O ensaio geral está acabado
por Richard Heinberg
Quando o preço do barril cai abaixo dos US$100, nem mesmo um
furacão no Golfo do México e uma declaração da OPEP
de que o cartel cortará a produção em mais de 500 mil
barris por dia é capaz de travar a sangria. Como resposta, o
Financial Post
apresenta um artigo intitulado
"Peak Oil peak"
, citando este autor fora de contexto. Compare isto com o
meu comentário
que foi a fonte da citação.
O preço do petróleo não era suposto ascender
indefinidamente? O mundo não ia acabar agora? O que aconteceu? O que
quer dizer isto tudo?
Paciência, gentil leitor. Tudo será explicado.
Primeiro, por que o preço do petróleo subiu este Verão a
cerca de US$150? Acerca disto há pouco acordo entre os especialistas.
Um novo relatório dos administradores de hedge fund Michael Masters e
Adm White (divulgado em 10 de Setembro pelos senadores Byron Dorgan, D, e Maria
Cantwell, D)
atribui tudo à especulação
. Fundos de
pensão, fundações e outros investidores institucionais
compraram muitas commodities no princípio deste ano, e isso remeteu o
preço do petróleo bruto para a lua. Recentemente os mesmos
investidores retiraram o seu dinheiro do mercado de futuros do petróleo,
e isto representou para o petróleo um mergulho de volta à terra.
Vamos em frente, rapazes, não há nada a ver aqui.
Mas isto contradiz directamente as descobertas de
um estudo anterior
da Comodity Futures Trading Comission. Aquele
relatório de 100 páginas
concluía que a disparada do preço tinha tudo a ver com oferta e
procura.
Ainda confuso?
Então há o argumento a circular através da fábrica
de rumores (desculpem, não há uma atribuição de www
a esta) a dizer que a queda nos preços do petróleo desde o fim de
Julho mostra o apoio da Wall Street aos republicanos quando o país se
aproxima das eleições de Novembro. Afinal de contas, prossegue a
argumentação, o JP Morgan controla 40% dos
puts
e
calls
[*]
no mercado petrolífero. Acrescente a Goldman Sachs e umas poucas
outras casas correctores e há aí o potencial para a
manipulação de aproximadamente a metade do petróleo total
dos mercados de futuros.
Se os preços da gasolina estiverem em ascensão, o eleitorado mais
provavelmente desejará remover os republicanos e procurar uma
mudança. A Wall Street gosta dos favores que a
administração Bush distribuiu ao longo dos últimos anos e
quer mais do mesmo. Ou assim parece a estória.
A explicação mais prosaica para a alta do preço: a
procura estava a aumentar, a oferta não, de modo que o preço
subiu. Quando o preço chegou suficientemente alto, isto (juntamente a
crise de crédito) lançou os EUA (e o mundo) e a economia na
recessão. Este facto enfraqueceu seriamente a procura por
petróleo. Veja-se a queda na quilometragem de veículos, por
exemplo.
De uma coisa podemos estar certos: o preço importa. Quando o mercado
fala, as pessoas ouvem. Durante semanas, quando o petróleo estava a
bater recordes quase diariamente, houve discussão sem precedentes do
conceito de Pico Petrolífero nos jornais financeiros, tanto em papel
como on line. O que é mais significativo é que
as pessoas começaram a conduzir menos
. Hummers
[2]
acumulavam-se em stands, não vendido. Companhias de
aviação e fabricantes de automóveis balouçavam
à beira da bancarrota.
Em suma, muitas pessoas acordaram para a profunda vulnerabilidade que implicava
ter baseado a sua economia, e por extensão as suas vidas, numa
impossibilidade a extracção de um recurso não
renovável a taxas sempre crescentes.
Quando o preço caiu, tornaram a dormir.
Mas a alta súbita do preço no princípio de 2008 foi
simplesmente um ensaio geral. A queda na procura dá ao mundo um momento
para recuperar o fôlego antes de recomeçar o inevitável
processo ascensão gradual dos preços. Seja como for, a US$100 ou
algo como isso, o preço do petróleo ainda está 50 por
cento mais alto do que no ano passado e 10 vezes o nível de uma
década atrás.
Quando vier o próximo esmagamento da oferta, poderemos ver preços
de US$200, US$250 ou US$300. Mas, mais uma vez, a ascensão não
será constante e incessante. Veremos outra vez uma alta seguida por um
mergulho de vez, talvez, de volta aos US$150.
Enquanto isso, será que o petróleo a US$100 será uma
ocasião para o sonambulismo ou para o reposicionamento
estratégico? Para decisores políticos, isto é um momento
para pensar claramente acerca de medidas a longo prazo para reduzir a procura
pro-activamente e apoiar o desenvolvimento de fontes de energia
renovável. Para os cidadãos, é uma oportunidade para
fazer o esforço de mudar hábitos, comprar um carro mais pequeno,
e envolver-se em trabalhos comunitários de preparação para
o Pico Petrolífero.
Para aqueles de nós que têm estado envolvidos em tais trabalhos
há vários anos, esta é a hora de preparar para o
inevitável tsunami, quando jornalistas nos telefonam dia e noite lutando
para entender o conceito, e quando governos de cidades, negócios e
políticos nacionais pedirão conselhos sobre como enfrentar.
Faríamos melhor em estarmos preparados.
O mundo teve um inequívoco toque de despertar do relógio do
alarme petrolífero global. Simplesmente pressionar o botão para
cochilar mais desperdiçaria o que pode ser a nossa última
oportunidade para actuar antes de a necessidade obrigar-nos a reagir por meios
inferiores ao óptimo.
11/Setembro/2008
[1] Instrumentos financeiros nas bolsas. Comprar um opção
call
dá o
direito de comprar uma quantidade especificada de um tí:tulo ou uma
mercadoria e inversamente comprar uma opção
put
dá o direito de vender.
[2] Hummer: marca de veículo muito consumidor de gasolina.
O original encontra-se em
http://postcarbon.org/dress_rehearsal_over
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|