A crise do pico petrolífero: no centro da tempestade
por Tom Whipple
Enquanto aguardamos a revelação de quantos milhões de
barris/dia será o corte da OPEP
[1]
, é boa altura de rever a situação
financeira-energética pois ambas estão agora inextricavelmente
ligadas.
Como é bem sabido, as características mais destacadas no
panorama destes últimos meses têm sido o mergulho dos
preços do petróleo e o aprofundamento da crise económica.
Até agora os preços do petróleo estiveram a cair mais
depressa do que a economia desmorona, dando com isso a impressão
de que a gasolina mais barata em breve remediará os nossos males
económicos e tudo ficará bem.
Nunca pudemos entender o peso correcto de cada um dos factores que levou ao
colapso dos preços do petróleo neste ano. A
percepção colectiva de que o mundo se encaminha para tempos de
dificuldades económicas muito sérias obviamente está
à cabeça da lista. A ascensão do dólar ou a queda
do euro,
margin calls
sobre especuladores, o colapso da indústria habitacional dos EUA, o
arranque das Olimpíadas que terminaram a grande farra de compras
chinesas de petróleo, e mais recentemente a falta de crédito para
financiar transacções de petróleo, tudo isso contribuiu
para o mergulho dos preços.
Actualmente a atenção mundial centra-se sobretudo no esmagamento
do crédito, que foi precipitado pela relutância de bancos
insolventes em admitirem a sua situação. Considerando que
governos do mundo gastaram, emprestaram, penhoraram, garantiram, prometeram
quatro milhões de milhões
(trillion)
de dólares num esforço para conseguir que os bancos emprestem
dinheiro outra vez, não é de admirar que os mercados saltem ou
mergulhem a cada convulsão do London Interbank Offered Rate. Por
enquanto, poucos comentadores parecem apreender realmente que por trás
do esmagamento do crédito jaz um universo de perturbações:
hipotecas incomportáveis, preços da habitação em
queda, declínio das vendas ao consumidor, ascensão do desemprego,
incumprimentos de prestações de empréstimos a casas,
carros e cartões de crédito. Esta recessão, ou seja o
quer for que acabe por ser, ainda está no seu princípio.
Assim, como é que tudo isto se reflecte na oferta mundial de
petróleo o sangue vital da nossa civilização?
Relatórios recentes dizem que a produção mundial caiu
rapidamente em Setembro. Quando a acumulação de stocks parece
estar em ascensão, podemos presumir que a OPEP cortará a
produção mais uma vez ou será confrontada com
preços do petróleo muito mais baixos. Como quase todos os
exportadores de petróleo do mundo permitiram que as suas economias se
habituassem a seis anos de crescimento firme dos rendimentos
petrolíeros, eles, tal como os seus clientes, atravessarão alguns
momentos difíceis.
O factor mais assustador neste momento são relatórios de que
traders
mais pequenos, que têm sido uma parte essencial da
movimentação de petróleo através do globo, podem
não conseguir mais financiamento para embarques de petróleo
embora a Exxon, Shell, BP e WalMart não tenham de se preocupar
acerca de tais coisas. Esta falta de empréstimos está a
forçar muitos
traders
a afastarem-se, deixando o mercado apenas aos maiores participantes.
Uma vez que ninguém realmente pode prever no que toda a miríade
de forças em jogo vai resultar, pode ser útil examinar um
cenário ou dois para tentar perceber o que o futuro pode nos ter
reservado em termos de oferta e de preço do petróleo. Em
primeiro lugar, devemos recordar que a produção mundial de
petróleo confirmadamente atingiu o pico devido à crise
financeira, de modo que no fim deste ano a produção provavelmente
será substancialmente mais baixa devido à falta de procura e aos
cortes. Um corolário desta queda é que o investimento em novos
projectos de produção já está a desacelerar devido
a "preços de petróleo insuficientes" e a falta de
financiamento. Enquanto as bem financiadas companhias
majors
provavelmente irão concluir o trabalho nos projectos já em
curso, alguns deles poderiam ser adiados.
Vamos tomar um cenário imaginável mau, se não o pior.
Suponha-se que a economia mundial realmente azede nos próximos dois
anos, que o desemprego cresça para dois dígitos, que caiam as
vendas ao consumidor, que a produção agrícola e industrial
desça nitidamente por todo o mundo desenvolvido e o comércio
internacional se reduza. O que acontece à produção,
procura e preços do petróleo? Para começar, há
numerosos países no mundo que já estão na espiral da morte
económica. Para aqueles incapazes de obter divisas estrangeiras, a
procura por petróleo cairá precipitadamente e grandes partes das
suas economias em breve retornarão ao século XIX.
A China, entretanto, com uma grande população e economia em
expansão irá aguentar-se [mesmo] que seja desconectada do resto
do mundo de modo que poderá manter-se a crescer e a importar mais
petróleo a cada ano. A Europa, que atravessou tempos difíceis no
passado de gente que ainda está viva, utiliza apenas a metade do
petróleo per capita dos EUA, e tem excelentes transportes por autocarros
e comboio, pode provavelmente contentar-se com menos petróleo e
gás natural.
A grande incógnita é provavelmente o consumo de petróleo
dos EUA em meio a um grande desabamento económico. Actualmente o nosso
consumo está abaixo em cerca de 8,5 por cento (4,3 por cento para a
gasolina) devido aos altos preços do último Verão e
à estagnação da economia. Como a gasolina provavelmente
vai estar abaixo dos US$2,50 por galão [3,785 litros] ou em torno disso,
os preços de US$4 do último Verão não
estarão a inibir o consumo por algum tempo. Nos próximos poucos
anos provavelmente seremos relegados a alto desemprego, actividade
económica mais reduzida e consumidores intimidados ou empobrecidos,
sendo estas as principais razões para o menor consumo de
petróleo. Ainda não podemos dizer se isto cortará a
procura estado-unidense em 10, 20 ou 30 por cento. Esforços
sérios para a conservação limites de velocidades
mais baixos, partilha de carros, autocarros, mais isolamento térmico
poderiam ter algum papel na determinação de quanto
cairá a procura.
A questão final é que efeito tem uma severa recessão
económica sobre a produção mundial? Cairá
rapidamente ou permanecerá no actual plateau? Será que a procura
por petróleo cairá tão rapidamente que, pelo menos por
algum tempo, manter-se-á à frente da capacidade declinante dos
campos petrolíferos do mundo para produzirem? Poderemos nós
esquecer as alternativas para o petróleo por um momento quando procura
mundial mais reduzida significa que podemos obter todo o petróleo que
ainda quisermos relativamente barato? Poderemos nós ter recursos para
efectuar a transição para fontes de energia alternativas?
Por agora são apenas perguntas, mas no próximo ano ou pouco mais
deveríamos começar a buscar respostas. De uma forma ou de outra,
não será um tempo fácil.
23/Outubro/2008
[1] Em 24 de Outubro a OPEP decidiu reduzir a produção em 1,5
milhão de barris por dia.
O original encontra-se em
www.fcnp.com
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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