colegas progressistas e estudantes de esquerda. Os trotsquistas dividiram
sectores sindicais com a sua palração acerca "Chavez, o
Bonapartista" e as suas inclinações 'capitalistas' e
'imperialistas', incitaram estudantes treinados pelos EUA e partilharam a
plataforma 'NÃO' com os patrões do sindicato CTV financiado pela
CIA. Tais foram as não santas alianças na corrida ao voto.
No período pós-eleitoral esta instável
coligação exibiu diferenças internas. O centro direita
liderado pelo governador de Zulia, Rosales, clama por um novo encontro e
diálogo com os ministros chavistas 'moderados'. A direita dura
incorporada no ex-general Baduel (querido de sectores da pseudo-esquerda) exige
pressionar a sua vantagem mais ainda até a remoção do
presidente eleito e do Congresso porque, afirma ele, "eles ainda têm
o poder para legislar reformas"! Assim são os nossos democratas!
As seitas esquerdistas voltarão a citar os textos de Lenin e Trotsky (a
rolarem nas suas sepulturas), a organizar greves por aumentos de
salários... no novo contexto de ascensão do poder da extrema
direita para o qual eles contribuíram.
A campanha e a fraqueza estrutural dos reformadores da
Constituição
A direita foi capaz de ganhar a sua delgada maioria devido aos sérios
erros na campanha eleitoral chavista, bem como a profundas fraquezas
estruturais.
Campanha do referendo: 1) A campanha do referendo sofreu vários
viéses. O Presidente Chavez, o líder do movimento de reforma
constitucional, esteve foram do país durante várias semanas nos
últimos dois meses da campanha no Chile, Bolívia,
Colômbia, França, Arábia Saudita, Espanha e Irão)
privando a campanha do seu mais dinâmico porta-voz. 2) O Presidente
Chavez foi atraído para questões que não tinham
relevância para a massa dos seus apoiantes e pode ter proporcionado
munição à direita. Sua tentativa para mediar na troca de
prisioneiros colombiana absorveu uma enorme quantidade de tempo inútil e
não levou, como era de prever, a lugar algum, pois o Presidente Uribe da
Colômbia dos esquadrões da morte abruptamente pôs fim
à sua mediação com insultos e calúnias
provocativas, levando a uma séria ruptura diplomática. Do mesmo
modo, durante a Cimeira Ibero-Americana e posteriormente, Chavez entrou em
trocas verbais com o coroa de lata da Espanha, distraindo-o de problemas
internos como a inflação e o açambarcamento instigado pela
elite de bens alimentares básicos.
Muitos activistas a favor de Chavez não conseguiram elaborar e explicar
os efeitos positivos das reformas propostas, ou efectuar discussões
porta a porta para contrariar a propaganda monstruosa ('roubar crianças
das suas mães') propagada pelos padres de freguesia e pelos mass media.
Eles demasiado facilmente assumiram que as mentiras eram auto-evidentes e que
era necessários apenas denunciá-las. O pior de tudo é que
vários líderes 'chavistas' deixaram de organizar qualquer apoio
porque se opunham às emendas, as quais fortaleciam concelhos locais a
expensas de presidentes de municipalidades e governadores.
A campanha falhou na intervenção e exigência de igual tempo
e espaço em todos os media privados a fim de criar um campo de jogo
nivelado. Foi posta demasiada ênfase em demonstrações de
massa no centro da cidade e não nos programas de impacto a curto prazo
nos arrabaldes pobres resolvendo problemas imediatos, como o
desaparecimento do leite das prateleiras das lojas, o que irritou os seus
apoiantes naturais.
Fraquezas estruturais
Houve dois problemas básicos que influenciaram profundamente a
abstenção eleitoral da massa dos apoiantes de Chavez: A
prolongada escassez de alimentos básicos e de produtos
domésticos, e a inflação excessiva (18%) e aparentemente
não controlada durante o segundo semestre de 2007 a qual não foi
nem melhorada nem compensada pelos aumentos salariais, especialmente entre os
40% de trabalhadores auto-empregados no sector informal.
Alimentos básicos como leite em pó, carne, açúcar,
feijão e muitos outros ítens desapareceram das lojas privadas e
mesmo das públicas. Os homens do agronegócio recusaram-se a
produzir e os donos dos negócios a retalho recusaram-se a vender porque
os controles estatais do preço (destinados a controlar a
inflação) diminuíram os seus lucros exorbitantes.
Recusando-se a "intervir" o governo comprou e importou centenas de
milhões de dólares de alimentos grande parte dos quais
não chegaram aos consumidores, pelo menos aos preços fixados.
Em parte devido à diminuição dos lucros e em parte como um
elemento chave na campanha anti-reforma, grossistas e retalhistas tanto
açambarcaram como venderam uma parte substancial das
importações a comerciantes do mercado negro, ou canalizaram-se
para supermercados dos de alto rendimento.
A inflação foi um resultado da ascensão dos rendimentos de
todas as classes e a resultante procura mais elevada por bens e serviços
no contexto de uma queda maciça na produtividade, no investimento e na
produção. A classe capitalista empenhou-se no desinvestimento,
na fuga de capitais, nas importações de luxo e na
especulação no mercado de títulos e imobiliário
(parte da qual foi simplesmente enterrada pelo recente colapso da bolha
imobiliária de Miami).
As meia medidas do governo com intervenção estatal e
retórica radical foram bastante fortes para provocar a resistência
do big business e mais fugas de capital, mas demasiado fracas para desenvolver
alternativas de instituições produtivas e distributivas. Por
outras palavras, as crises florescentes de inflação, escassez e
fuga de capitais pôs em causa a prática bolivariana existente de
uma economia mista, baseada num partenariado público-privado a financiar
um vasto Estado Previdência. O Grande Capital actuou primeiro
economicamente ao boicotar e romper o seu 'pacto social' implícito com o
governo Chavez. Implícito ao pacto social havia um equilíbrio
(trade off).
Grande Lucros e altas taxas de investimento para aumentar o emprego e o
consumo popular. Com o apoio poderoso e a intervenção dos seus
parceiros americanos, o big business venezuelano moveu-se politicamente a fim
de aproveitar-se do descontentamento popular para descarrilar as propostas
reformas constitucionais. O próximo passo é reverter a
força da reforma sócio-económica por uma
combinação de pactos com ministros social democratas no Gabinete
Chavez e ameaças de uma nova ofensiva, aprofundando a crise
económica e actuando em favor de um golpe.
Políticas alternativas
O Governo Chavez tem absolutamente de mover-se no imediato a fim de rectificar
alguns problemas internos básicos e locais, os quais conduziram ao
descontentamento, à abstenção e ao questionamento da sua
base de massa. Exemplo: moradores de arrabaldes pobres inundados por
enchentes e deslizamentos de lamas ainda estão sem casas depois de dois
anos de promessas não cumpridas e agências governamentais
totalmente ineptas.
O governo, sob controle popular, deve intervir imediatamente e directamente na
tomada de controle de todo o programa de distribuição alimentar,
armazenagem, transporte e revendedores, com os concelhos de bairro, para
assegurar que os alimentos importados cheguem às prateleiras e
não aos grandes bolsos dos grossistas da contra-reforma, grandes
proprietários de lojas a retalho e traficantes em pequena escala do
mercado negro. Como o governo não conseguiu assegurar junto aos grandes
fazendeiros e barões de gado para encaminhar a produção de
alimentos, ele tem de garantir através de expropriações em
grande escala, investimentos e cooperativas para superar o negócio da
'produção' e greves da oferta. Ficou demonstrado que o
cumprimento voluntário NÃO FUNCIONA. O dogma da 'economia
mista', que apela ao 'cálculo económico racional', não
funciona quando estão em jogo elevadas apostas de interesses
políticos.
Para financiar mudanças estruturais na produção e na
distribuição, o governo é obrigado a controlar e tomar o
comando dos bancos privados profundamente implicados na lavagem de dinheiro,
facilitação da fuga de capitais e encorajamento de investimentos
especulativos aos invés da produção de bens essenciais
para o mercado interno.
As reformas constitucionais eram um passo rumo a um quadro legal para a reforma
estrutural, pelo menos para mover-se para além de uma economia mista
controlada pelo capitalismo. O excesso de 'legalismo' do Governo Chavez ao
insistir num novo referendo subestimou a base legal existente para reformas
estruturais disponível no governo a fim de tratar das prementes
exigências dos dois terços da população que elegeram
Chavez em 2006.
No período pós-referendo o debate interno dentro do movimento de
Chavez está a aprofundar-se. A base de massa de trabalhadores pobres,
sindicalistas e empregados públicos pede aumentos de pagamentos a fim de
manter-se a passo com a inflação, e um ponto final nos aumentos
de preços e escassez de bens de consumo. Eles abstiveram-se por falta
de acção governamental efectiva não devido à
propaganda direita ou liberal. Eles não são direitistas ou
socialistas mas podem tornar-se apoiantes dos socialistas se estes resolverem o
triplo flagelo da escassez, inflação e poder de compra declinante.
A inflação é uma vingança especial para os mais
pobres dos trabalhadores, sobretudo no sector informal, porque o seu rendimento
não é nem indexado à inflação como no caso
dos sindicalizados do sector formal nem podem eles elevá-lo facilmente
através da negociação colectiva pois a maior parte deles
não está ligada por qualquer contrato com compradores ou
empregadores. Em consequência, na Venezuela (como alhures) o
preços da inflação é o pior desastre para os pobre
e a razão principal para o descontentamento. Regimes, mesmo de direita
e neoliberais, que estabilizam preços ou reduzem agudamente a
inflação habitualmente asseguram pelo menos apoio
temporário das classes populares. No entanto, políticas
anti-inflacionárias raramente têm desempenhado um papel em
políticas de esquerda (muito ao seu pesar) e a Venezuela não
é excepção.
Ao nível do gabinete, partido e liderança de movimentos sociais
há muitas posições mas elas podem ser simplificadas em
duas oposições polarizadas. Por um lado, a posição
dominante pro-referendo que germinou nas finanças, economia e
ministérios de planeamento procurava a cooperação com
investidores privados estrangeiros e internos, banqueiros e gente do
agronegócio, a fim de aumentar a produção, o investimento
e os padrões de vida dos pobres. Eles confiavam em apelos à
cooperação voluntária, garantias à propriedade,
cortes fiscais, acesso ao câmbio estrangeiros em termos favoráveis
e outros incentivos mais alguns controles na fuga de capitais e de
preços, mas não sobre os lucros. O sector pro-socialista
argumentava que esta política de partenariado não funcionava e
que isto é a fonte do actual impasse político e de problemas
sociais. Dentro deste sector alguns propõem um papel maior à
propriedade e ao controle estatal, a fim de dirigir investimentos e aumentar a
produção e romper o boicote e a camisa de força sobre a
distribuição. Um outro grupo argumenta em favor de concelhos de
trabalhadores auto-administrados a fim de organizar a economia e pressionar por
um novo 'Estado revolucionário'. Um terceiro grupo argumenta em favor
de um Estado misto com propriedade pública e auto-administrada,
cooperativas rurais e propriedade privada de média e pequena escala num
mercado altamente regulado.
O futuro predomínio do grupo da economia mista pode conduzir a acordos
com a oposição 'liberal soft' mas fracassará ao
tratar da escassez e da inflação, o que só
exacerbará a crise actual. O predomínio dos grupos mais radicais
dependerá do fim da sua fragmentação e sectarismo e da sua
capacidade para moldar um programa conjunto com o líder político
mais popular do país, o Presidente Hugo Chavez.
O referendo e as suas consequências (ainda que importantes hoje)
constituem meramente um episódio na luta entre o capitalismo
autoritário centrado no império e o socialismo democrático
centrado nos trabalhadores.
05/Dezembro/2007
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